30 de setembro de 2010

Golpe do esquecimento

O passado, obscuro

bate à porta do vizinho


Nós seguimos, indiferentes

como se não soubéssemos

que um dia teremos

de enfrentá-lo frente à frente

29 de setembro de 2010

Intolerância III

Os dedos finos da vítima apontaram para o suspeito, que ela havia reconhecido apesar do capuz. Seguraram-no enquanto discutiam:

Em relação à culpa, não tinham plena certeza. Todavia, ao discutir a pena, chegaram a um pleno acordo: deceparam-lhe a mão.







Fato: http://bit.ly/bjPbpf

28 de setembro de 2010

27 de setembro de 2010

24 de setembro de 2010

23 de setembro de 2010

22 de setembro de 2010

O barbeiro da rua do Catete

Apesar das dificuldades para manter-se na profissão - principalmente por conta da imagem criada pelos romances policiais, filmes de mafiosos e, também, em menor escala, pela criada no trânsito caótico da cidade - ele mantinha funcionando a pequena barbearia, herança do pai, uma das poucas que restava na zona sul, ali na rua do Catete. O pequeno negócio funcionava desde a década de trinta, quando era tocado pelo saudoso mestre Inácio, que tinha fama de ser muito habilidoso com a navalha - alguns, um tanto exagerados, diziam até que ele seria capaz de partir um pêlo em dois, bem no meio, mantendo as metades no mesmo poro.

Nas paredes descascadas daquela salinha dois por dois, entremeada por uma cadeira de couro, estofada, pendurava orgulhoso as fotografias dos clientes famosos. Por mais que a situação atual tornasse difícil até para imaginar os tempos áureos do local, por ali haviam passado, nos quase oitenta anos de existência, diversos atores, diplomatas, políticos e magnatas. As fotos eram um tanto parecidas, uma vez que quase todos os clientes tinham metade da cara coberta de espuma, mas, para cada foto, ele tinha uma história diferente: esse aqui, era amante da Carmem Miranda; o de cima, do bigodinho, era comunista; aquele ali ao lado, cada vez que vinha, revelava algum segredo de estado; esse ali, só pedia para aparar com a tesoura, deixava a barba crescer porque tinha medo da navalha.

Entre tantas histórias já decoradas, quase automáticas, uma, em especial, o fazia dar uma breve pausa, complementada por um suspiro, antes de continuar. Então, ele apontava para uma foto de um senhor rechonchudo, careca, de óculos, estampando um sorriso amigável, e contava: ele veio aqui na véspera, veio andando mesmo, pediu para que meu pai o deixasse apresentável. Meu pai até tremeu um pouco na hora, nunca havia tratado de um presidente - e eu nunca tinha visto ele tremer daquele jeito. Para quebrar o clima, ele fez uma piada com a tremedeira, dizendo que, daquele jeito, acabaria o matando. Depois, comentou um pouco sobre o bairro, perguntou sobre a vida dos que ali estavam e, antes de sair, cumprimentou todos os curiosos, até mesmo eu. Quando partiu, caminhando, parecia bem contente, acho até que assobiava. Ao saber da notícia pela manhã, ainda menino, fiquei chocado, não entendi o porquê daquela visita - afinal, ele já devia estar pensando no que acabou por fazer. Mas, depois, bem depois, eu acho que entendi: ele queria estar bonito, pelo menos apresentável, ao entrar para a História.

21 de setembro de 2010

20 de setembro de 2010

Destempero

Cansou-se daquela rotina insossa, levando uma vida um tanto intragável

Desgostado, decidiu experimentar alguns condimentos: suaves e relaxantes, picantes e aromáticos, ácidos e energéticos

Apesar das experiências, entre as inúmeras pitadas, nestas misturas desregradas, encontrou apenas dissabores. Já não sentia mais gosto por nada

17 de setembro de 2010

Precavida

Antes de sair, visando defender-se das possíveis investidas, preparou-se com o traje completo: calcinha bege e larga, meia-calça furada, calça jeans apertada e, por fim, o cinto, com o fecho bem complicado

No entanto, ao fim de uma hora, e duas taças de vinho tinto, parecia ter estado sempre por ali, vagando, desvestida

16 de setembro de 2010

15 de setembro de 2010

13 de setembro de 2010

Desenlace

Primeiro, tentei acelerar, mas o bandido era insistente e continuou ali, preso no meu para-brisa. Comecei a ziguezaguear pela avenida vazia, mas de nada adiantava, ele debatia-se, revirava o rosto, mas não se soltava. Sem qualquer remorso, fiz uma curva fechada, cantando pneus e, só então, o maldito desprendeu-se. Ainda o vi pelo retrovisor, rodopiando ao vento, antes de juntar-se ao resto do lixo eleitoral.

10 de setembro de 2010

9 de setembro de 2010

Obstáculo

Adélia adentrou a sala de reuniões imaginando que tratariam dos últimos detalhes para as comemorações do dia do escritor, afinal, um instituto daquele porte, com aquele invejável acervo, deveria organizar ao menos uma palestra, com convidados ilustres - e ela já tinha em mente as pessoas certas, os cronogramas, a decoração, tudo planejado, há anos. No entanto, ao reparar nos rostos entusiasmados dos que já estavam por ali, deduziu, do alto dos seus vinte e cinco anos de repartição, que não se tocaria em qualquer assunto culturalmente relevante - apesar de trabalhar em uma instituição cultural, poucos dos que a cercavam davam importância a algo além do salário que os permitia frequentar os caríssimos teatros da zona sul e os ainda mais caros cinemas de último andar de shopping. Um pouco preocupada, notou a presença de um rapaz engravatado, sentado na cadeira que costumava ser do senhor Garcia. Imaginou que o rapaz, novo no lugar, pudesse ter feito confusão na hora de sentar, mas, por já conhecer as danças das cadeiras que os políticos acabavam fazendo por ali nas trocas de comando, preferiu recorrer à atitude de sempre, manteve a aparente indiferença. Aos poucos, todos os funcionários foram chegando e, quando alguns já buscavam mais cadeiras nas salas ao lado, o rapaz disse que já havia trabalhado com o senhor Garcia quando começou na prefeitura, que o respeitava muito e, por fim, não querendo alongar mais o discurso apresentou-se como o novo chefe. Adélia examinou-o de cima abaixo - não devia ter nem trinta anos, um desses alunos de MBA: terno e gravata, notebook na mochila e um celular sempre ao alcance das mãos.
O Silas, puxa-saco oficial do instituto, pediu a palavra e deu as boas-vindas por todos. Já Amélia, esvazia-saco oficial, que colocava Adélia em algumas situações constrangedoras por ter um nome tão parecido, engraçou-se para cima do rapaz. Os outros funcionários mantinham uma posição moderada, felicitavam-no, mas sem demonstrar felicidade alguma, afinal, a morte do senhor Garcia, tão repentina, havia sido um choque para muitos deles. Adélia permanecia indiferente.
Após as apresentações e formalidades, o rapaz resolveu mostrar a que veio e, então, solicitou que todos se retirassem do recinto, com exceção a Adélia, com quem precisava conversar.
- Todos sabem que o senhor Garcia, que Deus o tenha, estava planejando uma reorganização das estruturas deste Instituto. Eu já fui informado de que, em algumas áreas, as discussões já estavam avançadas, e que, em outras, os projetos já estão em andamento. Você é responsável pela biblioteca, não é?
- Sim, sou eu.
- E o que tem a me dizer?
- Seja bem-vindo.
- Não, não. Obrigado! Mas quero saber sobre a reformulação da biblioteca. O que está sendo feito? Quais as sugestões? Os projetos? Não fui informado sobre nenhum avanço e, como você bem deve saber, a biblioteca é um dos setores essenciais deste instituto.
- Na verdade, a biblioteca não precisa de nenhuma mudança. Tudo funciona perfeitamente e ninguém fica sem atendimento. Eu sei exatamente onde está cada obra.
- Mas é exatamente esse o problema. Não podemos ficar dependendo dos seus serviços e da sua memória.
- Mas, alguém está reclamando? Não pode ser.
- Não, não é isso. Ninguém falou nada, eu acabo de chegar. Bom, de qualquer maneira, precisamos informatizar o sistema, para que qualquer pessoa, mesmo na sua ausência, possa encontrar-se em meio a tantos livros.
- Eu tenho minhas objeções...
- Não vamos nos precipitar em conflitos, eu não quero parecer um sujeito autoritário. Vamos combinar assim, você pensa em alguns itens que podem ser melhorados na biblioteca e me entrega um relatório na semana que vem. Que tal?
Adélia saiu da sala calada, fez apenas uma reverência com a cabeça, concordando com o chefe. Escorreu pelo corredor, desolada mais uma vez. Afinal, depois de colocarem tudo nas máquinas, quem precisaria de uma velha por ali, rondando os corredores, tentando lembrar-se de fileiras, colunas e sobrenomes de autores. Ela costumava ser a peça chave daquele lugar, todo mundo precisava dela, todos precisavam conversar, pedir alguma coisa e, volta e meia, acabava até recebendo algum agrado, flores no dia da bibliotecária e cestas de café da manhã no final do ano - todas utilizadas no ano seguinte para levar ovos de páscoa para as crianças do abrigo. Tinha uma posição privilegiada, regalias sazonais e, além de tudo, sentia-se menos só quando podia ajudar as pessoas a encontrar o que procuravam. Ao ver isso tudo sob ameaça, percebeu que, mais uma vez, não poderia permanecer indiferente.
Ao cair da noite, após o silêncio da biblioteca espalhar-se por todo o instituto, tal como havia feito na semana anterior, Adélia embrenhou-se pelos amplos jardins, dessa vez com o alvo certo, sem precisar procurar, dirigiu-se ao canto do muro logo atrás da estufa, um tanto abandonado pelo jardineiro, onde cresciam furtivamente três pés de mamona. Colheu dez daquelas bolinhas espinhosas e, quando já se dirigia ao portão de saída, acabou surpreendida pelo novo chefe, que aproveitava para conhecer melhor as instalações da estufa, uma vez que ele mesmo pretendia instalar uma em sua casa. Com o susto do encontro, Adélia deixou caírem ao chão sete das dez mamonas. O novo chefe abaixou-se para ajudar e disse:
- No escuro, vai ser difícil para encontrar, deixe que eu te ajude a procurar.
Com uma gota de suor frio prestes a escorrer pela nuca, ela tentou demovê-lo da boa intenção:
- Senhor Roberto, faça-me o favor, não precisa dar-se ao trabalho. São só algumas frutas, eu posso colher outras.
No entanto, ele já agachado, tateando a grama, estava disposto a colaborar, queria apagar qualquer má impressão que pudesse ter sido criada na primeira reunião:
- Não faz mal ajudar, até porque fui eu que acabei te assustando.
Tentando controlar a ansiedade, Adélia olhava tudo em volta, buscando palavras, buscando uma solução. Ele então levantou, subitamente:
- Ai, caralho!
- O que foi?
Aproximando-se da luminária pendurada à porta da estufa, ele continuou:
- Espetei meu dedo, não foi nada... Achei essa mamona aqui.
Adélia aproximou-se, com as três mamonas que lhe restaram nas mãos trêmulas, e disse:
- Seu Roberto, não precisa me ajudar não, vá tratar desse dedo.
Ao olhar para as mãos de Adélia, que instintivamente as recuou, ele perguntou:
- A senhora está colhendo mamona?
- É... Para fazer óleo.
- Podia ter me avisado, vou procurar com mais cuidado.
Ao terminar de falar, ele voltou-se novamente para o local onde estava agachado e retomou as buscas. Ela, tendendo ao desespero, voltou a olhar em volta, dessa vez procurando objetos e ações que pudessem resolver a situação. Agachado, tateando com mais calma o chão, ele puxou conversa:
- Não sabia que dava para fazer óleo com isso não. Só aquele biodiesel, mas aquele não deve dar para fazer em casa.
- Dá sim... Óleo de rícino.
Após virar-se de costas, ainda nas buscas:
- Mas isso é bom para quê?
- Congestão.
- Eu não sabia, não. Na verdade, a única coisa que eu sei, desde garoto, é que a semente disso é um veneno.
O silêncio que se seguiu só foi interrompido pelos grilos.

