29 de outubro de 2010

Salgueiro-chorão

Um tanto inseguro

curvava-se, desiludido

diante dos menores desafios


Enraizado em apatia,

quanto mais ele crescia,

mais perto ficava do chão


28 de outubro de 2010

Anestesiado

No centro da cidade, paro diante da banca de jornal e, já acostumado, não me surpreendo mais com as capas dos diários sanguinários, entre linchamentos, psicopatas e incendiários. Seguindo meu caminho, cruzo com dois ou três mendigos, flagelados, mutilados e doentes, comendo lixo e desvirando gente, cena também recorrente, que não mais me surpreende.

Ao chegar ao calçadão, deparo-me então com uma rodinha de curiosos, extasiados, cobrindo-me a visão e obrigando-me a abrir espaço. Ao conseguir aproximar-me, deparo-me com um grupo menor, de uns cinco ou seis, todos agachados, a devorar um rapaz, bem moço, devia ter uns vinte e dois. De quando em quando, um ou outro, já saciado, dava o lugar a um dos que esperavam em pé, ali em volta, já com água na boca. Um pouco surpreso, mas sem fazer muito caso, perguntei a um sujeito ao meu lado, que havia acabado de dar a vez:

- O que foi que ele fez?

Após limpar o sangue do canto da boca com as costas da mãos, ele respondeu, calmamente, com toda a lucidez:

- Furando fila...

26 de outubro de 2010

Mitomaníaco depressivo

Aquilo que ele tinha era mesmo vocação, um talento nato, pra essa coisa de ser enganado

Na maioria das vezes, nem precisava recorrer ao auxílio dos outros, de boa ou de má vontade, iludindo-se a si próprio

25 de outubro de 2010

Ensaio sobre a suspensão

Na outra ponta da vara, após a linha e a bóia, traído por iscas atraentes, o peixe debate-se, luta bravamente. Em seu meio, a água, ele tem força, parece ter duas ou três vezes mais peso, e, invariavelmente, ao pairar suspenso no ar, nos surpreende com seu tamanho, muito menor que o esperado, pela força que exige dos braços.

Nós, por outro lado, ao sermos puxados ou empurrados, tendemos a fincar os pés em terra e resistir, usando de todo o nosso peso para lutar pelo nosso lugar. Nos meios virtuais, no entanto, sem ter onde pôr os pés, pairando sobre águas turvas, deixamo-nos levar, como penas ao vento, e seguimos, fisgados, para onde as correntes nos levarem, sem nem ao menos debater.

22 de outubro de 2010

Insensitivo

Sentiu uma influência estranha pairando no ar. Pegou rapidamente uma caneta, fechou os olhos e, com as mãos à testa, tentou psicografar uma nova obra

Com as mãos estáticas, abriu um pouco o olho direito, tentando espiar a folha à sua frente. Ao ver o papel em branco, arregalou os olhos e esbravejou em pensamento: malditos espíritos sem talento

21 de outubro de 2010

Cócegas

Despido e alucinado

estapeou-se diante de todos

entre risos de agonia


Sob aqueles olhares incrédulos

percorriam seu corpo todo

mil aranhas de pernas finas

20 de outubro de 2010

Sacrifício

Já passava de quinze horas seguidas na cozinha, sofrendo com o calor e enxugando o suor da testa com as costas das mãos. Vez ou outra, enfrentando o cansaço e as dores nas costas, curvava a coluna e o pescoço, com as mãos apoiadas nos joelhos.

Na pia, além do liquidificador e da batedeira, acumulava-se uma pilha de panelas, espátulas, colheres de pau e outros acessórios, todas engorduradas, encardidas, avisando-a que não bastava terminar todos os pratos, o trabalho ainda duraria até bem tarde.

Para piorar a situação, a cada sobremesa terminada, sofria para encaixá-la no frágil equilíbrio das prateleiras da geladeira. Já havia derrubado mais de um dos potes de conserva ao tentar encaixar as travessas entre os mantimentos, as sobras das receitas e os refrigerantes. Quanto aos pratos que seguiam para a mesa, o problema era ainda maior, pois o espaço era menor e não podia faltar lugar para as pessoas, para os copos, os pratos de cerâmica, ainda novos, e os aperitivos, que já estavam precisando de reposição por conta dos larápios que rodeavam a sala desde o final da tarde.

Quando finalmente terminou tudo, com exceção da louça, que deu-se ao luxo de deixar para depois da refeição, seguiu direto para o chuveiro. Passou um bom tempo debaixo da água quente, tentando relaxar a cabeça e os músculos cansados, apesar de todo o barulho dos convidados que chegavam.

Após embrulhar-se em roupas e sapatos recém-comprados, maquiar-se e ajeitar bem o cabelo, percorreu triunfante, sorridente, o corredor em direção à sala. A alegria, no entanto, durou pouco. Ao adentrar, reparou que todos já estavam servidos e, alguns, até satisfeitos, já assaltavam a geladeira atrás das guloseimas. Nas travessas, restava pouca coisa, quase nada. Por todos os cantos, acumulavam-se os pratos com restos indesejados. E no tecido claro do sofá, destacavam-se as manchas dos que recusaram-se a buscar os guardanapos na despensa.

O sorriso desfez-se em raiva, angústia. Sentiu-se indignada com a falta de respeito que repetia-se, mais uma vez: comeriam e partiriam. Parada no centro da sala, cercada por aqueles que, naquele momento, mal reconhecia, teve, pela primeira vez em toda a vida, um legítimo desejo de fazer o mal a alguém, sem olhar a quem. Foi quando a nora dirigiu-se a ela, na melhor das intenções:

- Anime-se, querida! É Natal...

19 de outubro de 2010

Ofuscada

A irmã mais nova, destemida e orgulhosa, ia na frente, sem apoiar-se em nada. A mais velha seguia logo atrás, apoiando-se na bengala, segurando-a pelo braço e direcionando-lhe os passos.

Ainda quando eram crianças, a mais velha prometeu que sempre cuidaria da pequena. Apesar de saber dos riscos, deixava-a, ao menos, seguir e sentir-se à frente. Preferia que fosse assim, não queria tocar no assunto. Sabia muito bem o quanto seria doído, angustiante, para a mais nova assumir as dores nas juntas e, principalmente, a vista anuviada, primeiro estágio da catarata.

18 de outubro de 2010

Castigo

Antes de iniciar qualquer frase, tossia por três vezes, uma tosse seca, sofrida, com o punho cerrado diante da boca. Depois de respirar fundo, citava um dos elementos da santíssima trindade e, somente então, fazia alguma referência ao assunto.

Por quatro anos, durante o ensino fundamental, aquela moça com roupas e trejeitos de senhora tentou nos passar algum conhecimento nas aulas de ensino religioso. O problema é que, quando ela terminava o ritual das tosses e bençãos, ninguém mais estava prestando atenção. Durante os quatro anos, ela falava e falava, lia trechos da bíblia, explicava as parábolas e tentava nos encher de esperança no natal, culpa do carnaval até a páscoa e, entre a páscoa e o natal, um misto de compaixão e conformismo.

Até acredito que alguns daquela turma ainda carregam influência dela nos dias atuais, mais de vinte anos depois, principalmente os que foram alvos dos fervorosos - mas, felizmente, pouco frequentes - sermões. Teve um garoto que levou um ovo de chocolate para a escola, na semana anterior à páscoa, coitado. Ela deu-lhe um sermão de ecoar nas outras salas, crucificou-lhe pela gula e pelo descaso com o senhor, que estava prestes a sacrificar-se pelos pecados dele. O garoto tinha sete ou oito anos, não deve mais comer chocolate até hoje.

15 de outubro de 2010

Sem saída

Um dia acordou, olhou-se no espelho e percebeu de prontidão que estava mais velho. Ao chegar ao escritório, começou a reparar que as pessoas o olhavam de maneira diferente, tratavam-no com mais cuidado e dirigiam-se a ele em tom mais respeitoso.

Ao entrar no carro, de volta para casa, sentiu-se como um senhor sentado em um carro de frente larga, talvez um Landau ou Opala, com estofamento em imitação de veludo, coberto por um suporte para as costas repleto de bolinhas massageadoras de madeira.

Chegando em casa, viu-se no sofá, de chinelos felpudos, samba-canção e camisa regata, acompanhando os jogos de futebol na televisão enquanto a barriga crescia.

Ainda sem sono, após deitar-se na cama, ajeitando-se para não dar mal jeito na coluna, relembrou os velhos tempos: na juventude, antes de perceber aquela entrada, quando tinha a cabeça cheia de planos, sonhos e fios de cabelo.

14 de outubro de 2010

Abatido

Andava extremamente cansado e já não conseguia mais prestar atenção a nada nem ninguém. Esgotado, resolveu tirar um dia de folga, foi para a praia.

Com o vento afagando-lhe a face, levou pouco mais de cinco minutos para dormir à beira-mar. Ao cair da tarde, apesar de ter armado a cadeira bem longe da água, a maré subiu e algumas ondas bravias vieram lamber-lhe os pés. Acordou assustado, levantou-se de um impulso e correu atrás dos chinelos que iam sendo carregados. Quando finalmente resgatou os dois pares, virou-se para a praia vazia e, só então, lembrou: o garoto tinha vindo junto.

13 de outubro de 2010

Intento

Comovido com a situação, tida como rara nos dias de hoje, recebeu de volta a carteira, colocou-a no bolso e, após agradecer, estendeu a mão ao sujeito que lhe havia devolvido o pertence perdido. Esperando um sorriso agradecido, surpreendeu-se com a reação do sujeito que afastou-se, ao notar uma nota embrulhada entre os dedos, e indagou-lhe:

- O que é isso?

- Uma recompensa... - falou ele, inflado de sua nobre alma.

- Você acha que eu preciso disso?

