Não há mais palavras nas pontas das línguas
Agora elas ficam nas pontas dos dedos
E quando caem, embaralham-se nas letras do teclado
Exercícios literários e outras peças mal acabadas que não são adequadas para o comércio como produtos culturais.
30 de agosto de 2008
24 de agosto de 2008
Fora da lei
Desafiou todas as leis e quebrou uma por uma. Sempre conseguia se safar das consequências.
Só não escapou impune à lei da gravidade. Os policiais concluiram que ele se jogou. Olhares aflitos e mãos tremulantes concordaram.
Só não escapou impune à lei da gravidade. Os policiais concluiram que ele se jogou. Olhares aflitos e mãos tremulantes concordaram.
23 de agosto de 2008
Vagalume no fim do túnel
Um vagalume voando em círculos, vagando de mão em mão.
Acende-se nas bocas e ilumina as faces, desfiguradas pela noite e pelo medo.
Vagalume traiçoeiro que se acaba no cinzeiro.
Acende-se nas bocas e ilumina as faces, desfiguradas pela noite e pelo medo.
Vagalume traiçoeiro que se acaba no cinzeiro.
12 de agosto de 2008
Felizes para sempre
Por aquelas terras, todos aceitavam a idéia de que a ignorância trazia felicidade.
Não se sabe ao certo quem havia formado esta opinião, afinal, poucos eram formadores de opinião. A grande maioria não formava nem a própria.
Não se sabe ao certo quem havia formado esta opinião, afinal, poucos eram formadores de opinião. A grande maioria não formava nem a própria.
11 de agosto de 2008
10 de agosto de 2008
Protetor
Ele dá gritos agudos ao meu ouvido
Logo depois, me empurra com toda força
Em seguida, atira grãos de areia em meus olhos
Tudo para que eu volte para casa
O vento fica muito nervoso quando, por mais que ele avise, as pessoas insistem em enfrentar as tempestades
Logo depois, me empurra com toda força
Em seguida, atira grãos de areia em meus olhos
Tudo para que eu volte para casa
O vento fica muito nervoso quando, por mais que ele avise, as pessoas insistem em enfrentar as tempestades
9 de agosto de 2008
Instáveis
Há um casal problemático que passeia entre minhas idéias
Não conseguem viver juntos por muito tempo
Se o álcool entra
A poesia logo sai
Não conseguem viver juntos por muito tempo
Se o álcool entra
A poesia logo sai
8 de agosto de 2008
7 de agosto de 2008
Abrindo portas
O primeiro mundo vai lhe abrir muitas portas
Entregar muitas chaves
E lhe dar uma boa gorjeta, contanto que sorria
Entregar muitas chaves
E lhe dar uma boa gorjeta, contanto que sorria
6 de agosto de 2008
Lobisomem moderno
A avó contava uma estória do folclore nacional para os seus netinhos:
- Então, quando uma família já tem três filhas mulheres e depois nasce um homem, esse rapaz estará condenada a virar um lobisomem na primeira lua cheia após seu aniversário de 18 anos.
Um dos filhos, um tanto mais velho, interrompeu exclamando:
- Ei! Isso está errado. Não eram sete meninas e daí um menino?
A avó respondeu, do alto de sua experiência:
- Isso em 1950, meu filho. Hoje em dia, a gente precisa adaptar. Dizem que lá na China já estão em uma menina só!
- Então, quando uma família já tem três filhas mulheres e depois nasce um homem, esse rapaz estará condenada a virar um lobisomem na primeira lua cheia após seu aniversário de 18 anos.
Um dos filhos, um tanto mais velho, interrompeu exclamando:
- Ei! Isso está errado. Não eram sete meninas e daí um menino?
A avó respondeu, do alto de sua experiência:
- Isso em 1950, meu filho. Hoje em dia, a gente precisa adaptar. Dizem que lá na China já estão em uma menina só!
5 de agosto de 2008
4 de agosto de 2008
Ressaca na praia
É chuva que cai sem se ver
Sol que queima e não se sente
Um rodopiamento inconsciente
É dor que desatina após beber
Sol que queima e não se sente
Um rodopiamento inconsciente
É dor que desatina após beber
3 de agosto de 2008
2 de agosto de 2008
Tombos
Apaixonar-se é como andar de bicicleta
Você nunca esquece como se faz
Mas, ainda assim, acaba levando alguns tombos
Você nunca esquece como se faz
Mas, ainda assim, acaba levando alguns tombos
1 de agosto de 2008
31 de julho de 2008
30 de julho de 2008
Retalhismo
Um corte daqui
Outro dali
Cenas apenas
Nada a mais
Nem a menos
Lampejos e surtos
Prosa e poesia
Tiros curtos
Outro dali
Cenas apenas
Nada a mais
Nem a menos
Lampejos e surtos
Prosa e poesia
Tiros curtos
29 de julho de 2008
Comer fora
- É assim todo dia, meu marido chega em casa com uma vontade. Não aguento mais.
- Melhor chegar com apetite do que chegar saciado.
- Melhor chegar com apetite do que chegar saciado.
28 de julho de 2008
27 de julho de 2008
26 de julho de 2008
Ameaça
Era um adepto da não-violência. Mas, percebendo a ineficácia do pacífico aviso de que aquilo era uma garagem e as pessoas não deviam estacionar bem em frente, produziu uma nova placa com os dizeres: "Não estacione. Sujeito a pneu furado".
Nunca mais teve problemas.
Nunca mais teve problemas.
25 de julho de 2008
24 de julho de 2008
Nascente
Nado contra a corrente
Todo rio de sujeira
Começa em um mar de gente
2008 - 18º Concurso de Poesias Helena Kolody - Secretaria de Estado da Cultura - Curitiba - PR;
2008 - 7º lugar no Concurso Internacional de Poetrix - Movimento Poetrix - Salvador - BA;
Publicada nas coletâneas de ambos os concursos
Todo rio de sujeira
Começa em um mar de gente
2008 - 18º Concurso de Poesias Helena Kolody - Secretaria de Estado da Cultura - Curitiba - PR;
2008 - 7º lugar no Concurso Internacional de Poetrix - Movimento Poetrix - Salvador - BA;
Publicada nas coletâneas de ambos os concursos
23 de julho de 2008
Apressado
Quando a mãe perguntou o que queria ser quando crescesse, ele não hesitou:
- Quero ser velho!
- Ué, você não queria ser advogado como seu pai?
- Isso antes de passar as férias na casa do vô. Agora, quando crescer, eu quero ser velho.
- Como assim, meu filho? Velho você vai ficar de qualquer jeito.
- Eu sei, mas o que eu quero é poder aproveitar a vida e relaxar.
A mãe fez cara de bronca e perguntou:
- Você sabe que seu avô passou anos trabalhando para poder descansar agora, não sabe?
- Sei sim. E ele disse que na época ele não sabia aproveitar a vida e que agora, que ele é mais experiente, se arrepende profundamente.
A mãe parou, refletiu e deu-se por vencida. No fundo ela sabia que o garoto estava mais certo do que errado e o mundo mais errado do que certo.
- Quero ser velho!
- Ué, você não queria ser advogado como seu pai?
- Isso antes de passar as férias na casa do vô. Agora, quando crescer, eu quero ser velho.
- Como assim, meu filho? Velho você vai ficar de qualquer jeito.
- Eu sei, mas o que eu quero é poder aproveitar a vida e relaxar.
A mãe fez cara de bronca e perguntou:
- Você sabe que seu avô passou anos trabalhando para poder descansar agora, não sabe?
- Sei sim. E ele disse que na época ele não sabia aproveitar a vida e que agora, que ele é mais experiente, se arrepende profundamente.
A mãe parou, refletiu e deu-se por vencida. No fundo ela sabia que o garoto estava mais certo do que errado e o mundo mais errado do que certo.
22 de julho de 2008
Janela para a lucidez
O muro de um sanatório gritava em vermelho:
O pior louco é aquele que não quer perder o controle
O pior louco é aquele que não quer perder o controle
21 de julho de 2008
Lua de Chesire
A lua, deitada no céu, sorri um sorriso minguado
Ela sabe que, por estas ruas enevoadas, durante a madrugada, encontrará apenas os bêbados e os loucos
Ela sabe que, por estas ruas enevoadas, durante a madrugada, encontrará apenas os bêbados e os loucos
20 de julho de 2008
19 de julho de 2008
Metamorfose
- Papai, de onde vêm os poetas?
- Quando um escritor perde a musa, ele se fecha em um casulo por um tempo e, quando sai, já virou poeta.
- Quando um escritor perde a musa, ele se fecha em um casulo por um tempo e, quando sai, já virou poeta.
18 de julho de 2008
17 de julho de 2008
Pouco exigente
O protagonista que aceita os moldes da história
Torna-se personagem incompleto
Figurante do próprio romance
Torna-se personagem incompleto
Figurante do próprio romance
16 de julho de 2008
Naturalmente, carnívoros
Como todo dia, na pia, o ritual pós-sacrifício acontecia: limpar as peles, cortar em filés, tiras ou cubos, temperar e cozinhar. Naquele dia em especial, em uma tábua de madeira, diante do altar, encontrava-se uma galinha caipira, com o pescoço torcido e ainda mantendo algumas penas.
O garoto, curioso, aproximou-se da cozinha e observou, com um pouco de nojo, a mãe manuseando aquele bicho. Ela arrancando penas, cortando a cabeça e tirando as peles. Quando reparou que ele estava ali, ele olhou para ela e perguntou:
- Mãe, o que é isso?
- Franguinho, filho!
- Então... É isso que é franguinho?
O garoto, curioso, aproximou-se da cozinha e observou, com um pouco de nojo, a mãe manuseando aquele bicho. Ela arrancando penas, cortando a cabeça e tirando as peles. Quando reparou que ele estava ali, ele olhou para ela e perguntou:
- Mãe, o que é isso?
- Franguinho, filho!
- Então... É isso que é franguinho?
15 de julho de 2008
Deportado
Ao ser mal tratado pelos agentes da imigração, percebeu, tardiamente
Le Monde
n'est pas
Diplomatique
Le Monde
n'est pas
Diplomatique
14 de julho de 2008
13 de julho de 2008
Causas
Em um muro de Curitiba, lia-se o seguinte protesto:
Carne é crime
Alguns dias depois, a resposta apareceu ao lado:
Fome é foda
Carne é crime
Alguns dias depois, a resposta apareceu ao lado:
Fome é foda
12 de julho de 2008
11 de julho de 2008
10 de julho de 2008
9 de julho de 2008
Cômodo
Estável em minha infelicidade, mudei-me para uma casa de apenas um cômodo
Era mais do que o suficiente para um acomodado
Era mais do que o suficiente para um acomodado
8 de julho de 2008
7 de julho de 2008
Parceiro
Depois de quinze minutos naquela mesa de bar, sem uma palavra sequer, ele contou:
- Ela me pediu um tempo.
- E o que você fez?
- Eu dei. Dei dois minutos...
Me olhou nos olhos, ameaçou sorrir, soltou o ar pelo nariz e continuou:
- Para ela juntar as coisas dela e sumir.
Virou o copo e pediu outra dose. Eu, como bom amigo, o acompanhei, da ira ao choro.
- Ela me pediu um tempo.
- E o que você fez?
- Eu dei. Dei dois minutos...