8 de setembro de 2010

Apreensão

Após o passeio e as compras, um tanto nervosa, por conta de mais um de seus descuidos, dirigiu-se à moça que estava dentro daquele cúbiculo, atrás da divisória de vidro: 
- Moça, olha só, eu estou com um pouco de pressa, mas não estou encontrando o papelzinho. 
- Desculpe-me senhora, mas sem o tíquete eu não posso fazer nada. 
- Mas, não tem como dar um jeito? 
- Não, senhora. O aviso aqui ao lado é bem claro. 
Ao lado da cabine da atendente, destacava-se uma placa branca com letras vermelhas: "Cuide bem do seu tíquete. As devoluções serão feitas somente mediante a apresentação do mesmo". 
- Mas o que eu devo fazer? Ir embora sem ele? 
- Sem o tíquete, ou algum documento para provar que é seu, vai ter que ir sem ele. 
- O documento ficou em casa! 
- E não tem ninguém para quem a senhora possa ligar, para vir aqui trazer? 
- Não! Eu sou solteira, não tem ninguém. E de jeito nenhum que eu vou deixá-lo aqui para ir buscar a papelada e depois voltar! 
- Então não tem jeito. 
- Mas, ele está ali do lado! Eu posso provar que é meu! 
- Eu já disse que não posso fazer nada. E, além disso, a senhora está segurando a fila.
Após olhar para trás e deparar-se com uma senhora consultando a hora em seu celular, voltou-se novamente para a atendente: 
- Segurando a fila... Você é que está segurando a fila porque não consegue resolver um simples problema! 
- Senhora, eu vou chamar a gerente. Você conversa com ela. 
- Exatamente o que eu ia pedir: chame a gerente! Alguém que possa fazer alguma coisa. Muito obrigada!
 Após o olhar sarcástico para cima, combinado com a leve mordida do lábio inferior, a atendente pegou o rádio sobre a mesa, convocou a gerente e começou a atender o próximo da fila. Ela, batendo o pé direito no chão, de braços cruzados, olhos bem abertos e soltando o ar pela boca, aguardou a chegada da gerente, que oficialmente, de acordo com a carteira de trabalho, era uma assistente administrativa. 
A assistente, empossada de ares de gerente, em seu terninho preto, com um rádio pendurado à cintura, as sobrancelhas bem levantadas ao centro e um bico que parecia exigir muito esforço para ser mantido, chegou tentando acalmar a cliente: 
- Desculpe-me pela demora, a senhora aceita um copo de água? Um café? 
- Eu só quero resolver esse problema. 
- Tudo bem. Então vamos direto ao que interessa. Qual é o problema aqui? 
- Eu estou com pressa, mas sem os documentos, e aquela funcionária diz que não pode fazer nada sem o tíquete. 
- Nós vamos resolver esse problema. Mas, a senhora há de convir que os procedimentos adotados são para garantir a sua própria segurança. 
- Sim, você está certa. Mas, o que você pode fazer? Eu preciso de uma solução. 
- Nós podemos conferir pelas câmeras de segurança, para confirmar que a senhora chegou com ele, só que esse processo leva cerca de cinquenta minutos. A outra opção é esperar que o shopping feche e sobre apenas o seu. Nesse caso, o problema é se tiver mais gente sem tíquete. Ou... 
A expressão da gerente ao não completar a frase a fez sentir um arrepio na espinha, ainda assim, perguntou: 
- Ou? 
- Alguém aparecer com o seu tíquete. 
- Deus me livre! Não me fale uma coisa dessas! Já me basta ter que esperar todo esse tempo para poder tê-lo de volta. Se alguém tentasse levá-lo, ia ter que me arrastar junto! 
Após uma breve pausa, esperando uma reação humana e, talvez, solidária, que não veio, continuou: 
- Mas, bom, já que vou ter que esperar de qualquer maneira, é melhor que vejam logo as câmeras. 
- Vou providenciar a conferência das câmeras e, assim que tiver retorno, informarei a senhora. 
- Ah, e vou aceitar aquele café! 
Ao sentar-se ali ao lado, ela escutou ao fundo aquela voz arrastada e manhosa, de quem não vê mais graça nenhuma na piscina de bolinhas ou na moça que fala muito alto, repete bons dias até ele responder e age com demasiada animação: 
- Mãe! 
A voz insistia: 
- Mãe! 
Ela levantou a cabeça, com o ouvido bom virado para a origem daquele som. Demorou um pouco a perceber que era com ela, abriu levemente a boca e cobriu-a com a mão, censurando-se por não ter percebido antes. Após levantar-se, aproximou-se do cercadinho infantil, curvou-se diante do garoto e perguntou: 
- O que foi, meu filho? 
- Eu quero ir embora! 
- Nós já vamos, querido. Por enquanto, por que é que você não brinca mais um pouco com a tia? 
Imediatamente franzindo o cenho e cruzando os braços, ele retrucou: 
- Não quero! 
Corrigindo a postura, para ficar muito acima do garoto, e fechando levemente os olhos, ela proferiu a sentença final: 
- Pois vai ter que brincar sim! A mamãe perdeu o papelzinho para te tirar daí e a moça vai demorar pra resolver.

6 de setembro de 2010

Ruínas

Antevejo, em minha tela de cristal, o esgotamento de todos os recursos

Estamos todos condenados, acabou-se o mundo das boas idéias

2 de setembro de 2010

A traição de Eurídice

Agora, só me resta seguir em frente, tentando não olhar para trás. Daqui em diante, ela será apenas mais uma sombra, fadada a desaparecer, mesclando-se à escuridão das minhas memórias mais traumáticas. Eu cruzaria o inferno por ela, mas, por mais que me esforçasse, nunca a perdoaria.







ps: baseado no mito de Orfeu

1 de setembro de 2010

Desjeito

Após muito refletir, chegou à conclusão de que não havia um modo mais delicado de tocar no assunto. Sem saber onde colocar as mãos, entre enfiá-las no bolso ou cruzar os braços, comentou, como se por acaso:

- Você viu que agora tem uns sabonetes vaginais? Estranho, não é? Será que funcionam?