Sem palavras, naquele exato instante, ele murchou, esvaziado pela ideia de que, com aquela atitude humilhante, contrariava aquele valores que pretendia exaltar.

12 de outubro de 2010

Dedução

As figueiras do passeio atraíram os olhares dos garotos. Os dois pararam, boquiabertos, diante daqueles troncos manchados de líquens e enrugados por dezenas de galhos entrelaçados. Antes que o pai pudesse fazer qualquer comentário, o mais velho, com oito anos, disse ao menorzinho:

- Essas árvores são muito antigas.

O pai, curioso, questionou:

- Como é que você sabe?

- Dá para ver pela cara.

11 de outubro de 2010

Degradação

Apesar da insistência do médico para que tomasse os remédios todos os dias, ela estava aprendendo a conviver com a dor. Com muito esforço, continuava realizando as tarefas da casa, indo ao mercado, à padaria, à praça e, aos domingos de manhã e quartas de noite, à missa. No entanto, em uma ida à padaria, sentiu uma dor aguda, profunda, nos dois joelhos, e acabou indo ao chão. Envergonhada, caída de bruços, com a saia levantada acima do joelho, as mãos raladas e as roupas cobertas por poeira e por folhas secas, permaneceu ali, naquela posição, até que dois taxistas aproximaram-se para ajudá-la a levantar.

Depois daquele tombo, não queria mais sair de casa, recolheu-se aos seus aposentos, reduzindo as caminhadas aos percursos entre quarto, cozinha, banheiro e sala, sempre se apoiando nas paredes, com medo de cair de novo. Ao fim de uma semana, as dores eram tantas, que ela havia começado a dormir sentada na poltrona da sala, para evitar cruzar todo o corredor até o quarto e, principalmente, a grande dificuldade para levantar-se da cama.

Um dia, a filha, sem notícias dela por semanas, resolveu visitá-la. Ao chegar à porta do prédio, foi alarmada por uma vizinha antiga da mãe, que já não a via mais sair para nada e que, nos últimos dias, também não ouvia muita coisa. Apressou-se a subir as escadas e, ao chegar à porta, sentiu um cheiro forte, horrível, e demorou a abrir a porta por conta da tremedeira. Esperando o pior, adentrou o apartamento e encontrou-a na poltrona, empalidecida, assustadoramente magra. Já tinha feridas nas costas e nas partes dos braços e pernas que ficavam apoiadas na cadeira. Em volta da poltrona, remanesciam alguns pratos de comida, já apodrecida, repleta de fungos de diversas cores. Ao abrir os olhos e perceber que a filha estava ali, estática, ela ameaçou levantar-se, mas desistiu, e então disse:

- Oi, minha filha! Não repare na bagunça.

O choro foi inevitável. A filha não sabia o que dizer, o que fazer. Estava chocada. Ajudou a mãe a caminhar até o banheiro, colocou-a debaixo do chuveiro, limpou-a por inteiro, incluindo as feridas, e depois a ajudou a caminhar até o quarto, para deitá-la na cama. Ligou para o marido, pedindo para que viesse logo, e começou a arrumar a sala, único cômodo que tinha sinais de qualquer atividade recente. Naquela tarde, apesar da resistência da mãe, que dizia estar muito bem, carregaram-na até o hospital - sem precisar usar de força, uma vez que ela não tinha condições de resistir fisicamente.

Nas semanas em que permaneceu internada, ainda com imensa dificuldade para levantar-se e caminhar até o banheiro, ela continuou a recusar os analgésicos e antiinflamatórios, insistia que estava sentindo-se bem. Por mais que tentassem, até mesmo escondendo as pílulas na comida, não conseguiam convencê-la a engolir. Os médicos já cogitavam sedá-la, para então administrar a medicação no soro, e recomendavam à família que, assim que tivesse condições de receber alta, ela fosse levada a uma instituição psiquiátrica para avaliação - afinal, não era normal aquela recusa, insistente, de remédios que poderiam melhorar a qualidade de vida de pacientes no estado dela.

Nas breves conversas com a filha, desviava do assunto quando se tratava dos remédios. Antes de ser sedada, se negava a dar qualquer explicação aos médicos. Além disso, refutava os diagnósticos de piora no quadro da artrose e fazia questão, ainda que ninguém a ouvisse, de falar sobre o clima, os rumos das novelas e outros temas rotineiros, que costumavam dominar seus diálogos antes de ser tomada pelas dores. Ao psiquiatra, nunca revelou seus verdadeiros anseios e medos. Acabou, por fim, internada, sem nunca mencionar a ninguém os motivos de sua recusa, claro indício de depressão, autodegradação.

Após meses presa naquele quarto insípido, sob efeito de fortes sedativos, aliados aos analgésicos e antiinflamatórios, todos misturados ao soro, ela só dispunha-se a falar sobre tarefas domésticas, filmes e romances, enquanto mantinha-se calada sobre a recusa dos medicamentos. Ela sabia que os médicos e parentes insistiriam, mas não iria, de maneira alguma, sujeitar-se a engolir comprimidos diários. Ainda estavam frescas as memórias do falecido: era tão saudável, mas definhou em um instante, assim que se aposentou e incluiu as pílulas para o coração na rotina diária. Em pouco tempo, já engolia cerca de seis comprimidos por refeição, cada qual com seus efeitos e defeitos. O remédio da pressão piorou a circulação, que mexeu com o coração, que causou um problema no estômago, pedra no rim, sobrecarga do fígado e, por fim, naquele equilíbrio tão frágil, de folha de outono em galho seco, um vento frio causou uma gripe, que se converteu em bronquite, pneumonia, e assim ele foi-se. Nunca soube os motivos que levaram todas aquelas pessoas, algumas muito amadas e bem criadas, a convencê-lo a seguir aquele rumo. No entanto, mesmo que não soubesse, esforçava-se para manter a rotina dos velhos tempos, ela não se renderia, não assim, tão fácil.

8 de outubro de 2010

Quimera

Ambas as garras cravaram-se em meus ombros. Olhei para cima, inclinando meu pescoço, e deparei-me com aquele monstro descomunal, prestes a carregar-me para sua caverna, local onde devoraria-me de maneira impiedosa. Minhas suspeitas, meus maiores temores, confirmaram-se quando ele abriu aquela assustadora bocarra:

- Termine logo esse relatório e acompanhe-me até a minha sala, precisamos ter uma conversa séria.

7 de outubro de 2010

Tragédia anunciada

Incapaz de sobreviver apenas com a aposentadoria, ela continuava trabalhando no salão. Contava sempre, a cada cliente que se sentava em sua cadeira, a triste história sobre a doença nos ossos, as fortes dores nos braços, falava que a máquina e a tesoura ficavam cada vez mais pesadas e que ela tinha que ser forte, porque não podia ser mandada embora.

Apesar dos cortes irregulares, desalinhados, por conta das tremedeiras e espasmos, recebia apenas sorrisos complacentes, abraços amigáveis e, vez ou outra, até lograva uma pomposa gorjeta. Ela sorria, acanhada, e escondia-se enquanto pegava o dinheiro e o escondia na bolsa - como se precisasse, uma vez que a dona do salão sempre manteve, propositalmente, por compaixão, a vista afastada daqueles generosos atos.

Antes que os clientes partissem, agradecia bem baixinho, ao pé do ouvido e entregava-lhes um papel dobrado, com seu nome e telefone, pedindo para que ligassem se não a encontrassem por ali, se por acaso retornassem. A maioria dos clientes saia dali com satisfação, por ter colaborado com uma senhora tão necessitada - relevavam o desastre capilar pelo prazer da boa ação. Alguns, inclusive, tornaram-se clientes fiéis. Às vezes, até reduziam o intervalo entre um corte e outro, para evitar que a coitada ficasse sem trabalho.

Um dia, todavia, sentou-se um moço na cadeira, querendo aproveitar o intervalo do almoço para aparar os lados, o “pezinho” e tirar bem pouco de cima. Logo que ela desandou a contar sua história triste, ele começou a sorrir. O sorriso deu lugar à costumeira cara de pena, deixando-a um tanto confusa. Após alguns segundos, tentou insistir na história, mas ele riu abertamente, mais alto, atraindo os olhares de todos os que estavam no salão. Ela, acanhada e ansiosa, não sabia como agir diante daquela situação, sob todos aqueles olhares.

Decidida a não citar mais a história, ao menos enquanto estivesse sob os olhares dos colegas e de outros clientes, ela continuou a aparar a parte de cima, olhando com estranheza, através do espelho, o rosto do rapaz que a desafiava. Os traços lhe pareciam familiares, mas não sabia de onde, de quando, como. Ao cruzarem os olhares, ela desviava. Era enorme o esforço para lembrar-se do rapaz e, também, para controlar a tremedeira e os espasmos. Extremamente nervosa, com medo de que alguém percebesse, pensava em como resolver aquela situação. E foi então, com o temor da descoberta em mente, quando respirou fundo, que ela chegou à conclusão: o rapaz sabia. Ela não sabia como, mas ele sabia, com certeza. Devia tê-la seguido no ônibus, ou morava no mesmo bairro. Ela sempre se cuidava, olhava bem em volta, mas não tinha como se controlar por vinte e quatro horas, sete dias por semana.

A partir daquele momento, ela soube que lidava com o inimigo, o sujeito que poderia revelar os seus segredos, fazer com que ela perdesse aquele emprego e, pior de tudo, podia desmoralizá-la diante de todas aquelas colegas, principalmente a Carla, a manicure, que vivia torcendo pelo tropeço alheio. O inimigo estava ali, parado, e apesar de enxergá-la pelo espelho, estava de costas para ela. No entanto, eles encontravam-se cercados, em uma sala com pouco mais de vinte metros quadrados. Diante do impasse, ela colocou-se a pensar em uma maneira de pôr-se livre daquela ameaça. Olhava em volta, constantemente, esperando brechas nos olhares e analisando as possibilidades.

