30 de junho de 2008

Salsa

Dá de ombros como quem não quer nada

Mas, no momento seguinte, aproximamos os corpos, entrelaçamos as pernas e esbarramos os olhares

28 de junho de 2008

Sem ressaca

Na manhã seguinte, os olhos estavam com o tom amarelado da falta de sono

E com o brilho de que valeu a pena

27 de junho de 2008

26 de junho de 2008

Insuspeito

Dentro do ônibus, foi arremessado ao chão após uma freada brusca. Algumas pessoas, solidárias, ajudaram-no a se levantar. Ele mal agradeceu e procurou um lugar onde pudesse segurar-se e permanecer em pé. Assim que se estabilizou, colocou as mãos no bolso e percebeu a ausência da carteira. Imediatamente, soltou o ar, bufando, extremamente nervoso, e, sem saber exatamente como agir, começou a observar e a pensar. Reconstituiu o momento da queda, cada detalhe e cada movimento. Repassou e fixou os olhos em cada rosto, como numa linha de reconhecimento de suspeitos. Falava para si mesmo:

- Foi aquele do cabelinho espetado e calça larga. Tem perfil de bandidinho, só pode ter sido. Ou então aquela crente, se fazendo de santa, mas sem um pingo de honestidade, deprimente. Pode ter sido o cobrador. Cobrador é sempre malandro, dando cantadas nas mães solteiras, enganando os turistas, não se salva um. Pode ter sido qualquer um, não boto minha mão no fogo por nenhum destes... destes... humanos.

Continuou sem ação e indignado até chegar a seu destino. Sentiu-se mal, mais pelas atitudes alheias do que pelo pouco dinheiro que carregava na carteira. Desceu do ônibus e prosseguiu apenas esmiuçando cada suspeito e contando a si mesmo a ficha criminal e os maus hábitos de cada um.

Após chegar em casa, encontrou a carteira escondida, devido ao medo de assalto, em um bolso interno da mochila. No ônibus, ninguém suspeitava do que se passava na cabeça daquele pobre sujeito que eles ajudaram a se levantar.

25 de junho de 2008

Indecisão

Peguei o ônibus errado. Quando percebi, ao invés de sair, sentei. Até que era confortável.

Só me voltava a agonia quando eu olhava, através do vidro, e via: tudo que eu queria ficando para trás. Quanto mais tempo eu ficava ali, mais longe ficava meu destino. Escorri pelo vidro como a chuva. Mas, fiquei inerte, na cadeira para dois com uma vazia, não sei se por orgulho ou teimosia.

Uma hora, o motorista parou, levantou e disse:

- É o ponto final.

- Tenho mesmo que descer?

- Pode ficar aqui, mas vai ficar só.

Naquele dia, dormi na garagem. Senti um pouco de frio, mas, de resto, era bem cômodo.

24 de junho de 2008

22 de junho de 2008

Punição exemplar

Chamamos, ironicamente, de país da impunidade

Um lugar onde a maioria é punida, diariamente, pela falta de oportunidade

19 de junho de 2008

Domador de demônios

Deito em minha cama e milhares de pequenos demônios infestam-me as idéias, o travesseiro e o canto escuro do quarto.

Ando cautelosamente até o som, ligo-o e volto para a cama; Com a música, ao menos, eles dançam.

18 de junho de 2008

Cumplicidade

Depois de separados pelas circunstâncias, ao se encontrarem, trocavam um abraço e tocavam os rostos, para saber que estavam bem.

Ao menos isso ainda podiam. No mínimo, deviam.

16 de junho de 2008

14 de junho de 2008

Descuidado

Delicadas, em minhas mãos, não duram

Quebro todas, quase que sem querer

Antigamente, as coisas eram feitas para durar, sólidas

Hoje em dia, até as regras são frágeis

12 de junho de 2008

Ausente

Embrulhei o futuro para presente e te entreguei

Em troca, recebi apenas uma lembrança

11 de junho de 2008

Prós e contras

Não há lugar mais seguro do que uma cela
Não há paixão mais estável do que a contida

Não há lugar ao sol que não queime

10 de junho de 2008

9 de junho de 2008

Contra o tempo

Explicou ao filho as coisas da vida e do tempo. Para facilitar, usou o relógio de exemplo:

- Aquele é o tempo, passando.

- Ele fica dando voltas?

- Nem sempre, às vezes passa correndo e nunca mais volta, por isso precisamos correr atrás do tempo.

No dia seguinte, após ficar horas observando o relógio enquanto o pai corria de um lado para o outro, o garoto retrucou:

- Você disse que a gente tem que correr atrás do tempo porque o tempo corre. Mas, ele tem uma perna bem maior que a outra, nem consegue correr. A gente é que tem que andar com mais calma... Para não deixar ele para trás.

8 de junho de 2008

Disputado

A faca pega em minha mão e acaricia meus pulsos

O lençol envolve-se em meu pescoço

E a sacada faz cócegas em meus pés

Mas, por fim, são as pílulas que me beijam a boca

7 de junho de 2008

Virando o avesso

Viramos mais um copo de pinga antes de virar mais um assunto do avesso. Ela começou:

- Quando é bom demais, sempre acaba.

- Estranho isso, não é? Deve ser aquela coisa de parábola.

- Parábola de estória?

- Não. Bom... Sim, é sim. Estória em parábola, aquela curva que sobe e desce, tipo o arco-íris!

- Ahn?

- Arco-íris! Sai do chão, vai ao céu e volta... Mas sem pote de ouro no fim.

- Nem duendes?

- Nem ao menos uma fada.

- Triste.

Estabelecemos um minuto de silêncio. Depois de quinze segundos, continuei:

- É, mas pelo menos dá para tomar banho de chuva.

- Ahn?

- Arco-íris. Sol e chuva.

- Casamento de viúva.

- Chuva e sol, casamento de espanhol.

- Achei que ninguém lembrasse disso.

- Lembro até do pé de cachimbo.

- É. O buraco é fundo.

- Não acabou-se o mundo.

- Não mesmo. Bola para a frente.

- Que atrás vem gente.

- Essa tinha continuação?

- Acho que não.

- Vamos inventar?

- Como?

- Sei lá. Bola para frente que atrás vem gente. Gente é carente, confunde a mente. Mente é fraca...

Após uma breve pausa, continuei:

- Só consigo lembrar de cloaca.

Ela deu uma risada sonora e exclamou:

- Cloaca! Não ouvia isso desde os tempos do colégio.

- Cloaca não rola. Faca, vaca, maca, babaca.

- Mente é fraca... enche de craca.

- Nossa! Essa eu não ouvia desde quando eu estava aprendendo a tomar banho sozinho. Minha mãe vinha conferir se eu tinha lavado tudo direitinho e perguntava, parte por parte, "Lavou o joelhinho?", eu respondia "Ih! Esqueci!". Depois ela falava que eu estava cheio de craca, craquento.

Rimos, paramos e ficamos pensando. Ela voltou ao assunto:

- Mente é fraca... Por que fraca? Não dá para mudar o fraca?

- Dá. Gente é carente, confunde a mente. Mente é paranóica...

Novamente rindo, com um brilho nos olhos, ela respondeu:

- Aí fode com a rima.

- Rima com perestroika!

Ela gargalhou e eu, num estalo, continuei:

- Mente e se engana.

- Olha. Adoro quando você faz isso!

- Isso o quê?

- Brincar com as palavras.

Quase encostando o queixo no peito, suspirei. Ela perguntou:

- Ficou envergonhado?

- É.

- Seu besta. É um elogio.

- Eu sei. Mas...

Não terminei a frase. Não consegui nem formular. Respirei fundo e continuei:

- Vamos terminar. Com engana.

- Tomando cana!

- Cana é braba, tudo acaba!

- Perfeita, seu boêmio!