24 de agosto de 2010

Absolvidos

Ao final do julgamento, levando em conta a insuficiência das faculdades, e o notável estado de inconsciência, decidiram que a população não tinha culpa alguma

20 de agosto de 2010

Subexistência

Bem, sabe como é trabalhar na terra por esses dias: a parte que me cabia já estava pra lá de apertada. Eu não dava mais conta de tirar o sustento da família daquele pedaço de terra. Até daria se a minha senhora não fosse tão firme na exigência dos garotos irem à escola todo santo dia, ao invés de ficarem por lá me ajudando. Se não bastasse isso, cada dia tinha uma doença nova na lavoura e, juntinho com ela, aparecia logo um novo "defensivo agrícola", coisa que na minha época a gente chamava de veneno mesmo, mas vai entender esse mundo. Falando nisso, depois que vieram essas doideiras do clima então, aí é que não brotava mais nem capim para dar de comer ao bode. Não tive outra solução, consegui o melhor preço possível na terra - aquele punhadinho de pouca coisa que a gente chamava de casa - e partimos para a capital, mentindo para os meninos que lá havia de ser bem melhor para os estudos e que, logo logo, voltaríamos para a nossa terrinha. E foi mais ou menos isso. Um pouquinho mais, na verdade, porque eu resumi, mas cá estamos e eu, para ser bem sincero, estou um pouco aliviado. Acho que tomei o rumo certo. E você, como está?

19 de agosto de 2010

Engano

- Alô!

- Boa tarde, o senhor Seixas encontra-se?

- Quem quer falar com ele?

- Falo em nome do Banco Rio Sul.

- E por que é que não pode falar comigo?

- Desculpe-me, senhora, mas devo falar diretamente com o senhor Seixas.

- Olha aqui, mocinha, tudo que é do interesse do Alberto é também do meu interesse. Saiba você que sou a senhora Seixas e que, apesar de ainda não ter passado tudo no papel, somos muito bem casados!

- Peço desculpas novamente, mas eu preciso falar com o senhor Seixas, temos alguns assuntos para resolver e, para isso, preciso que ele confirme alguns dados, senhora.

- Não me chame de senhora, mocinha. Eu devo ter quase a sua idade!

- Desculpe, mas foi a senhora...

- Senhora não!

- Desculpe. Foi você que me disse que era a senhora Seixas.

- Era e ainda sou!

- Tudo bem, mas, ainda assim, preciso conversar com o senhor Seixas.

- Mas quanta insistência, trate logo desse tal "assunto", seja ele qual for, comigo mesma. Afinal de contas, o que é que você precisa? Deu algum problema no cartão? Alguma coisa nos investimentos? O que foi?

- Trata-se de uma dívida, senhora.

- O que foi que você disse?

- Desculpe novamente, não tive a intenção.

- Não, não isso. Você disse que tem uma dívida?

- Sim, senhora! Eu trabalho na área de cobranças. O saldo devedor do senhor Seixas está acima do tolerável pelas políticas da empresa há alguns meses. Por isso estamos ligando para informar que os cartões serão suspensos se não negociarmos esta dívida.

- Ah, mas isso você que resolva lá com aquele traste. Eu não tenho nada a ver com esse sujeitinho!

18 de agosto de 2010

Quero-queros

Ao nascer do sol, o bando de quero-queros posiciona-se em círculo, de maneira que todos aproveitam ao máximo o brilho daquele momento

Algumas horas depois, aglomeradas, as pessoas lutam entre si por um lugar ao sol - apenas para criarem sombras

17 de agosto de 2010

Volátil

As revoltas de hoje em dia são qualquer coisa parecida com álcool em pratos de vidro

Altamente inflamáveis, mas nunca afetam o que está em volta

E além disso, muitas vezes nem se consomem, evaporam

16 de agosto de 2010

Insensível

Diante do inverno rigoroso

com a porta bem fechada


e abafadas pela ducha


até as paredes choram

13 de agosto de 2010

Realizado

Após cinco meses de privações - a aposentadoria mal dava para aluguel e comida, que dirá os remédios e os pequenos desejos, finalmente conseguiu juntar a quantia que precisava. Resgatou do fundo do armário o embrulho da camisa do natal passado - transformado então na sacola das economias, contou novamente todas as moedas, para ter certeza de que não havia se equivocado na última contagem, e dirigiu-se à rua da Alfândega, pólo das lojas de cacarecos chineses, tecidos e roupas.

Ao entrar na loja, lembrou-se do sol invadindo-lhe o quarto todo dia pela manhã, dos faróis dos carros da rua iluminando o teto durante a noite e de todas as tentativas desesperadas e frustradas de pendurar algum lençol, toalha ou qualquer outra coisa na janela. Quando a vendedora perguntou se poderia ajudar, respondeu entusiasmado - vislumbrando seu lugar à sombra:

- Eu quero a melhor cortina que você puder me arrumar a preço justo.

E completou, enfático:

- E nada dessas persianas, raladores de luz! Que dessas porcarias eu já tive, não funciona e ainda quebra!

12 de agosto de 2010

11 de agosto de 2010

Bonsai

A cada vez que ousava ultrapassar seus limites, acabava sendo podado pela raiz

Com o tempo, além de não produzir frutos, suas folhas ficaram secas e amareladas

Imaturo, incapaz de libertar-se do próprio vaso, definhou ali mesmo, no sofá da casa dos pais

10 de agosto de 2010

Atraentes

Aqueles olhos interesseiros percorreram toda a mobília, antes mesmo de chegar à sala. Ao depararem-se com os talheres de prata, quase deixaram de reparar na prataria e nas taças

Sentiram-se em casa, no lar que queriam para seus deleites. Enfim, decididos, começaram a seduzir aqueles olhos tolos, apaixonados, na outra ponta da mesa

9 de agosto de 2010

Asfixia

O medo tomou-me pelas mãos

e logo envolveu-me, ardiloso


em um forte abraço



apertado




sufocante

5 de agosto de 2010

3 de agosto de 2010

Fachada

Comprometo-me pela causa

nas capas de revista


No entanto, desconheço

as reais consequências

da minha falta de ação

30 de junho de 2010

Descarregado

Com os pés descalços - dedos entremeados de barro, aprecio um momento simplório

Pequenas gotas de orvalho evaporam-se, bem ali, diante de meus olhos

Levam consigo meus fardos

29 de junho de 2010

Loteria Federal

Saiu de casa cedo, com um caderno velho nas mãos, revisando os últimos detalhes. Na mochila: uma garrafa de água, duas barras de chocolate e duas canetas pretas. Pegou o primeiro ônibus que passou e permaneceu lendo durante todo o trajeto

Ao desembarcar, não precisou procurar muito para saber o seu destino final. Diante de um prédio antigo, próximo da esquina, aglomeravam-se, entre alguns vendedores ambulantes, diversas pessoas, de todas as idades, todos com as mesmas canetas pretas, garrafas de água e chocolates. Mas, não eram apenas os acessórios que eles tinham em comum, afinal, estavam todos ali pelo mesmo propósito, arriscar a sorte na loteria da classe média instruída, prestar a prova para um cargo público

28 de junho de 2010

Dissimulado

Apesar do estilo bicho-grilo, das roupas compradas no brechó e do esforço para parecer autêntico, ele era apenas mais um vegetariano não praticante

Tal qual um bom cristão, defendia com unhas e dentes todos os dogmas que, apesar de não lhe servirem à conduta diária, apaziguavam-lhe a consciência ao final da noite

25 de junho de 2010

24 de junho de 2010

Autonomia

Mal continha-se de orgulho, após trinta e cinco anos dependendo das caronas do marido, via-se finalmente capaz de ir onde quisesse, no horário que quisesse - com uma pequena margem de erro, dos possíveis congestionamentos e atrasos

No caminho de volta, exaltada, transbordava em lições desnecessárias aos passageiros mais frequentes:

- Se quiser descer, tem que puxar essa cordinha roída!

23 de junho de 2010

Hipocondríaco

Era sempre a mesma coisa, depois do sexo ela tinha que tomar banho. Só para depois poder caminhar lentamente até a cama, deitar-se e esparramar o cabelo molhado pelo meu peito

Sentia-se extremamente sensual com aquele cabelo escorrendo. Eu, detestava, só não reclamava para não quebrar o clima. Onde é que já se viu, achar sexy uma gripe certa, talvez até pneumonia

22 de junho de 2010

Inflável

No início ela só fazia a unha, e eu nem me importava, não chegava a me incomodar. Acho que foi por isso que ela sentiu-se à vontade e resolveu experimentar outras coisas.

Eu só comecei a me preocupar mesmo quando ela começou a ajeitar o cabelo. Enquanto fazia chapinha, podia me queimar a qualquer momento, bastava um movimento em falso. Sem contar que aquela barulheira do secador de cabelo abafava todo tipo de som, atrapalhava tudo.

Com o tempo, ela também começou a fazer tricô e palavras cruzadas. Com as dúvidas de sinônimos com tantas letras, eu ainda me virava bem, apesar de perder um pouco a concentração. Mas, com as agulhas, eu sentia-me em pleno combate, enfrentando um exímio esgrimista. A cada virada para o lado ou troca de posição, acabava sendo atingido por um daqueles floretes. Era horrível. Alguns meses de tricô e eu não aguentava mais, disse a ela que escolhesse: ou ela faria seus afazeres em outro horário, ou nunca mais faríamos amor.

21 de junho de 2010

Inacessível

Gabava-se por construir enigmas quase indecifráveis, labirintos dos quais poucos conseguiriam sair ilesos

Esquecera-se de que os leitores tinham sempre a opção de não entrar

18 de junho de 2010

Artificial

Metodicamente, a cada criação, com o dicionário ao lado, fazia questão de colocar as palavras certas e contadas, uma a uma, preenchendo toda e qualquer possível lacuna

O problema é que não percebia o que todos em volta pensavam: quebra-cabeças só são interessantes para aqueles que os montam

15 de junho de 2010

Caixa de música

Nos raros momentos de lucidez, chorava pelos cantos, percebendo-se condenada.

