18 de agosto de 2013

Promissória

Toda promessa
tem outra face

- tal qual moeda
de troca

Toda promessa
carrega nas costas

uma cobrança compulsória

17 de agosto de 2013

Ímpeto

Aquela paixão
- todos diziam
era atraso de vida


o que ninguém sabia

é que não tenho pressa







2013 - Selecionada no 4º Prêmio TOC140 de Poesia no Twitter - Festa Literária Internacional de Pernambuco - Olinda - PE;

11 de agosto de 2013

Redentor

Capturado pelos soldados, pagou com a vida por pecados alheios

Depois de três dias, não havia qualquer sinal do corpo - nenhuma notícia

A família continua buscando respostas







* Este texto foi rabiscado no caderninho quando eu ainda estava morando no Rio. Ao passar a limpo as anotações, fiquei até confuso, pois foi impossível não relacioná-lo ao caso mais recente, do pedreiro Amarildo, "desaparecido" pelos soldados da PM na Rochinha.

6 de agosto de 2013

Veredas

Caminhava a passos vagos
por noites esquecidas

e para marcar a trilha
- e retornar durante o dia

deixava pra trás um rastro

de migalhas do passado

24 de julho de 2013

Tributos

Guarde contigo
entre os dedos

bem contido
- como segredo

o ouro de que nos priva


Na barca de Caronte

pagará
- por teus pecados

o excesso de bagagem

15 de julho de 2013

Viajante

Trago nas mãos um mapa
de cento e sete cidades

- fundidas em uma metrópole


Na mochila, coleções
de tantos rostos e nomes

- que nunca, nunca se completam


No bolso de trás, um livro
com todas as histórias

- que ninguém vai escrever


E, por fim, embrulhadas em jornal, conservas
de momentos preciosos

- para saciar a tristeza
nas noites mais longas do inverno

6 de julho de 2013

O último choro

O brilho dos teus olhos

tal gota de orvalho
que escorre

- pelos veios da folha

e atira-se ao chão

28 de abril de 2013

23 de abril de 2013

Apreensivo

Envolto num casulo

receio se seda
- ou teia

Interrogado,
respondo:


Não temo nada


salvo

quando estou ao teu lado

31 de março de 2013

Frágil

Não era um sorriso amarelo
- tampouco branco

tinha cor de porcelana antiga

e era tímido
- contido

como se fosse frágil

25 de março de 2013

23 de março de 2013

Geometria do discurso

Nos debates cotidianos
eis o que tenho notado:

os círculos
[sociais]
estão cada vez mais quadrados







Dica de leitura:
Roland Barthes - Aula

22 de março de 2013

Sincronia

Em ritmos distintos
caminhávamos nos afastando

Entretanto, após algum tempo
tendemos a nos encontrar

- nas horas exatas

em momentos marcados

tal qual ponteiros
tiquetaqueando
no mesmo relógio

21 de março de 2013

18 de março de 2013

Decomposto

Produzia uma prosa ácida
- corrosiva


E com o tempo
ao dissolver-se

não restariam quaisquer traços

14 de março de 2013

Carrasco de sandices

Mantenho centenas encarceradas
em espaço diminuto

umas mortas há tempos
e outras que ainda gritam

muitas desesperadas
algumas, esperançosas

de um dia sair do bloco

do caderno de anotações
- calabouço de inspirações

13 de março de 2013

Ribeirinho

Da porta de seu casebre
protestava, ainda perplexo:

E essa gente estudiosa
- com diploma e tudo mais

vem me dizer agora
sem nem vergonha na cara

que há um nível tolerável

de merda na minha água

10 de março de 2013

Tão perto, tão longe

- Aquele copo estava meio suspeito. Eu tive um mau pressentimento, mas estávamos em uma festa, entre amigos, o que podia dar errado?

Aqueles olhos ariscos fitaram-me pela primeira vez após meses

- Tudo... deu tudo errado. Aquele nojento! Desgraçado...

As lágrimas começaram a jorrar em abundância. Levantei-me para abraçá-la e, de imediato, fui repelido por um gesto brusco. Ela recolheu-se a um canto do sofá. O silêncio da sala tornou-se denso. O espaço entre nós, um deserto.

28 de fevereiro de 2013

Obsoleto

Os frequentes atrasos e esquecimentos do antigo capelão já vinham provocando comentários desdenhosos pelas ruas e praças, mas, ainda assim, todos queriam proteger aquele símbolo secular.

Apesar dos protestos por toda a cidade, trocaram o velho sino de bronze por um equipamento eletrônico, programado para soar nas horas exatas, ditando o ritmo dos fiéis e do comércio. A centenária peça de bronze, no entanto, permaneceu na torre, pois, além da dificuldade para removê-la e de toda a história que representava, ela era um atrativo para os turistas que esporadicamente apareciam por lá.

De início, o responsável por manter a tradição, que não se pronunciou em qualquer das reuniões sobre a substituição, parecia estar aliviado do fardo de sua função. Mas, naquele domingo, durante a missa, começaram as badaladas incessantes.