Alguns minutos depois, entre uma e outra passada de máquina, aproximou, posicionando-o logo atrás da cadeira, o gaveteiro onde guardava seus equipamentos de corte, fotos dos parentes, produtos para o cabelo e catálogos Avon e Natura.

Ela continuou olhando em volta, suando frio, percebendo que, agora, o rapaz estava cada vez mais nervoso, sem saber o que lhe esperava. Reparava, em olhares de soslaio para o espelho, que ele estava confuso, com medo e, provavelmente, angustiado, ao ver-se em posição tão vulnerável.

Ao analisar a situação, ela lembrou-se de um livro que havia lido há alguns meses, auto-ajuda que ela nunca achou que ajudaria mesmo, e resolveu explorar as fraquezas do inimigo, o medo e a posição. Aguardou, calmamente, o desviar de olhares, exatamente quando Robson, o maquiador, chegou à porta da ante-sala, escandaloso como sempre. Os movimentos foram precisos, ao pegar a navalha e exibi-la através de espelho, sabia que o rapaz, já assustado, tentaria levantar-se, faria algum movimento brusco. Foi o álibi perfeito, juntamente com um dos espasmos, friamente controlados.

6 de outubro de 2010

Ciclo insustentável

De maneira nenhuma que eu vou escrever um livro. Para publicá-lo, eu teria de derrubar a única árvore que eu ainda nem plantei. A melhor opção é abandonar o projeto literário e poupar-se do trabalho ambiental, dois coelhos sem nem dar uma cajadada. E quanto ao filho, o terceiro pilar da vida dos ultrapassados, quem é que quer, hoje em dia, colocar uma criança nesse mundo violento, sujo, tão deturpado, não é mesmo?

A vida hoje em dia é muito mais objetiva, moderna e equilibrada. É tudo muito estratégico, analiso riscos e elimino qualquer possibilidade de erro. Não tem mais essa coisa de ficar caminhando sem rumo, deixando marcas e pegadas para todo lado. Permaneço parado, de cócoras, sustentando-me, na margem do suportável.

5 de outubro de 2010

4 de outubro de 2010

Apesar

Naquela época, mamãe não tinha rotina, saia de casa e fazia novas amigas todos os dias. Além disso, eu e ela éramos muito mais unidas, íamos juntas ao shopping e, na volta, ela me contava todas as histórias, falava das novas amizades e de mais um monte de coisas - eu não tinha como prestar muita atenção porque estava dirigindo.

Quando ela ficava em casa, ficava quietinha, no quartinho dela, lá no fundo do corredor, acho que assistia televisão - eu sei que ela deixava ligada, mas, talvez, fosse só para fazer companhia. Eu sempre tinha minhas coisas para resolver, sabe como é, a correria, e ela ficava triste, deprimida, dava até uma agonia.

Pelo menos, naqueles tempos, saíamos quase todo dia e quando eu não podia ir, dava um jeito de deixá-la na porta para depois buscá-la. Era ótimo. E sempre que eu chegava, ela surpreendia-se: primeiro reclamava que eu havia chegado muito cedo e depois assustava-se com a hora: "já?". Às vezes ela até insistia para ficar um pouco mais, mas eu não podia abandonar meus compromissos nem podia deixá-la ali.

Para ser bem sincera, um dia, sem querer, eu acabei deixando ela lá, esqueci completamente. Deu uma peninha quando ela chegou em casa, toda vermelha, suada, coitada. Mas nada foi pior do que ver ela depois das notícias do fechamento. Foi horrível. Presa em casa, ela definhou, aos poucos, isolando-se cada vez mais. Nenhum dos médicos soube dizer exatamente o que ela tinha, mas eu tenho uma certeza: a proibição dos bingos - e o fechamento daquele no shopping - é que matou a mamãe.

1 de outubro de 2010

Sabatina

Ao ouvir da televisão que o homem é um animal político por natureza, ajeitou-se na cadeira, deu uma tragada no paiero e puxou conversa com o cunhado:

- Olha, que esses político, arisco e sempre atento, se dão igual animal, isso eu já sabia. Mas que eles fazem alguma coisa pela natureza, isso pra mim é novidade.

30 de setembro de 2010

Golpe do esquecimento

O passado, obscuro

bate à porta do vizinho


Nós seguimos, indiferentes

como se não soubéssemos

que um dia teremos

de enfrentá-lo frente à frente

29 de setembro de 2010

Intolerância III

Os dedos finos da vítima apontaram para o suspeito, que ela havia reconhecido apesar do capuz. Seguraram-no enquanto discutiam:

Em relação à culpa, não tinham plena certeza. Todavia, ao discutir a pena, chegaram a um pleno acordo: deceparam-lhe a mão.







Fato: http://bit.ly/bjPbpf

28 de setembro de 2010

27 de setembro de 2010

24 de setembro de 2010

23 de setembro de 2010

22 de setembro de 2010

O barbeiro da rua do Catete

Apesar das dificuldades para manter-se na profissão - principalmente por conta da imagem criada pelos romances policiais, filmes de mafiosos e, também, em menor escala, pela criada no trânsito caótico da cidade - ele mantinha funcionando a pequena barbearia, herança do pai, uma das poucas que restava na zona sul, ali na rua do Catete. O pequeno negócio funcionava desde a década de trinta, quando era tocado pelo saudoso mestre Inácio, que tinha fama de ser muito habilidoso com a navalha - alguns, um tanto exagerados, diziam até que ele seria capaz de partir um pêlo em dois, bem no meio, mantendo as metades no mesmo poro.

Nas paredes descascadas daquela salinha dois por dois, entremeada por uma cadeira de couro, estofada, pendurava orgulhoso as fotografias dos clientes famosos. Por mais que a situação atual tornasse difícil até para imaginar os tempos áureos do local, por ali haviam passado, nos quase oitenta anos de existência, diversos atores, diplomatas, políticos e magnatas. As fotos eram um tanto parecidas, uma vez que quase todos os clientes tinham metade da cara coberta de espuma, mas, para cada foto, ele tinha uma história diferente: esse aqui, era amante da Carmem Miranda; o de cima, do bigodinho, era comunista; aquele ali ao lado, cada vez que vinha, revelava algum segredo de estado; esse ali, só pedia para aparar com a tesoura, deixava a barba crescer porque tinha medo da navalha.

Entre tantas histórias já decoradas, quase automáticas, uma, em especial, o fazia dar uma breve pausa, complementada por um suspiro, antes de continuar. Então, ele apontava para uma foto de um senhor rechonchudo, careca, de óculos, estampando um sorriso amigável, e contava: ele veio aqui na véspera, veio andando mesmo, pediu para que meu pai o deixasse apresentável. Meu pai até tremeu um pouco na hora, nunca havia tratado de um presidente - e eu nunca tinha visto ele tremer daquele jeito. Para quebrar o clima, ele fez uma piada com a tremedeira, dizendo que, daquele jeito, acabaria o matando. Depois, comentou um pouco sobre o bairro, perguntou sobre a vida dos que ali estavam e, antes de sair, cumprimentou todos os curiosos, até mesmo eu. Quando partiu, caminhando, parecia bem contente, acho até que assobiava. Ao saber da notícia pela manhã, ainda menino, fiquei chocado, não entendi o porquê daquela visita - afinal, ele já devia estar pensando no que acabou por fazer. Mas, depois, bem depois, eu acho que entendi: ele queria estar bonito, pelo menos apresentável, ao entrar para a História.

21 de setembro de 2010

20 de setembro de 2010

Destempero

Cansou-se daquela rotina insossa, levando uma vida um tanto intragável

Desgostado, decidiu experimentar alguns condimentos: suaves e relaxantes, picantes e aromáticos, ácidos e energéticos

Apesar das experiências, entre as inúmeras pitadas, nestas misturas desregradas, encontrou apenas dissabores. Já não sentia mais gosto por nada

17 de setembro de 2010

Precavida

Antes de sair, visando defender-se das possíveis investidas, preparou-se com o traje completo: calcinha bege e larga, meia-calça furada, calça jeans apertada e, por fim, o cinto, com o fecho bem complicado

No entanto, ao fim de uma hora, e duas taças de vinho tinto, parecia ter estado sempre por ali, vagando, desvestida

16 de setembro de 2010

15 de setembro de 2010

13 de setembro de 2010

Desenlace

Primeiro, tentei acelerar, mas o bandido era insistente e continuou ali, preso no meu para-brisa. Comecei a ziguezaguear pela avenida vazia, mas de nada adiantava, ele debatia-se, revirava o rosto, mas não se soltava. Sem qualquer remorso, fiz uma curva fechada, cantando pneus e, só então, o maldito desprendeu-se. Ainda o vi pelo retrovisor, rodopiando ao vento, antes de juntar-se ao resto do lixo eleitoral.