No entanto, quando permanecia presa ao passado, alegrava-se e comovia-se, repetindo e recriando as mesmas histórias. Revolvendo-se em caminhos e devaneios, tornava-se bailarina, refém de sua própria caixinha de memórias.







2012 - Selecionado no Concurso Sul Info de Minicontos - Sul Info Publicações - Porto Alegre - RS
2012 - Selecionado no 3º Concurso de Microcontos de Jundiaí - Secretaria de Cultura - Jundiaí - SP

14 de junho de 2010

10 de junho de 2010

Impopular

Não suportava mais aquela cidade barulhenta e aquela gente suja. Saltitava por entre as poças daquela água nojenta, escorrendo sabe-se lá de onde. Nas costas bem protegidas, o casaco herdado da avó, nos pés, aquele belo sapato sem salto, bem fechado, como mandam os bons costumes, e nas mãos, o livro sagrado, tão consultado quanto a lista telefônica, mas, esta, no entanto, sendo menos popular entre os círculos de amizade - e muito mais pesada, permanecia nos fundos do criado-mudo, enterrada entre as velhas revistas de ponto e cruz.

9 de junho de 2010

8 de junho de 2010

7 de junho de 2010

Desculpe pelo transtorno

Quando o tio Ali - que na verdade era tio do meu pai - faleceu, tive minha primeira experiência com velórios e enterros. Aos quatro anos, explicaram-me que se tratava de uma coisa da natureza, que seguia seu rumo e que um dia chegaria a hora de cada um de nós voltar à terra.

Ao saber daquilo, fiquei apavorado. Afinal, o tio Ali, conforme todos comentavam, tinha ido de forma tranquila - diziam que era melhor assim do que sofrer. Mas nem todo mundo era velhinho como o tio, nem todos deviam se entregar assim, tão fácil. Eu mesmo, daquele momento em diante, fiquei de olhos bem abertos, pronto para a luta, preparado para quando as raízes viessem me buscar de volta.

4 de junho de 2010

Lúdico

Com certa facilidade, como se brincasse, criava personagens e suas histórias. Vivia envolvendo-se em diversas tramas, algumas rotineiras e, outras, um tanto insólitas. Mergulhava em enredos complexos, labirintos desenvolvidos em realidades paralelas

Entre os familiares e os círculos de amizade, todos exaltavam esta particular aptidão, capacidade criativa. No entanto, após visitarem diversos médicos, para que não restassem dúvidas, chegaram ao diagnóstico: esquizofrenia

2 de junho de 2010

Distópolis

Aquela estranha cidade foi fundada no fundo do vale, cercada por serras e entrecortada por matas, rios, bicas e cachoeiras

No entanto, apesar de poderem apreciar as belezas naturais, dignas de cartões postais, os habitantes acabaram privados de um horizonte, qualquer um que fosse. Permaneciam cercados por todos os lados, vivendo de aparências e presos a suas linhas genealógicas, alinhados e mofados, tal qual os retratos na parede

1 de junho de 2010

Confissão

Eu não suportava mais nem ouvir aquela voz, sempre reclamando de meus desvios, definindo meus rumos e ditando meus passos, tentando manter-me na linha - justo eu, que fui criado solto, igual bicho do mato

Após mais um desentendimento, ela deixou-me sem saída e eu, tomado por um surto colérico, atirei-a do carro em movimento. Eu ainda senti quando a roda traseira passou por cima, o barulho foi pavoroso

Depois daquilo não havia esperança alguma de salvá-la, por isso, acelerei. Segui sem rumo, por vielas tortuosas, sem nenhuma máquina para me dizer o que fazer

31 de maio de 2010

O peso

Carregou-a como um fardo e, após tê-la expelido, criou-a como um estorvo

Após muitos anos, forçada pelo sobrepeso, mantinha o pescoço curvado, olhares rasteiros

28 de maio de 2010

Auto-análise

Eu devia fazer terapia. Mas, a cem reais a consulta, restou-me apenas a poesia

Por sorte, muitos outros, igualmente surtados, seguiram os mesmos passos. Nas redes sociais, repletas de recados de auto-ajuda, suprimos nossas carências

27 de maio de 2010

Damas

O salão de festas era bem ao lado do playground, que na época era chamado de parquinho mesmo. Os meninos, estavam todos ansiosos para brincar, mas não podiam, afinal, era dia de festinha americana e todos eram grandes demais para o parquinho. Ao menos era isso que tentavam aparentar, do alto de seus quase 12 anos, ostentando roupas novas e exibindo, orgulhosos, os sapatos da primeira comunhão.

No centro do salão, a mesa repleta de quitutes - preparados pelas mães mais habilidosas e comprados pelas mais apressadas - permanecia intocada, enquanto em cantos opostos, alinhavam-se, meninos e meninas, acanhados e insolúveis.

Naquela disposição, enfileirados frente a frente, formavam um irriquieto tabuleiro, de damas e cavalheiros, todos confabulando, ensaiando os passos a serem dados.

26 de maio de 2010

Patriota

Em época de Copa

as folhas de outono torcem

e se retorcem

caindo em câmera lenta

de um lado verdes

do outro

amarelas

25 de maio de 2010

Interminável

Dois minutos depois do combinado, retirei o celular do bolso pela terceira vez. Após conferir os segundos que haviam passado, esfreguei o aparelho na camiseta, tentando tiras as marcas que minhas mãos, ansiosas e suadas, deixaram no visor. Após quatro ou cinco trocas de posição naquele banco de madeira, pouco confortável, ela desembarcou do outro lado da rua

Trocamos alguns olhares enquanto esperávamos por uma chance de atravessar a rua - eu já estava quase atirando-me em meio aos carros para enfim encontrá-la. Ao nos aproximarmos, ela surpreendeu-me com um beijo, daqueles mais abrasados e eu sorri, envergonhado. Depois disso, criei coragem e a pedi em namoro, como eu sempre fazia, todos os dias, antes de voltarmos para casa

24 de maio de 2010

Aprendiz

Passou quatro anos fazendo novas amizades e tendo todo o tipo de experiências - com exceção às profissionais

Ao terminar a faculdade, de nada servia ao mercado de trabalho, formou-se analfabeto funcional

21 de maio de 2010

Desprezo

Aquele sujeito sisudo permanece encarando-me, do outro lado do espelho

Entre rejeições e desenganos, desenvolvi uma gravíssima auto-estigma

20 de maio de 2010

Tormenta

Mais uma vez pego-me fazendo aquele repetitivo e irritante barulho enquanto carrego a mala de rodinhas pelo piso antiderrapante de outro aeroporto qualquer. Não consigo identificar a cidade da vez, estes caixotes cercados por tubos de vidro virados para a pista são todos iguais, todos com as mesmas lojas, as mesmas livrarias, com os mesmos campeões de venda da auto-ajuda pessoal e profissional, os mesmos cafés caríssimos com pães de queijo assados em dedais, as mesmas televisões, com os mesmos canais de inutilidades, as mesmas pessoas de ternos e taillers, entretidas com os mesmos aparelhos eletrônicos.

Mesmo sem saber ao certo, creio que eu esteja em São Paulo, por uma questão de probabilidade - a cada viagem, para qualquer lugar do país, acabo passando ao menos duas vezes pela engrenagem central, aquele ponto bem no meio da teia, São Paulo, a capital daquilo que todo mundo leva em conta - afinal, ninguém liga para política se não tiver dinheiro na jogada. Falando em política, pelas figuras que encontro de partida, com o conhecimento que tenho sobre a migração da espécie, julgo ser uma manhã de terça-feira, dia de revoada para a capital que todo mundo renega.

Penso em conferir minha passagem, para confirmar se estou indo ou voltando, mas já não tenho tanto interesse em ir ou voltar, não por esse caminho que eu tomei há mais de uma década, essa coisa de rodar o mundo pela firma, um dia em cada canto, acumulando grana, colesterol e um pouco de culpa - que só aparece por causa da falta de tempo para aproveitar a grana. Se eu reduzisse o número de viagens, quem sabe, talvez se contratassem um assistente, ou seu eu trocasse de emprego mesmo. Toda vez que eu bebo, fico falando sobre largar essa porra toda que me consome e embarcar em outra vida. O problema é que agora eu estou sóbrio.

A Maíra desistiu de me esperar há quase cinco anos, isso contando a partir de quando começamos a dormir em quartos separados. O meu garoto já está com dez anos, as gêmeas completam sete agora em agosto, dia quinze, e eu mal sei o que andam fazendo - com exceção dos breves relatos sobre faixas de judô, apresentações de balé e brigas pelo tempo na internet. Eu nunca levei meu menino para pescar, nunca andei de pedalinho com as gêmeas, coisas simples assim, igual comer algodão-doce, nunca fiz. Sempre tive tempo, mas sempre deixei que o tomassem de mim. Nunca tomei meu tempo de volta e agora estou sendo cobrado por tudo que não fiz.