Me olhou nos olhos, ameaçou sorrir, soltou o ar pelo nariz e continuou:
- Para ela juntar as coisas dela e sumir.
Virou o copo e pediu outra dose. Eu, como bom amigo, o acompanhei, da ira ao choro.
6 de julho de 2008
Tempos pós-modernos
- Com o que você trabalha mesmo?
- Preocupo-me com detalhes que não fazem diferença.
- Que interessante, eu também.
- Preocupo-me com detalhes que não fazem diferença.
- Que interessante, eu também.
5 de julho de 2008
Visionários
Os donos do mundo sabem que o petróleo derivou-se de animais e vegetação soterrados
Pensando no futuro, matam, desmatam e encobrem
Pensando no futuro, matam, desmatam e encobrem
4 de julho de 2008
Labirinto
Costumava dizer que estava apenas experimentando, abrindo portas
Algum tempo depois, entre tantas portas, já não sabia mais por qual sair
Algum tempo depois, entre tantas portas, já não sabia mais por qual sair
3 de julho de 2008
Insanidade
Depois de um dia cansativo, dando suor e sangue no trabalho, ele sentou-se à sua poltrona, no meio da sala. Seu filho surgiu correndo pelo corredor, saltou sobre ele e lhe deu um abraço apertado. Ele, já sem forças, retribuiu com um beijo no rosto e disse para o filho que se sentasse ao chão para que pudesse prestar atenção no jornal.
Após uma notícia, o garoto ficou curioso e perguntou:
- Mas, pai, como é que as vacas ficaram loucas?
- Elas foram alimentadas com ração que continha carne de vaca e um monte de produtos químicos, daí elas ficaram doentes e enlouqueceram.
- Então as vacas que se alimentaram de vacas são chamadas de vacas loucas?
- Sim. Isso mesmo.
- E como é que são chamadas as pessoas que se alimentam de pessoas?
Após pensar um pouco no seu dia e no estado em que estava, ele respondeu:
- Ricos, meu filho. Nós chamamos de ricos.
Após uma notícia, o garoto ficou curioso e perguntou:
- Mas, pai, como é que as vacas ficaram loucas?
- Elas foram alimentadas com ração que continha carne de vaca e um monte de produtos químicos, daí elas ficaram doentes e enlouqueceram.
- Então as vacas que se alimentaram de vacas são chamadas de vacas loucas?
- Sim. Isso mesmo.
- E como é que são chamadas as pessoas que se alimentam de pessoas?
Após pensar um pouco no seu dia e no estado em que estava, ele respondeu:
- Ricos, meu filho. Nós chamamos de ricos.
2 de julho de 2008
1 de julho de 2008
30 de junho de 2008
Salsa
Dá de ombros como quem não quer nada
Mas, no momento seguinte, aproximamos os corpos, entrelaçamos as pernas e esbarramos os olhares
Mas, no momento seguinte, aproximamos os corpos, entrelaçamos as pernas e esbarramos os olhares
29 de junho de 2008
28 de junho de 2008
Sem ressaca
Na manhã seguinte, os olhos estavam com o tom amarelado da falta de sono
E com o brilho de que valeu a pena
E com o brilho de que valeu a pena
27 de junho de 2008
26 de junho de 2008
Insuspeito
Dentro do ônibus, foi arremessado ao chão após uma freada brusca. Algumas pessoas, solidárias, ajudaram-no a se levantar. Ele mal agradeceu e procurou um lugar onde pudesse segurar-se e permanecer em pé. Assim que se estabilizou, colocou as mãos no bolso e percebeu a ausência da carteira. Imediatamente, soltou o ar, bufando, extremamente nervoso, e, sem saber exatamente como agir, começou a observar e a pensar. Reconstituiu o momento da queda, cada detalhe e cada movimento. Repassou e fixou os olhos em cada rosto, como numa linha de reconhecimento de suspeitos. Falava para si mesmo:
- Foi aquele do cabelinho espetado e calça larga. Tem perfil de bandidinho, só pode ter sido. Ou então aquela crente, se fazendo de santa, mas sem um pingo de honestidade, deprimente. Pode ter sido o cobrador. Cobrador é sempre malandro, dando cantadas nas mães solteiras, enganando os turistas, não se salva um. Pode ter sido qualquer um, não boto minha mão no fogo por nenhum destes... destes... humanos.
Continuou sem ação e indignado até chegar a seu destino. Sentiu-se mal, mais pelas atitudes alheias do que pelo pouco dinheiro que carregava na carteira. Desceu do ônibus e prosseguiu apenas esmiuçando cada suspeito e contando a si mesmo a ficha criminal e os maus hábitos de cada um.
Após chegar em casa, encontrou a carteira escondida, devido ao medo de assalto, em um bolso interno da mochila. No ônibus, ninguém suspeitava do que se passava na cabeça daquele pobre sujeito que eles ajudaram a se levantar.
- Foi aquele do cabelinho espetado e calça larga. Tem perfil de bandidinho, só pode ter sido. Ou então aquela crente, se fazendo de santa, mas sem um pingo de honestidade, deprimente. Pode ter sido o cobrador. Cobrador é sempre malandro, dando cantadas nas mães solteiras, enganando os turistas, não se salva um. Pode ter sido qualquer um, não boto minha mão no fogo por nenhum destes... destes... humanos.
Continuou sem ação e indignado até chegar a seu destino. Sentiu-se mal, mais pelas atitudes alheias do que pelo pouco dinheiro que carregava na carteira. Desceu do ônibus e prosseguiu apenas esmiuçando cada suspeito e contando a si mesmo a ficha criminal e os maus hábitos de cada um.
Após chegar em casa, encontrou a carteira escondida, devido ao medo de assalto, em um bolso interno da mochila. No ônibus, ninguém suspeitava do que se passava na cabeça daquele pobre sujeito que eles ajudaram a se levantar.
25 de junho de 2008
Indecisão
Peguei o ônibus errado. Quando percebi, ao invés de sair, sentei. Até que era confortável.
Só me voltava a agonia quando eu olhava, através do vidro, e via: tudo que eu queria ficando para trás. Quanto mais tempo eu ficava ali, mais longe ficava meu destino. Escorri pelo vidro como a chuva. Mas, fiquei inerte, na cadeira para dois com uma vazia, não sei se por orgulho ou teimosia.
Uma hora, o motorista parou, levantou e disse:
- É o ponto final.
- Tenho mesmo que descer?
- Pode ficar aqui, mas vai ficar só.
Naquele dia, dormi na garagem. Senti um pouco de frio, mas, de resto, era bem cômodo.
Só me voltava a agonia quando eu olhava, através do vidro, e via: tudo que eu queria ficando para trás. Quanto mais tempo eu ficava ali, mais longe ficava meu destino. Escorri pelo vidro como a chuva. Mas, fiquei inerte, na cadeira para dois com uma vazia, não sei se por orgulho ou teimosia.
Uma hora, o motorista parou, levantou e disse:
- É o ponto final.
- Tenho mesmo que descer?
- Pode ficar aqui, mas vai ficar só.
Naquele dia, dormi na garagem. Senti um pouco de frio, mas, de resto, era bem cômodo.
24 de junho de 2008
23 de junho de 2008
22 de junho de 2008
Punição exemplar
Chamamos, ironicamente, de país da impunidade
Um lugar onde a maioria é punida, diariamente, pela falta de oportunidade
Um lugar onde a maioria é punida, diariamente, pela falta de oportunidade
21 de junho de 2008
20 de junho de 2008
19 de junho de 2008
Domador de demônios
Deito em minha cama e milhares de pequenos demônios infestam-me as idéias, o travesseiro e o canto escuro do quarto.
Ando cautelosamente até o som, ligo-o e volto para a cama; Com a música, ao menos, eles dançam.
Ando cautelosamente até o som, ligo-o e volto para a cama; Com a música, ao menos, eles dançam.
18 de junho de 2008
Cumplicidade
Depois de separados pelas circunstâncias, ao se encontrarem, trocavam um abraço e tocavam os rostos, para saber que estavam bem.
Ao menos isso ainda podiam. No mínimo, deviam.
Ao menos isso ainda podiam. No mínimo, deviam.
17 de junho de 2008
16 de junho de 2008
Os sonhos e a falta que eles fazem
Já sabiam, desde aquela manhã
Que nunca mais dormiriam separados
No sonho ou na saudade
Que nunca mais dormiriam separados
No sonho ou na saudade
14 de junho de 2008
Descuidado
Delicadas, em minhas mãos, não duram
Quebro todas, quase que sem querer
Antigamente, as coisas eram feitas para durar, sólidas
Hoje em dia, até as regras são frágeis
Quebro todas, quase que sem querer
Antigamente, as coisas eram feitas para durar, sólidas
Hoje em dia, até as regras são frágeis
13 de junho de 2008
12 de junho de 2008
11 de junho de 2008
Prós e contras
Não há lugar mais seguro do que uma cela
Não há paixão mais estável do que a contida
Não há lugar ao sol que não queime
Não há paixão mais estável do que a contida
Não há lugar ao sol que não queime
10 de junho de 2008
9 de junho de 2008
Contra o tempo
Explicou ao filho as coisas da vida e do tempo. Para facilitar, usou o relógio de exemplo:
- Aquele é o tempo, passando.
- Ele fica dando voltas?
- Nem sempre, às vezes passa correndo e nunca mais volta, por isso precisamos correr atrás do tempo.
No dia seguinte, após ficar horas observando o relógio enquanto o pai corria de um lado para o outro, o garoto retrucou:
- Você disse que a gente tem que correr atrás do tempo porque o tempo corre. Mas, ele tem uma perna bem maior que a outra, nem consegue correr. A gente é que tem que andar com mais calma... Para não deixar ele para trás.
- Aquele é o tempo, passando.
- Ele fica dando voltas?
- Nem sempre, às vezes passa correndo e nunca mais volta, por isso precisamos correr atrás do tempo.
No dia seguinte, após ficar horas observando o relógio enquanto o pai corria de um lado para o outro, o garoto retrucou:
- Você disse que a gente tem que correr atrás do tempo porque o tempo corre. Mas, ele tem uma perna bem maior que a outra, nem consegue correr. A gente é que tem que andar com mais calma... Para não deixar ele para trás.
8 de junho de 2008
Disputado
A faca pega em minha mão e acaricia meus pulsos
O lençol envolve-se em meu pescoço
E a sacada faz cócegas em meus pés
Mas, por fim, são as pílulas que me beijam a boca
O lençol envolve-se em meu pescoço
E a sacada faz cócegas em meus pés
Mas, por fim, são as pílulas que me beijam a boca
7 de junho de 2008
Virando o avesso
Viramos mais um copo de pinga antes de virar mais um assunto do avesso. Ela começou:
- Quando é bom demais, sempre acaba.
- Estranho isso, não é? Deve ser aquela coisa de parábola.
- Parábola de estória?
- Não. Bom... Sim, é sim. Estória em parábola, aquela curva que sobe e desce, tipo o arco-íris!
- Ahn?
- Arco-íris! Sai do chão, vai ao céu e volta... Mas sem pote de ouro no fim.
- Nem duendes?
- Nem ao menos uma fada.
- Triste.
Estabelecemos um minuto de silêncio. Depois de quinze segundos, continuei:
- É, mas pelo menos dá para tomar banho de chuva.
- Ahn?