Eu sorri, ela continuou:

- Gostei do final, mas já esqueci o começo. Como é que ficou?

- Bola para frente
Que atrás vem gente
Gente é carente
Confunde a mente
Mente e se engana
Tomando cana
Cana é braba
Tudo se acaba!

- Fechou fudido!

Extasiados, pedimos mais uma dose.

5 de junho de 2008

Desejo negado

O isqueiro acende a chama
Ilumina o olhar

Mas fica na vontade

Nem ao menos chega perto
Do calor da boca

4 de junho de 2008

Solução

Entediado, reparava nos detalhes verde-mofo da rotina, cartas marcadas

Inspirado, embaralhou-as com algumas lembranças avermelhadas

Debaixo do céu azul e com folhas no chão, amareladas, fez do outono primavera

3 de junho de 2008

Peso

- É sempre assim, só damos valor quando perdemos.

- Não generalize! Eu, por exemplo, dou valor quando tenho.

- E quando perde?

- Sinto muita falta.

2 de junho de 2008

Dar um tempo

- Não acha que a gente deve dar um tempo?

- Eu não.

- Mas por que?

- Sou egoísta com o tempo. Quero o meu inteiro, por completo e muito bem aproveitado!

1 de junho de 2008

Livro sem capa

Hoje sinto-me assim

Um livro sem capa
Páginas desgastadas
Amareladas, amassadas

Jogadas no lixo

31 de maio de 2008

30 de maio de 2008

Ponto cego

Por anos, esteve diante da mais delicada das borboletas

Infelizmente, de onde estava, via apenas o casulo

29 de maio de 2008

Sorriso só

Tomou uma injeção de ânimo. O coração disparou e os olhos brilharam. Tremeu de tanta alegria.

A diarista encontrou o corpo três dias depois.

- Ele sorria... - Disse ela, angustiada.

28 de maio de 2008

Twist

Foge de mim como quem dança

Quando mal tocamos as pontas dos dedos, enrola-se de volta em meus braços e sorri

27 de maio de 2008

Alheio

Mal sabia que seu trabalho fazia dignos apenas aqueles que colhiam os frutos de seu esforço

Sádico e bem treinado, agradecia a oportunidade

26 de maio de 2008

Espaço

- Eu preencho meus dias com ela.

- E quando ela vai embora você fica com um buraco, vazio.

- Não é que eu fique vazio, eu guardo espaço para quando ela voltar.

20 de maio de 2008

Carpe

As medidas do tempo
São todas convenções
Autoritárias decisões

Mas é com a intensidade
Sem nenhuma autoridade

Que se mede
Na medida do possível

As imensuráveis paixões

18 de maio de 2008

Revertendo

Quando o caso é sério
E a coisa esquenta
Ninguém se aguenta
Todos saem do sério

Quando o caso esquenta
E tem raiz profunda
Muito injustamente
Diz-se à flor da pele

Com tudo invertido
Neste mundo estranho
Entro em um espelho
E vou me aconchegando

16 de maio de 2008

Pluma

Se fico com pé atrás
É só pra me dar impulso


E o passo
Maior que a perna
Costumo chamar de salto



Prefiro voar




E cair

A nunca ter me sentido
Mais leve que o próprio ar

15 de maio de 2008

Sutil

Cantarolando, colheu do chão uma flor cheia de pétalas. Delicadamente, retirando pétala por pétala, começou a falar, entre sorrisos e suspiros:

- Bem me quer... Bem me quer! Bem me quer... Bem me quer!

Um amigo um tanto sem sal, e totalmente sem açúcar, interrompeu:

- Não! Não é assim!

Ao que ele respondeu:

- Você só diz isso porque você não conhece ela!

E continuou sorrindo.

14 de maio de 2008

O mal do bom

O único sofrimento que tratava como alheio era o seu próprio

Talvez nunca fosse feliz de verdade por causa disso

Mas, pensando por outro lado, nunca seria triste

13 de maio de 2008

Ingrato

Vestiu o terno da indiferença, os óculos escuros do desprezo e subiu o vidro da intolerância.

Após realizar o ritual diário, rumou pelo meio daquela gente, que ele sempre desdenhou, para onde aquela mesma gente, que pagava seu salário, o colocou.

11 de maio de 2008

Experiência

Ao pararem em um semáforo, ao lado de uma carroça puxada por um burro, o garoto ficou observando o animal, questionou-se por alguns momentos e decidiu perguntar:

- Vovô, qual o nome desse negócio que tapa a visão dos burros?

Sem nem ter visto o burro, o avô respondeu, com precisão:

- Preconceito, meu querido. Preconceito.

8 de maio de 2008

Despedida

- Hoje tem a despedida do Paulo.

- Ah é? Ele vai para onde?

- Já foi.

- Sério? Ele nem me disse tchau.

- Não disse para ninguém. Ele foi assim, de repente.

Abraçaram-se e choraram.

7 de maio de 2008

6 de maio de 2008

5 de maio de 2008

Planos e Mecas

Decididos a viajar e indecisos quanto ao lugar, mas muito objetivos, estabeleceram que cada cidade do mundo seria uma Meca, meta. Passaram a visitá-las, aos poucos, uma a uma.

Faziam planos e viviam sonhos.

4 de maio de 2008

Apreensão

Entrou chutando a porta, seguido pelos comparsas, e disse:

- Pelo pó viemos. E com o pó retornaremos.

2 de maio de 2008

Silêncio

Dizem as más línguas

As boas calam, se abraçam







2010 - 19º Prêmio Rocha Moutounée - Secretaria de Cultura - Salto - SP;
Será publicada na coletânea do concurso

30 de abril de 2008

Arte sem vida

A poesia é arte vivida.

Defini-la como coisa escrita é como limitar a música à letra ou à cifra. É separar o corpo da alma, um assassinato, separar a arte da vida.

29 de abril de 2008

Angustiado

Eu estava conversando com ela naquele quarto vazio. Uma porta, um sofá e nós dois. Uma lâmpada no centro, fraca, escorrendo pelas paredes amareladas até o piso de madeira.

O assunto da conversa: qualquer um, nenhum, não lembro. Só lembro que a luz foi ficando fraca, começou a falhar e a escorrer de volta para a lâmpada, e a sala foi ficando escura. Ela então disse:

- O clima está ruim aqui. Uma energia ruim.

Naquele cenário macabro, apenas a luz da rua, ou da lua, atravessando a janela, iluminava a parede amarela às costas dela. Ela já não estava mais iluminada. Sombras finas e tortuosas, de alguns galhos lá de fora, formavam-se às suas costas enquanto uma sombra maior lhe cobria o rosto. Eu não conseguia mais notar nenhum detalhe. Rosto, boca, nariz e olhos, todos fundidos em uma sombra, inerte, imóvel, muda.

Tentei tocá-la, mas tive medo, já não a reconhecia mais naquela silhueta. Tentei falar algo, não consegui. Levantei angustiado. Peguei o telefone e pensei em ligar para ela, desisti quando vi a hora. Não consegui dormir de novo.

28 de abril de 2008

Aliviado

Puxou o ar, para espairar, e soltou aliviado. Sentiu como se há muito tempo não tivesse respirado, inspirado.

Dissipou a neblina que lhe cobriu o mundo e deu um passo atrás. Dali, aliviado, olhou para a própria vida e esboçou um sorriso no canto da boca.

27 de abril de 2008

Floreado

Viviam, se é que dava para chamar aquilo de viver, em um mundo de violência, de insanidade e sem clemência. Neste mundo invertido, tapa virou carinho e, das flores, aproveitava-se apenas os espinhos.

As pessoas nunca sorriam e nunca choravam. Não se sabe ao certo se sentiam algo, mas ninguém importava-se com isso, sentimentos alheios eram realmente alheios. Viviam de muitos tapas e poucos beijos, muito empurrão e pouco abraço, muitos gritos e poucos suspiros. Carinho de verdade, só por conveniência, nos breves lapsos de inocência.