Ante o presságio de uma tragédia, interrompemos a celebração e subimos pela escadaria em espiral, enquanto ainda ecoavam pela torre aqueles sons estridentes, agora mais esparsos. Ao chegarmos ao topo, desabamos em lamentos após notar, entre as cordas do badalo, os pés suspensos.

27 de fevereiro de 2013

Provento

Ele virou palhaço

mas era pouco ambicioso

inflava, orgulhoso

ao conquistar um riso fácil

25 de fevereiro de 2013

Ressaca

Nadava em esquecimento

mas submergia
- de tempos em tempos

nas águas turvas
- de memórias difusas

gerando redemoinhos
- em sonhos intranquilos

19 de fevereiro de 2013

Apreendidos

São pássaros da mesma espécie
- quase idênticos

diferenciam-se apenas
por um ponto bem específico:


voam livres as poesias

enquanto cantam
- em gaiolas

os poemas

4 de fevereiro de 2013

1 de fevereiro de 2013

Retrato falado

Era assustadoramente comum: não havia qualquer traço marcante; uma cicatriz que fosse, olhos faiscantes ou muito opacos, um tique, trejeito - nem ao menos um tom de voz ou respiração brusca que levantassem suspeitas

Havia apenas uma maldade incerta, dessas que se encontra em qualquer um

30 de janeiro de 2013

25 de janeiro de 2013

A nação da triste figura

E que não se espere
nada além da utopia

de um povo quixotesco

que surgiu heroicamente

bradando contra um rio de águas calmas

20 de janeiro de 2013

Dissimulado

O tempo segue

mas quando olho pra trás

por um instante

ele para
- disfarça







* trecho de minha autoria da poesia coletiva resultante do encontro anual do pessoal da comunidade concursos literários.

17 de janeiro de 2013

14 de janeiro de 2013

O grande domador

O dono do circo, ao perceber que os animais andavam meio desanimados, por terem sido da floresta retirados – e porque agora não conseguiam mais perceber e coletar os frutos de seus esforços, sabiamente repetia, de jaula em jaula, noite e dia, o lema que assim dizia:

– O trabalho dignifica o urso!

– O trabalho dignifica o leão!

– O trabalho dignifica o primata!

Em pouco tempo, os animais já haviam assimilado o ditado e, na porta do circo, os candidatos formavam fila: queriam trocar a insegurança da selva por um emprego fixo, uma jaula de janelas gradeadas e, vez ou outra, um bom prato de comida.

9 de janeiro de 2013

8 de janeiro de 2013

Réquiem para uma tia distante

Tia Isabel era uma cabecinha gorda sob um chapéu demasiado pequeno. Nas raras reuniões de família, falava pouco, sentava longe e nunca saía na primeira fila das fotos - nunca foi protagonista, nem quis ser.

Quando ela desapareceu, ninguém conseguiu encontrar uma boa foto de rosto para entregar à polícia e espalhar pelas redes sociais e e-mails dos amigos e conhecidos.

O corpo só foi encontrado depois de dias e, devido ao estado em que estava, fez-se o velório de caixão fechado. Havia apenas uma janelinha, através da qual se via o rosto - desfocado por um véu; bem como eu me lembrava.

6 de janeiro de 2013

Nenhuma luz

Inspirado por Huxley, Orwell e Bradbury, queria criar em seus escritos uma sociedade distópica.

Encontrou, no entanto, uma grande dificuldade: não conseguia imaginar, por mais que se esforçasse, algo muito pior do que a presente realidade.

5 de janeiro de 2013

Desapego

A floreira que emoldura
a mirada dos andarilhos

a fruta que amadurece
pra alimentar os passarinhos


poesia é semente que se planta

sem ter pretensão de colher

4 de janeiro de 2013

3 de janeiro de 2013

Intragável

Ele abriu o novo tablete e colocou sobre os restos da manteiga velha que resistiam no fundo da manteigueira, já arados pela faca de serra. Sabe-se lá há quanto tempo vinha fazendo isso.

Ela tentou comer, mas deixou a torrada no prato e o afastou sutilmente em direção ao centro da mesa. Tentou distrair-se lendo o jornal, mas ao tentar virar as páginas sentia como se estivesse com as pontas dos dedos oleosas, rançosas.

Quando ele levantou, já atrasado, e tentou beijá-la, o afastamento brusco, com o rosto virado para o lado, foi inevitável. O casamento acabou, de fato, naquele instante.