O resultado do exame foi marcante, não é todo dia que a gente descobre que o coração já dá sinais de cansaço. Eu passei dos trinta ainda há pouco e agora me vem essa. A idade hoje em dia não diz nada, o estresse é que define quanto tempo você dura. O Silas, lá da firma, morreu antes de mim, com trinta e dois, derrame, isquemia, não sei direito o nome que deram, só sei que uma veia do cérebro dele não deu conta, entupiu, emperrou, explodiu, sei lá. Ele morreu na hora, dizem que foi melhor, tem gente que sobrevive a uma coisa dessas e vira quase um vegetal, preso à cama, mudo, paralisado, alimentado por tubos.

Começo a sentir um desconforto no estômago, o café não deve ter caído bem. Ao cruzar a sala de embarque rumo ao banheiro, a dor piora, falta-me o ar. Começo a suar frio e devo estar um tanto pálido, pois todos me olham com um pouco de asco - essas notícias sobre epidemias transformaram todos os doentes nos temidos leprosos medievais. Relembro algumas das poucas palavras do médico sobre os ataques cardíacos: palidez, transpiração e outros sintomas que podem ser confundidos com indigestão. Sinto todas as minhas artérias entupidas, meu coração parado e minhas pernas moles. Fraco, deito-me no chão, já rodeado por curiosos. Um deles grita por um médico e pede que dêem espaço para que eu respire, os outros observam, apreensivos, a execução da minha dívida.

Antes de perder a consciência, ainda reparo em um garoto engravatado, desses advogados recém-formados, fotografando-me no celular enquanto engasgo com meu próprio vômito. De todos os arrependimentos, desponta o maior de todos: meus filhos vão ver isso na internet.

19 de maio de 2010

Perspicaz

Na alegria e na tristeza

na calmaria e na dor


o amor, oportunista

sempre encontra seu espaço

18 de maio de 2010

17 de maio de 2010

Tortura

Durante aquela sessão de maus tratos, entre o som estridente de instrumentos pouco afiados e as pancadas incessantes de uma surra desconcertante, ouvia-se, naquela voz rouca e pavorosa, em altíssimo, mas em péssimo tom:

- Não deixe o samba morrer!

14 de maio de 2010

Mel de tolo

Todo dia, bem cedo, vestia a camisa amarotada, a calça jeans surrada (mas não dessas que já vem surrada da loja), a botina velha e o chapéu de aba amassada.

Já na rua, vestia a cara de tolo e, por fim, a voz e o sotaque de caipira inocente:

- Vai mel, madame? - dizia ele, oferecendo as garrafas cheias do açúcar melado de milho.

13 de maio de 2010

Ilusionistas

Diante do fundo neutro

a poesia atua sozinha


Enquanto o leitor

autofascina-se


com os efeitos especiais

12 de maio de 2010

Atrofia

Reparava em todos os detalhes do teto. Repentinamente, voltou a atenção para o cronômetro, que marcava pouco mais de dois minutos. Pensou que faltavam mais de dez vezes o tempo interminável que já havia passado - e soltou o ar pelo nariz, angustiado. Continuou, apesar de estar completamente desmotivado - por mais que tentasse, não via muito propósito naquela atividade, ainda mais em ambiente fechado.

Olhou para os lados, tentando distrair-se, mas de nada adiantou. Ao reparar no culto dos espelhistas, foi inevitável a ideia de sair dali o quanto antes e nunca mais voltar. No entanto, naquele momento, xingou-se mentalmente - havia caído novamente na promoção dos três meses adiantados, nunca aprendia.

11 de maio de 2010

Observadores

Após passar uns tempos na casa dos filhos, observando o comportamento dos netos, que passavam horas na internet, Dona Adélia retornou a sua terrinha e confidenciou às amigas mais próximas:

- Na minha vida toda, para lá de oitenta anos, nunca vi gente jovem gostar tanto assim de aquário.

10 de maio de 2010

Cafona

Nos velhos poemas de amor

as rimas eram mais simples

e tudo combinava

do jeito que dava

costurando pelo som

conjuntinhos de moletom

7 de maio de 2010

Arcaico

Após anos em desuso, aquele velho dicionário deparou-se com a realidade, com as mudanças na linguagem após uma série de acordos e desacordos. Antes de retornar à prateleira empoeirada, indignado, deixou cair ao chão um bilhete manuscrito:

Perdoe-me a incúria, mas devo-lhe a indagação. Porventura vosmecê, quiçá sem saber os porquês,
rubricaste algum acordo que intentava, petulante, desarranjar os princípios das regras ortográficas?

6 de maio de 2010

Correria

De um lado a outro

aguentando porrada
e acumulando pontos

atrás de metas e bônus


bolinha de fliperama

5 de maio de 2010

Contida

Engoliu o orgulho a seco, mas arrotou um pouco de sarcasmo - involuntário, não dava para segurar

De imediato, arregalou os olhos, cobriu a boca com a mão direita - um tanto envergonhada - e pediu desculpas, com um leve sorriso entre os dedos

Ao cruzar o corredor, sentiu-se orgulhosa - um dia enfrentaria aquele sujeito repugnante

4 de maio de 2010

Bromélia

Após uma forte chuva

transbordou-se de tristeza

percebeu que amor sem raiz

é apenas paixão

3 de maio de 2010

Fantasia

Sonhava em ser uma diva ruiva, desde que descobrira que Rita Hayworth ostentava cabelos avermelhados. Decepcionou-se um pouco quando descobriu que o cabelo dela era pintado, mas não podia reclamar de nada que fosse falso

Quando decidiram arrombar a porta - meia hora depois do recepcionista ter visto um tipo suspeito sair apressado do quarto, tremendo e desajeitado - depararam-se com ele deitado ao chão, despido de seus apetrechos e enchimentos, com duas longas mechas, de um vermelho ainda vivo, escorrendo pelo ralo

30 de abril de 2010

Remoção

Após as tragédias, iniciou-se a coleta seletiva, retirando os problemas da vista e despejando-os em algum aterro - distante e pouco sanitário

Quem reside em área de risco, diante deste cenário, nada mais é do que resíduo







ps: moradores de áreas de risco protestam contra a remoção

29 de abril de 2010

Promovido

Depois de anos de serviços prestados, destacando-se entre as equipes - cada vez menores e mais seletas, finalmente alcançou o topo

Mudou-se para o sétimo e último andar, sobre todos os outros, em sua própria e espaçosa solitária

28 de abril de 2010

Ariscos

Nascidos em cativeiro

interagem pouco
ou quase nada

arredios, sociopatas

por pura falta de prática

27 de abril de 2010

Madura

Após algum tempo
tornou-se redonda

e um pouco azeda

Mais tarde
também encheu-se de rugas

Entretanto
ainda restavam traços

da flor de maracujá

26 de abril de 2010

Imaturo

Diante daquela fruta apetitosa, balançava o corpo como árvore sem raiz, movimentado os braços tal qual galhos ao vento

Todo sem jeito, inseguro, apenas jogava verde

23 de abril de 2010

Imóvel

Quando os bandidos entraram atirando, só pensei em estrangular aquela arquiteta imbecil

Nesse maldito escritório clean, minimalista, não restou um móvel atrás do qual eu pudesse me esconder

22 de abril de 2010

Picada

De madrugada, rondávamos pela casa, apenas eu e as formigas, minhas pequenas companheiras. Desde que descobri a insônia, foi sempre assim. Além dos hábitos noturnos, dividíamos a mesma compulsão por açúcar e eu até costumava deixar alguns farelos para as pequenas, dividia meu prato com elas.

As coisas começaram a mudar em uma das corridas ao banheiro, enjôo pós-bebedeira. Ajoelhado em frente ao vaso, descobri que as pequenas filhas da puta entram até no cesto de lixo do banheiro. Repleto de curiosidade, ao abrir o cesto, deparei-me com uma cena que me fez contrair um pouco mais o abdômen e esvaziar de vez o estômago. Notei qual era o banquete das malditas: uma barata, daquelas voadoras, que havia entrado pela janela na noite anterior e acabou vitimada por um duro golpe de havaianas. A barata morta, gosmenta, estava coberta por dezenas - talvez até centenas, - de formigas, que a levavam, pouco a pouco, aos pedaços, para algum buraco entre os azulejos. Chocado, porém esgotado, escovei meus dentes e voltei para o quarto, antes que perdesse de vez o sono.

No dia seguinte, ainda com um pouco de enjôo, relembrei da cena marcante. Pensei no quanto as baratas são temidas e em quanto asco elas causam. Depois, pensei em quanto as formigas são vistas quase que como os mocinhos do mundo dos insetos, trabalhadoras, limpas e honestas. Lembro inclusive de alguma tia falando, quando havia alguma no copo de suco, que fazia bem para a vista comer formigas. As pequenas aberrações livravam-se, impunes, de todos os pequenos crimes, cometidos durante a madrugada, logo abaixo do nosso nariz.

Naquele mesmo dia, antes de mais nada, fui direto ao mercado. Comprei um protetor de escovas de dentes - ninguém sabe por onde andam aqueles demônios - e um mata insetos, dos bem venenosos. Sentindo-me enganado, comecei a preparar-me para a vingança.

21 de abril de 2010

Individual

Correm um grande risco os que colocam tudo de si em suas obras

Afinal, a mediocridade só tem algum valor quando é coletiva

19 de abril de 2010

Oxidação

Depois do primeiro tapa, a vida que começa, de ponta cabeça, lentamente esvai-se. Desde a primeira inalação de combustível, funcionamos como máquinas: eficientes e diligentes, correias e engrenagens sem freios, corroendo-se por dentro até a exaustão.