Mas havia um sujeito que vivia com um sorriso permanente. Ele parecia estar alheio, avoado. Esqueceu de acompanhar o fluxo. Os olhares curiosos o acompanhavam e perguntavam-se sobre a existência de um motivo para sorrir. Naquele mundo, o sorriso e muitos pequenos prazeres eram considerados mitos, lendas urbanas . As pessoas comentavam nas rodas de amigos: "um amigo do vizinho do meu primo disse que rolou no chão de tanto rir", "eu tenho uma tia que disse que trocou olhares e sorrisos com um sujeito, olhares nos olhos!". Os ouvintes das mesas de bar ficavam sempre entre curiosos e incrédulos, esperançosos e céticos. Entretanto, quem via o sorriso daquele sujeito sentia-se um pouco inquieto e via-se, pela primeira vez, pensando no sentimento alheio.

Um dia resolveram questionar o motivo de tal sorriso. E o sujeito sorridente contou a todos o seu segredo. Há tempos havia encontrado uma rosa, sem espinhos, e que, ao cuidar dela com todo carinho, sentia-se, ao mesmo tempo, sendo cuidado. Sentia-se encantado por aquela flor que, além de não fazê-lo sentir-se incomodado, o fazia sorrir.

Na primavera daquele ano, os que se sentiram tocados, cada vez multiplicados, floresceram os sorrisos e florearam o mundo afora.

26 de abril de 2008

Revolvendo

O mal resolvido
Revolve-se
Embrulha o estômago
E aperta o pescoço

Comprime os ombros
Com o peso da insegurança
Liquefaz, no fundo dos olhos
A esperança

Escorre

Os lábios consolam-se
E as mãos, medrosas
Agarram-se

Seguimos inseguros
Caminhando sem dar um passo
Na inércia de um abraço

25 de abril de 2008

Envolvente

Envolvo
Dou nó e laço
Braços de polvo
Beijo e abraço

Neste retrato
Que logo faço
Eu sou contorno
Ela é o traço

24 de abril de 2008

Dissolvido

Derreteu-se por ela como picolé.

Grudento e melado, acabou sendo descartado.

Desfez-se em uma poça de lágrimas, liquidado.

22 de abril de 2008

Caras e bicos

Fazendo charme, ela comentou:

- Você me cansa com estes elogios baratos.

Nitidamente chateado, emburrado, ele respondeu:

- Para você, eles eram de graça.

Por aquele olhar e aquele bico, ela soube que o comentário custaria caro.

20 de abril de 2008

Subsídios subversivos

A crise da produção de alimentos, uma crise anunciada e, agora, deflagrada.

E todos ficam tensos, ricos e pobres. Se falta comida, pobre passa fome. Se pobre passa fome, rico passa medo. Os jornais reforçam o clima, apontam os culpados com base em estudos do banco mundial e da ONU, departamentos do marketing institucional das nações ricas.

O que ninguém fala, ninguém nem ousa, é que a culpa é, em grande parte, como a de todos os grandes problemas do mundo, dos mesmos que apontam culpados. Não são os países pobres que oferecem subsídios agrícolas subversivos em relação ao livre mercado e a qualquer tipo de equilíbrio internacional. Os subsídios terroristas, que dizimam populações inteiras, a maior praga das lavouras dos países pobres.

E o ricos secam o poço do vizinho pobre e depois vêm dizer que, se falta grama para todo o gado, a culpa é do vizinho, com gramado seco e amarelado.

19 de abril de 2008

De nada adianta

A enfermeira entrou no quarto e disse, cautelosamente:

- Você precisa assinar a autorização.

O choro, contido, escapou em um impulso.

- Não tem outro jeito?

- Ele não está respondendo a nenhum tratamento, nenhum estímulo.

- Mas...

Outro impulso levou a voz e trouxe as lágrimas. A enfermeira aproximou-se e, em um gesto de solidariedade, pousou a mão sobre os ombros desconsolados.

Após pegar de volta a autorização, com assinatura em tinta e autenticação em lágrimas, a enfermeira disse:

- Se você quiser despedir-se, podemos aguardar.

- Não quero!

Disse, decidida, enquanto esfregava as lágrimas e completou:

- De nada adianta, não agora.

A enfermeira acompanhou-a para fora da sala.

Eu, ali deitado, ouvi tudo. Mas fiquei inerte, fingindo-me de morto.

18 de abril de 2008

Vendo-me

Rendo-me a esta situação deplorável.

Entrego-me a este sujeito desprezível.

Deixo-me levar como cadela afável.

E vendo-me, no espelho, ajeito batom e rímel.

17 de abril de 2008

Tragédia paulistana

Há muito tempo, no Paraíso, conheceu a mulher que viria a ser sua esposa.

Após vários anos de casado, desgastado, encontrava a amante na Consolação.

Atualmente, intercala finais de semana. Em uns, pode passear com os filhos pela Liberdade. Nos outros, segue sozinho, caminhando sem rumo.

16 de abril de 2008

Adaptação

Que bicho é esse? - Indaguei-me em pensamento.

Olhei mais de perto. Patas, antenas, redonda e com bolinhas, só podia ser uma joaninha. Mas, quem diria, uma joaninha preta e branca.

Deve ser por causa da poluição, não há outra explicação. É uma adaptação, que alguns ousam chamar de evolução. Neste mundo cinza, em que até as pessoas perdem a cor, nem as joaninhas são poupadas.

15 de abril de 2008

Decepções

A camisa que melhor lhe servia, encolheu depois de lavada. O sapato que não machucava o pé, não tinham mais nem em estoque. A bolacha que mais adorava, parou de ser fabricada. A árvore na qual se pendurava, o vento levou. A casa onde passou a infância, demoliram para construir um prédio.

Mas, sem dúvida, a maior decepção foi que o único amor que tinha, nunca pôde ter.

6 de abril de 2008

Mundano

O golpe ditatorial teve, no exército, seu braço armado.

E na imprensa, o desalmado.

5 de abril de 2008

Mantinha

Voltaram para casa antes de todo mundo e sentaram-se à varanda. Os planos eram outros, mas a mãe dela deixava a casa trancada, para evitar aquilo mesmo que os dois pretendiam fazer.

Com frio, ela buscou uma mantinha no varal, cobriu-se e sentou-se no colo dele. Meia hora depois, eles nem ouviram o barulho do portão. A mãe dela parou na frente da porta da sala e, enquanto procurava a chave, perguntou:

- Faz tempo que vocês estão aí?
- Não, Mãe. Chegamos... Há uns... 10 minutos. - respondeu ela, pausadamente.
- Você está tremendo, está com tanto frio assim?

Neste momento, ela aproximou-se e tocou a testa da filha com as costas da mão.

- Você deve estar com um pouco de febre, vou entrar e preparar um chá para você.

A outra mão dela encontrou a chave na bolsa e abriu a porta. Lá de dentro ela falou:

- Vocês não vão entrar?
- Vamos... Ficar mais um pouquinho.
- Então vou deixar a água esquentando e vou dormir. Boa noite. E nada de safadeza, vocês dois. Aqui na minha casa! - Completou a fala com uma gargalhada de quem sabia que não desafiariam sua autoridade.

Por baixo da manta, ela se contorcia de tensão. Ele, de prazer.

4 de abril de 2008

Ao cair da noite

- Eu derrubei o sol. Para que você pudesse ver as estrelas.

Foi o que disse o primeiro apaixonado, à primeira musa, no primeiro pôr-do-sol.