2 de janeiro de 2013

Sitiada

As primeiras folhas secas
crepitavam no fogo baixo

A fumaça, escura e densa
tomava forma de presságios

- o inverno encerrou a trégua -

E as portas tremulam
- reverberam irritadiças
pela iminente violência

Em breve marchará
- o exército do desespero
sobre as ruínas da consciência







Menção honrosa no 4º Prêmio Literário Sérgio Farina - Centro Cultural José Pedro Boéssio - São Leopoldo - RS

1 de janeiro de 2013

26 de novembro de 2012

Aspirações

Ela era da época em que se espalhava a sujeira pela casa com o espanador, tarefa árdua e que não resolvia o problema do pó, mas que, ao menos, ao dispersá-lo, tornava-o quase imperceptível, ignorável. Tal como o espanador, em relação aos outros problemas da casa e da família, bases às quais se resumia sua vida, dispersava as nuvens espessas com pensamentos e tarefas aleatórias, como testar uma nova receita, cuidar do jardim ou aprender as técnicas de ponto e cruz da revista que comprava sempre que ia ao mercado, um dos poucos pequenos prazeres aos quais ela permitia-se.
Nos trinta e cinco anos de casada, abriu mão de quase todas as suas aspirações. Desistiu da faculdade, da carreira de psicóloga, dos passeios pela praça aos domingos (incluindo o almoço fora e o sorvete, sem obrigação de cozinhar ou lavar louça), das viagens ao Pantanal e ao Nordeste, do cachorro, dos dois gatos e de muitos outros planos e desejos, todos dissipados. Além disso, fazia vista grossa às grosserias, ao excesso de trabalho e aos caprichos do marido, o senhor Leopoldo Guimarães, sujeito mais sovina da cidade. Diziam que ele passava metade do dia preocupando-se em ganhar mais dinheiro e a outra metade preocupando-se em não gastá-lo; Com exceção dos domingos, que o velho respeitava como se por força de lei. A maioria fazia piadas e zombarias, mas quem sofria mesmo era ela, privando-se, presa por si mesma àquela casa com nuvens espessas de pó.
Naquela manhã de domingo, por ser aniversário dela, o marido deixou-a dormir até mais tarde, foi até o jardim, arrancou de lá algumas das rosas de que ela mais cuidava, amarrou-as com um pedaço da hera que subia pelo muro da rua e tentou surpreendê-la com o buquê improvisado e com uma xícara de café na cama. Não teve sucesso na surpresa, assim como não havia tido em todos os outros aniversários múltiplos de cinco, em que ele fazia exatamente a mesma coisa - intercalando com o cartão de próprio punho que entregava nos aniversários dos entremeios. Ainda que decepcionada, ela lembrou-se de como sorriu no ano anterior e estampou no rosto aquele mesmo sorriso insosso, agradeceu de cabeça baixa e foi preparar um chá; Detestava café.
Pouco mais tarde, naquele mesmo dia, o filho mais velho foi visitá-la. Aquele que trabalhava fora, na cidade vizinha, porque o mais novo não ia até a casa dos pais havia mais de cinco anos, desde que o pai o expulsara de lá, alegando que os gastos com telefone estavam muito altos e que havia chegado a hora dele andar com as próprias pernas. Ela permaneceu em silêncio durante a discussão e a partida; E arrependeu-se depois da inércia, mas mantinha contato com o filho por cartas que ela deixava para uma amiga dele, a caixa do mercado. O primogênito, que apareceu com um grande pacote e um sorriso maior ainda, havia fugido de casa cedo porque sabia que, enquanto morasse lá, continuaria brigando com o pai, em defesa da mãe e do caçula. Quando o senhor Leopoldo apareceu na sala de entrada, atraído pelos ruídos de visita recém-chegada, em uma das raras excursões além da poltrona no domingo, cumprimentou-o com um aperto de mão e um tapinha nas costas; Para o velho, aquilo era sinal de muito respeito, adquirido por enfrentar o mundo lá fora e, de quebra, reduzir as despesas da casa. Após o cumprimento, o filho pouco disse e logo despediu-se; Não se sentia bem ali, nunca conseguiu dissipar os traumas.
Pouco interessado pelo filho, pela esposa ou pelo pacote, Leopoldo voltou a recostar-se na poltrona da sala de televisão. Enquanto isso, ela abriu o pacote, primeiro tentando as beiradas e depois, ansiosa, o rasgando em pedaços com as unhas. Leu na embalagem: aspirador de polvo. Riu um pouco da tradução em espanhol ao imaginar o pobre molusco sendo sugado por aquele equipamento da foto, coitado, com os tentáculos ainda para fora, debatendo-se. Ao retirá-lo da caixa, conferiu o manual, montou todos os tubos e foi em busca de um local propício para o primeiro teste.
Chegando à biblioteca - que não tinha nenhum livro novo porque Leopoldo dizia que livro novo era um gasto desnecessário, uma vez que todos se acabariam no alfarrabista da praça central - ela ligou o aparelho na tomada e, de repente, viu-se fazendo desaparecer as nuvens espessas de pó. Camada por camada, retirava o pó de cada prateleira, cada coleção incompleta de enciclopédias (era muito difícil completar alguma comprando apenas as descartadas) e, também, do chão, do ar, de todo o lugar. Quando desligou o aspirador, viu-se em um novo ambiente, verdadeiramente limpo, leve.
Tomada por um novo ânimo, com um brilho incomum nos olhos, partiu para o quarto do casal e ligou novamente o aspirador. Retirou todo o pó do chão, do ventilador de teto, da cabeceira e da penteadeira. Quando foi tirar o pó do criado mudo, uma foto mal presa no porta-retratos acabou puxada para a boca do aparelho. Assustada, após duas tentativas com o pé, abaixou-se, desligou o aspirador e a foto caiu. Ao ver que se tratava de uma foto do marido na viagem de negócios que fez sozinho a São Luis e Salvador, programou o aparelho para a força média e mirou o tubo novamente para a foto. Esta dobrou-se, estalando, e rebateu sonoramente em cada curva do cano até pousar silenciosamente em algum lugar distante.
Surpresa com a potência do aspirador, ela abriu mais ainda os olhos brilhantes, sorriu e apontou a boca do tubo para o enxoval que jazia sobre a cama - com as iniciais dele e dela bordadas em ponto e cruz. Sugou toda a roupa de cama, incluindo os travesseiros. Depois, entre uma gargalhada e outra, aspirou todos os porta-retratos do criado mudo e as roupas e sapatos do armário. Seguindo para o banheiro, aspirou as escovas de dentes, as toalhas de banho - igualmente bordadas – e, por fim, os óleos de banho e perfumes que ele nunca passou nela ou por ela.
Do banheiro ela seguiu para a cozinha, ainda mais animada – quase pecando pelo excesso - e absorveu primeiro os eletrodomésticos, depois o jogo de talheres em prata - presente de casamento, ainda na caixa, as taças de vinho - que nunca foram utilizadas porque vinho era muito mais caro do que cerveja - e os velhos copos de requeijão. No entanto, quando ela virou o tubo em direção aos pratos, aquele que estava no topo da pilha passou por cima dos outros e espatifou-se no chão. Atraído pelo barulho, o velho Leopoldo levantou-se da poltrona e foi até a cozinha; Deu de cara com ela, com aqueles olhos brilhantes e esbugalhados, assustadora e excessivamente animada.
Quando os policiais chegaram, convocados pelos vizinhos que estranharam a barulheira naquela casa costumeiramente silenciosa, encontraram-na sorrindo, de olhos bem abertos, realizada e sentada em um canto da casa vazia - de móveis e traumas. Os braços e pernas do velho Leopoldo, todo desconjuntado, ainda debatiam-se em um último esforço.