- Arco-íris. Sol e chuva.
- Casamento de viúva.
- Chuva e sol, casamento de espanhol.
- Achei que ninguém lembrasse disso.
- Lembro até do pé de cachimbo.
- É. O buraco é fundo.
- Não acabou-se o mundo.
- Não mesmo. Bola para a frente.
- Que atrás vem gente.
- Essa tinha continuação?
- Acho que não.
- Vamos inventar?
- Como?
- Sei lá. Bola para frente que atrás vem gente. Gente é carente, confunde a mente. Mente é fraca...
Após uma breve pausa, continuei:
- Só consigo lembrar de cloaca.
Ela deu uma risada sonora e exclamou:
- Cloaca! Não ouvia isso desde os tempos do colégio.
- Cloaca não rola. Faca, vaca, maca, babaca.
- Mente é fraca... enche de craca.
- Nossa! Essa eu não ouvia desde quando eu estava aprendendo a tomar banho sozinho. Minha mãe vinha conferir se eu tinha lavado tudo direitinho e perguntava, parte por parte, "Lavou o joelhinho?", eu respondia "Ih! Esqueci!". Depois ela falava que eu estava cheio de craca, craquento.
Rimos, paramos e ficamos pensando. Ela voltou ao assunto:
- Mente é fraca... Por que fraca? Não dá para mudar o fraca?
- Dá. Gente é carente, confunde a mente. Mente é paranóica...
Novamente rindo, com um brilho nos olhos, ela respondeu:
- Aí fode com a rima.
- Rima com perestroika!
Ela gargalhou e eu, num estalo, continuei:
- Mente e se engana.
- Olha. Adoro quando você faz isso!
- Isso o quê?
- Brincar com as palavras.
Quase encostando o queixo no peito, suspirei. Ela perguntou:
- Ficou envergonhado?
- É.
- Seu besta. É um elogio.
- Eu sei. Mas...
Não terminei a frase. Não consegui nem formular. Respirei fundo e continuei:
- Vamos terminar. Com engana.
- Tomando cana!
- Cana é braba, tudo acaba!
- Perfeita, seu boêmio!
Eu sorri, ela continuou:
- Gostei do final, mas já esqueci o começo. Como é que ficou?
- Bola para frente
Que atrás vem gente
Gente é carente
Confunde a mente
Mente e se engana
Tomando cana
Cana é braba
Tudo se acaba!
- Fechou fudido!
Extasiados, pedimos mais uma dose.
- Quando é bom demais, sempre acaba.
- Estranho isso, não é? Deve ser aquela coisa de parábola.
- Parábola de estória?
- Não. Bom... Sim, é sim. Estória em parábola, aquela curva que sobe e desce, tipo o arco-íris!
- Ahn?
- Arco-íris! Sai do chão, vai ao céu e volta... Mas sem pote de ouro no fim.
- Nem duendes?
- Nem ao menos uma fada.
- Triste.
Estabelecemos um minuto de silêncio. Depois de quinze segundos, continuei:
- É, mas pelo menos dá para tomar banho de chuva.
- Ahn?
- Arco-íris. Sol e chuva.
- Casamento de viúva.
- Chuva e sol, casamento de espanhol.
- Achei que ninguém lembrasse disso.
- Lembro até do pé de cachimbo.
- É. O buraco é fundo.
- Não acabou-se o mundo.
- Não mesmo. Bola para a frente.
- Que atrás vem gente.
- Essa tinha continuação?
- Acho que não.
- Vamos inventar?
- Como?
- Sei lá. Bola para frente que atrás vem gente. Gente é carente, confunde a mente. Mente é fraca...
Após uma breve pausa, continuei:
- Só consigo lembrar de cloaca.
Ela deu uma risada sonora e exclamou:
- Cloaca! Não ouvia isso desde os tempos do colégio.
- Cloaca não rola. Faca, vaca, maca, babaca.
- Mente é fraca... enche de craca.
- Nossa! Essa eu não ouvia desde quando eu estava aprendendo a tomar banho sozinho. Minha mãe vinha conferir se eu tinha lavado tudo direitinho e perguntava, parte por parte, "Lavou o joelhinho?", eu respondia "Ih! Esqueci!". Depois ela falava que eu estava cheio de craca, craquento.
Rimos, paramos e ficamos pensando. Ela voltou ao assunto:
- Mente é fraca... Por que fraca? Não dá para mudar o fraca?
- Dá. Gente é carente, confunde a mente. Mente é paranóica...
Novamente rindo, com um brilho nos olhos, ela respondeu:
- Aí fode com a rima.
- Rima com perestroika!
Ela gargalhou e eu, num estalo, continuei:
- Mente e se engana.
- Olha. Adoro quando você faz isso!
- Isso o quê?
- Brincar com as palavras.
Quase encostando o queixo no peito, suspirei. Ela perguntou:
- Ficou envergonhado?
- É.
- Seu besta. É um elogio.
- Eu sei. Mas...
Não terminei a frase. Não consegui nem formular. Respirei fundo e continuei:
- Vamos terminar. Com engana.
- Tomando cana!
- Cana é braba, tudo acaba!
- Perfeita, seu boêmio!
Eu sorri, ela continuou:
- Gostei do final, mas já esqueci o começo. Como é que ficou?
- Bola para frente
Que atrás vem gente
Gente é carente
Confunde a mente
Mente e se engana
Tomando cana
Cana é braba
Tudo se acaba!
- Fechou fudido!
Extasiados, pedimos mais uma dose.
6 de junho de 2008
5 de junho de 2008
Desejo negado
O isqueiro acende a chama
Ilumina o olhar
Mas fica na vontade
Nem ao menos chega perto
Do calor da boca
Ilumina o olhar
Mas fica na vontade
Nem ao menos chega perto
Do calor da boca
4 de junho de 2008
Solução
Entediado, reparava nos detalhes verde-mofo da rotina, cartas marcadas
Inspirado, embaralhou-as com algumas lembranças avermelhadas
Debaixo do céu azul e com folhas no chão, amareladas, fez do outono primavera
Inspirado, embaralhou-as com algumas lembranças avermelhadas
Debaixo do céu azul e com folhas no chão, amareladas, fez do outono primavera
3 de junho de 2008
Peso
- É sempre assim, só damos valor quando perdemos.
- Não generalize! Eu, por exemplo, dou valor quando tenho.
- E quando perde?
- Sinto muita falta.
- Não generalize! Eu, por exemplo, dou valor quando tenho.
- E quando perde?
- Sinto muita falta.
2 de junho de 2008
Dar um tempo
- Não acha que a gente deve dar um tempo?
- Eu não.
- Mas por que?
- Sou egoísta com o tempo. Quero o meu inteiro, por completo e muito bem aproveitado!
- Eu não.
- Mas por que?
- Sou egoísta com o tempo. Quero o meu inteiro, por completo e muito bem aproveitado!
1 de junho de 2008
Livro sem capa
Hoje sinto-me assim
Um livro sem capa
Páginas desgastadas
Amareladas, amassadas
Jogadas no lixo
Um livro sem capa
Páginas desgastadas
Amareladas, amassadas
Jogadas no lixo
31 de maio de 2008
30 de maio de 2008
Ponto cego
Por anos, esteve diante da mais delicada das borboletas
Infelizmente, de onde estava, via apenas o casulo
Infelizmente, de onde estava, via apenas o casulo
29 de maio de 2008
Sorriso só
Tomou uma injeção de ânimo. O coração disparou e os olhos brilharam. Tremeu de tanta alegria.
A diarista encontrou o corpo três dias depois.
- Ele sorria... - Disse ela, angustiada.
A diarista encontrou o corpo três dias depois.
- Ele sorria... - Disse ela, angustiada.
28 de maio de 2008
Twist
Foge de mim como quem dança
Quando mal tocamos as pontas dos dedos, enrola-se de volta em meus braços e sorri
Quando mal tocamos as pontas dos dedos, enrola-se de volta em meus braços e sorri
27 de maio de 2008
Alheio
Mal sabia que seu trabalho fazia dignos apenas aqueles que colhiam os frutos de seu esforço
Sádico e bem treinado, agradecia a oportunidade
Sádico e bem treinado, agradecia a oportunidade
26 de maio de 2008
Espaço
- Eu preencho meus dias com ela.
- E quando ela vai embora você fica com um buraco, vazio.
- Não é que eu fique vazio, eu guardo espaço para quando ela voltar.
- E quando ela vai embora você fica com um buraco, vazio.
- Não é que eu fique vazio, eu guardo espaço para quando ela voltar.
20 de maio de 2008
Carpe
As medidas do tempo
São todas convenções
Autoritárias decisões
Mas é com a intensidade
Sem nenhuma autoridade
Que se mede
Na medida do possível
As imensuráveis paixões
São todas convenções
Autoritárias decisões
Mas é com a intensidade
Sem nenhuma autoridade
Que se mede
Na medida do possível
As imensuráveis paixões
19 de maio de 2008
18 de maio de 2008
Revertendo
Quando o caso é sério
E a coisa esquenta
Ninguém se aguenta
Todos saem do sério
Quando o caso esquenta
E tem raiz profunda
Muito injustamente
Diz-se à flor da pele
Com tudo invertido
Neste mundo estranho
Entro em um espelho
E vou me aconchegando
E a coisa esquenta
Ninguém se aguenta
Todos saem do sério
Quando o caso esquenta
E tem raiz profunda
Muito injustamente
Diz-se à flor da pele
Com tudo invertido
Neste mundo estranho
Entro em um espelho
E vou me aconchegando
17 de maio de 2008
16 de maio de 2008
Pluma
Se fico com pé atrás
É só pra me dar impulso
E o passo
Maior que a perna
Costumo chamar de salto
Prefiro voar
E cair
A nunca ter me sentido
Mais leve que o próprio ar
É só pra me dar impulso
E o passo
Maior que a perna
Costumo chamar de salto
Prefiro voar
E cair
A nunca ter me sentido
Mais leve que o próprio ar
15 de maio de 2008
Sutil
Cantarolando, colheu do chão uma flor cheia de pétalas. Delicadamente, retirando pétala por pétala, começou a falar, entre sorrisos e suspiros:
- Bem me quer... Bem me quer! Bem me quer... Bem me quer!
Um amigo um tanto sem sal, e totalmente sem açúcar, interrompeu:
- Não! Não é assim!
Ao que ele respondeu:
- Você só diz isso porque você não conhece ela!
E continuou sorrindo.
- Bem me quer... Bem me quer! Bem me quer... Bem me quer!
Um amigo um tanto sem sal, e totalmente sem açúcar, interrompeu:
- Não! Não é assim!
Ao que ele respondeu:
- Você só diz isso porque você não conhece ela!
E continuou sorrindo.
14 de maio de 2008
O mal do bom
O único sofrimento que tratava como alheio era o seu próprio
Talvez nunca fosse feliz de verdade por causa disso
Mas, pensando por outro lado, nunca seria triste
Talvez nunca fosse feliz de verdade por causa disso
Mas, pensando por outro lado, nunca seria triste
13 de maio de 2008
Ingrato
Vestiu o terno da indiferença, os óculos escuros do desprezo e subiu o vidro da intolerância.
Após realizar o ritual diário, rumou pelo meio daquela gente, que ele sempre desdenhou, para onde aquela mesma gente, que pagava seu salário, o colocou.