10 de setembro de 2010

9 de setembro de 2010

Obstáculo

Adélia adentrou a sala de reuniões imaginando que tratariam dos últimos detalhes para as comemorações do dia do escritor, afinal, um instituto daquele porte, com aquele invejável acervo, deveria organizar ao menos uma palestra, com convidados ilustres - e ela já tinha em mente as pessoas certas, os cronogramas, a decoração, tudo planejado, há anos. No entanto, ao reparar nos rostos entusiasmados dos que já estavam por ali, deduziu, do alto dos seus vinte e cinco anos de repartição, que não se tocaria em qualquer assunto culturalmente relevante - apesar de trabalhar em uma instituição cultural, poucos dos que a cercavam davam importância a algo além do salário que os permitia frequentar os caríssimos teatros da zona sul e os ainda mais caros cinemas de último andar de shopping. Um pouco preocupada, notou a presença de um rapaz engravatado, sentado na cadeira que costumava ser do senhor Garcia. Imaginou que o rapaz, novo no lugar, pudesse ter feito confusão na hora de sentar, mas, por já conhecer as danças das cadeiras que os políticos acabavam fazendo por ali nas trocas de comando, preferiu recorrer à atitude de sempre, manteve a aparente indiferença. Aos poucos, todos os funcionários foram chegando e, quando alguns já buscavam mais cadeiras nas salas ao lado, o rapaz disse que já havia trabalhado com o senhor Garcia quando começou na prefeitura, que o respeitava muito e, por fim, não querendo alongar mais o discurso apresentou-se como o novo chefe. Adélia examinou-o de cima abaixo - não devia ter nem trinta anos, um desses alunos de MBA: terno e gravata, notebook na mochila e um celular sempre ao alcance das mãos.
O Silas, puxa-saco oficial do instituto, pediu a palavra e deu as boas-vindas por todos. Já Amélia, esvazia-saco oficial, que colocava Adélia em algumas situações constrangedoras por ter um nome tão parecido, engraçou-se para cima do rapaz. Os outros funcionários mantinham uma posição moderada, felicitavam-no, mas sem demonstrar felicidade alguma, afinal, a morte do senhor Garcia, tão repentina, havia sido um choque para muitos deles. Adélia permanecia indiferente.
Após as apresentações e formalidades, o rapaz resolveu mostrar a que veio e, então, solicitou que todos se retirassem do recinto, com exceção a Adélia, com quem precisava conversar.
- Todos sabem que o senhor Garcia, que Deus o tenha, estava planejando uma reorganização das estruturas deste Instituto. Eu já fui informado de que, em algumas áreas, as discussões já estavam avançadas, e que, em outras, os projetos já estão em andamento. Você é responsável pela biblioteca, não é?
- Sim, sou eu.
- E o que tem a me dizer?
- Seja bem-vindo.
- Não, não. Obrigado! Mas quero saber sobre a reformulação da biblioteca. O que está sendo feito? Quais as sugestões? Os projetos? Não fui informado sobre nenhum avanço e, como você bem deve saber, a biblioteca é um dos setores essenciais deste instituto.
- Na verdade, a biblioteca não precisa de nenhuma mudança. Tudo funciona perfeitamente e ninguém fica sem atendimento. Eu sei exatamente onde está cada obra.
- Mas é exatamente esse o problema. Não podemos ficar dependendo dos seus serviços e da sua memória.
- Mas, alguém está reclamando? Não pode ser.
- Não, não é isso. Ninguém falou nada, eu acabo de chegar. Bom, de qualquer maneira, precisamos informatizar o sistema, para que qualquer pessoa, mesmo na sua ausência, possa encontrar-se em meio a tantos livros.
- Eu tenho minhas objeções...
- Não vamos nos precipitar em conflitos, eu não quero parecer um sujeito autoritário. Vamos combinar assim, você pensa em alguns itens que podem ser melhorados na biblioteca e me entrega um relatório na semana que vem. Que tal?
Adélia saiu da sala calada, fez apenas uma reverência com a cabeça, concordando com o chefe. Escorreu pelo corredor, desolada mais uma vez. Afinal, depois de colocarem tudo nas máquinas, quem precisaria de uma velha por ali, rondando os corredores, tentando lembrar-se de fileiras, colunas e sobrenomes de autores. Ela costumava ser a peça chave daquele lugar, todo mundo precisava dela, todos precisavam conversar, pedir alguma coisa e, volta e meia, acabava até recebendo algum agrado, flores no dia da bibliotecária e cestas de café da manhã no final do ano - todas utilizadas no ano seguinte para levar ovos de páscoa para as crianças do abrigo. Tinha uma posição privilegiada, regalias sazonais e, além de tudo, sentia-se menos só quando podia ajudar as pessoas a encontrar o que procuravam. Ao ver isso tudo sob ameaça, percebeu que, mais uma vez, não poderia permanecer indiferente.
Ao cair da noite, após o silêncio da biblioteca espalhar-se por todo o instituto, tal como havia feito na semana anterior, Adélia embrenhou-se pelos amplos jardins, dessa vez com o alvo certo, sem precisar procurar, dirigiu-se ao canto do muro logo atrás da estufa, um tanto abandonado pelo jardineiro, onde cresciam furtivamente três pés de mamona. Colheu dez daquelas bolinhas espinhosas e, quando já se dirigia ao portão de saída, acabou surpreendida pelo novo chefe, que aproveitava para conhecer melhor as instalações da estufa, uma vez que ele mesmo pretendia instalar uma em sua casa. Com o susto do encontro, Adélia deixou caírem ao chão sete das dez mamonas. O novo chefe abaixou-se para ajudar e disse:
- No escuro, vai ser difícil para encontrar, deixe que eu te ajude a procurar.
Com uma gota de suor frio prestes a escorrer pela nuca, ela tentou demovê-lo da boa intenção:
- Senhor Roberto, faça-me o favor, não precisa dar-se ao trabalho. São só algumas frutas, eu posso colher outras.
No entanto, ele já agachado, tateando a grama, estava disposto a colaborar, queria apagar qualquer má impressão que pudesse ter sido criada na primeira reunião:
- Não faz mal ajudar, até porque fui eu que acabei te assustando.
Tentando controlar a ansiedade, Adélia olhava tudo em volta, buscando palavras, buscando uma solução. Ele então levantou, subitamente:
- Ai, caralho!
- O que foi?
Aproximando-se da luminária pendurada à porta da estufa, ele continuou:
- Espetei meu dedo, não foi nada... Achei essa mamona aqui.
Adélia aproximou-se, com as três mamonas que lhe restaram nas mãos trêmulas, e disse:
- Seu Roberto, não precisa me ajudar não, vá tratar desse dedo.
Ao olhar para as mãos de Adélia, que instintivamente as recuou, ele perguntou:
- A senhora está colhendo mamona?
- É... Para fazer óleo.
- Podia ter me avisado, vou procurar com mais cuidado.
Ao terminar de falar, ele voltou-se novamente para o local onde estava agachado e retomou as buscas. Ela, tendendo ao desespero, voltou a olhar em volta, dessa vez procurando objetos e ações que pudessem resolver a situação. Agachado, tateando com mais calma o chão, ele puxou conversa:
- Não sabia que dava para fazer óleo com isso não. Só aquele biodiesel, mas aquele não deve dar para fazer em casa.
- Dá sim... Óleo de rícino.
Após virar-se de costas, ainda nas buscas:
- Mas isso é bom para quê?
- Congestão.
- Eu não sabia, não. Na verdade, a única coisa que eu sei, desde garoto, é que a semente disso é um veneno.
O silêncio que se seguiu só foi interrompido pelos grilos.

8 de setembro de 2010

Apreensão

Após o passeio e as compras, um tanto nervosa, por conta de mais um de seus descuidos, dirigiu-se à moça que estava dentro daquele cúbiculo, atrás da divisória de vidro: 
- Moça, olha só, eu estou com um pouco de pressa, mas não estou encontrando o papelzinho. 
- Desculpe-me senhora, mas sem o tíquete eu não posso fazer nada. 
- Mas, não tem como dar um jeito? 
- Não, senhora. O aviso aqui ao lado é bem claro. 
Ao lado da cabine da atendente, destacava-se uma placa branca com letras vermelhas: "Cuide bem do seu tíquete. As devoluções serão feitas somente mediante a apresentação do mesmo". 
- Mas o que eu devo fazer? Ir embora sem ele? 
- Sem o tíquete, ou algum documento para provar que é seu, vai ter que ir sem ele. 
- O documento ficou em casa! 
- E não tem ninguém para quem a senhora possa ligar, para vir aqui trazer? 
- Não! Eu sou solteira, não tem ninguém. E de jeito nenhum que eu vou deixá-lo aqui para ir buscar a papelada e depois voltar! 
- Então não tem jeito. 
- Mas, ele está ali do lado! Eu posso provar que é meu! 
- Eu já disse que não posso fazer nada. E, além disso, a senhora está segurando a fila.
Após olhar para trás e deparar-se com uma senhora consultando a hora em seu celular, voltou-se novamente para a atendente: 
- Segurando a fila... Você é que está segurando a fila porque não consegue resolver um simples problema! 
- Senhora, eu vou chamar a gerente. Você conversa com ela. 
- Exatamente o que eu ia pedir: chame a gerente! Alguém que possa fazer alguma coisa. Muito obrigada!
 Após o olhar sarcástico para cima, combinado com a leve mordida do lábio inferior, a atendente pegou o rádio sobre a mesa, convocou a gerente e começou a atender o próximo da fila. Ela, batendo o pé direito no chão, de braços cruzados, olhos bem abertos e soltando o ar pela boca, aguardou a chegada da gerente, que oficialmente, de acordo com a carteira de trabalho, era uma assistente administrativa. 
A assistente, empossada de ares de gerente, em seu terninho preto, com um rádio pendurado à cintura, as sobrancelhas bem levantadas ao centro e um bico que parecia exigir muito esforço para ser mantido, chegou tentando acalmar a cliente: 
- Desculpe-me pela demora, a senhora aceita um copo de água? Um café? 
- Eu só quero resolver esse problema. 
- Tudo bem. Então vamos direto ao que interessa. Qual é o problema aqui? 
- Eu estou com pressa, mas sem os documentos, e aquela funcionária diz que não pode fazer nada sem o tíquete. 
- Nós vamos resolver esse problema. Mas, a senhora há de convir que os procedimentos adotados são para garantir a sua própria segurança. 
- Sim, você está certa. Mas, o que você pode fazer? Eu preciso de uma solução. 
- Nós podemos conferir pelas câmeras de segurança, para confirmar que a senhora chegou com ele, só que esse processo leva cerca de cinquenta minutos. A outra opção é esperar que o shopping feche e sobre apenas o seu. Nesse caso, o problema é se tiver mais gente sem tíquete. Ou... 
A expressão da gerente ao não completar a frase a fez sentir um arrepio na espinha, ainda assim, perguntou: 
- Ou? 
- Alguém aparecer com o seu tíquete. 
- Deus me livre! Não me fale uma coisa dessas! Já me basta ter que esperar todo esse tempo para poder tê-lo de volta. Se alguém tentasse levá-lo, ia ter que me arrastar junto! 
Após uma breve pausa, esperando uma reação humana e, talvez, solidária, que não veio, continuou: 
- Mas, bom, já que vou ter que esperar de qualquer maneira, é melhor que vejam logo as câmeras. 
- Vou providenciar a conferência das câmeras e, assim que tiver retorno, informarei a senhora. 
- Ah, e vou aceitar aquele café! 
Ao sentar-se ali ao lado, ela escutou ao fundo aquela voz arrastada e manhosa, de quem não vê mais graça nenhuma na piscina de bolinhas ou na moça que fala muito alto, repete bons dias até ele responder e age com demasiada animação: 
- Mãe! 
A voz insistia: 
- Mãe! 
Ela levantou a cabeça, com o ouvido bom virado para a origem daquele som. Demorou um pouco a perceber que era com ela, abriu levemente a boca e cobriu-a com a mão, censurando-se por não ter percebido antes. Após levantar-se, aproximou-se do cercadinho infantil, curvou-se diante do garoto e perguntou: 
- O que foi, meu filho? 
- Eu quero ir embora! 
- Nós já vamos, querido. Por enquanto, por que é que você não brinca mais um pouco com a tia? 
Imediatamente franzindo o cenho e cruzando os braços, ele retrucou: 
- Não quero! 
Corrigindo a postura, para ficar muito acima do garoto, e fechando levemente os olhos, ela proferiu a sentença final: 
- Pois vai ter que brincar sim! A mamãe perdeu o papelzinho para te tirar daí e a moça vai demorar pra resolver.