2012 - Menção honrosa no 23º Concurso de Contos Paulo Leminski - Biblioteca Pública Municipal de Toledo - PR

24 de novembro de 2012

19 de novembro de 2012

Posfácio

Por meses buscou o final perfeito para a autobiografia

Após finalizar a obra, enviou-a para os editores e partiu com pressa: tinha um destino trágico a cumprir

3 de novembro de 2012

Corretor

Enquanto acompanhava o potencial cliente até o apartamento, que não erá lá essas coisas, mas que ele tentava empurrar como uma grande oportunidade - o lar dos sonhos, falava também sobre as cercanias:

– É um bairro residencial, ambiente bem familiar...

E foi neste momento que notaram, do outro lado da rua, bem no meio da praça, o corpo de um homem que já nem mais sangrava, ferida aberta no peito, lavada pela chuva que atravessou a madrugada.

Eis que numa tentativa desesperada de emendar o furo, conter o vazamento da represa que já se rachava, complementou a fala cortada:

– Essas brigas de família, cada vez mais violentas!

2 de novembro de 2012

1 de novembro de 2012

Nublados

Ela tentava limpar o vidro, e repetia incessantemente:

– Não sai... não sai!

Os olhos seguiam incrédulos, cobertos por nuvens acinzentadas

25 de outubro de 2012

As margens trágicas de um povo histórico

Após séculos de genocídio e exclusão, que desaguaram na marginalização, os autoproclamados senhores da ordem e do progresso não se contentaram

E ansiavam, de pistolas e canetas em punho, por expulsá-los até mesmo das margens

24 de outubro de 2012

Arredios

Correu de braços abertos, tentando agarrar ao menos um - qualquer que fosse, mas não adiantou

Ao abrir os olhos, restava apenas um farfalhar de sonhos ao vento

23 de outubro de 2012

22 de outubro de 2012

Em carne viva

Indefesa, diante do toque impróprio - e indelicado, sangrou

Pela chaga aberta, por memórias nefastas, escorreu a vida inteira, gota a gota: tortura diária

20 de outubro de 2012

Barbárie

O sapatinho do bebê jazia no meio da rua enquanto ele permanecia estático, em estado de choque.

Os outros membros da família estavam sendo carregados para a calçada pelos vizinhos que se aproximavam. Dois dos corpos já estavam cobertos por panos improvisados. Incrédulo, ele observava a cena, esfregava os olhos e passava as mãos nervosas pelos cabelos.

Enquanto uma multidão de curiosos aproximava-se, atraída pela freada, pela pancada no ponto de ônibus e pelos gritos, ele permanecia perdido em seus próprios pensamentos. A consciência lhe transbordava, dando ânsias e tonturas. Decidiu sentar-se e, após retornar ao banco do motorista, abaixou a cabeça e tentou segurar entre dedos trêmulos o turbilhão de ideias e o peso da culpa.