Após realizar o ritual diário, rumou pelo meio daquela gente, que ele sempre desdenhou, para onde aquela mesma gente, que pagava seu salário, o colocou.
12 de maio de 2008
11 de maio de 2008
Experiência
Ao pararem em um semáforo, ao lado de uma carroça puxada por um burro, o garoto ficou observando o animal, questionou-se por alguns momentos e decidiu perguntar:
- Vovô, qual o nome desse negócio que tapa a visão dos burros?
Sem nem ter visto o burro, o avô respondeu, com precisão:
- Preconceito, meu querido. Preconceito.
- Vovô, qual o nome desse negócio que tapa a visão dos burros?
Sem nem ter visto o burro, o avô respondeu, com precisão:
- Preconceito, meu querido. Preconceito.
8 de maio de 2008
Despedida
- Hoje tem a despedida do Paulo.
- Ah é? Ele vai para onde?
- Já foi.
- Sério? Ele nem me disse tchau.
- Não disse para ninguém. Ele foi assim, de repente.
Abraçaram-se e choraram.
- Ah é? Ele vai para onde?
- Já foi.
- Sério? Ele nem me disse tchau.
- Não disse para ninguém. Ele foi assim, de repente.
Abraçaram-se e choraram.
7 de maio de 2008
6 de maio de 2008
5 de maio de 2008
Planos e Mecas
Decididos a viajar e indecisos quanto ao lugar, mas muito objetivos, estabeleceram que cada cidade do mundo seria uma Meca, meta. Passaram a visitá-las, aos poucos, uma a uma.
Faziam planos e viviam sonhos.
Faziam planos e viviam sonhos.
4 de maio de 2008
Apreensão
Entrou chutando a porta, seguido pelos comparsas, e disse:
- Pelo pó viemos. E com o pó retornaremos.
- Pelo pó viemos. E com o pó retornaremos.
3 de maio de 2008
2 de maio de 2008
Silêncio
Dizem as más línguas
As boas calam, se abraçam
2010 - 19º Prêmio Rocha Moutounée - Secretaria de Cultura - Salto - SP;
Será publicada na coletânea do concurso
As boas calam, se abraçam
2010 - 19º Prêmio Rocha Moutounée - Secretaria de Cultura - Salto - SP;
Será publicada na coletânea do concurso
1 de maio de 2008
30 de abril de 2008
Arte sem vida
A poesia é arte vivida.
Defini-la como coisa escrita é como limitar a música à letra ou à cifra. É separar o corpo da alma, um assassinato, separar a arte da vida.
Defini-la como coisa escrita é como limitar a música à letra ou à cifra. É separar o corpo da alma, um assassinato, separar a arte da vida.
29 de abril de 2008
Angustiado
Eu estava conversando com ela naquele quarto vazio. Uma porta, um sofá e nós dois. Uma lâmpada no centro, fraca, escorrendo pelas paredes amareladas até o piso de madeira.
O assunto da conversa: qualquer um, nenhum, não lembro. Só lembro que a luz foi ficando fraca, começou a falhar e a escorrer de volta para a lâmpada, e a sala foi ficando escura. Ela então disse:
- O clima está ruim aqui. Uma energia ruim.
Naquele cenário macabro, apenas a luz da rua, ou da lua, atravessando a janela, iluminava a parede amarela às costas dela. Ela já não estava mais iluminada. Sombras finas e tortuosas, de alguns galhos lá de fora, formavam-se às suas costas enquanto uma sombra maior lhe cobria o rosto. Eu não conseguia mais notar nenhum detalhe. Rosto, boca, nariz e olhos, todos fundidos em uma sombra, inerte, imóvel, muda.
Tentei tocá-la, mas tive medo, já não a reconhecia mais naquela silhueta. Tentei falar algo, não consegui. Levantei angustiado. Peguei o telefone e pensei em ligar para ela, desisti quando vi a hora. Não consegui dormir de novo.
O assunto da conversa: qualquer um, nenhum, não lembro. Só lembro que a luz foi ficando fraca, começou a falhar e a escorrer de volta para a lâmpada, e a sala foi ficando escura. Ela então disse:
- O clima está ruim aqui. Uma energia ruim.
Naquele cenário macabro, apenas a luz da rua, ou da lua, atravessando a janela, iluminava a parede amarela às costas dela. Ela já não estava mais iluminada. Sombras finas e tortuosas, de alguns galhos lá de fora, formavam-se às suas costas enquanto uma sombra maior lhe cobria o rosto. Eu não conseguia mais notar nenhum detalhe. Rosto, boca, nariz e olhos, todos fundidos em uma sombra, inerte, imóvel, muda.
Tentei tocá-la, mas tive medo, já não a reconhecia mais naquela silhueta. Tentei falar algo, não consegui. Levantei angustiado. Peguei o telefone e pensei em ligar para ela, desisti quando vi a hora. Não consegui dormir de novo.
28 de abril de 2008
Aliviado
Puxou o ar, para espairar, e soltou aliviado. Sentiu como se há muito tempo não tivesse respirado, inspirado.
Dissipou a neblina que lhe cobriu o mundo e deu um passo atrás. Dali, aliviado, olhou para a própria vida e esboçou um sorriso no canto da boca.
Dissipou a neblina que lhe cobriu o mundo e deu um passo atrás. Dali, aliviado, olhou para a própria vida e esboçou um sorriso no canto da boca.
27 de abril de 2008
Floreado
Viviam, se é que dava para chamar aquilo de viver, em um mundo de violência, de insanidade e sem clemência. Neste mundo invertido, tapa virou carinho e, das flores, aproveitava-se apenas os espinhos.
As pessoas nunca sorriam e nunca choravam. Não se sabe ao certo se sentiam algo, mas ninguém importava-se com isso, sentimentos alheios eram realmente alheios. Viviam de muitos tapas e poucos beijos, muito empurrão e pouco abraço, muitos gritos e poucos suspiros. Carinho de verdade, só por conveniência, nos breves lapsos de inocência.
Mas havia um sujeito que vivia com um sorriso permanente. Ele parecia estar alheio, avoado. Esqueceu de acompanhar o fluxo. Os olhares curiosos o acompanhavam e perguntavam-se sobre a existência de um motivo para sorrir. Naquele mundo, o sorriso e muitos pequenos prazeres eram considerados mitos, lendas urbanas . As pessoas comentavam nas rodas de amigos: "um amigo do vizinho do meu primo disse que rolou no chão de tanto rir", "eu tenho uma tia que disse que trocou olhares e sorrisos com um sujeito, olhares nos olhos!". Os ouvintes das mesas de bar ficavam sempre entre curiosos e incrédulos, esperançosos e céticos. Entretanto, quem via o sorriso daquele sujeito sentia-se um pouco inquieto e via-se, pela primeira vez, pensando no sentimento alheio.
Um dia resolveram questionar o motivo de tal sorriso. E o sujeito sorridente contou a todos o seu segredo. Há tempos havia encontrado uma rosa, sem espinhos, e que, ao cuidar dela com todo carinho, sentia-se, ao mesmo tempo, sendo cuidado. Sentia-se encantado por aquela flor que, além de não fazê-lo sentir-se incomodado, o fazia sorrir.
Na primavera daquele ano, os que se sentiram tocados, cada vez multiplicados, floresceram os sorrisos e florearam o mundo afora.
As pessoas nunca sorriam e nunca choravam. Não se sabe ao certo se sentiam algo, mas ninguém importava-se com isso, sentimentos alheios eram realmente alheios. Viviam de muitos tapas e poucos beijos, muito empurrão e pouco abraço, muitos gritos e poucos suspiros. Carinho de verdade, só por conveniência, nos breves lapsos de inocência.
Mas havia um sujeito que vivia com um sorriso permanente. Ele parecia estar alheio, avoado. Esqueceu de acompanhar o fluxo. Os olhares curiosos o acompanhavam e perguntavam-se sobre a existência de um motivo para sorrir. Naquele mundo, o sorriso e muitos pequenos prazeres eram considerados mitos, lendas urbanas . As pessoas comentavam nas rodas de amigos: "um amigo do vizinho do meu primo disse que rolou no chão de tanto rir", "eu tenho uma tia que disse que trocou olhares e sorrisos com um sujeito, olhares nos olhos!". Os ouvintes das mesas de bar ficavam sempre entre curiosos e incrédulos, esperançosos e céticos. Entretanto, quem via o sorriso daquele sujeito sentia-se um pouco inquieto e via-se, pela primeira vez, pensando no sentimento alheio.
Um dia resolveram questionar o motivo de tal sorriso. E o sujeito sorridente contou a todos o seu segredo. Há tempos havia encontrado uma rosa, sem espinhos, e que, ao cuidar dela com todo carinho, sentia-se, ao mesmo tempo, sendo cuidado. Sentia-se encantado por aquela flor que, além de não fazê-lo sentir-se incomodado, o fazia sorrir.
Na primavera daquele ano, os que se sentiram tocados, cada vez multiplicados, floresceram os sorrisos e florearam o mundo afora.
26 de abril de 2008
Revolvendo
O mal resolvido
Revolve-se
Embrulha o estômago
E aperta o pescoço
Comprime os ombros
Com o peso da insegurança
Liquefaz, no fundo dos olhos
A esperança
Escorre
Os lábios consolam-se
E as mãos, medrosas
Agarram-se
Seguimos inseguros
Caminhando sem dar um passo
Na inércia de um abraço
Revolve-se
Embrulha o estômago
E aperta o pescoço
Comprime os ombros
Com o peso da insegurança
Liquefaz, no fundo dos olhos
A esperança
Escorre
Os lábios consolam-se
E as mãos, medrosas
Agarram-se
Seguimos inseguros
Caminhando sem dar um passo
Na inércia de um abraço
25 de abril de 2008
Envolvente
Envolvo
Dou nó e laço
Braços de polvo
Beijo e abraço
Neste retrato
Que logo faço
Eu sou contorno
Ela é o traço
Dou nó e laço
Braços de polvo
Beijo e abraço
Neste retrato
Que logo faço
Eu sou contorno
Ela é o traço
24 de abril de 2008
Dissolvido
Derreteu-se por ela como picolé.
Grudento e melado, acabou sendo descartado.
Desfez-se em uma poça de lágrimas, liquidado.
Grudento e melado, acabou sendo descartado.
Desfez-se em uma poça de lágrimas, liquidado.
23 de abril de 2008
22 de abril de 2008
Caras e bicos
Fazendo charme, ela comentou:
- Você me cansa com estes elogios baratos.
Nitidamente chateado, emburrado, ele respondeu:
- Para você, eles eram de graça.
Por aquele olhar e aquele bico, ela soube que o comentário custaria caro.
- Você me cansa com estes elogios baratos.
Nitidamente chateado, emburrado, ele respondeu:
- Para você, eles eram de graça.
Por aquele olhar e aquele bico, ela soube que o comentário custaria caro.
20 de abril de 2008
Subsídios subversivos
A crise da produção de alimentos, uma crise anunciada e, agora, deflagrada.
E todos ficam tensos, ricos e pobres. Se falta comida, pobre passa fome. Se pobre passa fome, rico passa medo. Os jornais reforçam o clima, apontam os culpados com base em estudos do banco mundial e da ONU, departamentos do marketing institucional das nações ricas.
