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25 de julho de 2021

Estado lastimável

A construção coletiva 

da intolerância

 

A defesa enfática

da hipocrisia

 

A manifestação popular

pela opressão

 

A homenagem solene

à tortura

 

O diálogo aberto

em prol da censura

 

Os critérios técnicos

para o desmanche

 

Com amplo apoio

da minoria


A triste nação

em Estado lastimável

de febris delírios

sadopatrióticos

31 de janeiro de 2021

Quem é que ousa?

E o povo saiu às ruas em festejos

quando as nuvens de tormenta

daquelas bem agourentas

tomaram certos ares benfazejos


A peste enfim regredia

a fome se empaturrava

e a guerra se inebriava

nas farras de noite e dia


Foi quando então se lembraram

que a morte não se rendera

 e, por fim, se perguntaram:


Quem é que ousa brandir o machado

quando o pescoço sobre o cepo

é justamente o do carrasco?

7 de janeiro de 2020

Arquétipos

No palco, o fantoche grita
“eu sou um menino de verdade”
estalando o pé de madeira
sobre as tábuas nobres do palco

Títere e titereiro confundem-se
em uma figura singular e pitoresca
- melodramática

Os fios da trama estão ridiculamente expostos

mas o público simplesmente ignora
e embarca em histórias fantasiosas


Não há ninguém por trás das cortinas,
pois não é mais necessário

O espetáculo criou vida
e segue crescendo
- incontrolável

25 de novembro de 2019

Líquidos

A vida tornou-se
um simulacro

um tour virtual
em 360 graus

pelo museu de Madame Tussaud


onde figuras de cera
enfileiram-se

estampando telas, vitrines
e linhas do tempo


uma horda de manequins maleáveis
inconsistentes

que derretem-se, impotentes

quando expostos ao calor
da realidade

e das paixões febris

13 de agosto de 2019

Desassossego

Um instante
que ressoa

destilando ressacas

na memória intermitente
perturbada

gotejando

num espelho d'água






16 de junho de 2019

Domocracia

Como denunciara Cícero

pro domo sua

por sua casa
por sua família

em causa própria


pelos desvios
pelos atalhos

os meios pelos fins


do feitio dos canalhas
e demagogos

pro domo sua

e ora pro nobis

Obstinada

enquanto conteve

a primavera entre os dentes

passaram-se outonos

14 de janeiro de 2019

Ciclo das águas

O degelo foi lento
gradual

afiadas estalactites
partiram-se liquefeitas

a alva cobertura
desfez-se em pranto

e o fluxo convergente
ganhou corpo, corrente


Em seu percurso sinuoso
as águas passadas

moveram os moinhos
da consciência

remoendo as mágoas


e transbordaram
sobre a terra seca

preparando o solo
para nova safra


enfim, primavera


18 de novembro de 2018

Vale dos Ossos

No período da seca

as copas podres
de árvores mortas
emergem das águas plácidas

e a velha garça
retoma seu posto
inabalada


Mas pouco a pouco
a vida definha

em poças ralas
- espaçadas

os peixes debatem-se
desesperados

presas fáceis


O castigo, porém
logo chega aos pássaros
e também aos mamíferos

não poupa répteis
ou anfíbios

não perdoa sequer os insetos


apenas os vermes refestelam-se


em pouco tempo,
dos brados de outrora

restará apenas o silêncio
- calmaria

13 de outubro de 2018

Matéria Bruta

A coragem dos ignorantes
é o que nos leva adiante


são as asas
com penas coladas

- que nos alçam
aos planos de voo


e os fracassos
pautados pelo absurdo

- que expandem
as fronteiras da razão


Ao estilhaçar delírios
é que se lapidam sonhos

10 de junho de 2018

Transgressão

Despido
diante de olhos desalmados

aquele corpo esfacelado

o corpo não aceito

corpo ofensa


aquele não corpo
banido, proibido
censurado e interditado

Despido
diante de mãos gélidas

aquele corpo mutilado

o corpo ilícito
corpo delito

4 de abril de 2018

Sacrifícios

Seguimos cegamente
como discípulos fervorosos

de deuses insaciáveis


Já não bastam as reses
e a colheita

não há vida
que garanta
- por si só

algum tempo de bonança


As entidades clamam por mais

anseiam por nações
povos
comunidades

e tão logo as recebem
- em diligente oferenda

devoram-nas

arrotam

e exigem mais

4 de março de 2018

Triunfo

Não tenho a voz
embargada por emoções

não grito
não resisto

estou certo da derrota
tanto quanto da impermanência


- tenho em mim
a serenidade dos prostrados


E contento-me com pouco

cultivo revoltas
em fogo brando

e rumino ideias fixas
certezas impassíveis

como nuvens de tormenta
eles passarão

e nós ainda estaremos aqui

sobre as ruínas
- triunfantes

 

 

 

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1º lugar no Prêmio Poesia Agora - Verão 2020, organizado pela Editora Trevo.

10 de dezembro de 2017

Penitência em trajes de domingo

Cada qual
com sua queixa

em comum,
apenas o proclamado
- dramatizado

papel de mártir


— Não me deixam entrar
por má vontade!

— Reclamam de tudo
porque me invejam!

— É um complô,
uma estratégia!


Uma miséria de resistência

não durariam uma semana,
sequer um dia

nas vestes apertadas
- sufocantes

do verdadeiro sacrifício

7 de dezembro de 2017

Nuvens

Os comentários
e mensagens

dos amigos desavisados

nas fotos sorridentes
dos finados


viver nas nuvens

tornou-se um destino
melancólico

29 de novembro de 2017

Reminiscência

Impassível
inabalável

tornou-se,
enfim

um monumento

um símbolo
de esperança

de novos tempos
que virão

e passarão

- despercebidos

28 de novembro de 2017

Esvoaçando

Precária armação
de bambu

adornada
- sem excessos

com papel de seda


atada a um fio
- de esperança

que subiu aos céus
no final de tarde

26 de novembro de 2017

Confidências

Trago péssimas notícias
para ti, Cecília


Os destinos se perderam

pelos caminhos tortuosos
desse mundo distorcido


As ideias retiraram-se
em meio ao tumulto


E os homens
já não sonham mais

sucumbiram, derrotados
- sob a força dos vermes

26 de outubro de 2017

Alvorada

No remoto horizonte

um fulgor resplandece
após longa vigília


- Há luz!
anunciam sorridentes
os fatigados combatentes

E fagulhas de esperança
cintilam

nos olhos marejados
dos otimistas


Ao longe
na praça

a céu aberto

as línguas de fogo
devoram

a carne dos iludidos