Ao final dessa jornada, hora da inevitável sorte, acabamos por perceber o que nos persegue desde aquele primeiro tapa: toda inspiração tem um pouco da vida e da morte

16 de abril de 2010

15 de abril de 2010

Dono da bola

Espalha pela mesa os conhecimentos adquiridos, a muito custo, nas faculdades particulares de filosofia e direito. Só ele fala, ecoando teorias ultrapassadas

Enquanto isso, os outros podem deliciar-se com a oportunidade de dividir o mesmo espaço e, vez ou outra, dar algum pitaco, contanto que não ousem tocar em seus brinquedos, caros e frágeis

14 de abril de 2010

13 de abril de 2010

12 de abril de 2010

Dádiva

- Ver uma borboleta é sinal de sorte.

- Sério? Eu não sabia disso.

- Hoje em dia, para achar uma dessas, no meio dessa cidade...

9 de abril de 2010

O medo bate à porta

Desde os tempos das cavernas, o desconhecido nos intimida

Nos tempos modernos, a paranóia coletiva ganha espaço, mal sabemos quem são nossos vizinhos

7 de abril de 2010

Investidor

Na alocação de recursos, sempre foi muito metódico, seguindo os manuais de Wall Street. Realizava as aplicações quando o cenário apresentava clara tendência de alta, visando a venda a curto prazo. Não podia correr muitos riscos porque o capital era extremamente restrito, mas também não podia dar-se ao luxo de perder oportunidades de complementar a renda.

Quando o céu começava a cobrir-se de nuvens, entrava na primeira lojinha de cacarecos chineses e saia de lá com quatro ou cinco sombrinhas debaixo do braço.

6 de abril de 2010

Pedigree

- O meu come qualquer porcaria da rua.

- O meu não, só come ração.

- E ele gosta?

- Gostar não gosta muito, mas depois que o pessoal da academia falou dessa mistura de farelos...

2 de abril de 2010

Sala de troféus

Atrás da mesa, uma cadeira imponente, daquelas que mostram quem é que manda

Nas paredes, um quadro de avaliação bimestral de desempenho e dois cartazes com frases motivacionais, a auto-ajuda dos escritórios

Nas gavetas, aquilo que ela guardava com mais orgulho, as rescisões dos funcionários cujas cabeças ela exigiu

1 de abril de 2010

Dúbia

A corda da poesia que me enforca

é a mesma que vibra em harmonia

ressoando pelo mundo meus anseios

31 de março de 2010

Crescendo

Quando o mundo escondeu o pote de biscoitos em cima do armário, após algum tempo, com muito esforço, peguei um banquinho e arrastei até a frente dele. Infelizmente, ainda assim não o alcancei.

Depois de mais algum tempo, e muito empenho, voltei. Peguei uma cadeira e arrastei até o lado do banquinho, mas ainda não dava pé.

Por fim, depois de tanto tempo, esforcei-me ainda mais para arrastar a mesa. No entanto, quando parei novamente ao lado do armário, já estava grande o suficiente para não precisar mais de apoio.

30 de março de 2010

Ceifado

Deixou-a esperando, plantada

Quando chegou, ansioso, alguém já havia colhido os frutos

29 de março de 2010

Ervas daninhas

Nestas terras férteis, em se plantando tudo dá

No entanto, sem qualquer esforço, em cantos úmidos e abandonados, brota apenas a mediocridade

26 de março de 2010

Inconveniente

No sossego do sul de Minas, o povo todo é boa gente, muito do dedicado e ainda mais do hospitaleiro. Quando passa um conhecido, desconhecido ou viajante, já vão logo chamando para um café, guiando para dentro de casa e puxando conversa.

No entanto, de tempos em tempos, esse povo hospitaleiro sofre a sina de quem convida a entrar sem olhar a quem. O povo todo vê o rio, que corre bem ali do lado, e ninguém se cansa de sempre convidar para entrar e o rio sempre fazer desfeita. Mas, de vez em quando, o rio que geralmente corre tranquilo, fica espivetado e resolve aceitar, de uma vez só, todos os convites, vai entrando de casa em casa e chega mais ou menos até a praça, fazendo a maior sujeirada.

A gente de lá, que não é de se irritar por coisa assim à toa, depois que a água se vai por vontade própria, começa a juntar os trapos, as tralhas e os cacos. Durante a limpeza, comentam entre si, bem cochichado, que é para o rio não ouvir, que a sorte é que enchente é igual parente de longe, que só vem mesmo uma vezinha por ano e olhe lá.

25 de março de 2010

Novelo

Puxei o fio da meada

assim, como quem não quer nada


Não me custa tentar desatar

ver se rende conversa fiada







2010 - 19º Concurso Poemas nos Ônibus e nos Trens - Porto Alegre - RS;
Publicada na coletânea do concurso

24 de março de 2010

Evitando desperdício

Não despejo as mágoas em lágrimas, lamentando-me pelos cantos. De nada adianta chorar sozinha. Guardo-as todas, ao lado das boas lembranças, em um pote de vingança

23 de março de 2010

22 de março de 2010

Vou-me embora pra outra casa

Vou-me embora dessa casa

onde o rei nem põe os pés

lá terei minha rainha

na casa que escolherei


Vou-me embora dessa casa

onde o bispo coleta dízimo

se Deus é assim avarento

lá servirei ao diabo


Vou-me embora dessa casa

onde o cavalo caga na porta

aqui eu sou só peão

lá serei o que quiser







livremente criado com elementos da poesia de Manuel Bandeira

18 de março de 2010

Desfeita

Sem pressa nem má vontade, distribuo amostras grátis da mais fina gentileza. Mas ainda tem gente avarenta, desgraçada e lazarenta, que não retribui e desdenha, só porque me faltam, de acidente ou de desleixo, uns 3 ou 4 dos dentes da frente. Bem diria minha avó, que tombou da maleita, Deus a tenha: "sorriso dado não se olha os dentes".







ma.lei.ta: 1. o mesmo que malária

17 de março de 2010

Entre ternos e bravatas

Entre paletós aquecendo poltronas e cafezinhos para colocar o papo em dia, o aviso na parede deixa bem clara a ameaça: quem protestar pelo descaso será preso por desacato.







bra.va.ta: 1. ato ou dito que reflete presunção a respeito de atributos pessoais, poderes etc; 2. ato ou dito insolente que envolve ameaça, intimidação; 3. prova de força ou de coragem desnecessária e eventualmente danosa.

16 de março de 2010

Paralisia

Pela inércia de muitos anos

enfraquecidos e atrofiados

poucos repararam

quando, por fim, cessaram

os movimentos sociais

15 de março de 2010

Valores

Já haviam reunido toda a papelada e discutido com os advogados sobre as despesas do divórcio

No entanto, nos últimos momentos, por tudo que haviam construído juntos, decidiram voltar atrás

Tudo pela manutenção, intacta, do sagrado patrimônio

12 de março de 2010

Chagas

Guardo na memória

momentos marcantes

cicatrizes que exibo orgulhoso


Mas os traumas e tormentas

que eu quero deixar para trás

ainda sangram

11 de março de 2010

Legado

Não escapou da sina da família, que parecia ser coisa genética

Tornou-se também um trabalhador de mão cheia - de calos - e bolso vazio

10 de março de 2010

Amparo

Na desforra, até ouso blasfemar

Mas no desespero, rezo fervorosamente

Quando estou para baixo, ter um santo ajuda

9 de março de 2010

Cárcere privado

Sobre a calçada
fumegam os resquícios
de um colchão incendiado

Em volta,
dezenas de curiosos
observam as contorções
das chamas que ainda resistem.

Ao avistar de longe esta cena,
encho-me de esperança:

finalmente rebelaram-se
os prisioneiros da rotina.







2010 - II Prêmio de Poesias do Núcleo Artístico Cultural Professor Áureo Ramos - RJ

8 de março de 2010

Inglórias póstumas

Depois de muito tempo
tiveram o castigo merecido

Em plena praça pública
cobertos de cocô de pombo

5 de março de 2010

Imaculada

A noite foi perfeita. Ele escolheu um prato delicioso, um vinho ótimo e, para completar, escolheu palavras encantadoras. O ambiente era muito agradável e a companhia melhor ainda, não demorou muito para que eu me deixasse levar. Entre beijos e abraços, já adentrando a madrugada, ele disse que não queria apressar as coisas, que pretendia me respeitar, e levou-me para casa. Não se insinuou a subir comigo, não deu nenhuma indireta maliciosa. Eu fiquei sem palavras.

O insensível não sabe quanto custa fazer pé e mão, escova japonesa, perna toda e virilha cavada. Desgraçado, filho da puta! Só pode ser viado...

3 de março de 2010

Combustível

Não sei em que ano estamos - ninguém mais sabe. Perdemos a conta após as grandes tempestades de areia. Ninguém esperava. Após os terremotos, não podíamos mais nos alojar nas edificações, por medo dos tremores e, então, veio a areia, cobrindo os rastros dos poucos que resistiram. Mas, eu não posso perder tempo, não sabemos quando nem como o planeta vai tentar livrar-se de nós novamente e, portanto, eu e os outros precisamos estar sempre preparados para o pior.