O que ninguém fala, ninguém nem ousa, é que a culpa é, em grande parte, como a de todos os grandes problemas do mundo, dos mesmos que apontam culpados. Não são os países pobres que oferecem subsídios agrícolas subversivos em relação ao livre mercado e a qualquer tipo de equilíbrio internacional. Os subsídios terroristas, que dizimam populações inteiras, a maior praga das lavouras dos países pobres.
E o ricos secam o poço do vizinho pobre e depois vêm dizer que, se falta grama para todo o gado, a culpa é do vizinho, com gramado seco e amarelado.
E todos ficam tensos, ricos e pobres. Se falta comida, pobre passa fome. Se pobre passa fome, rico passa medo. Os jornais reforçam o clima, apontam os culpados com base em estudos do banco mundial e da ONU, departamentos do marketing institucional das nações ricas.
O que ninguém fala, ninguém nem ousa, é que a culpa é, em grande parte, como a de todos os grandes problemas do mundo, dos mesmos que apontam culpados. Não são os países pobres que oferecem subsídios agrícolas subversivos em relação ao livre mercado e a qualquer tipo de equilíbrio internacional. Os subsídios terroristas, que dizimam populações inteiras, a maior praga das lavouras dos países pobres.
E o ricos secam o poço do vizinho pobre e depois vêm dizer que, se falta grama para todo o gado, a culpa é do vizinho, com gramado seco e amarelado.
19 de abril de 2008
De nada adianta
A enfermeira entrou no quarto e disse, cautelosamente:
- Você precisa assinar a autorização.
O choro, contido, escapou em um impulso.
- Não tem outro jeito?
- Ele não está respondendo a nenhum tratamento, nenhum estímulo.
- Mas...
Outro impulso levou a voz e trouxe as lágrimas. A enfermeira aproximou-se e, em um gesto de solidariedade, pousou a mão sobre os ombros desconsolados.
Após pegar de volta a autorização, com assinatura em tinta e autenticação em lágrimas, a enfermeira disse:
- Se você quiser despedir-se, podemos aguardar.
- Não quero!
Disse, decidida, enquanto esfregava as lágrimas e completou:
- De nada adianta, não agora.
A enfermeira acompanhou-a para fora da sala.
Eu, ali deitado, ouvi tudo. Mas fiquei inerte, fingindo-me de morto.
- Você precisa assinar a autorização.
O choro, contido, escapou em um impulso.
- Não tem outro jeito?
- Ele não está respondendo a nenhum tratamento, nenhum estímulo.
- Mas...
Outro impulso levou a voz e trouxe as lágrimas. A enfermeira aproximou-se e, em um gesto de solidariedade, pousou a mão sobre os ombros desconsolados.
Após pegar de volta a autorização, com assinatura em tinta e autenticação em lágrimas, a enfermeira disse:
- Se você quiser despedir-se, podemos aguardar.
- Não quero!
Disse, decidida, enquanto esfregava as lágrimas e completou:
- De nada adianta, não agora.
A enfermeira acompanhou-a para fora da sala.
Eu, ali deitado, ouvi tudo. Mas fiquei inerte, fingindo-me de morto.
18 de abril de 2008
Vendo-me
Rendo-me a esta situação deplorável.
Entrego-me a este sujeito desprezível.
Deixo-me levar como cadela afável.
E vendo-me, no espelho, ajeito batom e rímel.
Entrego-me a este sujeito desprezível.
Deixo-me levar como cadela afável.
E vendo-me, no espelho, ajeito batom e rímel.
17 de abril de 2008
Tragédia paulistana
Há muito tempo, no Paraíso, conheceu a mulher que viria a ser sua esposa.
Após vários anos de casado, desgastado, encontrava a amante na Consolação.
Atualmente, intercala finais de semana. Em uns, pode passear com os filhos pela Liberdade. Nos outros, segue sozinho, caminhando sem rumo.
Após vários anos de casado, desgastado, encontrava a amante na Consolação.
Atualmente, intercala finais de semana. Em uns, pode passear com os filhos pela Liberdade. Nos outros, segue sozinho, caminhando sem rumo.
16 de abril de 2008
Adaptação
Que bicho é esse? - Indaguei-me em pensamento.
Olhei mais de perto. Patas, antenas, redonda e com bolinhas, só podia ser uma joaninha. Mas, quem diria, uma joaninha preta e branca.
Deve ser por causa da poluição, não há outra explicação. É uma adaptação, que alguns ousam chamar de evolução. Neste mundo cinza, em que até as pessoas perdem a cor, nem as joaninhas são poupadas.
Olhei mais de perto. Patas, antenas, redonda e com bolinhas, só podia ser uma joaninha. Mas, quem diria, uma joaninha preta e branca.
Deve ser por causa da poluição, não há outra explicação. É uma adaptação, que alguns ousam chamar de evolução. Neste mundo cinza, em que até as pessoas perdem a cor, nem as joaninhas são poupadas.
15 de abril de 2008
Decepções
A camisa que melhor lhe servia, encolheu depois de lavada. O sapato que não machucava o pé, não tinham mais nem em estoque. A bolacha que mais adorava, parou de ser fabricada. A árvore na qual se pendurava, o vento levou. A casa onde passou a infância, demoliram para construir um prédio.
Mas, sem dúvida, a maior decepção foi que o único amor que tinha, nunca pôde ter.
Mas, sem dúvida, a maior decepção foi que o único amor que tinha, nunca pôde ter.
6 de abril de 2008
5 de abril de 2008
Mantinha
Voltaram para casa antes de todo mundo e sentaram-se à varanda. Os planos eram outros, mas a mãe dela deixava a casa trancada, para evitar aquilo mesmo que os dois pretendiam fazer.
Com frio, ela buscou uma mantinha no varal, cobriu-se e sentou-se no colo dele. Meia hora depois, eles nem ouviram o barulho do portão. A mãe dela parou na frente da porta da sala e, enquanto procurava a chave, perguntou:
- Faz tempo que vocês estão aí?
- Não, Mãe. Chegamos... Há uns... 10 minutos. - respondeu ela, pausadamente.
- Você está tremendo, está com tanto frio assim?
Neste momento, ela aproximou-se e tocou a testa da filha com as costas da mão.
- Você deve estar com um pouco de febre, vou entrar e preparar um chá para você.
A outra mão dela encontrou a chave na bolsa e abriu a porta. Lá de dentro ela falou:
- Vocês não vão entrar?
- Vamos... Ficar mais um pouquinho.
- Então vou deixar a água esquentando e vou dormir. Boa noite. E nada de safadeza, vocês dois. Aqui na minha casa! - Completou a fala com uma gargalhada de quem sabia que não desafiariam sua autoridade.
Por baixo da manta, ela se contorcia de tensão. Ele, de prazer.
Com frio, ela buscou uma mantinha no varal, cobriu-se e sentou-se no colo dele. Meia hora depois, eles nem ouviram o barulho do portão. A mãe dela parou na frente da porta da sala e, enquanto procurava a chave, perguntou:
- Faz tempo que vocês estão aí?
- Não, Mãe. Chegamos... Há uns... 10 minutos. - respondeu ela, pausadamente.
- Você está tremendo, está com tanto frio assim?
Neste momento, ela aproximou-se e tocou a testa da filha com as costas da mão.
- Você deve estar com um pouco de febre, vou entrar e preparar um chá para você.
A outra mão dela encontrou a chave na bolsa e abriu a porta. Lá de dentro ela falou:
- Vocês não vão entrar?
- Vamos... Ficar mais um pouquinho.
- Então vou deixar a água esquentando e vou dormir. Boa noite. E nada de safadeza, vocês dois. Aqui na minha casa! - Completou a fala com uma gargalhada de quem sabia que não desafiariam sua autoridade.
Por baixo da manta, ela se contorcia de tensão. Ele, de prazer.
4 de abril de 2008
Ao cair da noite
- Eu derrubei o sol. Para que você pudesse ver as estrelas.
Foi o que disse o primeiro apaixonado, à primeira musa, no primeiro pôr-do-sol.
Foi o que disse o primeiro apaixonado, à primeira musa, no primeiro pôr-do-sol.
3 de abril de 2008
2 de abril de 2008
Podando pela raiz
As luzes do carrossel e o som do sanfoneiro não deixavam dúvida, a cidade estava em festa. As crianças no tromba-tromba, os casais na roda-gigante e as senhoras na varanda da casa da dona Maria, observando tudo e comentando sobre aquela pouca vergonha. Tudo estava bem até que a briga começou. E a briga foi feia, sobrou soco para todo lado. Os dois se empurravam e se chutavam, se seguravam e se socavam. Rolaram pela lama e nem a turma do deixa disso conseguia separá-los.
João Sem Braço, sujeito sempre indeciso, abriu caminho na roda para ver o que é que acontecia. Quando viu seus dois amigos, lutando como leões, como era de se esperar, não soube o que fazer. Pensou em deixá-los brigando, uma hora se cansariam, cairiam para o lado, se abraçariam e fariam as pazes.
Mas João achou que estava errado quando Maneco pegou a faca. E teve certeza quando Caetano não hesitou em empunhar o bico de uma garrafa quebrada. Pela primeira vez na vida, João tomou uma decisão. Não pensou duas vezes, sacou a pistola e apertou o gatilho. Foi um tiro só, preciso.
Após um breve silêncio, só ouviu-se o último suspiro de Sara, caída no meio da roda, envolta em manto de sangue. A briga acabou.
João Sem Braço, sujeito sempre indeciso, abriu caminho na roda para ver o que é que acontecia. Quando viu seus dois amigos, lutando como leões, como era de se esperar, não soube o que fazer. Pensou em deixá-los brigando, uma hora se cansariam, cairiam para o lado, se abraçariam e fariam as pazes.
Mas João achou que estava errado quando Maneco pegou a faca. E teve certeza quando Caetano não hesitou em empunhar o bico de uma garrafa quebrada. Pela primeira vez na vida, João tomou uma decisão. Não pensou duas vezes, sacou a pistola e apertou o gatilho. Foi um tiro só, preciso.
Após um breve silêncio, só ouviu-se o último suspiro de Sara, caída no meio da roda, envolta em manto de sangue. A briga acabou.
1 de abril de 2008
Ditadura do silêncio
No país da impunidade, faz-se exceção à Lei do Silêncio, a única respeitada e temida.
Quem cala, contente. E os que ousam desafiar a lei, arruaceiros, sofrem as punições.
Quem cala, contente. E os que ousam desafiar a lei, arruaceiros, sofrem as punições.
31 de março de 2008
Vazia
Entre o chão e a nuvem
Chuva
Chuva em movimento
Vento
Vento um tanto brando
Brisa
Sem visão nenhuma
Bruma
Entre o mar e a bruma
Espuma
Sobre nuvem e chão
Mar e visão
Nessa praia vazia
Poesia
Chuva
Chuva em movimento
Vento
Vento um tanto brando
Brisa
Sem visão nenhuma
Bruma
Entre o mar e a bruma
Espuma
Sobre nuvem e chão
Mar e visão
Nessa praia vazia
Poesia
30 de março de 2008
Mar de nãos
Saudades é o sentimento de impotência que sentimos diante do mar de nãos que se coloca entre os nossos sins.