Naquele momento, pensou: “Como é que eu vou viver com isso?”. A primeira batida seca dissipou a dúvida. Os gritos da multidão abafaram quaisquer outros questionamentos:

- Assassino!







2012 - Selecionado no 3º Concurso de Microcontos de Jundiaí - Secretaria de Cultura - Jundiaí - SP

O vulto na cadeira vaga

No meio do caminho

havia duas pedras


de gelo


e uma dose generosa de saudades







2012 - Selecionada no Concurso Literário de Presidente Prudente - Secretaria Municipal de Cultura - Presidente Prudente - SP

8 de outubro de 2012

Traças

As traças devoraram livros
e destrincharam jornais

as traças roeram músicas
e mutilaram filmes

naquela época,
devoraram até pessoas
- famílias inteiras


Após anos de clausura
abriram-se as portas e janelas
os novos ares vieram

e as traças esconderam-se
em cantos obscuros
onde até hoje permanecem
- como se fossem invisíveis


Após anos de negação
continuamos adiando
para amanhã, quem sabe

a tarefa indispensável
de revirar armários
e destrancar gavetas

de explorar porões
- sem esquecer dos sótãos

de jogar luz aos fatos

descortinar as traças

para evitar que se repita
a tragédia como farsa








2012 - 1º lugar no VIII Concurso Literário de Suzano - Secretaria Municipal de Cultura - Suzano - SP

7 de outubro de 2012

Odisseu

Navego por mares errantes
- cansado de batalhas

em rumo a minha pátria
aos braços de minha amada

nascente de meus sonhos

poente de meus anseios

5 de setembro de 2012

Fragmentos

Quebrou-se

no mergulho do pássaro

o espelho d´água








2012 - Selecionada no 12º Prêmio Escriba de Poesias - Secretaria de Cultura - Piracicaba - SP

27 de agosto de 2012

Irremediável

A louça delicada

atirada na parede

partiu o silêncio
- em mil pedaços







2012 - Selecionada no 3º Concurso TOC140 de Poesia no Twitter - VI Festa Literária Internacional de Pernambuco - Olinda - PE;
2012 - Selecionada no 21º Concurso Poemas nos Ônibus e nos Trens - Secretaria Municipal de Cultura - Porto Alegre - RS

10 de julho de 2012

Temores noturnos

Ao relampejar dos faróis

como vultos esquecidos,
agitam braços desesperados

e urram, em ventos agudos
seus temores noturnos


as árvores na penumbra
- apavoradas

na beira da estrada

24 de junho de 2012

Mal estar na sociedade


No eterno retorno
do mal estar perpétuo

partilhamos o que nos resta:
a cada um seu fardo

a mosca nos olhos do gado

22 de junho de 2012

Cochicho

Ela veio caminhando
toda acanhada

querendo me contar as boas novas


Aproximou-se de mim

com as mãos fechadas
diante do rosto

assim, como se trouxesse
só pra me mostrar

ao abrir dos dedos
                                        um vagalume







2012 - 9º Concurso Poemas no Ônibus - Fundação de Arte e Cultura - Gravataí - RS
2012 - Selecionada para participar da Mobilização Nacional do projeto "Um poema em cada árvore" - Instituto Psia - Governador Valadares - MG

10 de junho de 2012

Deserdados

Cansado de tantos vícios - e corretivos sem efeito, fez um novo testamento.







* Remake do exercício de ontem

9 de junho de 2012

Penitência

Cansado de tantos vícios
- e corretivos sem efeito

fez um novo testamento

e deserdou a humanidade

7 de junho de 2012

Invocada

Eva partiu,
deixando para trás o paraíso

não tinha qualquer vocação
pra função que lhe outorgaram:

de esposa-parideira

28 de abril de 2012

Cachoeira

Do alto do precipício

atirou-se, impulsiva


foi a gota d’água







2011 - 3º lugar no Prêmio Cataratas - Fundação Cultural de Foz do Iguaçu - PR

15 de fevereiro de 2012

Estiagem

Entre veios ralos
- esturricados
um acidente vascular
bloqueou o fluxo efêmero

o sal da terra
devorou-me por dentro

14 de fevereiro de 2012

9 de fevereiro de 2012

Os soldados perdidos de Napoleão

Marcharam para o leste, em meio aos campos incendiados e cidades fantasmas. Ainda hoje, passados duzentos anos, alguns soldados fatigados batem à porta dos camponeses – perguntam a direção de Moscou.