Há muitos anos organizamos nossa comunidade em pequenos grupos, liderados pelo membro mais velho, cada um com um objetivo específico para a manutenção do todo. Acreditávamos que deviam estar fazendo isso por locais de todo o mundo até que fosse possível nos reerguermos como civilização. Ao menos tínhamos essa esperança, mas há muito tempo não tínhamos contato com ninguém de nenhum outro país, estado, cidade ou comunidade.

No meu grupo, éramos quatro, responsáveis pela busca e exploração de combustível. Com trajes específicos, para nos proteger das tempestades de areia e da radiação solar, saíamos da base, rumando em direções distintas a cada dia, sempre evitando as nuvens de poeira, e vasculhávamos o deserto com um detector de gases combustíveis. A cada dois ou três anos encontrávamos uma grande jazida e, em cada uma delas, inúmeros filões, pequenas jazidas, sempre protegidas por uma camada de concreto.

Demos sorte na última missão, cerca de seis horas após a partida da base, na direção sudeste, detectamos um sinal. Após iniciar as escavações e estabelecer acampamento, aguardamos melhores condições de luz para continuar com os trabalhos. No dia seguinte, apesar de cobertos por uma nuvem de poeira, encontramos a primeira placa de concreto, indicando que estávamos no local certo. Pouco tempo depois, já havíamos delimitado uma área com cerca de vinte pequenas jazidas. Decidimos iniciar a extração enquanto um de nós continuava o trabalho de limpeza do terreno para delimitação da área a ser explorada. Extraíamos primeiro o gás, usado principalmente no sistema de calefação - crucial para resistirmos às noites frias. Após retirar o gás, obtínhamos um líquido negro e viscoso, utilizado tanto para movimentar nossas máquinas quanto para o aquecimento da água, funcionamento de veículos de transporte e para a produção de energia elétrica - ainda que os veículos e a energia elétrica fossem utilizados apenas em casos emergenciais.

Não tivemos qualquer problema para perfurar e extrair o combustível dos dois primeiros filões, mas, no terceiro, a broca começou a sacudir e tivemos que interromper os trabalhos. Desliguei a escavadeira, retirei-a para o lado e um dos rapazes abaixou-se, em meio à poeira, para averiguar o que nos estava impedindo. Neste intervalo, o responsável pela limpeza do terreno avisou-me pelo rádio sobre um achado e eu, aproveitando a breve pausa, resolvi procurá-lo. Ao chegar ao local, encontrei-o entre uma estátua de bronze, de um anjo, e quase uma dezena de cruzes de metal, todos cobertos por uma fina nuvem de poeira.

Devido à presença das cruzes, deduzimos que o propósito do local era religioso, mas ainda não sabíamos do que se tratava. Não até o momento em que fui chamado pelo rádio, às pressas, para o local onde havíamos interrompido a extração. No chão, o rapaz ainda retirava um pouco de areia de cima de uma placa de metal. Ao aproximar-me, pude ler a seguinte inscrição: "Aqui jaz, Alberto Galeano, esposo apaixonado, dedicado pai de família e ilustre membro do clube de campo. Que descanse em paz!".

De início, ficamos chocados, estáticos. Não sabíamos que aquilo que nos movia adiante, o que queimávamos para nos aquecer, eram os restos mortais de nossos antepassados. Diante do desespero, antevendo uma crise, assumi meu papel de liderança e disse aos que me cercavam - e a mim mesmo, em voz alta, o que haveria de se tornar meu lema de vida - ou do resto daquilo que eu chamava de vida:

- Eu não posso perder tempo com o tempo que já passou, com os vestígios do que fomos.

2 de março de 2010

1 de março de 2010

Identidade

Ao entrar na sala do apartamento, não notou qualquer diferença. Os mesmos móveis acomodados em volta da televisão, os mesmos pais trabalhadores e ausentes - também acomodados em volta da televisão, com as mesmas dores na coluna e na cabeça.

Na cozinha, os mesmos copos de requeijão, os mesmos panos de prato velhos em cima da pia - enquanto os novos e bordados mofavam na gaveta - e os mesmos potinhos na geladeira, guardando os restos daquilo que ninguém vai comer.

Quando entrou no quarto, ao abrir a janela, percebeu a primeira e única diferença: dali se tinha vista para a praça dos fundos - e não para a rua da frente. Cansado, acomodou-se e dormiu na mesma velha cama de madeira, coberto pela mesma manta empoeirada e quadriculada, ao lado da mesma escrivaninha, que equilibrava-se não se sabe como, suportando o peso daquele mesmo computador amarelado e da televisão de quatorze polegadas.

Na semana seguinte, ao encontrar-se no elevador com o antigo dono do quarto, comentou:

- Gostou da vista da rua?

- Mais movimentada... É bom, para variar.

- Quando cansar, trocamos de volta.

- Fechado!

25 de fevereiro de 2010

Saciada

Nos eventos sociais, ele saciava-se de petiscos e aperitivos

Ela não dava a mínima, contato que fosse bem servida, como prato principal

23 de fevereiro de 2010

Forca

Viviam entre palavras cruzadas, desafios de lógica e jogos de memória

No passatempo da rotina, para fugir da monotonia, discutiam a relação

19 de fevereiro de 2010

18 de fevereiro de 2010

Cidade de contrastes

Por estas vielas imprevisíveis, durante a madrugada, vejo algumas coisas que até Deus duvida.

E outras que me fazem duvidar dele.

10 de fevereiro de 2010

Bons costumes

Todo dia depois do almoço, quando ele caia no sono bem em cima do carrinho de mão, ficava igualzinho tartaruga de ponta cabeça. Eu e os outros rapazes ficávamos sentados no chão, encostados em alguma sombra. Só ele tinha coragem de dormir no carrinho, todo curvado. Mas ele era assim mesmo, não tinha vergonha de nada que desse na telha de fazer. Trabalhava igual todo mundo, nem mais nem menos, mas trabalhava cantando, coisa que a gente não fazia por falta de costume - ou talvez por medo. Tinha mulher igual a todos os outros, mas levava ela para dançar e, de vez em quando, preparava a janta, coisa que a gente, homem de família, não faz por cansaço - ou talvez por costume. Nunca entendemos aquele jeito diferente dele fazer as coisas no mundo, mas ele parecia mais feliz. Talvez fosse a gente que estivesse imobilizado, igualzinho tartaruga de ponta cabeça.

9 de fevereiro de 2010

Descaminhos

Torturando-se, refez todos os passos daquela noite enquanto reconstruia mentalmente a tragédia: o caminho mais curto, os olhares receosos, o grito e os dois disparos, secos, à queima-roupa, seguidos pelo silêncio. Por algo tão banal que ele nunca conseguiria entender.

No entanto, não desistiu, tentou decifrar os porquês, percorrendo e examinando cada detalhe daquelas vielas putrefatas, até a estafa. Naquele cenário sombrio, entre tantas lembranças drásticas, perdeu-se do fio da razão, sua única esperança de retornar, são e salvo, à rotina. No centro do labirinto, cercado por medos, prometeu nunca mais piscar os olhos.

Encontraram-no em um canto, com os olhos bem abertos, ressecados.

8 de fevereiro de 2010

5 de fevereiro de 2010

4 de fevereiro de 2010

Mercadofobia

Uma a uma, retirou três bananas do cacho, para não ter que pesar o talo. No carrinho já tinha arroz e feijão, farinha, manteiga e pão. Nem escolheu maçã que não ia dar para levar. Muito menos o queijo - fosse fatia ou pedaço. Agradeceu, quando viu o preço, que a patroa do marido sempre arrumava um punhadinho de carne.

Finalizadas as compras - e as economias, andava rápido pelos corredores, aquilo tudo a deixava assustada, ainda havia de chegar o dia, desventura anunciada, em que não conseguiria levar mais nada.

3 de fevereiro de 2010

29 de janeiro de 2010

Fragilidade

Num sopro
se vai a vida

mariposa
no párabrisa







2011 - 2º lugar no Concurso Poeme-se! de Poesia no Twitter - Sobracapa Literal - RJ;
Publicada no periódico virtual Sobracapa Literal

28 de janeiro de 2010

27 de janeiro de 2010

26 de janeiro de 2010

25 de janeiro de 2010

Poesia pirata

Troca-se a matéria prima


em lugar de metáforas e rimas

meras comparações

e métricas desritmadas

22 de janeiro de 2010

Trincado

Naquele rosto rachado

restava apenas um riso torto

um rascunho tosco

dos sorrisos de outrora

21 de janeiro de 2010

Tortura

A língua seca pendia para fora da boca. Arfando, ele olhava em volta, procurando por um mísero gole de água que fosse.

Ao encontrar uma poça suja, resquício da última chuva, sem pensar duas vezes, prostrou-se para ao menos molhar os lábios. Mas, antes que pudesse alcançá-la, foi impedido:

- Toby, não! - após a fisgada, reduziu o alcance da coleira e continuou falando com a moça da padaria - Ele adora passear, fica de língua de fora, todo feliz!