28 de março de 2008
27 de março de 2008
Desfigurado
Desceu daquele ônibus lambendo cada degrau com os pés. Sentiu o gosto quente do asfalto em sol a pino. Percorreu a praça dedilhando o aroma das flores enquanto o canto dos pássaros massageava suas pernas cansadas. Viu o toque do sino indo em sua direção, por todos os lados, ecoando pela catedral. Ouviu cada detalhe do que queria dizer cada escultura do museu. Deu voltas pela cidade em um cavalo branco e uma charrete tinta, amadeirada, com toques frutais e final suave.
Ao final do dia, ouviu o sol tombar no horizonte e, apesar do cheiro de chuva, não sentiu o gosto das nuvens. Durante a noite, todas as luzes eram artificiais, mas as sombras, caridosas, acolheram-no em suas camas e o cobriram com o sangue quente do jornal popular. Apesar do barulho dos tiros, zunindo a cada página e alojando-se em seu tímpano, dormiu.
No dia seguinte, acordou sendo lambido pelo sol, áspero, e continuou sua saga. Pegou o trem dos trilhos de pedra, de volta para Metáfora, ali do ladinho, logo depois de Eufemismo.
Ao final do dia, ouviu o sol tombar no horizonte e, apesar do cheiro de chuva, não sentiu o gosto das nuvens. Durante a noite, todas as luzes eram artificiais, mas as sombras, caridosas, acolheram-no em suas camas e o cobriram com o sangue quente do jornal popular. Apesar do barulho dos tiros, zunindo a cada página e alojando-se em seu tímpano, dormiu.
No dia seguinte, acordou sendo lambido pelo sol, áspero, e continuou sua saga. Pegou o trem dos trilhos de pedra, de volta para Metáfora, ali do ladinho, logo depois de Eufemismo.
26 de março de 2008
Felicidade ao alcance das mãos
Descobriu, do alto do meio-fio, pela janela das cidades, a felicidade. Partiu em busca daquele ideal, irreal, vitrine do mundo paralelo. Nem tudo deu certo, mas chegou bem perto.
A felicidade ficou ao alcance de suas mãos. Seu primeiro emprego, função: empacotador da felicidade alheia.
A felicidade ficou ao alcance de suas mãos. Seu primeiro emprego, função: empacotador da felicidade alheia.
25 de março de 2008
Sincero
- Oi, meu amor, estava com saudades?
- Seu, seu irresponsável! Vai viajar e demora dois dias para me ligar. Eu estava aqui, preocupada, achando que tinham sofrido um acidente, ficado parados na estrada. Ou pior.
- Desculpa. É que o celular está sem sinal e é bem difícil encontrar um telefone funcionando por aqui.
- Hum.
- Me desculpe, meu amor.
- Tudo bem. Está desculpado, mas não pense que isso vai sair barato.
- Eu compenso na volta, prometo.
- Hum, vou cobrar... Mas, então, me conte como está a pescaria.
- Não estamos conseguindo pescar nada, o rio está cheio de piranhas.
- Ah! Que azar, meu bem.
- É, mas estamos conseguindo aproveitar.
- Que bom, aproveite mesmo. E trate de voltar logo, estou morrendo de saudades.
- Eu também estou. Mas tenho que desligar. Amo você. Beijos.
- Também te amo. Beijos. Até logo.
- Até.
- Ei! Jorge, fala para essas piranhas saírem da água. Não estou pagando para elas ficarem se divertindo no rio.
- Seu, seu irresponsável! Vai viajar e demora dois dias para me ligar. Eu estava aqui, preocupada, achando que tinham sofrido um acidente, ficado parados na estrada. Ou pior.
- Desculpa. É que o celular está sem sinal e é bem difícil encontrar um telefone funcionando por aqui.
- Hum.
- Me desculpe, meu amor.
- Tudo bem. Está desculpado, mas não pense que isso vai sair barato.
- Eu compenso na volta, prometo.
- Hum, vou cobrar... Mas, então, me conte como está a pescaria.
- Não estamos conseguindo pescar nada, o rio está cheio de piranhas.
- Ah! Que azar, meu bem.
- É, mas estamos conseguindo aproveitar.
- Que bom, aproveite mesmo. E trate de voltar logo, estou morrendo de saudades.
- Eu também estou. Mas tenho que desligar. Amo você. Beijos.
- Também te amo. Beijos. Até logo.
- Até.
- Ei! Jorge, fala para essas piranhas saírem da água. Não estou pagando para elas ficarem se divertindo no rio.
24 de março de 2008
23 de março de 2008
22 de março de 2008
Felino
Desconfiado, ficava de pêlo eriçado ao menor sinal de ameaça, fumaça. Às vezes havia fogo. Em outras, afago. Mas ele, precavido, preferia ficar escondido.
Na última vez que se escondeu, sozinho, se perdeu. Do cão ninguém esquece, mas o gato também enlouquece.
Na última vez que se escondeu, sozinho, se perdeu. Do cão ninguém esquece, mas o gato também enlouquece.
21 de março de 2008
Mulher bomba
Por dentro, explodia um não. Mas o único som que se ouviu foi o daquela voz, suave e sofrida:
- Aceito.
E prosseguiram com a cerimônia.
- Aceito.
E prosseguiram com a cerimônia.
20 de março de 2008
Infantil
A única fábrica de brinquedos da cidade foi fechada.
Pela primeira vez, todas as crianças comemoraram o fechamento de uma fábrica de brinquedos. Finalmente poderiam voltar a frequentar a escola.
Pela primeira vez, todas as crianças comemoraram o fechamento de uma fábrica de brinquedos. Finalmente poderiam voltar a frequentar a escola.
19 de março de 2008
Violência
As batidas e gritos viraram a trilha sonora da rotina.
A entrada dos metais, graves, adicionou tensão.
E no fim, só se ouviu um sopro, agudo.
A entrada dos metais, graves, adicionou tensão.
E no fim, só se ouviu um sopro, agudo.
18 de março de 2008
Pior emprego do mundo
* Roteiro para curta-metragem
Eu tenho o pior emprego do mundo. Acredito que se você procurar pelo Google "pior emprego do mundo", vai encontrar uma breve descrição das minhas funções.
Meus amigos já me aconselharam a pedir demissão. Dizem que seria melhor não fazer nada a fazer o que eu faço. Às vezes eu penso que eles estão certos.
Quando eu era pequeno e me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, eu dizia "chefe". Hoje, vinte cargos em 5 departamentos me separam do chefe.
Estava pensando em abrir um negócio, mas eu não tenho dinheiro. Eu podia arrumar um sócio, mas ele acabaria me passando a perna. É assim que as sociedades funcionam.
Também considerei aquelas oportunidades de ganhar dinheiro sem sair de casa. Mas, é mais fácil acreditar no "enlarge your penis" do que naquilo.
Acho que é melhor continuar na mesma. Quem sabe não me promovem. E dão o pior emprego do mundo para outra pessoa.
Eu tenho o pior emprego do mundo. Acredito que se você procurar pelo Google "pior emprego do mundo", vai encontrar uma breve descrição das minhas funções.
Meus amigos já me aconselharam a pedir demissão. Dizem que seria melhor não fazer nada a fazer o que eu faço. Às vezes eu penso que eles estão certos.
Quando eu era pequeno e me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, eu dizia "chefe". Hoje, vinte cargos em 5 departamentos me separam do chefe.
Estava pensando em abrir um negócio, mas eu não tenho dinheiro. Eu podia arrumar um sócio, mas ele acabaria me passando a perna. É assim que as sociedades funcionam.
Também considerei aquelas oportunidades de ganhar dinheiro sem sair de casa. Mas, é mais fácil acreditar no "enlarge your penis" do que naquilo.
Acho que é melhor continuar na mesma. Quem sabe não me promovem. E dão o pior emprego do mundo para outra pessoa.
17 de março de 2008
Sensações
A beleza poética dos teus lábios
E o aroma suave do teu pescoço
Soam como doce ao toque dos meus cílios
E o aroma suave do teu pescoço
Soam como doce ao toque dos meus cílios
16 de março de 2008
Pontinhos
Durante a noite, na praia, viu as luzes dos barcos em alto mar, isolados. Pensou em quão triste seria viver dessa maneira, passar o dia no mar, trabalhando, e à noite virar um pontinho em meio a outros pontinhos perdidos na escuridão.
Quando voltou para a cidade, reparou nos pontinhos empilhados e, ainda assim, isolados.
Quando voltou para a cidade, reparou nos pontinhos empilhados e, ainda assim, isolados.
15 de março de 2008
Do mesmo saco
Na história com muito bandido, o mocinho acabou vendido.
E a mocinha, coitada, disse que nem suspeitava, não imaginava, que as jóias que ela ganhou haviam sido roubadas.
E a mocinha, coitada, disse que nem suspeitava, não imaginava, que as jóias que ela ganhou haviam sido roubadas.
14 de março de 2008
O olho
- E como vai a saúde?
- Mal.
- Mas já descobriram o que é que você tem?
- Já sabem. Os médicos são muito bons.
- E por que é que ainda não te trataram?
- Eles até receitaram um remédio...
- E por que você ainda não tomou?
- É que custa o olho que não é o da cara.
- Mal.
- Mas já descobriram o que é que você tem?
- Já sabem. Os médicos são muito bons.
- E por que é que ainda não te trataram?
- Eles até receitaram um remédio...
- E por que você ainda não tomou?
- É que custa o olho que não é o da cara.
13 de março de 2008
Sou passado
Suspiro contido
Lágrima escorrida
Sem chance
Nem esperança
Sou o vulto de relance
A vaga lembrança
Lágrima escorrida
Sem chance
Nem esperança
Sou o vulto de relance
A vaga lembrança
12 de março de 2008
11 de março de 2008
10 de março de 2008
Incentivo
Estava desanimada e confusa. Parecia perdida, balbuciando bobeiras, vomitando palavras vazias sobre os vãos de sua vida. Ela queria desistir de tudo. Quase desistiu, mas foi interrompida por um colega:
- Bola para frente! Não pare!
Olhou para ele, ainda mais confusa. Não entendeu aquela súbita preocupação com ela, sempre deixada de lado. Quase sorriu, mas ele completou:
- Bola para frente que este é fino.
- Bola para frente! Não pare!
Olhou para ele, ainda mais confusa. Não entendeu aquela súbita preocupação com ela, sempre deixada de lado. Quase sorriu, mas ele completou:
- Bola para frente que este é fino.
9 de março de 2008
Revide
Ele, agressivo, cantou de galo.
Ela, decidida, não pensou duas vezes. De sapato ponta fina, deu de bico no pintinho e, de quebra, nos ovos.
Ela, decidida, não pensou duas vezes. De sapato ponta fina, deu de bico no pintinho e, de quebra, nos ovos.
Mulheres
Contrariado, Francisco matou José de tiro. Antes do sangue secar, Severino matou Francisco na faca. Por vingança, Chiquinho matou Severino a golpe de enxada. Traiçoeiro, Zico colocou uma cobra na cama de Chiquinho. Traiçoeira, a cobra mordeu Zico também.
Só sobraram as comadres, que sentaram à varanda, agulhas à mão, e comentaram com desdém:
- Esses homens...
Só sobraram as comadres, que sentaram à varanda, agulhas à mão, e comentaram com desdém:
- Esses homens...
7 de março de 2008
Rejeitado
Declarou-se.
Não correspondido, chamou-a de puta, pagou a foda e foi embora, batendo a porta.
Só chorou quando chegou ao carro.