2 de abril de 2008

Podando pela raiz

As luzes do carrossel e o som do sanfoneiro não deixavam dúvida, a cidade estava em festa. As crianças no tromba-tromba, os casais na roda-gigante e as senhoras na varanda da casa da dona Maria, observando tudo e comentando sobre aquela pouca vergonha. Tudo estava bem até que a briga começou. E a briga foi feia, sobrou soco para todo lado. Os dois se empurravam e se chutavam, se seguravam e se socavam. Rolaram pela lama e nem a turma do deixa disso conseguia separá-los.

João Sem Braço, sujeito sempre indeciso, abriu caminho na roda para ver o que é que acontecia. Quando viu seus dois amigos, lutando como leões, como era de se esperar, não soube o que fazer. Pensou em deixá-los brigando, uma hora se cansariam, cairiam para o lado, se abraçariam e fariam as pazes.

Mas João achou que estava errado quando Maneco pegou a faca. E teve certeza quando Caetano não hesitou em empunhar o bico de uma garrafa quebrada. Pela primeira vez na vida, João tomou uma decisão. Não pensou duas vezes, sacou a pistola e apertou o gatilho. Foi um tiro só, preciso.

Após um breve silêncio, só ouviu-se o último suspiro de Sara, caída no meio da roda, envolta em manto de sangue. A briga acabou.

1 de abril de 2008

Ditadura do silêncio

No país da impunidade, faz-se exceção à Lei do Silêncio, a única respeitada e temida.

Quem cala, contente. E os que ousam desafiar a lei, arruaceiros, sofrem as punições.

31 de março de 2008

Vazia

Entre o chão e a nuvem
Chuva

Chuva em movimento
Vento

Vento um tanto brando
Brisa

Sem visão nenhuma
Bruma

Entre o mar e a bruma
Espuma

Sobre nuvem e chão
Mar e visão
Nessa praia vazia
Poesia

30 de março de 2008

Mar de nãos

Saudades é o sentimento de impotência que sentimos diante do mar de nãos que se coloca entre os nossos sins.

27 de março de 2008

Desfigurado

Desceu daquele ônibus lambendo cada degrau com os pés. Sentiu o gosto quente do asfalto em sol a pino. Percorreu a praça dedilhando o aroma das flores enquanto o canto dos pássaros massageava suas pernas cansadas. Viu o toque do sino indo em sua direção, por todos os lados, ecoando pela catedral. Ouviu cada detalhe do que queria dizer cada escultura do museu. Deu voltas pela cidade em um cavalo branco e uma charrete tinta, amadeirada, com toques frutais e final suave.

Ao final do dia, ouviu o sol tombar no horizonte e, apesar do cheiro de chuva, não sentiu o gosto das nuvens. Durante a noite, todas as luzes eram artificiais, mas as sombras, caridosas, acolheram-no em suas camas e o cobriram com o sangue quente do jornal popular. Apesar do barulho dos tiros, zunindo a cada página e alojando-se em seu tímpano, dormiu.

No dia seguinte, acordou sendo lambido pelo sol, áspero, e continuou sua saga. Pegou o trem dos trilhos de pedra, de volta para Metáfora, ali do ladinho, logo depois de Eufemismo.

26 de março de 2008

Felicidade ao alcance das mãos

Descobriu, do alto do meio-fio, pela janela das cidades, a felicidade. Partiu em busca daquele ideal, irreal, vitrine do mundo paralelo. Nem tudo deu certo, mas chegou bem perto.

A felicidade ficou ao alcance de suas mãos. Seu primeiro emprego, função: empacotador da felicidade alheia.

25 de março de 2008

Sincero

- Oi, meu amor, estava com saudades?
- Seu, seu irresponsável! Vai viajar e demora dois dias para me ligar. Eu estava aqui, preocupada, achando que tinham sofrido um acidente, ficado parados na estrada. Ou pior.
- Desculpa. É que o celular está sem sinal e é bem difícil encontrar um telefone funcionando por aqui.
- Hum.
- Me desculpe, meu amor.
- Tudo bem. Está desculpado, mas não pense que isso vai sair barato.
- Eu compenso na volta, prometo.
- Hum, vou cobrar... Mas, então, me conte como está a pescaria.
- Não estamos conseguindo pescar nada, o rio está cheio de piranhas.
- Ah! Que azar, meu bem.
- É, mas estamos conseguindo aproveitar.
- Que bom, aproveite mesmo. E trate de voltar logo, estou morrendo de saudades.
- Eu também estou. Mas tenho que desligar. Amo você. Beijos.
- Também te amo. Beijos. Até logo.
- Até.



- Ei! Jorge, fala para essas piranhas saírem da água. Não estou pagando para elas ficarem se divertindo no rio.

24 de março de 2008

23 de março de 2008

22 de março de 2008

Felino

Desconfiado, ficava de pêlo eriçado ao menor sinal de ameaça, fumaça. Às vezes havia fogo. Em outras, afago. Mas ele, precavido, preferia ficar escondido.

Na última vez que se escondeu, sozinho, se perdeu. Do cão ninguém esquece, mas o gato também enlouquece.

21 de março de 2008

Mulher bomba

Por dentro, explodia um não. Mas o único som que se ouviu foi o daquela voz, suave e sofrida:

- Aceito.

E prosseguiram com a cerimônia.

20 de março de 2008

Infantil

A única fábrica de brinquedos da cidade foi fechada.

Pela primeira vez, todas as crianças comemoraram o fechamento de uma fábrica de brinquedos. Finalmente poderiam voltar a frequentar a escola.

19 de março de 2008

Violência

As batidas e gritos viraram a trilha sonora da rotina.

A entrada dos metais, graves, adicionou tensão.

E no fim, só se ouviu um sopro, agudo.

18 de março de 2008

Pior emprego do mundo

* Roteiro para curta-metragem


Eu tenho o pior emprego do mundo. Acredito que se você procurar pelo Google "pior emprego do mundo", vai encontrar uma breve descrição das minhas funções.

Meus amigos já me aconselharam a pedir demissão. Dizem que seria melhor não fazer nada a fazer o que eu faço. Às vezes eu penso que eles estão certos.

Quando eu era pequeno e me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, eu dizia "chefe". Hoje, vinte cargos em 5 departamentos me separam do chefe.

Estava pensando em abrir um negócio, mas eu não tenho dinheiro. Eu podia arrumar um sócio, mas ele acabaria me passando a perna. É assim que as sociedades funcionam.

Também considerei aquelas oportunidades de ganhar dinheiro sem sair de casa. Mas, é mais fácil acreditar no "enlarge your penis" do que naquilo.

Acho que é melhor continuar na mesma. Quem sabe não me promovem. E dão o pior emprego do mundo para outra pessoa.

17 de março de 2008

Sensações

A beleza poética dos teus lábios

E o aroma suave do teu pescoço

Soam como doce ao toque dos meus cílios

16 de março de 2008

Pontinhos

Durante a noite, na praia, viu as luzes dos barcos em alto mar, isolados. Pensou em quão triste seria viver dessa maneira, passar o dia no mar, trabalhando, e à noite virar um pontinho em meio a outros pontinhos perdidos na escuridão.

Quando voltou para a cidade, reparou nos pontinhos empilhados e, ainda assim, isolados.

15 de março de 2008

Do mesmo saco

Na história com muito bandido, o mocinho acabou vendido.

E a mocinha, coitada, disse que nem suspeitava, não imaginava, que as jóias que ela ganhou haviam sido roubadas.

14 de março de 2008

O olho

- E como vai a saúde?

- Mal.

- Mas já descobriram o que é que você tem?

- Já sabem. Os médicos são muito bons.

- E por que é que ainda não te trataram?

- Eles até receitaram um remédio...

- E por que você ainda não tomou?

- É que custa o olho que não é o da cara.