15 de janeiro de 2010

Debaixo da lona

Toda noite a trapezista, que dispensava apresentações e redes de segurança, passava pelo circo de mãos em mãos. E o marido, o palhaço, de nada desconfiava

No dia em que ele chegou ao picadeiro mais cedo, momentos antes dela passar por mãos alheias, ela desconcentrou-se, envergonhada, e, por instinto, recolheu os braços

14 de janeiro de 2010

Alice na cidade maravilhosa

Estava perdida naquele lugar repleto de gente maluca

De uma hora para outra, diante das construções e do caos, sentia-se excessivamente pequena

No entanto, em outros momentos, observando as sutilezas humanas e da natureza, sentia-se parte daquela coisa enorme que não conseguia definir com nome algum







2012 - 2º lugar no I Concurso Literário da Uniso - Curso de Letras da Uniso - Sorocaba - SP

13 de janeiro de 2010

12 de janeiro de 2010

Rio sem pé nem cabeça

Entre os vales e morros, é profundo e não dá pé

Enquanto na beira-mar, é raso e não dá cabeça

11 de janeiro de 2010

Rio que me leva

A correnteza carrega os que se deixam levar, boiando maravilhados

Enquanto os que resistem, apavorados, são engolidos pela cidade

14 de dezembro de 2009

Náufrago

Para não afogar-se nas águas turvas da realidade, agarrava-se aos sonhos, que estavam sempre à tona, com a esperança de chegar à terra firme.

13 de dezembro de 2009

O dono do banco

Sentei-me no único banco da praça que escapava do sol. Aquele que ficava bem de frente para o prédio comercial, um daqueles prédios de vidro escuro, com ar condicionado central, bunkers de proteção contra a liberdade e o ar puro. Ao menos era assim que eu via o prédio onde eu perdia oito horas diariamente, enclausurado.

Naquele horário o sol já estava mais baixo, mas, de terno e gravata, e ainda acostumado ao ar glacial do bunker, qualquer raio de sol ou bafo mais quente parecia derreter-me. Portanto, era convidativo aquele banco à sombra, uma raridade naquele horário, uma vez que a praça estava, como sempre, tomada por crianças saídas da escola e por diversos grupos de aposentados, que pareciam reunir-se ali para contar os vivos e lamentar os mortos. Lembro até hoje do dia em que reparei nisso pela primeira vez. Fiquei na praça até mais tarde, lendo um livro qualquer - provavelmente do Galeano - e vi uma senhora aproximando-se de um grupo e comentando: a Madalena não vem mais. A desesperança daqueles rostos cansados, abalados pela notícia, marcou-me.

Alguns instantes depois de sentar-me, mal havia dado tempo de encontrar uma boa posição para as pernas - já que só tinha tentado duas até aquele momento, um senhor veio caminhando em minha direção e disse:

- Você não tem outro lugar melhor para sentar?

Entendi aquilo como uma clara tentativa de tirar-me dali, mas decidi não abrir mão facilmente do meu lugar à sombra:

- Na verdade, tenho, mas nesse momento prefiro ficar aqui. Por quê?

- Esse é o melhor lugar para ver o pôr-do-sol.

- O senhor deve estar brincando, não é? Esse prédio enorme encobre tudo!

- Encobrir ele encobre, mas eu ainda consigo lembrar de tudo.

- Se o senhor vai imaginar, pode sentar-se em qualquer banco, são todos iguais.

Quando eu disse que eram todos iguais, ele franziu o cenho e elevou o tom de voz:

- Esse banco é diferente e esse banco é meu, seu moleque atrevido!

Diante da ofensiva, decidi não abandonar o barco e, muito menos o banco, rebati sem exaltar-me, ainda que infantilmente:

- É seu é? Por acaso tem seu nome escrito? Esse banco é público e eu não vou sair.

Percebendo minha teimosia, aquele senhor há instantes emburrado, estampou no rosto a desesperança marcante daquela mesma praça e disse, já virando as costas:

- Na verdade, tem.

Antes que ele se afastasse, afetado por aquela imagem, levantei-me e olhei para o banco. Tive que procurar um pouco, mas encontrei. Bem no meio do encosto, entre assinaturas com caneta bic e corretivo, estava talhado na madeira, bem fundo, um coração preenchido com dois nomes. Corri atrás daquele senhor, que já havia cruzado metade da praça, coloquei minha mão sobre aquele ombro curvado e disse:

- Seu Luis, me desculpe.







2011 - 7º lugar no XIII Concurso de Contos Alípio Mendes - Ateneu Angrense de Letras e Artes - Angra dos Reis - RJ;
Publicada na coletânea do concurso

12 de dezembro de 2009

Limites

Era um grande garoto. Pelo menos era isso que os pais, tios e avós diziam sempre. Na maioria das vezes, ainda completavam o elogio com um afago em notas contadas, não importando se ele estava certo ou errado.

Com o tempo, aqueles que o cercavam seguiram envelhecendo e crescendo. Mas ele, por alguma razão obscura da natureza humana, encolheu. Tornou-se um sujeito mesquinho, um homem pequeno.

11 de dezembro de 2009

Sucessão

Entristeceu-se profundamente com a notícia da morte do avô. Era a primeira vez que teria que lidar com a morte de alguém - que nem era tão próximo, mas que era muito querido. Já haviam falecido outros parentes mais distantes e amigos da família, mas, apesar da insistência dos telejornais, a mãe tentava mantê-lo afastado do tema delicado - ao menos até aquela cinzenta manhã de chuva fina.

Após vestir a melhor roupa de domingo e, por cima dela, o casaco vermelho de gorrinho, entrou no carro calado e seguiu cabisbaixo durante as duas horas de estrada. Por vontade própria não falaria uma palavra, mas respondia monossilabicamente as perguntas da mãe, que tentava consolá-lo.

Ao chegarem à capela da pequena cidade, muitos dos parentes já estavam por lá. Também já estavam presentes no velório muitos dos amigos do seu Alfredo: o pessoal da bocha, a turma dos bingos e dos jantares dançantes (as pessoas eram as mesmas, só trocavam os dias, com bingo na quinta e baile no sábado) e, por fim, os que jogavam truco e dominó na praça (essas turmas eram diferentes e, inclusive, como dizia o seu Alfredo, que costumava apaziguar os ânimos, disputavam as mesinhas a unhas e dentaduras).

Quando pararam o carro e o garoto desceu, os amigos do seu Alfredo, compadecidos com a presença da criança, viraram-se para ele com os olhares bondosos de quem cuida. Observando a cena, o garoto lembrou-se do ano anterior, quando havia morrido o cãozinho que ele tinha desde quando nem se lembrava. Recordou-se que, no dia seguinte ao do atropelamento, a mãe o levou à loja de animais. Naquele momento, percebendo-se em meio a dezenas de opções, respirou fundo e sorriu, reconfortado.

10 de dezembro de 2009

À parte

Voltando para casa, invariavelmente passava diante do mercado. Pensou em entrar para comprar um bom vinho para acompanhar o jantar, mas quando chegou na frente, desistiu. Não passou reto porque a multidão que começava a aglomerar-se obrigou-o a desviar, mas, avesso a confusões, passou direto.

Enquanto ele passava, observou de relance que os seguranças estavam cercando uma senhora que parecia estar tentando atingir-lhes com uma sacola de tecido cheia de compras, também ouviu as pessoas comentando que ela já havia atirado outras mercadorias contra os funcionários do mercado. Permaneceu indiferente à cena e aos comentários, era também avesso às fofocas e burburinhos.

Continuou andando para casa, mas percebeu que enquanto ele andava, a notícia corria. Mal havia andado meia quadra e já via o assunto chegando na esquina, mais ou menos na mesma altura do congestionamento causado pelos motoristas que passavam devagar, tentando espiar alguma cena da confusão por entre os passantes, que no momento estavam parados, mas logo passariam. Sentiu-se incomodado ao ver que todos pelo caminho comentavam e aumentavam a situação vexatória dos envolvidos, mas o máximo que podia fazer era manter-se indiferente e não aumentar a onda - que a esse momento já estava enorme. Na esquina já comentavam que alguém estava atirando pedras e pedaços de pau para todo lado, que havia feridos.

Ao entrar no saguão do prédio, acreditou ter despistado a notícia que o cercava desde o mercado. Mas foi então que o porteiro comentou sobre a atuação violenta da polícia, há pouco tempo, em uma situação com reféns no mercado. Olhou para o porteiro e percebeu que ele falava com um morador que estava sempre por ali, sentado na poltrona - que talvez fosse até dele e não do condomínio, porque nunca havia visto nenhum outro morador usando-a. Sentiu-se aliviado porque podia poupar-se de fazer qualquer comentário em relação ao caso, até porque, caso comentasse, reduziria aos fatos o acontecimento que havia provocado tantas reações e, de fato ou ficção, agitado um bom tanto a vida um outro tanto monótona dos que deixam para viver no final de semana.

Quando entrou no apartamento, finalmente livre, sentiu-se superior aos que sucumbiram ao burburinho, às fofocas e conduziram uma simples confusão de saída de mercado a um conflito armado.

Começou a preparar o jantar e a repensar os acontecimentos do dia. Após alguns momentos de reflexão, sentiu-se angustiado porque, de fato, o que acontecera de mais interessante no dia foi o rebuliço na porta do mercado, que podia ter se tornado parte do seu dia se acaso não tivesse se esforçado tanto para ignorá-lo.

Um pouco depois que ele terminou a janta, especialmente preparada para a esposa, ela chegou. Cumprimentaram-se com um beijo - sem abraço por conta das mãos engorduradas - e, então, ele perguntou:

- Demorou um pouco mais hoje, muito trânsito?

- Essa rua ali da frente estava um pouco parada. Parece que houve alguma confusão no mercado. Você ficou sabendo algo?

Diante da pergunta a ele direcionada, o estímulo que lhe faltava, não conseguiu conter-se:

- Parece que alguém tomou um tiro no mercado.