Não correspondido, chamou-a de puta, pagou a foda e foi embora, batendo a porta.
Só chorou quando chegou ao carro.
6 de março de 2008
5 de março de 2008
4 de março de 2008
Luto
Regou o túmulo por dias, até secarem os olhos, vermelhos e ásperos.
Uns dizem que foi por compaixão. Outros, sussurram que foi por culpa.
Uns dizem que foi por compaixão. Outros, sussurram que foi por culpa.
3 de março de 2008
Vaga
Lutou por aquela vaga como se fosse a última.
Agarrou a oportunidade com unhas e dentes e deu tudo de si.
O patrão, saciado, só reclamou um pouco dos dentes.
Agarrou a oportunidade com unhas e dentes e deu tudo de si.
O patrão, saciado, só reclamou um pouco dos dentes.
2 de março de 2008
Religioso
De tempos em tempos, sacrificava mais um virgem em seu altar.
Trocava de vítima para evitar que o povo suspeitasse.
Trocava de vítima para evitar que o povo suspeitasse.
29 de fevereiro de 2008
28 de fevereiro de 2008
27 de fevereiro de 2008
Intenção
Ela chegou chorando, nervosa. Ofereci meu ombro, ela aceitou.
Ofereceu-me a boca, eu aceitei. Não sei se por consolo ou por vingança.
Ofereceu-me a boca, eu aceitei. Não sei se por consolo ou por vingança.
26 de fevereiro de 2008
Transversais
Ela era intangível, mas o destino é uma incógnita.
A conversa paralela acabou na horizontal.
A conversa paralela acabou na horizontal.
25 de fevereiro de 2008
22 de fevereiro de 2008
Carta de um poeta puto, mas educado II
Me assolam a memória
Sua alma e seus desejos
O resto virou lembrança
Vagas lembranças
De seu corpo vago
Sua vaga bunda
Sua alma e seus desejos
O resto virou lembrança
Vagas lembranças
De seu corpo vago
Sua vaga bunda
21 de fevereiro de 2008
Fim dos dias do vilão
Engana-se quem pensa que, algum dia, ele se arrependeu.
Morreu sorrindo o filho da puta. Sabia que a mídia, a seu serviço, na terra ou no inferno, o transformaria em herói.
Morreu sorrindo o filho da puta. Sabia que a mídia, a seu serviço, na terra ou no inferno, o transformaria em herói.
20 de fevereiro de 2008
Exemplo
- Vai, filho, igual da outra vez.
O garoto tremia. Mas, com o martelo na mão e com os olhos lacrimejando, obedeceu. Foram ambos para o pronto-socorro.
O pai, mais tarde, justificava-se à própria consciência. Repetia para si mesmo, em voz alta, que precisava do remédio.
O garoto tremia. Mas, com o martelo na mão e com os olhos lacrimejando, obedeceu. Foram ambos para o pronto-socorro.
O pai, mais tarde, justificava-se à própria consciência. Repetia para si mesmo, em voz alta, que precisava do remédio.
19 de fevereiro de 2008
Segura
A garota, mais uma vez abandonada, queria saber como segurar um homem.
A avó, realista, deu a dica:
- Faça pompoarismo.
A avó, realista, deu a dica:
- Faça pompoarismo.
18 de fevereiro de 2008
16 de fevereiro de 2008
Entre amigas
O sorriso de hiena se desfez. Embrenhou-se pelos cantos da parede, como se andasse pelo rodapé. Curvou-se para olhar pela quina da porta. Confirmou que a outra se afastava e, então, disse:
- Eu não disse? Essa vagabunda, falsa, nunca me enganou.
- Eu não disse? Essa vagabunda, falsa, nunca me enganou.
15 de fevereiro de 2008
14 de fevereiro de 2008
13 de fevereiro de 2008
11 de fevereiro de 2008
Carta de um poeta puto, mas educado
Você foi meu sol
Mas agora, tua luz
Faz doerem meus olhos
Inchados de vinho
E de lágrimas
Vá, dia
E não volte nunca mais
Mas agora, tua luz
Faz doerem meus olhos
Inchados de vinho
E de lágrimas
Vá, dia
E não volte nunca mais
10 de fevereiro de 2008
Sermão
- Não faça com os outros aquilo que gostaria que fizessem contigo.
Ela sabia das perversões do filho, masoquista.
Ela sabia das perversões do filho, masoquista.
9 de fevereiro de 2008
Encantos
A saia bordada estava acompanhada por um bustiê tomara que caia, destes que fazia juz ao nome. Tinha a boca encoberta por um véu e uma cruz egípcia estrategicamente tatuada nas costas.
A cada troca de ritmo, trocava também os artefatos. Foram-se véus, espadas e címbalos nas pontas dos dedos. Deleitava-se em movimentos suaves, delicadamente fantasiosos.
Em nenhum momento ela retirou o véu que lhe cobria metade do rosto. Até porque, não precisava, bastavam aqueles olhos, olhos de Hórus.
A cada troca de ritmo, trocava também os artefatos. Foram-se véus, espadas e címbalos nas pontas dos dedos. Deleitava-se em movimentos suaves, delicadamente fantasiosos.
Em nenhum momento ela retirou o véu que lhe cobria metade do rosto. Até porque, não precisava, bastavam aqueles olhos, olhos de Hórus.
8 de fevereiro de 2008
Final do verão
Ao final do verão, as cigarras invadem a cidade. Chegam queimadas pelo sol, trocando de pele.
As formigas, trabalhadoras, da cidade nunca saem. Para elas, o inverno é uma ameaça constante.
As formigas, trabalhadoras, da cidade nunca saem. Para elas, o inverno é uma ameaça constante.
7 de fevereiro de 2008
Hora extra
Quando os filhos não estavam em casa, pediam para a diarista ficar até um pouco mais tarde.
Ela, solidária, passava pelo corredor fazendo barulho, como se pudesse entrar no quarto a qualquer momento. Conhecia bem as fantasias do patrão.
Ela, solidária, passava pelo corredor fazendo barulho, como se pudesse entrar no quarto a qualquer momento. Conhecia bem as fantasias do patrão.
6 de fevereiro de 2008
Palavras cruzadas
- Com nove letras: modo de vida preferido por todos.
- Liberdade.
- Errou... Acomodado.
- Liberdade.
- Errou... Acomodado.
5 de fevereiro de 2008
Impotente
Inevitavelmente, um dia ele chegava à conclusão de que não precisava delas e terminava tudo. Sempre acreditou que um dia precisaria de uma pessoa e que esta seria sua companheira pelo resto de seus dias.
Um dia ele descobriu que precisava de alguém, mas os dias que restavam seriam poucos. Poucos e solitários.
Estava tão debilitado, incapacitado, que ninguém precisava dele.
Um dia ele descobriu que precisava de alguém, mas os dias que restavam seriam poucos. Poucos e solitários.
Estava tão debilitado, incapacitado, que ninguém precisava dele.
2 de fevereiro de 2008
1 de fevereiro de 2008
Pérola aos porcos
Percebeu que nunca conseguiria sobreviver de sua arte. Trocou de corpo e de alma, de nome e de profissão.
Ainda assim, não deixou de lado suas letras, corrosivas. Tornou-se Pérola, prostituta.
Ainda assim, não deixou de lado suas letras, corrosivas. Tornou-se Pérola, prostituta.
31 de janeiro de 2008
Destino
Acordou no ônibus. Não sabia para onde estava indo, não fazia idéia.
Olhou em volta, apenas indiferença. Começou a ficar incomodado com a situação. Queria perguntar para alguém sobre o destino, mas tinha vergonha. Tentou olhar pela janela, mas estava no corredor e a senhora ao seu lado dormia, cortinas fechadas.
Depois de um certo transtorno, resignou-se com a situação. Nunca achou que fosse chegar a lugar algum... Algum lugar, qualquer que fosse, já seria ir longe.
Olhou em volta, apenas indiferença. Começou a ficar incomodado com a situação. Queria perguntar para alguém sobre o destino, mas tinha vergonha. Tentou olhar pela janela, mas estava no corredor e a senhora ao seu lado dormia, cortinas fechadas.
Depois de um certo transtorno, resignou-se com a situação. Nunca achou que fosse chegar a lugar algum... Algum lugar, qualquer que fosse, já seria ir longe.
30 de janeiro de 2008
Despedida de um arrependido
Apesar de ter descoberto cedo que te amava, descobri tarde que ainda te amo.
Porque agora você é outra e eu sou outro.
E meu sorriso, agora é de vergonha.
Porque agora você é outra e eu sou outro.
E meu sorriso, agora é de vergonha.
29 de janeiro de 2008
Final de tarde
Seria uma ofensa chamar o céu de azul naquele momento. Era uma mistura de rosa, laranja, amarelo e azul.
Sem aviso, veio o vento gelado que varre todo final de tarde, garantindo que esteja tudo limpo quando a noite chegar.
O sol, com frio, foi embora. E levou com ele todas as nuvens, para se cobrir.
Sem aviso, veio o vento gelado que varre todo final de tarde, garantindo que esteja tudo limpo quando a noite chegar.
O sol, com frio, foi embora. E levou com ele todas as nuvens, para se cobrir.
28 de janeiro de 2008
Sentado
Sentei-me de frente para o mar.
E foi ali, observando o sol se pôr, criando mares no céu e montanhas nas nuvens, que eu percebi que meu mundo estava de ponta cabeça.
Pensei em algum jeito de voltar ao normal. Talvez uma cambalhota resolvesse, mas estava tudo tão agradável que resolvi ficar, ali mesmo, sentado no teto.
E foi ali, observando o sol se pôr, criando mares no céu e montanhas nas nuvens, que eu percebi que meu mundo estava de ponta cabeça.
Pensei em algum jeito de voltar ao normal. Talvez uma cambalhota resolvesse, mas estava tudo tão agradável que resolvi ficar, ali mesmo, sentado no teto.
27 de janeiro de 2008
Culpa
Quando Ele apareceu, perguntando quem é que havia comido do fruto proibido, todos ficaram desesperados.
Adão, que não havia sequer se aproximado da árvore, não pensou duas vezes. Apontou o dedo acusador para Eva e disse que havia sido ela.
Os pássaros até hoje assobiam, fazendo-se de desentendidos
Adão, que não havia sequer se aproximado da árvore, não pensou duas vezes. Apontou o dedo acusador para Eva e disse que havia sido ela.
Os pássaros até hoje assobiam, fazendo-se de desentendidos
26 de janeiro de 2008
Saudosismo
Passei na casa dos meus avôs apenas para uma visita rápida. Inocência minha achar que conseguiria sair de lá antes da janta. Como sempre, minha avó convenceu-me a ficar para a janta. Segundo ela, estava preparando uma comidinha especial e, além disso, eu andava muito magro, muito branco, precisando comer bem. Decidi ficar.
Enquanto ela terminava os últimos preparativos para a janta, sentei à sala com meu avô para ver o jornal. Meu avô, esparramado na velha poltrona de couro, após duas ou três notícias, comentou:
- Bons os tempos em que só se roubavam corações...
Enquanto ela terminava os últimos preparativos para a janta, sentei à sala com meu avô para ver o jornal. Meu avô, esparramado na velha poltrona de couro, após duas ou três notícias, comentou:
- Bons os tempos em que só se roubavam corações...