13 de março de 2008

Sou passado

Suspiro contido
Lágrima escorrida

Sem chance
Nem esperança

Sou o vulto de relance
A vaga lembrança

11 de março de 2008

Sem opção

Quando a programação é padronizada

E a produção cultural é vendida

O controle é remoto

10 de março de 2008

Incentivo

Estava desanimada e confusa. Parecia perdida, balbuciando bobeiras, vomitando palavras vazias sobre os vãos de sua vida. Ela queria desistir de tudo. Quase desistiu, mas foi interrompida por um colega:

- Bola para frente! Não pare!

Olhou para ele, ainda mais confusa. Não entendeu aquela súbita preocupação com ela, sempre deixada de lado. Quase sorriu, mas ele completou:

- Bola para frente que este é fino.

9 de março de 2008

Revide

Ele, agressivo, cantou de galo.

Ela, decidida, não pensou duas vezes. De sapato ponta fina, deu de bico no pintinho e, de quebra, nos ovos.

Mulheres

Contrariado, Francisco matou José de tiro. Antes do sangue secar, Severino matou Francisco na faca. Por vingança, Chiquinho matou Severino a golpe de enxada. Traiçoeiro, Zico colocou uma cobra na cama de Chiquinho. Traiçoeira, a cobra mordeu Zico também.

Só sobraram as comadres, que sentaram à varanda, agulhas à mão, e comentaram com desdém:

- Esses homens...

7 de março de 2008

Rejeitado

Declarou-se.

Não correspondido, chamou-a de puta, pagou a foda e foi embora, batendo a porta.

Só chorou quando chegou ao carro.

6 de março de 2008

Hamurábi

Após ser pego roubando, não teve escolha, aprendeu a andar de bicicleta sem as mãos.

5 de março de 2008

4 de março de 2008

Luto

Regou o túmulo por dias, até secarem os olhos, vermelhos e ásperos.

Uns dizem que foi por compaixão. Outros, sussurram que foi por culpa.

3 de março de 2008

Vaga

Lutou por aquela vaga como se fosse a última.

Agarrou a oportunidade com unhas e dentes e deu tudo de si.

O patrão, saciado, só reclamou um pouco dos dentes.

2 de março de 2008

Religioso

De tempos em tempos, sacrificava mais um virgem em seu altar.

Trocava de vítima para evitar que o povo suspeitasse.

27 de fevereiro de 2008

Intenção

Ela chegou chorando, nervosa. Ofereci meu ombro, ela aceitou.

Ofereceu-me a boca, eu aceitei. Não sei se por consolo ou por vingança.

26 de fevereiro de 2008

Transversais

Ela era intangível, mas o destino é uma incógnita.

A conversa paralela acabou na horizontal.

22 de fevereiro de 2008

Carta de um poeta puto, mas educado II

Me assolam a memória
Sua alma e seus desejos

O resto virou lembrança

Vagas lembranças
De seu corpo vago
Sua vaga bunda

21 de fevereiro de 2008

Fim dos dias do vilão

Engana-se quem pensa que, algum dia, ele se arrependeu.

Morreu sorrindo o filho da puta. Sabia que a mídia, a seu serviço, na terra ou no inferno, o transformaria em herói.

20 de fevereiro de 2008

Exemplo

- Vai, filho, igual da outra vez.

O garoto tremia. Mas, com o martelo na mão e com os olhos lacrimejando, obedeceu. Foram ambos para o pronto-socorro.

O pai, mais tarde, justificava-se à própria consciência. Repetia para si mesmo, em voz alta, que precisava do remédio.

19 de fevereiro de 2008

Segura

A garota, mais uma vez abandonada, queria saber como segurar um homem.

A avó, realista, deu a dica:

- Faça pompoarismo.

16 de fevereiro de 2008

Entre amigas

O sorriso de hiena se desfez. Embrenhou-se pelos cantos da parede, como se andasse pelo rodapé. Curvou-se para olhar pela quina da porta. Confirmou que a outra se afastava e, então, disse:

- Eu não disse? Essa vagabunda, falsa, nunca me enganou.

14 de fevereiro de 2008

11 de fevereiro de 2008

Carta de um poeta puto, mas educado

Você foi meu sol
Mas agora, tua luz
Faz doerem meus olhos
Inchados de vinho
E de lágrimas

Vá, dia

E não volte nunca mais

10 de fevereiro de 2008

Sermão

- Não faça com os outros aquilo que gostaria que fizessem contigo.

Ela sabia das perversões do filho, masoquista.

9 de fevereiro de 2008

Encantos

A saia bordada estava acompanhada por um bustiê tomara que caia, destes que fazia juz ao nome. Tinha a boca encoberta por um véu e uma cruz egípcia estrategicamente tatuada nas costas.

A cada troca de ritmo, trocava também os artefatos. Foram-se véus, espadas e címbalos nas pontas dos dedos. Deleitava-se em movimentos suaves, delicadamente fantasiosos.

Em nenhum momento ela retirou o véu que lhe cobria metade do rosto. Até porque, não precisava, bastavam aqueles olhos, olhos de Hórus.

8 de fevereiro de 2008

Final do verão

Ao final do verão, as cigarras invadem a cidade. Chegam queimadas pelo sol, trocando de pele.

As formigas, trabalhadoras, da cidade nunca saem. Para elas, o inverno é uma ameaça constante.

7 de fevereiro de 2008

Hora extra

Quando os filhos não estavam em casa, pediam para a diarista ficar até um pouco mais tarde.

Ela, solidária, passava pelo corredor fazendo barulho, como se pudesse entrar no quarto a qualquer momento. Conhecia bem as fantasias do patrão.

6 de fevereiro de 2008

5 de fevereiro de 2008

Impotente

Inevitavelmente, um dia ele chegava à conclusão de que não precisava delas e terminava tudo. Sempre acreditou que um dia precisaria de uma pessoa e que esta seria sua companheira pelo resto de seus dias.

Um dia ele descobriu que precisava de alguém, mas os dias que restavam seriam poucos. Poucos e solitários.

Estava tão debilitado, incapacitado, que ninguém precisava dele.

1 de fevereiro de 2008

Pérola aos porcos

Percebeu que nunca conseguiria sobreviver de sua arte. Trocou de corpo e de alma, de nome e de profissão.

Ainda assim, não deixou de lado suas letras, corrosivas. Tornou-se Pérola, prostituta.

31 de janeiro de 2008

Destino

Acordou no ônibus. Não sabia para onde estava indo, não fazia idéia.

Olhou em volta, apenas indiferença. Começou a ficar incomodado com a situação. Queria perguntar para alguém sobre o destino, mas tinha vergonha. Tentou olhar pela janela, mas estava no corredor e a senhora ao seu lado dormia, cortinas fechadas.

Depois de um certo transtorno, resignou-se com a situação. Nunca achou que fosse chegar a lugar algum... Algum lugar, qualquer que fosse, já seria ir longe.

30 de janeiro de 2008

Despedida de um arrependido

Apesar de ter descoberto cedo que te amava, descobri tarde que ainda te amo.

Porque agora você é outra e eu sou outro.

E meu sorriso, agora é de vergonha.

29 de janeiro de 2008

Final de tarde

Seria uma ofensa chamar o céu de azul naquele momento. Era uma mistura de rosa, laranja, amarelo e azul.

Sem aviso, veio o vento gelado que varre todo final de tarde, garantindo que esteja tudo limpo quando a noite chegar.

O sol, com frio, foi embora. E levou com ele todas as nuvens, para se cobrir.

28 de janeiro de 2008

Sentado

Sentei-me de frente para o mar.

E foi ali, observando o sol se pôr, criando mares no céu e montanhas nas nuvens, que eu percebi que meu mundo estava de ponta cabeça.

Pensei em algum jeito de voltar ao normal. Talvez uma cambalhota resolvesse, mas estava tudo tão agradável que resolvi ficar, ali mesmo, sentado no teto.

27 de janeiro de 2008

Culpa

Quando Ele apareceu, perguntando quem é que havia comido do fruto proibido, todos ficaram desesperados.