6 de setembro de 2010

Ruínas

Antevejo, em minha tela de cristal, o esgotamento de todos os recursos

Estamos todos condenados, acabou-se o mundo das boas idéias

2 de setembro de 2010

A traição de Eurídice

Agora, só me resta seguir em frente, tentando não olhar para trás. Daqui em diante, ela será apenas mais uma sombra, fadada a desaparecer, mesclando-se à escuridão das minhas memórias mais traumáticas. Eu cruzaria o inferno por ela, mas, por mais que me esforçasse, nunca a perdoaria.







ps: baseado no mito de Orfeu

1 de setembro de 2010

Desjeito

Após muito refletir, chegou à conclusão de que não havia um modo mais delicado de tocar no assunto. Sem saber onde colocar as mãos, entre enfiá-las no bolso ou cruzar os braços, comentou, como se por acaso:

- Você viu que agora tem uns sabonetes vaginais? Estranho, não é? Será que funcionam?

24 de agosto de 2010

Absolvidos

Ao final do julgamento, levando em conta a insuficiência das faculdades, e o notável estado de inconsciência, decidiram que a população não tinha culpa alguma

20 de agosto de 2010

Subexistência

Bem, sabe como é trabalhar na terra por esses dias: a parte que me cabia já estava pra lá de apertada. Eu não dava mais conta de tirar o sustento da família daquele pedaço de terra. Até daria se a minha senhora não fosse tão firme na exigência dos garotos irem à escola todo santo dia, ao invés de ficarem por lá me ajudando. Se não bastasse isso, cada dia tinha uma doença nova na lavoura e, juntinho com ela, aparecia logo um novo "defensivo agrícola", coisa que na minha época a gente chamava de veneno mesmo, mas vai entender esse mundo. Falando nisso, depois que vieram essas doideiras do clima então, aí é que não brotava mais nem capim para dar de comer ao bode. Não tive outra solução, consegui o melhor preço possível na terra - aquele punhadinho de pouca coisa que a gente chamava de casa - e partimos para a capital, mentindo para os meninos que lá havia de ser bem melhor para os estudos e que, logo logo, voltaríamos para a nossa terrinha. E foi mais ou menos isso. Um pouquinho mais, na verdade, porque eu resumi, mas cá estamos e eu, para ser bem sincero, estou um pouco aliviado. Acho que tomei o rumo certo. E você, como está?

19 de agosto de 2010

Engano

- Alô!

- Boa tarde, o senhor Seixas encontra-se?

- Quem quer falar com ele?

- Falo em nome do Banco Rio Sul.

- E por que é que não pode falar comigo?

- Desculpe-me, senhora, mas devo falar diretamente com o senhor Seixas.

- Olha aqui, mocinha, tudo que é do interesse do Alberto é também do meu interesse. Saiba você que sou a senhora Seixas e que, apesar de ainda não ter passado tudo no papel, somos muito bem casados!

- Peço desculpas novamente, mas eu preciso falar com o senhor Seixas, temos alguns assuntos para resolver e, para isso, preciso que ele confirme alguns dados, senhora.

- Não me chame de senhora, mocinha. Eu devo ter quase a sua idade!

- Desculpe, mas foi a senhora...

- Senhora não!

- Desculpe. Foi você que me disse que era a senhora Seixas.

- Era e ainda sou!

- Tudo bem, mas, ainda assim, preciso conversar com o senhor Seixas.

- Mas quanta insistência, trate logo desse tal "assunto", seja ele qual for, comigo mesma. Afinal de contas, o que é que você precisa? Deu algum problema no cartão? Alguma coisa nos investimentos? O que foi?

- Trata-se de uma dívida, senhora.

- O que foi que você disse?

- Desculpe novamente, não tive a intenção.

- Não, não isso. Você disse que tem uma dívida?

- Sim, senhora! Eu trabalho na área de cobranças. O saldo devedor do senhor Seixas está acima do tolerável pelas políticas da empresa há alguns meses. Por isso estamos ligando para informar que os cartões serão suspensos se não negociarmos esta dívida.

- Ah, mas isso você que resolva lá com aquele traste. Eu não tenho nada a ver com esse sujeitinho!

18 de agosto de 2010

Quero-queros

Ao nascer do sol, o bando de quero-queros posiciona-se em círculo, de maneira que todos aproveitam ao máximo o brilho daquele momento

Algumas horas depois, aglomeradas, as pessoas lutam entre si por um lugar ao sol - apenas para criarem sombras

17 de agosto de 2010

Volátil

As revoltas de hoje em dia são qualquer coisa parecida com álcool em pratos de vidro

Altamente inflamáveis, mas nunca afetam o que está em volta

E além disso, muitas vezes nem se consomem, evaporam

16 de agosto de 2010

Insensível

Diante do inverno rigoroso

com a porta bem fechada


e abafadas pela ducha


até as paredes choram

13 de agosto de 2010

Realizado

Após cinco meses de privações - a aposentadoria mal dava para aluguel e comida, que dirá os remédios e os pequenos desejos, finalmente conseguiu juntar a quantia que precisava. Resgatou do fundo do armário o embrulho da camisa do natal passado - transformado então na sacola das economias, contou novamente todas as moedas, para ter certeza de que não havia se equivocado na última contagem, e dirigiu-se à rua da Alfândega, pólo das lojas de cacarecos chineses, tecidos e roupas.

Ao entrar na loja, lembrou-se do sol invadindo-lhe o quarto todo dia pela manhã, dos faróis dos carros da rua iluminando o teto durante a noite e de todas as tentativas desesperadas e frustradas de pendurar algum lençol, toalha ou qualquer outra coisa na janela. Quando a vendedora perguntou se poderia ajudar, respondeu entusiasmado - vislumbrando seu lugar à sombra:

- Eu quero a melhor cortina que você puder me arrumar a preço justo.

E completou, enfático:

- E nada dessas persianas, raladores de luz! Que dessas porcarias eu já tive, não funciona e ainda quebra!

12 de agosto de 2010

11 de agosto de 2010

Bonsai

A cada vez que ousava ultrapassar seus limites, acabava sendo podado pela raiz

Com o tempo, além de não produzir frutos, suas folhas ficaram secas e amareladas

Imaturo, incapaz de libertar-se do próprio vaso, definhou ali mesmo, no sofá da casa dos pais

10 de agosto de 2010

Atraentes

Aqueles olhos interesseiros percorreram toda a mobília, antes mesmo de chegar à sala. Ao depararem-se com os talheres de prata, quase deixaram de reparar na prataria e nas taças

Sentiram-se em casa, no lar que queriam para seus deleites. Enfim, decididos, começaram a seduzir aqueles olhos tolos, apaixonados, na outra ponta da mesa

9 de agosto de 2010

Asfixia

O medo tomou-me pelas mãos

e logo envolveu-me, ardiloso


em um forte abraço



apertado




sufocante

5 de agosto de 2010

3 de agosto de 2010

Fachada

Comprometo-me pela causa

nas capas de revista


No entanto, desconheço

as reais consequências

da minha falta de ação

30 de junho de 2010

Descarregado

Com os pés descalços - dedos entremeados de barro, aprecio um momento simplório

Pequenas gotas de orvalho evaporam-se, bem ali, diante de meus olhos

Levam consigo meus fardos

29 de junho de 2010

Loteria Federal

Saiu de casa cedo, com um caderno velho nas mãos, revisando os últimos detalhes. Na mochila: uma garrafa de água, duas barras de chocolate e duas canetas pretas. Pegou o primeiro ônibus que passou e permaneceu lendo durante todo o trajeto

Ao desembarcar, não precisou procurar muito para saber o seu destino final. Diante de um prédio antigo, próximo da esquina, aglomeravam-se, entre alguns vendedores ambulantes, diversas pessoas, de todas as idades, todos com as mesmas canetas pretas, garrafas de água e chocolates. Mas, não eram apenas os acessórios que eles tinham em comum, afinal, estavam todos ali pelo mesmo propósito, arriscar a sorte na loteria da classe média instruída, prestar a prova para um cargo público

28 de junho de 2010

Dissimulado

Apesar do estilo bicho-grilo, das roupas compradas no brechó e do esforço para parecer autêntico, ele era apenas mais um vegetariano não praticante

Tal qual um bom cristão, defendia com unhas e dentes todos os dogmas que, apesar de não lhe servirem à conduta diária, apaziguavam-lhe a consciência ao final da noite

25 de junho de 2010

24 de junho de 2010

Autonomia

Mal continha-se de orgulho, após trinta e cinco anos dependendo das caronas do marido, via-se finalmente capaz de ir onde quisesse, no horário que quisesse - com uma pequena margem de erro, dos possíveis congestionamentos e atrasos

No caminho de volta, exaltada, transbordava em lições desnecessárias aos passageiros mais frequentes:

- Se quiser descer, tem que puxar essa cordinha roída!