25 de janeiro de 2008
Ao lado
Não entendiam-se muito bem. Tinham algumas brigas, discussões sem sentido.
Mas, viviam juntos. Afinal, não entendiam mais ninguém.
Um casal de loucos.
Mas, viviam juntos. Afinal, não entendiam mais ninguém.
Um casal de loucos.
Desconfia
- Te amo.
- Já não falei que te amo também?
- Falou.
- Se eu já falei, por que é que você continua falando e me olhando com essa cara?
- Estou esperando.
- Esperando o que!? Vai ficar repetindo até quando?
- Até você acreditar.
- Já não falei que te amo também?
- Falou.
- Se eu já falei, por que é que você continua falando e me olhando com essa cara?
- Estou esperando.
- Esperando o que!? Vai ficar repetindo até quando?
- Até você acreditar.
23 de janeiro de 2008
Mulher da minha falta de sonhos
Sente o vazio no fundo do travesseiro. Revira-se e estica os braços em busca daquela presença. Uma esperança, nada além disso. Por mais que se deparasse com outro corpo, não seria aquele. Nunca mais foi.
Depois daquela noite, a cama sempre pareceu vazia.
Depois daquela noite, a cama sempre pareceu vazia.
21 de janeiro de 2008
27 de dezembro de 2007
O barquinho
- Então, vamos simplificar. Você não gosta de mim e eu também não gosto de você.
- Mas, eu gosto de você...
Uma nova luz, um novo brilho, tomou conta dos olhos dele:
- Gosta?
- Gostava.
Depois de falar esta frase, ela deu as costas a ele. E foi como se o farol voltasse a luz para o continente. O barquinho naufragou.
- Mas, eu gosto de você...
Uma nova luz, um novo brilho, tomou conta dos olhos dele:
- Gosta?
- Gostava.
Depois de falar esta frase, ela deu as costas a ele. E foi como se o farol voltasse a luz para o continente. O barquinho naufragou.
Como que sem querer
O amor chega de fininho.
E, por mais que chegue em silêncio, desperta curiosidades.
Também acorda os medos, que têm o sono ainda mais leve, transtornados.
E, por mais que chegue em silêncio, desperta curiosidades.
Também acorda os medos, que têm o sono ainda mais leve, transtornados.
Superficial
Ficamos atados às belezas e aos prazeres da superfície.
Mas a culpa não é nossa. De onde se vê a beleza interior, é impossível sair por vontade própria e, uma vez que se é expulso, a vontade de estar ali equipara-se ao medo de ser expulso mais uma vez.
Mas a culpa não é nossa. De onde se vê a beleza interior, é impossível sair por vontade própria e, uma vez que se é expulso, a vontade de estar ali equipara-se ao medo de ser expulso mais uma vez.
25 de dezembro de 2007
Criminoso
O mercado de trabalho continua executando crimes perfeitos.
Sequestra as almas e pede em troca, como forma de resgate, as forças do corpo.
E as vítimas só percebem tarde que de nada vale uma alma torturada, repleta de medos, somada a um corpo calejado, exausto.
Sequestra as almas e pede em troca, como forma de resgate, as forças do corpo.
E as vítimas só percebem tarde que de nada vale uma alma torturada, repleta de medos, somada a um corpo calejado, exausto.
18 de dezembro de 2007
Plantando pedras
Por toda a vida, plantou pedras. Quando havia uma flor no meio do caminho, arrancava e plantava mais uma pedra no lugar.
Algum tempo depois, quando as pedras brotaram, seu mundo ficou todo cinza. Ela, entristecida e só, nunca mais floresceu, virou pedra.
Algum tempo depois, quando as pedras brotaram, seu mundo ficou todo cinza. Ela, entristecida e só, nunca mais floresceu, virou pedra.
Baile de máscaras
Nenhum dos dois conseguia se envolver, desenvolver confiança, intimidade, cumplicidade; esses detalhes que sustentam um relacionamento. Sabiam que era coisa de uma noite, uma semana, com sorte, um mês.
Mas, estavam decididos a tentar, vestir as máscaras e ver até onde a mentira os levaria. E levou longe, até que a morte os separou.
Mas, estavam decididos a tentar, vestir as máscaras e ver até onde a mentira os levaria. E levou longe, até que a morte os separou.
17 de dezembro de 2007
Tulipas negras
Ouvia, via e sentia a tristeza alheia. A angústia lhe estufava o peito, o ar ficava pesado e os ombros recolhiam-se enquanto as mãos passavam pelo rosto suado.
E foi assim em todas as vezes que se deparou com as tulipas negras, desdentadas, bocas do desespero.
E foi assim em todas as vezes que se deparou com as tulipas negras, desdentadas, bocas do desespero.
13 de dezembro de 2007
12 de dezembro de 2007
O golpe do século
- Preciso que você me conte como é que você fez para resolver aquele rolo da clonagem.
- E que rolo! Deu um trabalhão...
- Sério?
- Sério. Demorou meses até resolver tudo.
- Putz!
- Não me diga que também aconteceu com você?
- Aconteceu.
- Que lástima...
- Mas então, como foi que aconteceu?
- Foi assim, nós viajamos para São Paulo e um ano depois chegou a intimação para ele comparecer ao tribunal. Quando chegamos lá, havia um processo correndo e exigindo um monte de dinheiro.
- Mas e daí?
- Daí que na época não era um golpe conhecido. Foi um dos primeiros. Tivemos que chamar vários especialistas para provar que tinha sido clonado. Foi um sufoco. tivemos sorte de poder contar com o apoio dos maiores especialistas. E ainda mais sorte por terem encontrado o sujeito que foi obrigado a fazer o serviço. Ele entregou os culpados.
- Espero que a gente dê sorte.
- Agora é mais fácil. Já não é todo mundo que cai no papo destes golpistas. E, além disso, é bem mais fácil provar a clonagem.
- Tomara.
- Tem idéia de onde foi?
- Acho que sim. Fiz as contas e acho que clonaram o meu quando viajamos para o nordeste com escala no Rio.
- Aeroporto é um perigo. Tem que ficar atenta a cada fio de cabelo. Senão, depois, aquele safado tem um filho com alguma vagabundinha e vem falar que é o golpe do clone de novo!
As duas caíram em gargalhadas.
- E que rolo! Deu um trabalhão...
- Sério?
- Sério. Demorou meses até resolver tudo.
- Putz!
- Não me diga que também aconteceu com você?
- Aconteceu.
- Que lástima...
- Mas então, como foi que aconteceu?
- Foi assim, nós viajamos para São Paulo e um ano depois chegou a intimação para ele comparecer ao tribunal. Quando chegamos lá, havia um processo correndo e exigindo um monte de dinheiro.
- Mas e daí?
- Daí que na época não era um golpe conhecido. Foi um dos primeiros. Tivemos que chamar vários especialistas para provar que tinha sido clonado. Foi um sufoco. tivemos sorte de poder contar com o apoio dos maiores especialistas. E ainda mais sorte por terem encontrado o sujeito que foi obrigado a fazer o serviço. Ele entregou os culpados.
- Espero que a gente dê sorte.
- Agora é mais fácil. Já não é todo mundo que cai no papo destes golpistas. E, além disso, é bem mais fácil provar a clonagem.
- Tomara.
- Tem idéia de onde foi?
- Acho que sim. Fiz as contas e acho que clonaram o meu quando viajamos para o nordeste com escala no Rio.
- Aeroporto é um perigo. Tem que ficar atenta a cada fio de cabelo. Senão, depois, aquele safado tem um filho com alguma vagabundinha e vem falar que é o golpe do clone de novo!
As duas caíram em gargalhadas.
11 de dezembro de 2007
Metódico
Levava tudo à ponta do dedão do pé direito da letra.
Nunca nem fez questão de saber o que estava além da simples soma das letrinhas.
Morreu sem saber se ela disse sim ou não.
Nunca nem fez questão de saber o que estava além da simples soma das letrinhas.
Morreu sem saber se ela disse sim ou não.
Meio cheio
Ele andava sempre com um copo na mão. Um copo enorme, laranja. Era impossível não notar o copo. Antes de sair de casa ele enchia o copo de água e ia bebendo durante as andanças.
Um dia qualquer, ele começou a marcar as distâncias pelo tanto de água que restava no copo. Um tempo depois, já sabia a distância em copos até os pontos mais importantes da cidade. E falava com uma convicção de não deixar dúvida: "Até o museu da meio copo", "Quase um copo até o calçadão", "Dois golinhos e estou no mercado".
Depois de algum tempo, um sujeito um tanto cético quanto às medidas o questionou:
- E, toda vez que você vai aos lugares dá a mesma distância em copos?
- Não. Varia.
- Varia com o que?
- O clima.
- Então a medida não dá certo?
- Dá sim, certinho. No calor sempre parece que é mais longe.
Um dia qualquer, ele começou a marcar as distâncias pelo tanto de água que restava no copo. Um tempo depois, já sabia a distância em copos até os pontos mais importantes da cidade. E falava com uma convicção de não deixar dúvida: "Até o museu da meio copo", "Quase um copo até o calçadão", "Dois golinhos e estou no mercado".
Depois de algum tempo, um sujeito um tanto cético quanto às medidas o questionou:
- E, toda vez que você vai aos lugares dá a mesma distância em copos?
- Não. Varia.
- Varia com o que?
- O clima.
- Então a medida não dá certo?
- Dá sim, certinho. No calor sempre parece que é mais longe.
4 de dezembro de 2007
3 de dezembro de 2007
Espetáculo
A noite de estréia é um espetáculo. Mágico, incomparável.
As noites seguintes já não têm o mesmo encanto. Os sorrisos já não são mais os mesmos.
Algum tempo depois, ela junta as tralhas e toma outros rumos.
Paixão itinerante.
As noites seguintes já não têm o mesmo encanto. Os sorrisos já não são mais os mesmos.
Algum tempo depois, ela junta as tralhas e toma outros rumos.
Paixão itinerante.
1 de dezembro de 2007
Embriagado
Todas as coisas e idéias tendiam para a esquerda
Depois, inclinaram-se um bom tanto para a direita
Então rolaram para o centro e por ali ficaram
No equilíbrio frágil de uma mesa de boteco
O álcool e a política têm efeitos semelhantes
Depois, inclinaram-se um bom tanto para a direita
Então rolaram para o centro e por ali ficaram
No equilíbrio frágil de uma mesa de boteco
O álcool e a política têm efeitos semelhantes
30 de novembro de 2007
Velório sem defunto
O racismo
Neste momento, é velado
E inocente de quem pensa, se engana
Que o racismo está morto
Neste momento, é velado
E inocente de quem pensa, se engana
Que o racismo está morto
29 de novembro de 2007
Nossos nós
Atamos os nossos nós
Encontramos a nossa calma
Se você canta eu sou sua voz
Se sou poeta, você minha alma
Encontramos a nossa calma
Se você canta eu sou sua voz
Se sou poeta, você minha alma
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A louça delicada atirada na parede partiu o silêncio - em mil pedaços 2012 - Selecionada no 3º Concurso TOC140 de Poesia no Twitter - VI Fes...
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A todo momento, cutucando a unha e mordendo-se por dentro, tinha a impressão de que algo errado estava prestes a acontecer. Após muitos erro...
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O triste retrato da cidade enlouquecida a ambulância detida no descaso do tráfego