Adão, que não havia sequer se aproximado da árvore, não pensou duas vezes. Apontou o dedo acusador para Eva e disse que havia sido ela.

Os pássaros até hoje assobiam, fazendo-se de desentendidos

26 de janeiro de 2008

Saudosismo

Passei na casa dos meus avôs apenas para uma visita rápida. Inocência minha achar que conseguiria sair de lá antes da janta. Como sempre, minha avó convenceu-me a ficar para a janta. Segundo ela, estava preparando uma comidinha especial e, além disso, eu andava muito magro, muito branco, precisando comer bem. Decidi ficar.

Enquanto ela terminava os últimos preparativos para a janta, sentei à sala com meu avô para ver o jornal. Meu avô, esparramado na velha poltrona de couro, após duas ou três notícias, comentou:

- Bons os tempos em que só se roubavam corações...

25 de janeiro de 2008

Ao lado

Não entendiam-se muito bem. Tinham algumas brigas, discussões sem sentido.

Mas, viviam juntos. Afinal, não entendiam mais ninguém.

Um casal de loucos.

Desconfia

- Te amo.

- Já não falei que te amo também?

- Falou.

- Se eu já falei, por que é que você continua falando e me olhando com essa cara?

- Estou esperando.

- Esperando o que!? Vai ficar repetindo até quando?

- Até você acreditar.

23 de janeiro de 2008

Mulher da minha falta de sonhos

Sente o vazio no fundo do travesseiro. Revira-se e estica os braços em busca daquela presença. Uma esperança, nada além disso. Por mais que se deparasse com outro corpo, não seria aquele. Nunca mais foi.

Depois daquela noite, a cama sempre pareceu vazia.

27 de dezembro de 2007

O barquinho

- Então, vamos simplificar. Você não gosta de mim e eu também não gosto de você.

- Mas, eu gosto de você...

Uma nova luz, um novo brilho, tomou conta dos olhos dele:

- Gosta?

- Gostava.

Depois de falar esta frase, ela deu as costas a ele. E foi como se o farol voltasse a luz para o continente. O barquinho naufragou.

Como que sem querer

O amor chega de fininho.

E, por mais que chegue em silêncio, desperta curiosidades.

Também acorda os medos, que têm o sono ainda mais leve, transtornados.

Superficial

Ficamos atados às belezas e aos prazeres da superfície.

Mas a culpa não é nossa. De onde se vê a beleza interior, é impossível sair por vontade própria e, uma vez que se é expulso, a vontade de estar ali equipara-se ao medo de ser expulso mais uma vez.

25 de dezembro de 2007

Criminoso

O mercado de trabalho continua executando crimes perfeitos.

Sequestra as almas e pede em troca, como forma de resgate, as forças do corpo.

E as vítimas só percebem tarde que de nada vale uma alma torturada, repleta de medos, somada a um corpo calejado, exausto.

18 de dezembro de 2007

Plantando pedras

Por toda a vida, plantou pedras. Quando havia uma flor no meio do caminho, arrancava e plantava mais uma pedra no lugar.

Algum tempo depois, quando as pedras brotaram, seu mundo ficou todo cinza. Ela, entristecida e só, nunca mais floresceu, virou pedra.

Baile de máscaras

Nenhum dos dois conseguia se envolver, desenvolver confiança, intimidade, cumplicidade; esses detalhes que sustentam um relacionamento. Sabiam que era coisa de uma noite, uma semana, com sorte, um mês.

Mas, estavam decididos a tentar, vestir as máscaras e ver até onde a mentira os levaria. E levou longe, até que a morte os separou.

17 de dezembro de 2007

Tulipas negras

Ouvia, via e sentia a tristeza alheia. A angústia lhe estufava o peito, o ar ficava pesado e os ombros recolhiam-se enquanto as mãos passavam pelo rosto suado.

E foi assim em todas as vezes que se deparou com as tulipas negras, desdentadas, bocas do desespero.

12 de dezembro de 2007

O golpe do século

- Preciso que você me conte como é que você fez para resolver aquele rolo da clonagem.
- E que rolo! Deu um trabalhão...
- Sério?
- Sério. Demorou meses até resolver tudo.
- Putz!
- Não me diga que também aconteceu com você?
- Aconteceu.
- Que lástima...
- Mas então, como foi que aconteceu?
- Foi assim, nós viajamos para São Paulo e um ano depois chegou a intimação para ele comparecer ao tribunal. Quando chegamos lá, havia um processo correndo e exigindo um monte de dinheiro.
- Mas e daí?
- Daí que na época não era um golpe conhecido. Foi um dos primeiros. Tivemos que chamar vários especialistas para provar que tinha sido clonado. Foi um sufoco. tivemos sorte de poder contar com o apoio dos maiores especialistas. E ainda mais sorte por terem encontrado o sujeito que foi obrigado a fazer o serviço. Ele entregou os culpados.
- Espero que a gente dê sorte.
- Agora é mais fácil. Já não é todo mundo que cai no papo destes golpistas. E, além disso, é bem mais fácil provar a clonagem.
- Tomara.
- Tem idéia de onde foi?
- Acho que sim. Fiz as contas e acho que clonaram o meu quando viajamos para o nordeste com escala no Rio.
- Aeroporto é um perigo. Tem que ficar atenta a cada fio de cabelo. Senão, depois, aquele safado tem um filho com alguma vagabundinha e vem falar que é o golpe do clone de novo!
As duas caíram em gargalhadas.

11 de dezembro de 2007

Metódico

Levava tudo à ponta do dedão do pé direito da letra.

Nunca nem fez questão de saber o que estava além da simples soma das letrinhas.

Morreu sem saber se ela disse sim ou não.

Meio cheio

Ele andava sempre com um copo na mão. Um copo enorme, laranja. Era impossível não notar o copo. Antes de sair de casa ele enchia o copo de água e ia bebendo durante as andanças.

Um dia qualquer, ele começou a marcar as distâncias pelo tanto de água que restava no copo. Um tempo depois, já sabia a distância em copos até os pontos mais importantes da cidade. E falava com uma convicção de não deixar dúvida: "Até o museu da meio copo", "Quase um copo até o calçadão", "Dois golinhos e estou no mercado".

Depois de algum tempo, um sujeito um tanto cético quanto às medidas o questionou:

- E, toda vez que você vai aos lugares dá a mesma distância em copos?

- Não. Varia.

- Varia com o que?

- O clima.

- Então a medida não dá certo?

- Dá sim, certinho. No calor sempre parece que é mais longe.

4 de dezembro de 2007

3 de dezembro de 2007

Espetáculo

A noite de estréia é um espetáculo. Mágico, incomparável.

As noites seguintes já não têm o mesmo encanto. Os sorrisos já não são mais os mesmos.

Algum tempo depois, ela junta as tralhas e toma outros rumos.

Paixão itinerante.

1 de dezembro de 2007

Embriagado

Todas as coisas e idéias tendiam para a esquerda
Depois, inclinaram-se um bom tanto para a direita

Então rolaram para o centro e por ali ficaram
No equilíbrio frágil de uma mesa de boteco

O álcool e a política têm efeitos semelhantes

30 de novembro de 2007

29 de novembro de 2007

Nossos nós

Atamos os nossos nós
Encontramos a nossa calma

Se você canta eu sou sua voz
Se sou poeta, você minha alma

Não dito

Entendido
Pelo pouco dito

Presumido
Pelo não dito

Arrependido

O que ela teria dito?