23 de junho de 2010

Hipocondríaco

Era sempre a mesma coisa, depois do sexo ela tinha que tomar banho. Só para depois poder caminhar lentamente até a cama, deitar-se e esparramar o cabelo molhado pelo meu peito

Sentia-se extremamente sensual com aquele cabelo escorrendo. Eu, detestava, só não reclamava para não quebrar o clima. Onde é que já se viu, achar sexy uma gripe certa, talvez até pneumonia

22 de junho de 2010

Inflável

No início ela só fazia a unha, e eu nem me importava, não chegava a me incomodar. Acho que foi por isso que ela sentiu-se à vontade e resolveu experimentar outras coisas.

Eu só comecei a me preocupar mesmo quando ela começou a ajeitar o cabelo. Enquanto fazia chapinha, podia me queimar a qualquer momento, bastava um movimento em falso. Sem contar que aquela barulheira do secador de cabelo abafava todo tipo de som, atrapalhava tudo.

Com o tempo, ela também começou a fazer tricô e palavras cruzadas. Com as dúvidas de sinônimos com tantas letras, eu ainda me virava bem, apesar de perder um pouco a concentração. Mas, com as agulhas, eu sentia-me em pleno combate, enfrentando um exímio esgrimista. A cada virada para o lado ou troca de posição, acabava sendo atingido por um daqueles floretes. Era horrível. Alguns meses de tricô e eu não aguentava mais, disse a ela que escolhesse: ou ela faria seus afazeres em outro horário, ou nunca mais faríamos amor.

21 de junho de 2010

Inacessível

Gabava-se por construir enigmas quase indecifráveis, labirintos dos quais poucos conseguiriam sair ilesos

Esquecera-se de que os leitores tinham sempre a opção de não entrar

18 de junho de 2010

Artificial

Metodicamente, a cada criação, com o dicionário ao lado, fazia questão de colocar as palavras certas e contadas, uma a uma, preenchendo toda e qualquer possível lacuna

O problema é que não percebia o que todos em volta pensavam: quebra-cabeças só são interessantes para aqueles que os montam

15 de junho de 2010

Caixa de música

Nos raros momentos de lucidez, chorava pelos cantos, percebendo-se condenada.

No entanto, quando permanecia presa ao passado, alegrava-se e comovia-se, repetindo e recriando as mesmas histórias. Revolvendo-se em caminhos e devaneios, tornava-se bailarina, refém de sua própria caixinha de memórias.







2012 - Selecionado no Concurso Sul Info de Minicontos - Sul Info Publicações - Porto Alegre - RS
2012 - Selecionado no 3º Concurso de Microcontos de Jundiaí - Secretaria de Cultura - Jundiaí - SP

14 de junho de 2010

10 de junho de 2010

Impopular

Não suportava mais aquela cidade barulhenta e aquela gente suja. Saltitava por entre as poças daquela água nojenta, escorrendo sabe-se lá de onde. Nas costas bem protegidas, o casaco herdado da avó, nos pés, aquele belo sapato sem salto, bem fechado, como mandam os bons costumes, e nas mãos, o livro sagrado, tão consultado quanto a lista telefônica, mas, esta, no entanto, sendo menos popular entre os círculos de amizade - e muito mais pesada, permanecia nos fundos do criado-mudo, enterrada entre as velhas revistas de ponto e cruz.

9 de junho de 2010

8 de junho de 2010

7 de junho de 2010

Desculpe pelo transtorno

Quando o tio Ali - que na verdade era tio do meu pai - faleceu, tive minha primeira experiência com velórios e enterros. Aos quatro anos, explicaram-me que se tratava de uma coisa da natureza, que seguia seu rumo e que um dia chegaria a hora de cada um de nós voltar à terra.

Ao saber daquilo, fiquei apavorado. Afinal, o tio Ali, conforme todos comentavam, tinha ido de forma tranquila - diziam que era melhor assim do que sofrer. Mas nem todo mundo era velhinho como o tio, nem todos deviam se entregar assim, tão fácil. Eu mesmo, daquele momento em diante, fiquei de olhos bem abertos, pronto para a luta, preparado para quando as raízes viessem me buscar de volta.

4 de junho de 2010

Lúdico

Com certa facilidade, como se brincasse, criava personagens e suas histórias. Vivia envolvendo-se em diversas tramas, algumas rotineiras e, outras, um tanto insólitas. Mergulhava em enredos complexos, labirintos desenvolvidos em realidades paralelas

Entre os familiares e os círculos de amizade, todos exaltavam esta particular aptidão, capacidade criativa. No entanto, após visitarem diversos médicos, para que não restassem dúvidas, chegaram ao diagnóstico: esquizofrenia

2 de junho de 2010

Distópolis

Aquela estranha cidade foi fundada no fundo do vale, cercada por serras e entrecortada por matas, rios, bicas e cachoeiras

No entanto, apesar de poderem apreciar as belezas naturais, dignas de cartões postais, os habitantes acabaram privados de um horizonte, qualquer um que fosse. Permaneciam cercados por todos os lados, vivendo de aparências e presos a suas linhas genealógicas, alinhados e mofados, tal qual os retratos na parede

1 de junho de 2010

Confissão

Eu não suportava mais nem ouvir aquela voz, sempre reclamando de meus desvios, definindo meus rumos e ditando meus passos, tentando manter-me na linha - justo eu, que fui criado solto, igual bicho do mato

Após mais um desentendimento, ela deixou-me sem saída e eu, tomado por um surto colérico, atirei-a do carro em movimento. Eu ainda senti quando a roda traseira passou por cima, o barulho foi pavoroso

Depois daquilo não havia esperança alguma de salvá-la, por isso, acelerei. Segui sem rumo, por vielas tortuosas, sem nenhuma máquina para me dizer o que fazer

31 de maio de 2010

O peso

Carregou-a como um fardo e, após tê-la expelido, criou-a como um estorvo

Após muitos anos, forçada pelo sobrepeso, mantinha o pescoço curvado, olhares rasteiros

28 de maio de 2010

Auto-análise

Eu devia fazer terapia. Mas, a cem reais a consulta, restou-me apenas a poesia

Por sorte, muitos outros, igualmente surtados, seguiram os mesmos passos. Nas redes sociais, repletas de recados de auto-ajuda, suprimos nossas carências

27 de maio de 2010

Damas

O salão de festas era bem ao lado do playground, que na época era chamado de parquinho mesmo. Os meninos, estavam todos ansiosos para brincar, mas não podiam, afinal, era dia de festinha americana e todos eram grandes demais para o parquinho. Ao menos era isso que tentavam aparentar, do alto de seus quase 12 anos, ostentando roupas novas e exibindo, orgulhosos, os sapatos da primeira comunhão.

No centro do salão, a mesa repleta de quitutes - preparados pelas mães mais habilidosas e comprados pelas mais apressadas - permanecia intocada, enquanto em cantos opostos, alinhavam-se, meninos e meninas, acanhados e insolúveis.

Naquela disposição, enfileirados frente a frente, formavam um irriquieto tabuleiro, de damas e cavalheiros, todos confabulando, ensaiando os passos a serem dados.

26 de maio de 2010

Patriota

Em época de Copa

as folhas de outono torcem

e se retorcem

caindo em câmera lenta

de um lado verdes

do outro

amarelas

25 de maio de 2010

Interminável

Dois minutos depois do combinado, retirei o celular do bolso pela terceira vez. Após conferir os segundos que haviam passado, esfreguei o aparelho na camiseta, tentando tiras as marcas que minhas mãos, ansiosas e suadas, deixaram no visor. Após quatro ou cinco trocas de posição naquele banco de madeira, pouco confortável, ela desembarcou do outro lado da rua

Trocamos alguns olhares enquanto esperávamos por uma chance de atravessar a rua - eu já estava quase atirando-me em meio aos carros para enfim encontrá-la. Ao nos aproximarmos, ela surpreendeu-me com um beijo, daqueles mais abrasados e eu sorri, envergonhado. Depois disso, criei coragem e a pedi em namoro, como eu sempre fazia, todos os dias, antes de voltarmos para casa

24 de maio de 2010

Aprendiz

Passou quatro anos fazendo novas amizades e tendo todo o tipo de experiências - com exceção às profissionais

Ao terminar a faculdade, de nada servia ao mercado de trabalho, formou-se analfabeto funcional

21 de maio de 2010

Desprezo

Aquele sujeito sisudo permanece encarando-me, do outro lado do espelho

Entre rejeições e desenganos, desenvolvi uma gravíssima auto-estigma

20 de maio de 2010

Tormenta

Mais uma vez pego-me fazendo aquele repetitivo e irritante barulho enquanto carrego a mala de rodinhas pelo piso antiderrapante de outro aeroporto qualquer. Não consigo identificar a cidade da vez, estes caixotes cercados por tubos de vidro virados para a pista são todos iguais, todos com as mesmas lojas, as mesmas livrarias, com os mesmos campeões de venda da auto-ajuda pessoal e profissional, os mesmos cafés caríssimos com pães de queijo assados em dedais, as mesmas televisões, com os mesmos canais de inutilidades, as mesmas pessoas de ternos e taillers, entretidas com os mesmos aparelhos eletrônicos.