2012 - 4º lugar no Concurso "Miniconto para Dickens" - L&PM Editores
Publicado no site da editora L&PM

2 de fevereiro de 2012

1 de fevereiro de 2012

25 de janeiro de 2012

Substancial

Após deparar-se
- com aquele livro
nem comer direito conseguia

passava horas a fio
ruminando poesias

24 de janeiro de 2012

Extenuado

Partiu como uma brisa
um vento qualquer

de repente
sem que ninguém percebesse

parou de soprar
- em um último suspiro

20 de janeiro de 2012

19 de janeiro de 2012

Teatro Dulcina

Do fundo do teatro
acompanho cabeças que valsam
- de um lado a outro
em busca do melhor ângulo

Esta plateia quase plana
um tanto mal planejada
oferece em paralelo
este outro espetáculo

18 de janeiro de 2012

O último olhar

No fim de seus dias
- no exílio injusto

trazia olhos de ressaca
amarelos e marejados


E tinha olheiras tão profundas

que lhe dragavam
- em rugas

o rosto todo

16 de janeiro de 2012

Correntes


O Rio corre
- em período de cheia

e arrasta os infortunados
desprovidos e desavisados

para além de suas margens

13 de janeiro de 2012

Ameaçado

Há clareiras onde havia ideias

e as fontes, poluídas
não inspiram qualquer confiança


o debate corre risco de extinção

12 de janeiro de 2012

11 de janeiro de 2012

10 de janeiro de 2012

Sonho ruim

Mãos ofegantes percorreram-lhe o entrepernas por baixo do lençol. Quando abriu os olhos, o pesadelo estava apenas começando.

Na manhã seguinte, mesa do café posta, a mãe desconversou:

- Foi apenas um sonho ruim

9 de janeiro de 2012

Suspeitos

O sangue frio
percorria olhares foscos

não havia qualquer lampejo
- ou emoção

na sessão de linchamento

2 de janeiro de 2012

Psicose


Nunca fui de confiar em gente sem pescoço, mas aquele era o único sujeito disposto a levar-me a um bairro tão próximo - no taxímetro dava menos de quinze reais e os motoristas que rondam a rodoviária costumam idealizar longas idas à zona sul, dando-se ao luxo de desprezar as corridas até o centro.

Ao abrir a porta traseira, reparei que estas poderiam ser mantidas trancadas pelo motorista. Prevendo um possível risco, deixei a mochila no banco de trás e sentei-me na frente. Era melhor mesmo estar perto, caso fosse necessário entrar em um combate corpo a corpo. Desde que entrou no carro, desleixado, sem nem colocar o cinto, fiquei de olhos nos movimentos daquele sujeito mal encarado, meio corcunda para o lado direito - o que deixava o lado esquerdo um pouco abaixado, de barba e bigode por fazer, com um daqueles chapéus que não sei dizer se é uma boina ou um boné sem aba.

Durante o trajeto, tentei ficar em silêncio, mas, após alguns minutos, ele puxou conversa. Com um grunhido emburrado, tentei puxar de volta, mas ele insistiu, achando que eu não tinha entendido, e eu cedi. Acabamos trocando duas ou três frases decoradas sobre a violência na cidade - no dia anterior haviam roubado um cara da TV e deu em tudo que é jornal, os bandidos não respeitavam mais ninguém. Apesar da conversa, eu ficava atento a cada mudança de marcha, quase me precipitei a impedi-lo quando ele foi pegar o rádio para entrar em contato com a central.

Após meu engano, fiquei relaxado por alguns momentos. No entanto, ao olhar pela janela, percebi que estávamos passando por um viaduto pelo qual não deveríamos passar - ao menos não pelo caminho que eu costumava fazer. Em um primeiro momento, cerrei os punhos e contrai cada músculo do corpo, pensei que ainda podíamos tomar o rumo certo, quem sabe cortando por trás do Passeio, ou pela Tiradentes. Mas foi então que ele começou a desacelerar, em pleno viaduto, local desconhecido e perigoso, afastado das ruas mais movimentadas. Eu precisava ser rápido, utilizando as armas que tivesse no momento - que se resumiam a uma caneta esferográfica e um pacote de balas de menta. Em um movimento só, tirei a caneta do bolso, apertei-a contra o pescoço do safado e ordenei que acelerasse. Surpreendido em pleno pulo, ele começou a acelerar e tentou retrucar, disse-me que tinha família e que só estava tentando ganhar a vida. Não me deixei levar por aquele choro falso. Além do mais, para cima de mim é que ele não a ganharia. Ao alcançar quase cem por hora, puxei o volante para o meu lado, com toda a força possível.

O carro bateu no muro de contenção - por muita sorte não caiu do viaduto - e ainda girou duas ou três vezes antes de ser atingido pelo carro que vinha logo atrás. Eu, que estava de cinto, saí praticamente ileso. O pilantra, no entanto, que já devia estar de tocaia, pronto para me aplicar algum de seus golpes, morreu na hora, dizem que quebrou o pescoço com o impacto no volante. Eu duvido muito, aquele bandido nem tinha pescoço.








2011 - III Concurso de Contos ler&Cia - Livrarias Curitiba - PR;
Publicado na edição de Janeiro/Fevereiro de 2012 da revista ler&Cia


Ilustrado por Robson Vilalba - http://robsonvilalba.carbonmade.com/

1 de janeiro de 2012

8 de dezembro de 2011

24 de novembro de 2011

Audácia

Pela primeira vez em trinta anos, ela olhou fundo, bem nos olhos do marido:

- Você que falou para o menino não se amiudar?

Ele ficou surpreso com a novidade do enfrentamento, corrigiu a postura e falou com ar superior e desleixado - como se respondesse só porque queria mesmo.