27 de novembro de 2007

24 de novembro de 2007

Destino bipolar

Em alguns momentos
A sorte sorri para mim

Mas no momento seguinte
Emburrada
Franze o cenho, faz bico
E me dá as costas

23 de novembro de 2007

Rêve

Se rebeller

C'est en quelque point

Entre rêver et réveiller



Sonho


Se rebelar

Está em algum ponto

Entre sonhar e acordar

Sem tempo para pensar

Em meio à pressa

As nobres causas são esquecidas

E sobram as consequências

19 de novembro de 2007

Passagem

Acredita-se que a vida é uma passagem

Tem origem e destino
Uns têm lanche
Uns têm espaço
Outros não tem nada

Quem tem espaço e comida
Deita e estica as pernas
Quem não têm
Fica em pé e passa fome

Mas o ônibus está ficando lotado
A gasolina está acabando
E a água já acaba também

Logo logo, o motor funde
E ficaremos todos parados
Perderemos a viagem

Fazendo as pazes

Às vezes tenho lá meus desentendimentos com o mundo. Ficamos brigados, ambos emburrados e em silêncio. Ontem mesmo tivemos uma briga feia. O mundo pode ser bem cruel de vez em quando.

Mas ao final da tarde, uma borboleta pousou ao meu lado na rede. Chegou, me olhou e ali ficou, batendo asas como se dançasse. Aceitei as desculpas imediatamente, sem pensar duas vezes.

Sobre o começo

Você me apresenta seu mundo
E eu te apresento o meu

Quem sabe até construímos um outro
Só nosso

Lugar ao sol

E todas as flores lutavam entre si
Por um espaço
Um galho mais alto
Um degrau acima

As que conseguiam, morriam
Queimadas pelo sol

Imprevisível

Uma batida fora de compasso

Se somos música
Quero ser jazz

14 de novembro de 2007

Fazendo música

Passo, inspiro, passo
Passo, expiro, passo
Passo, assobio, passo
Passo, suspiro, passo

Coço a cabeça
Passo
Engulo saliva
Passo

Subo as escadas

Degrau, degrau, degrau
Passo
Degrau, degrau, degrau
Passo

Giro a chave, passo
Abro a porta, passo
Passo
E fecho a porta

13 de novembro de 2007

Matematicamente

Sempre se deu bem com números

Somando investimentos
Fez os números se multiplicarem

Em relação aos outros, subtraia
Nunca aprendeu a dividir

12 de novembro de 2007

Você sabe

Você também já sentiu
O peso no fundo dos olhos
Os olhos no fundo do rosto
O rosto no fundo do poço

Passageiro

Engana-se quem pensa
Que o tempo passa

O tempo voa

E lá de cima
Apenas observa

9 de novembro de 2007

A arte

A beleza está nos olhos de quem vê

Nos traços de quem a desenha
Nas cores de quem a pinta
Nas cenas de quem a filma
Nos quadros de quem a fotografa
Nas palavras de quem a descreve

Mas neste instante
Neste momento preciso
E precioso
A beleza está nos olhos de quem lê

8 de novembro de 2007

Insone

No meio da madrugada
Não sei se pensei nela dormindo
Ou se acordei pensando nela

Não sei se acordei para trazê-la ao mundo
Ou se ela me acordou, inquieta
Ansiosa para sair do mundo das idéias

6 de novembro de 2007

Memórias

Desde aquele dia, virei um fantasma
Uma sombra
Um vulto

Aquele reflexo no espelho
No qual você não se reconheceu
Aquele era eu

5 de novembro de 2007

Queimação

Escrevo porque passo mal

Não consigo digerir este mundo

E vomito palavras

Ácidas

Suco gástrico literário

1 de novembro de 2007

Conclusão

A única conclusão a se tirar
De um planetinha tão agradável
Destruído da maneira como está sendo
É que, às vezes
Pessoas ruins acontecem a coisas boas

Ahn?

- Se eu morasse na Escócia eu ia andar de ônibus.

- Ahn?

- É. Porque o sistema de transporte público de lá funciona.

Ainda sem entender o sentido da conversa, ele questionou novamente:

- Ahn?

- Você estava ouvindo o que eu estava falando?

- Como assim?

- Eu estou aqui há meia hora conversando com você e você parece não ter entendido nada.

- Meia hora? Claro que não, você acabou de chegar e falar que você andaria de ônibus se morasse na Escócia.

- Sério? Não... Não pode ser. Eu estou conversando com você faz tempo.

- Tem certeza?

- Absoluta. Você tem certeza de que eu não estava aqui?

- Acho que sim. Ou melhor, que não. Que não estava. Estava?

- Acho que estava.

- Tem certeza.

- Acho que não. Ou melhor, acho que sim, que estava. Mas não tenho certeza agora.

- Mas por que é mesmo que você falou sobre andar de ônibus?

- Porque o sistema de transporte de lá funciona.

- Não. Não isso, por que é que você falou sobre a Escócia?

- Não sei. Mas é um país legal.

- É.

- Se eu morasse lá eu ia andar de ônibus.

- Eu prefiro caminhar.

- E se fosse longe?

- Daí eu ia de bicicleta.

- E se estivesse frio?

Ele abaixou a cabeça, ela virou para o lado e, depois de alguns segundos de silêncio, ele falou:

- Se eu morasse na Escócia eu ia andar de ônibus.

- Ahn?

30 de outubro de 2007

Um par de brincos

Em meio à multidão, ele olhou para o chão e viu algo brilhante. Com muita dificuldade, abaixou-se e juntou o pequeno objeto do chão. Era um brinco, o tipo de coisa que só se encontra quando não se está procurando.

Deu uma olhada em volta. Não demorou para notar uma garota que olhava para o chão, como se procurasse por algo. Após reparar na garota, espremeu-se entre a multidão, chegou até ela e perguntou:

- Procurando algo?

Ela levantou o rosto e sorriu, ainda que fosse um sorriso um tanto chateado, e respondeu:

- Perdi meu brinco.

Então foi ele que sorriu, abriu a mão esquerda expondo o achado e disse:

- Este aqui?

Ela sorriu. Agora um outro sorriso, inexplicável, imensurável.

Não era o brinco dela. Nem ao menos combinava com a roupa que ela estava usando. Mas os brincos formaram um belo par.

Livre interpretação

Não imploro. Não peço. Nem ao menos insinuo

Não declaro. Não escrevo. Nem deixo a entender

Mas uns ainda ousam. Se assanham, corajosos, a explicar o que não tem sentido.

Não dá para entender este mundo, sem sentido, que eu tento explicar aqui do meu mundinho.

26 de outubro de 2007

Povo das sombras

O povo das sombras aparece sempre no mesmo horário, junto com as sombras, assim que o sol nasce. Sempre muito cedo... Ainda na madrugada mas, aparentemente, sem nenhuma ajuda de deus.

Preparam seu café antes de você acordar, limpam o escritório antes de você chegar, colocam o ônibus para rodar antes de você se aglomerar ao congestionamento... Ligam os motores e preparam a cidade para você só chegar e sentar na janelinha, exigindo serviço de bordo.

E você nem ao menos os enxerga, faz questão de desviar o olhar.

25 de outubro de 2007

Cinzas

Em uma metrópole qualquer. Debaixo de uma chuva fina, mas tão fina que se tornava quase invisível, caminhavam lado a lado, de mãos dadas, o garotinho e a mãe. A mãe ia andando com pressa, sem dar atenção ao filho, arrastando-o pela mão.

Quando pararam em um cruzamento, esperando o sinaleiro abrir, o garotinho girou o pescoço e reparou no mundo à sua volta: nas centenas de pessoas apressadas, nas plantas, pássaros, prédios e tudo o mais. Após uma breve análise, por sinal muito precisa, ele virou-se para a mãe e perguntou:

- Mamãe, se os passarinhos são coloridos, as plantinhas são coloridas, os prédios são coloridos e até mesmo a comida é colorida... Por que é que as pessoas são todas cinza?

E ele ficou olhando, esperando por uma resposta. Enquanto o rosto da mãe, por vergonha, passou de cinza para rosa.