Mesmo sem saber ao certo, creio que eu esteja em São Paulo, por uma questão de probabilidade - a cada viagem, para qualquer lugar do país, acabo passando ao menos duas vezes pela engrenagem central, aquele ponto bem no meio da teia, São Paulo, a capital daquilo que todo mundo leva em conta - afinal, ninguém liga para política se não tiver dinheiro na jogada. Falando em política, pelas figuras que encontro de partida, com o conhecimento que tenho sobre a migração da espécie, julgo ser uma manhã de terça-feira, dia de revoada para a capital que todo mundo renega.

Penso em conferir minha passagem, para confirmar se estou indo ou voltando, mas já não tenho tanto interesse em ir ou voltar, não por esse caminho que eu tomei há mais de uma década, essa coisa de rodar o mundo pela firma, um dia em cada canto, acumulando grana, colesterol e um pouco de culpa - que só aparece por causa da falta de tempo para aproveitar a grana. Se eu reduzisse o número de viagens, quem sabe, talvez se contratassem um assistente, ou seu eu trocasse de emprego mesmo. Toda vez que eu bebo, fico falando sobre largar essa porra toda que me consome e embarcar em outra vida. O problema é que agora eu estou sóbrio.

A Maíra desistiu de me esperar há quase cinco anos, isso contando a partir de quando começamos a dormir em quartos separados. O meu garoto já está com dez anos, as gêmeas completam sete agora em agosto, dia quinze, e eu mal sei o que andam fazendo - com exceção dos breves relatos sobre faixas de judô, apresentações de balé e brigas pelo tempo na internet. Eu nunca levei meu menino para pescar, nunca andei de pedalinho com as gêmeas, coisas simples assim, igual comer algodão-doce, nunca fiz. Sempre tive tempo, mas sempre deixei que o tomassem de mim. Nunca tomei meu tempo de volta e agora estou sendo cobrado por tudo que não fiz.

O resultado do exame foi marcante, não é todo dia que a gente descobre que o coração já dá sinais de cansaço. Eu passei dos trinta ainda há pouco e agora me vem essa. A idade hoje em dia não diz nada, o estresse é que define quanto tempo você dura. O Silas, lá da firma, morreu antes de mim, com trinta e dois, derrame, isquemia, não sei direito o nome que deram, só sei que uma veia do cérebro dele não deu conta, entupiu, emperrou, explodiu, sei lá. Ele morreu na hora, dizem que foi melhor, tem gente que sobrevive a uma coisa dessas e vira quase um vegetal, preso à cama, mudo, paralisado, alimentado por tubos.

Começo a sentir um desconforto no estômago, o café não deve ter caído bem. Ao cruzar a sala de embarque rumo ao banheiro, a dor piora, falta-me o ar. Começo a suar frio e devo estar um tanto pálido, pois todos me olham com um pouco de asco - essas notícias sobre epidemias transformaram todos os doentes nos temidos leprosos medievais. Relembro algumas das poucas palavras do médico sobre os ataques cardíacos: palidez, transpiração e outros sintomas que podem ser confundidos com indigestão. Sinto todas as minhas artérias entupidas, meu coração parado e minhas pernas moles. Fraco, deito-me no chão, já rodeado por curiosos. Um deles grita por um médico e pede que dêem espaço para que eu respire, os outros observam, apreensivos, a execução da minha dívida.

Antes de perder a consciência, ainda reparo em um garoto engravatado, desses advogados recém-formados, fotografando-me no celular enquanto engasgo com meu próprio vômito. De todos os arrependimentos, desponta o maior de todos: meus filhos vão ver isso na internet.

19 de maio de 2010

Perspicaz

Na alegria e na tristeza

na calmaria e na dor


o amor, oportunista

sempre encontra seu espaço

18 de maio de 2010

17 de maio de 2010

Tortura

Durante aquela sessão de maus tratos, entre o som estridente de instrumentos pouco afiados e as pancadas incessantes de uma surra desconcertante, ouvia-se, naquela voz rouca e pavorosa, em altíssimo, mas em péssimo tom:

- Não deixe o samba morrer!

14 de maio de 2010

Mel de tolo

Todo dia, bem cedo, vestia a camisa amarotada, a calça jeans surrada (mas não dessas que já vem surrada da loja), a botina velha e o chapéu de aba amassada.

Já na rua, vestia a cara de tolo e, por fim, a voz e o sotaque de caipira inocente:

- Vai mel, madame? - dizia ele, oferecendo as garrafas cheias do açúcar melado de milho.

13 de maio de 2010

Ilusionistas

Diante do fundo neutro

a poesia atua sozinha


Enquanto o leitor

autofascina-se


com os efeitos especiais

12 de maio de 2010

Atrofia

Reparava em todos os detalhes do teto. Repentinamente, voltou a atenção para o cronômetro, que marcava pouco mais de dois minutos. Pensou que faltavam mais de dez vezes o tempo interminável que já havia passado - e soltou o ar pelo nariz, angustiado. Continuou, apesar de estar completamente desmotivado - por mais que tentasse, não via muito propósito naquela atividade, ainda mais em ambiente fechado.

Olhou para os lados, tentando distrair-se, mas de nada adiantou. Ao reparar no culto dos espelhistas, foi inevitável a ideia de sair dali o quanto antes e nunca mais voltar. No entanto, naquele momento, xingou-se mentalmente - havia caído novamente na promoção dos três meses adiantados, nunca aprendia.

11 de maio de 2010

Observadores

Após passar uns tempos na casa dos filhos, observando o comportamento dos netos, que passavam horas na internet, Dona Adélia retornou a sua terrinha e confidenciou às amigas mais próximas:

- Na minha vida toda, para lá de oitenta anos, nunca vi gente jovem gostar tanto assim de aquário.

10 de maio de 2010

Cafona

Nos velhos poemas de amor

as rimas eram mais simples

e tudo combinava

do jeito que dava

costurando pelo som

conjuntinhos de moletom

7 de maio de 2010

Arcaico

Após anos em desuso, aquele velho dicionário deparou-se com a realidade, com as mudanças na linguagem após uma série de acordos e desacordos. Antes de retornar à prateleira empoeirada, indignado, deixou cair ao chão um bilhete manuscrito:

Perdoe-me a incúria, mas devo-lhe a indagação. Porventura vosmecê, quiçá sem saber os porquês,
rubricaste algum acordo que intentava, petulante, desarranjar os princípios das regras ortográficas?

6 de maio de 2010

Correria

De um lado a outro

aguentando porrada
e acumulando pontos

atrás de metas e bônus


bolinha de fliperama

5 de maio de 2010

Contida

Engoliu o orgulho a seco, mas arrotou um pouco de sarcasmo - involuntário, não dava para segurar

De imediato, arregalou os olhos, cobriu a boca com a mão direita - um tanto envergonhada - e pediu desculpas, com um leve sorriso entre os dedos

Ao cruzar o corredor, sentiu-se orgulhosa - um dia enfrentaria aquele sujeito repugnante

4 de maio de 2010

Bromélia

Após uma forte chuva

transbordou-se de tristeza

percebeu que amor sem raiz

é apenas paixão

3 de maio de 2010

Fantasia

Sonhava em ser uma diva ruiva, desde que descobrira que Rita Hayworth ostentava cabelos avermelhados. Decepcionou-se um pouco quando descobriu que o cabelo dela era pintado, mas não podia reclamar de nada que fosse falso

Quando decidiram arrombar a porta - meia hora depois do recepcionista ter visto um tipo suspeito sair apressado do quarto, tremendo e desajeitado - depararam-se com ele deitado ao chão, despido de seus apetrechos e enchimentos, com duas longas mechas, de um vermelho ainda vivo, escorrendo pelo ralo

30 de abril de 2010

Remoção

Após as tragédias, iniciou-se a coleta seletiva, retirando os problemas da vista e despejando-os em algum aterro - distante e pouco sanitário

Quem reside em área de risco, diante deste cenário, nada mais é do que resíduo







ps: moradores de áreas de risco protestam contra a remoção

29 de abril de 2010

Promovido

Depois de anos de serviços prestados, destacando-se entre as equipes - cada vez menores e mais seletas, finalmente alcançou o topo

Mudou-se para o sétimo e último andar, sobre todos os outros, em sua própria e espaçosa solitária

28 de abril de 2010

Ariscos

Nascidos em cativeiro

interagem pouco
ou quase nada

arredios, sociopatas

por pura falta de prática

27 de abril de 2010

Madura

Após algum tempo
tornou-se redonda

e um pouco azeda

Mais tarde
também encheu-se de rugas

Entretanto
ainda restavam traços

da flor de maracujá

26 de abril de 2010

Imaturo

Diante daquela fruta apetitosa, balançava o corpo como árvore sem raiz, movimentado os braços tal qual galhos ao vento

Todo sem jeito, inseguro, apenas jogava verde

23 de abril de 2010

Imóvel

Quando os bandidos entraram atirando, só pensei em estrangular aquela arquiteta imbecil

Nesse maldito escritório clean, minimalista, não restou um móvel atrás do qual eu pudesse me esconder

22 de abril de 2010

Picada

De madrugada, rondávamos pela casa, apenas eu e as formigas, minhas pequenas companheiras. Desde que descobri a insônia, foi sempre assim. Além dos hábitos noturnos, dividíamos a mesma compulsão por açúcar e eu até costumava deixar alguns farelos para as pequenas, dividia meu prato com elas.