- Falei sim, filho meu não traz desaforo para casa!

Mordendo o lábio inferior e contraindo as quinas dos olhos, ela continuou:

- Não traz mesmo. E nunca mais vai trazer

Ele ainda tentou abraçá-la, mas o bote da mão esquerda o afastou daquele choro que era só dela.






2011 - 1º lugar no Concurso de Contos Machado de Assis - SESC - DF;
Será publicado na coletânea do concurso

21 de novembro de 2011

Os novos donos

Tombaram as árvores
agarradas a seus frutos indefesos

E sufocaram a terra batida
sob fileiras monótonas de azulejos


Por fim, varreram
- da porta pra fora

os cacos da minha infância

5 de novembro de 2011

29 de outubro de 2011

18 de setembro de 2011

17 de setembro de 2011

Monumentais

Naquelas tardes enevoadas
de feitos grandiosos

represando água da chuva
em açudes de pau e pedra

na beira do meio fio

16 de setembro de 2011

Singular

Eu não acredito...
Justo ela, igualzinho ao meu! Não acredito...

O safado me garantiu exclusividade, só eu teria um assim, e agora... essa vagabunda!

Isso é coisa dele sim, tenho certeza! De longe dá para notar... aquele canalha!

Calma o cacete! Os fotógrafos todos lá, em cima dela... Com que cara você quer que eu fique?

Isso não vai ficar barato não... Mas não vai mesmo!

Ah, só o que me faltava: ela está vindo para cá, a descarada...
Ainda vem sorrindo, a cadela, só para se mostrar! Vou dar um tapa na cara dela!

Me segura,  hein? Eu não me responsabilizo...



Oi, querida! Como você está linda...

Ah, deixa eu ver se adivinho... o cabelo, não é?

Hummm... desisto!

Ah, sim... o nariz, é claro... como eu não reparei?

E com quem que você fez?

Ah, ele é ótimo, dizem que é um dos melhores!
Meus parabéns... você ficou... deslumbrante!



Não falei? Não falei?

Amanhã mesmo eu ligo praquele canalha...

Me garantiu que eu seria a única com o nariz da Paris - e cobrou bem caro por isso...

De que adianta agora, se qualquer vagabunda tem igual?

15 de setembro de 2011

Desfocados

Queimou-se a lenha forte

e, agora, daquele fogo
restam apenas fagulhas e brasas

ansiando por folhas secas
e torcendo para que acenda

um novo foco
no fundo daqueles olhos

19 de agosto de 2011

Deficiência

“Deficiência - s. f. - Def.: toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função anatômica, fisiológica, psicológica ou intelectual.”

O carro passou por mim um tanto rápido - não que estivesse correndo, mas seguia em uma velocidade imprudente ao considerar que estávamos dentro do estacionamento de um mercado. Ao avistar uma vaga ali, tão perto da porta, o motorista não hesitou, engatou a ré e começou a manobrar o carro; Sendo a vaga bem ampla, a tarefa nem exigiu muito esforço.
Eu permaneci ali parado, observando - nem sequer atravessei a via. Não era a primeira vez que eu via aquela mesma cena: um sujeito apressado estacionando na vaga reservada para pessoas com deficiência; Mas dessa vez, fiquei tentado a observar todo o desenrolar, só para me certificar se o motorista, sozinho no carro, possuía ou não algum tipo de deficiência.
Enquanto eu seguia em direção à porta do mercado, o sujeito abriu a porta do carro, saiu, olhou por cima do ombro, na direção do guarda do mercado e, só então, fechou a porta e ligou o alarme. Aquele olhar de cumplicidade, seguido por um ar de impunidade, comprovou as minhas suspeitas: era mais um dos irresponsáveis, que provavelmente se diria com pressa ou desligado - quando todos sabem que o diagnóstico é o descaso.
As pessoas que entravam e saiam até chegaram a lançar alguns olhares de reprovação, tanto para ele quanto para o guarda do mercado, mas este, com medo de envolver-se em qualquer confusão e acabar por perder o emprego, fingiu-se de desentendido. Eu fiz o mesmo, olhei para ele e para o guarda, na esperança de que alguém tomasse uma atitude.
Vieram-me à cabeça todas as minhas omissões em situações similares, além de todos os olhares de cumplicidade e esboços de sorriso pela impunidade. Senti-me realmente um cúmplice daquelas atitudes, aceitando-as mudo - cego e surdo; Eu e todos os outros éramos incapazes de protestar.
Foi então que decidi que dessa vez não, eu não ia deixar passar em branco. Antes de abordar o sujeito, cheguei à conclusão de que ele também tinha uma deficiência; Após cutucá-lo pelas costas, avisei:
- Moço, essa vaga não é reservada para quem possuiu apenas deficiência de caráter.
As palmas evitaram uma reação agressiva. Quanto ao constrangimento, que o levou a entrar no carro e partir meio sem rumo, espero que tenha sido a melhor forma de reabilitação.