19 de outubro de 2007

Revolução dos segredos

No início achávamos impossível, mas com o tempo nos acostumamos com a ideia: não havia mais segredos. Pensávamos na época que o que se produzia em nossas cabeças ficava, e sempre ficaria, restrito a nós. Mas um dia qualquer, não se sabe a data exata, alguns se mostraram um passo à frente: sabiam o que se passava na cabeça ao lado. E todos se indagaram sobre como isso era possível, elaboraram diversas teorias envolvendo psiquiatria, física quântica ou telepatia, mas sempre ficava faltando algo, um elo.

Depois de algum tempo, o fenômeno difundiu-se, algumas pessoas até deixaram de conversar, sabiam que a pessoa ao lado sabia o que estavam pensando, a sintonia era quase visível. E foi o termo sintonia que desencadeou a explicação mais aceita para o que acontecia: eram ondas. Não produzíamos apenas ondas sonoras e calor, mas a cada pensamento, a cada ideia, emitíamos ondas que até então não eram captadas e, em algum momento de evolução, passamos a ter a capacidade de captá-las.

Com a expansão incontrolável desta habilidade, não havia mais segredos, nada mais era só nosso: cada pensamento era compartilhado. No início foi extremamente complicado para as relações humanas, a sinceridade do pensamento contrastava com os esconderijos da fala e do silêncio. Mas foi ainda mais complicado para as relações sociais e políticas. Cada segredo estratégico, cada desvio de verba, tudo acabava escapando em um pensamento. E vários dos governantes foram desmascarados pelo movimento autodenominado In Veritas, que costumava abordar os políticos que ousassem transitar por locais públicos e indagá-los sobre suas ações frente ao governo e à corrupção. Por mais que as bocas se fechassem, a confissão era inevitável. Os mais poderosos chegaram a cogitar um equipamento que bloqueasse a leitura dos pensamentos, investiram bilhões, mas a única conclusão a que se chegou foi a do senso comum: não há barreiras para o pensamento.

Além do fim dos segredos, a liberdade de expressão fez-se efetiva quando ninguém mais precisava, ou até mesmo conseguia, pensar antes de expor uma opinião. O que também causou muito desconforto, pois a exposição de tantos conceitos acarretaria o fim da ditadura do pensamento. Foi então que se deu a última tentativa de conter a proclamada sintonia geral. A intenção era calar os pensamentos subversivos, e tentaram de tudo; Mas, nem mesmo o medo, semeador de silêncios, foi suficiente para conter a revolução dos segredos.

18 de outubro de 2007

Banho de sol

Dá até para sentir-se preso

Quando é preciso passar pelo caos

Para ir a um lugar um pouco mais tranquilo

17 de outubro de 2007

Passou o dedo pela cabeceira e mostrou para a garotinha deitada na cama ao lado:

- Olha essa sujeira, minha filha, isso aqui está uma vergonha!

- Mas não fui eu que sujei.

- Foi você sim. Está aqui no seu quarto.

- Mas...

- Nada de mas. Ainda hoje você pega um paninho e limpa. Quando eu voltar quero ver isso aqui brilhando.

A garotinha, ainda deitada na cama, refletiu sobre o pó em cima da cabeceira e sua relação de culpa em relação ao pó. E quando a mãe voltou, a cabeceira ainda estava toda empoeirada. Ela então cobrou a filha:

- Por que é que a cabeceira continua toda cheia de pó?

Com um ar de saber só de experiências feito, a garotinha respondeu, até com um certo descaso:

- Não adianta limpar. Vai sujar de novo. É pó de gente.

16 de outubro de 2007

Jardim de Inverno

Mãe e filho aguardavam pela consulta na sala de espera. Ela estava entretida com uma revista, lendo sobre a vida daqueles que menos se importam com a vida alheia. Enquanto isso, ele se divertia com a cara grudada no vidro. Desenhando na parte embaçada pelo próprio bafo, criando estórias e aventuras envolvendo a pequena selva que o encarava através do vidro.

Depois de um tempo, entediado, o garoto decidiu que queria explorar os territórios além-vidro, e questionou a mãe:

- Mãe, posso brincar neste quintalzinho?

- Não é um quintalzinho, filho, é um jardim de inverno. E não pode brincar nele, jardim de inverno é só para ver.

O garoto, ainda parado de frente para o vidro, pensou um pouco e respondeu:

- Eu quero ter um desses em casa.

- Não dá, meu filho, só gente com muito dinheiro consegue ter um desses em casa.

O garoto entendeu a lição.

Muitos anos depois, ele parou com o rosto colado no vidro da vitrine de uma das lojas mais caras da cidade. Desta vez, ele é que foi questionado:

- Papai, o que é que você está olhando?

- Jardins de inverno.

E seguiram em frente. Não dava para brincar além do vidro.

Consentimento

Sem sentimento

Invariavelmente

É um estupro

2 de outubro de 2007

Sobre os caminhos

Na direção contrária ao fluxo

Não tem carona

Mas tem sempre alguém para andar ao lado

Separação

Um dia ele acordou, lavou o rosto e parou na frente do espelho.

As escovas de dente já não estavam mais ali, ao lado da pia, uma virada para a outra.

E foi naquele momento que ele se deu conta.

20 de setembro de 2007

19 de setembro de 2007

Revisão

- O que você pensa sobre o raciocínio?

- O raciocínio é o pensamento que, de acordo com a razão, leva a alguma ação.

- E a razão leva em conta o que?

- O que é correto, justo. O que é mais certo.

- Mas e quando o que leva a uma ação é uma idéia ou objetivo errado, injusto?

- Também chamam de raciocínio.

- E você acha que é o termo mais correto?

- Talvez devessem chamar de raciocídio.

- Raciocídio ilógico.

E ficaram em silêncio. Raciocinando.

13 de setembro de 2007

Gerenciar o tempo

Dar um tempo
Tirar um tempo
Colocar um pouco aqui
Tirar um pouco dali

Um minuto para você
E outro para mim
Hora de comer
Hora de dormir

Horário de trabalho
Cronograma, prazo
Calendário

Fazendo do tempo gerente
Subalternos, vivendo em função
Dos desejos do relógio

12 de setembro de 2007

Viver e recordar

Depois de muito tempo, descobriu-se que, na verdade, os responsáveis pelas famosas pinturas nas cavernas não foram os homens, mas sim os antílopes, mamutes, tigres e gnus. Cada espécie havia feito suas pinturas em homenagem a seus mortos durante as batalhas do dia a dia. Somente após terem encontrado estes registros é que os homens começaram a fazer os seus também.

Atualmente, os homens são os únicos a manter registros além das marcas no corpo e na alma. Os outros animais não tem dúvida de que o homem vai ser o último a perceber que é melhor viver do que recordar.

31 de agosto de 2007

O tempo das paixões

A todo momento há algumas paixões despertando

E outras, em fuso horário diferente, indo dormir

29 de agosto de 2007

Legítima defesa

O advogado alegou legítima defesa. E os juízes absolveram o comandante e mais 11 réus de todas as acusações: homicídio, agressão e uso abusivo de força

Mais um caso de legítima defesa, em defesa da ordem social

23 de agosto de 2007

Vítimas

Na ditadura do medo
Acaba-se preso
Por porte de esperança

Na ditadura do pensamento
Acaba-se exilado
Por formação de idéias

Na ditadura do silêncio
Acaba-se morto
Por tentativa de expressão

Em meio a tantas ditaduras
Acaba-se preso, exilado, morto
Dentro de si mesmo

7 de agosto de 2007

Capacidade

Desde que o tempo é tempo, as pessoas desejam ter a capacidade de enxergar através das outras. Sensações, sentimentos e os mais profundos pensamentos. E a essa capacidade, deu-se o nome de compreensão.

Nos tempos atuais, caminhando pela rua, percebe-se que as pessoas têm a capacidade de enxergar através das outras. E a essa capacidade, dá-se o nome de indiferença.