As coisas começaram a mudar em uma das corridas ao banheiro, enjôo pós-bebedeira. Ajoelhado em frente ao vaso, descobri que as pequenas filhas da puta entram até no cesto de lixo do banheiro. Repleto de curiosidade, ao abrir o cesto, deparei-me com uma cena que me fez contrair um pouco mais o abdômen e esvaziar de vez o estômago. Notei qual era o banquete das malditas: uma barata, daquelas voadoras, que havia entrado pela janela na noite anterior e acabou vitimada por um duro golpe de havaianas. A barata morta, gosmenta, estava coberta por dezenas - talvez até centenas, - de formigas, que a levavam, pouco a pouco, aos pedaços, para algum buraco entre os azulejos. Chocado, porém esgotado, escovei meus dentes e voltei para o quarto, antes que perdesse de vez o sono.

No dia seguinte, ainda com um pouco de enjôo, relembrei da cena marcante. Pensei no quanto as baratas são temidas e em quanto asco elas causam. Depois, pensei em quanto as formigas são vistas quase que como os mocinhos do mundo dos insetos, trabalhadoras, limpas e honestas. Lembro inclusive de alguma tia falando, quando havia alguma no copo de suco, que fazia bem para a vista comer formigas. As pequenas aberrações livravam-se, impunes, de todos os pequenos crimes, cometidos durante a madrugada, logo abaixo do nosso nariz.

Naquele mesmo dia, antes de mais nada, fui direto ao mercado. Comprei um protetor de escovas de dentes - ninguém sabe por onde andam aqueles demônios - e um mata insetos, dos bem venenosos. Sentindo-me enganado, comecei a preparar-me para a vingança.

21 de abril de 2010

Individual

Correm um grande risco os que colocam tudo de si em suas obras

Afinal, a mediocridade só tem algum valor quando é coletiva

19 de abril de 2010

Oxidação

Depois do primeiro tapa, a vida que começa, de ponta cabeça, lentamente esvai-se. Desde a primeira inalação de combustível, funcionamos como máquinas: eficientes e diligentes, correias e engrenagens sem freios, corroendo-se por dentro até a exaustão.

Ao final dessa jornada, hora da inevitável sorte, acabamos por perceber o que nos persegue desde aquele primeiro tapa: toda inspiração tem um pouco da vida e da morte

16 de abril de 2010

15 de abril de 2010

Dono da bola

Espalha pela mesa os conhecimentos adquiridos, a muito custo, nas faculdades particulares de filosofia e direito. Só ele fala, ecoando teorias ultrapassadas

Enquanto isso, os outros podem deliciar-se com a oportunidade de dividir o mesmo espaço e, vez ou outra, dar algum pitaco, contanto que não ousem tocar em seus brinquedos, caros e frágeis

14 de abril de 2010

13 de abril de 2010

12 de abril de 2010

Dádiva

- Ver uma borboleta é sinal de sorte.

- Sério? Eu não sabia disso.

- Hoje em dia, para achar uma dessas, no meio dessa cidade...

9 de abril de 2010

O medo bate à porta

Desde os tempos das cavernas, o desconhecido nos intimida

Nos tempos modernos, a paranóia coletiva ganha espaço, mal sabemos quem são nossos vizinhos

7 de abril de 2010

Investidor

Na alocação de recursos, sempre foi muito metódico, seguindo os manuais de Wall Street. Realizava as aplicações quando o cenário apresentava clara tendência de alta, visando a venda a curto prazo. Não podia correr muitos riscos porque o capital era extremamente restrito, mas também não podia dar-se ao luxo de perder oportunidades de complementar a renda.

Quando o céu começava a cobrir-se de nuvens, entrava na primeira lojinha de cacarecos chineses e saia de lá com quatro ou cinco sombrinhas debaixo do braço.

6 de abril de 2010

Pedigree

- O meu come qualquer porcaria da rua.

- O meu não, só come ração.

- E ele gosta?

- Gostar não gosta muito, mas depois que o pessoal da academia falou dessa mistura de farelos...

2 de abril de 2010

Sala de troféus

Atrás da mesa, uma cadeira imponente, daquelas que mostram quem é que manda

Nas paredes, um quadro de avaliação bimestral de desempenho e dois cartazes com frases motivacionais, a auto-ajuda dos escritórios

Nas gavetas, aquilo que ela guardava com mais orgulho, as rescisões dos funcionários cujas cabeças ela exigiu

1 de abril de 2010

Dúbia

A corda da poesia que me enforca

é a mesma que vibra em harmonia

ressoando pelo mundo meus anseios

31 de março de 2010

Crescendo

Quando o mundo escondeu o pote de biscoitos em cima do armário, após algum tempo, com muito esforço, peguei um banquinho e arrastei até a frente dele. Infelizmente, ainda assim não o alcancei.

Depois de mais algum tempo, e muito empenho, voltei. Peguei uma cadeira e arrastei até o lado do banquinho, mas ainda não dava pé.

Por fim, depois de tanto tempo, esforcei-me ainda mais para arrastar a mesa. No entanto, quando parei novamente ao lado do armário, já estava grande o suficiente para não precisar mais de apoio.

30 de março de 2010

Ceifado

Deixou-a esperando, plantada

Quando chegou, ansioso, alguém já havia colhido os frutos

29 de março de 2010

Ervas daninhas

Nestas terras férteis, em se plantando tudo dá

No entanto, sem qualquer esforço, em cantos úmidos e abandonados, brota apenas a mediocridade

26 de março de 2010

Inconveniente

No sossego do sul de Minas, o povo todo é boa gente, muito do dedicado e ainda mais do hospitaleiro. Quando passa um conhecido, desconhecido ou viajante, já vão logo chamando para um café, guiando para dentro de casa e puxando conversa.

No entanto, de tempos em tempos, esse povo hospitaleiro sofre a sina de quem convida a entrar sem olhar a quem. O povo todo vê o rio, que corre bem ali do lado, e ninguém se cansa de sempre convidar para entrar e o rio sempre fazer desfeita. Mas, de vez em quando, o rio que geralmente corre tranquilo, fica espivetado e resolve aceitar, de uma vez só, todos os convites, vai entrando de casa em casa e chega mais ou menos até a praça, fazendo a maior sujeirada.

A gente de lá, que não é de se irritar por coisa assim à toa, depois que a água se vai por vontade própria, começa a juntar os trapos, as tralhas e os cacos. Durante a limpeza, comentam entre si, bem cochichado, que é para o rio não ouvir, que a sorte é que enchente é igual parente de longe, que só vem mesmo uma vezinha por ano e olhe lá.

25 de março de 2010

Novelo

Puxei o fio da meada

assim, como quem não quer nada


Não me custa tentar desatar

ver se rende conversa fiada







2010 - 19º Concurso Poemas nos Ônibus e nos Trens - Porto Alegre - RS;
Publicada na coletânea do concurso

24 de março de 2010

Evitando desperdício

Não despejo as mágoas em lágrimas, lamentando-me pelos cantos. De nada adianta chorar sozinha. Guardo-as todas, ao lado das boas lembranças, em um pote de vingança

23 de março de 2010

22 de março de 2010

Vou-me embora pra outra casa

Vou-me embora dessa casa

onde o rei nem põe os pés

lá terei minha rainha

na casa que escolherei


Vou-me embora dessa casa

onde o bispo coleta dízimo

se Deus é assim avarento

lá servirei ao diabo


Vou-me embora dessa casa

onde o cavalo caga na porta

aqui eu sou só peão

lá serei o que quiser







livremente criado com elementos da poesia de Manuel Bandeira

18 de março de 2010

Desfeita

Sem pressa nem má vontade, distribuo amostras grátis da mais fina gentileza. Mas ainda tem gente avarenta, desgraçada e lazarenta, que não retribui e desdenha, só porque me faltam, de acidente ou de desleixo, uns 3 ou 4 dos dentes da frente. Bem diria minha avó, que tombou da maleita, Deus a tenha: "sorriso dado não se olha os dentes".







ma.lei.ta: 1. o mesmo que malária

17 de março de 2010

Entre ternos e bravatas

Entre paletós aquecendo poltronas e cafezinhos para colocar o papo em dia, o aviso na parede deixa bem clara a ameaça: quem protestar pelo descaso será preso por desacato.







bra.va.ta: 1. ato ou dito que reflete presunção a respeito de atributos pessoais, poderes etc; 2. ato ou dito insolente que envolve ameaça, intimidação; 3. prova de força ou de coragem desnecessária e eventualmente danosa.

16 de março de 2010

Paralisia

Pela inércia de muitos anos

enfraquecidos e atrofiados

poucos repararam

quando, por fim, cessaram

os movimentos sociais

15 de março de 2010

Valores

Já haviam reunido toda a papelada e discutido com os advogados sobre as despesas do divórcio

No entanto, nos últimos momentos, por tudo que haviam construído juntos, decidiram voltar atrás

Tudo pela manutenção, intacta, do sagrado patrimônio

12 de março de 2010

Chagas

Guardo na memória

momentos marcantes

cicatrizes que exibo orgulhoso


Mas os traumas e tormentas

que eu quero deixar para trás

ainda sangram

11 de março de 2010

Legado

Não escapou da sina da família, que parecia ser coisa genética

Tornou-se também um trabalhador de mão cheia - de calos - e bolso vazio

10 de março de 2010

Amparo

Na desforra, até ouso blasfemar

Mas no desespero, rezo fervorosamente

Quando estou para baixo, ter um santo ajuda

9 de março de 2010

Cárcere privado

Sobre a calçada
fumegam os resquícios
de um colchão incendiado

Em volta,
dezenas de curiosos
observam as contorções
das chamas que ainda resistem.

Ao avistar de longe esta cena,
encho-me de esperança:

finalmente rebelaram-se
os prisioneiros da rotina.







2010 - II Prêmio de Poesias do Núcleo Artístico Cultural Professor Áureo Ramos - RJ