2011 - 9º Prêmio Paulo Setúbal - Secretaria Municipal de Cultura - Tatuí - SP;

16 de agosto de 2011

Suplício de fim de festa

Para somar-se à ressaca, a última coisa que eu precisava era uma ameaça - e aquele sujeito enfurecido, com cantos de olho enrugados, ainda tinha a boca curvada para baixo; Gente assim, cheia de mágoa, não tem remorso de cumprir vingança.

8 de agosto de 2011

Relento

Na janela embaçada

o coração, riscado a dedo

derreteu aquele gelo







2011 - 20º Concurso Poemas nos Ônibus e nos Trens - Secretaria Municipal de Cultura - Porto Alegre - RS ;
Publicada na coletânea do concurso

23 de julho de 2011

Demissão

Partiu da redação

com uma mão na honra
e outra na dignidade

cobria com pudores
o que poucos ousavam exibir

12 de julho de 2011

Shiatsu

Do aparelho de som

fluíam os ruídos da chuva



Quando um fio de dedos

súbitos e gelados

escorreu-me pelas costas

22 de junho de 2011

Traição

A rotina foi a causa principal - eu saia de casa muito cedo, mal nos víamos. Mas o estopim foi a tentação - ao sair do trabalho, ela sempre estava por ali, exibindo-se

Não demorei muito a ceder - por não resistir aos encantos, à promessa de aventura. Sem olhar para trás, troquei o sol pela lua - o dia pela noite

5 de junho de 2011

A persistência de Artaud

Agarrou-se às convicções
com as forças que lhe restavam

e não havia no mundo
alguém capaz de separá-los


relaxar-lhe os dedos gelados

31 de maio de 2011

27 de abril de 2011

19 de abril de 2011

Birra

De braços cruzados
não dão qualquer espaço


Deixam chorar e gritar
espernear em plena rua


Até que uma hora cansa

e cala-se
após último suspiro

a pirraça da ambulância

13 de abril de 2011

Vertigem

As pessoas vão passando devagar, algumas até chegam a parar

Diante de tragédias e acidentes, sentem-se atraídas. E seguem todas o mesmo protocolo: dissimuladas condolências e tentativas frustradas de disfarçar a curiosidade; Como se entrassem em velório de estranho, apenas para espiar, da beirada do ataúde, o corpo inerte

8 de abril de 2011

12 de fevereiro de 2011

Abafado

Quando vem a brisa

mesmo que se arrastando


as folhinhas comemoram

dando cambalhotas

pelo amplo calçadão







2011 - 1º lugar no Prêmio Cidadão de Poesia - Sindicato dos Empregados no Comércio de Limeira - SP;
Publicada na coletânea do concurso

31 de janeiro de 2011

Chuva

Uma nuvem destrambelhada

cheinha d´água


enroscou-se na antena


dum desses prédios altos

29 de janeiro de 2011

Indistinto

Dialogava
ao mesmo tempo

com tantas referências

que sua obra
no fim das contas

era apenas um burburinho







2011 - I Prêmio AltFest! de Poesia - VII Festa Literária Internacional de Pernambuco - Olinda - PE;
Será publicada na coletânea do concurso

5 de janeiro de 2011

Insistentes

A cidade tenta

acobertar seus crimes


Mas os corpos na calçada

insistem em levantar-se

todas as manhãs

para lutar por mais um dia

4 de janeiro de 2011

Livres

É duro soltá-las assim, sabendo que lá fora elas podem apanhar muito

Mas, uma vez que a separação é inevitável, nós precisamos, além de dar corpo, abastecê-las de sentidos e referências, de possíveis e intangíveis situações, antes de nos despedirmos com um adeus e boa sorte

Não adianta deixá-las trancadas no sótão, presas aos nossos conceitos, a gente tem que criar as poesias para mundo

3 de janeiro de 2011

Afoito

O ônibus partiu da central

devorando o asfalto

apressado


Ao fazer uma curva fechada

engasgou-se


o poste travou


bem no meio da garganta

7 de dezembro de 2010

Minimalismo

Papelão sobre tela
jornal sobre calçada

Muito pouco
sobre quase nada

A dura arte de sobreviver







2012 - Selecionada no III Concurso de Poesias Revista Literária - Editora Scortecci e Revista Literária - Brasília - DF;
2011 - 7º lugar no II Concurso TOC140 de Poesia no Twitter - VII Festa Literária Internacional de Pernambuco - Olinda - PE;

6 de dezembro de 2010

Ainda hoje

De dentro dum ônibus!

Juro pela minha mãezinha - sinal da cruz - que Deus a tenha.

É uma coisa miúda, vai no bolso da camisa, dá até impressão de que tem que falar e ouvir um de cada vez, mas o moço da loja me garantiu...

Cê tá me ouvindo direitinho, né?

Oi?

Ah bom...

3 de dezembro de 2010

2 de dezembro de 2010

Autocrítica III

Poesia de saguão de entrada
- no hall do condomínio -

reprodução fiel
perfeitamente traçada

o plágio descarado

de uma obra prima

1 de dezembro de 2010

30 de novembro de 2010

29 de novembro de 2010

Reality show

No centro do auditório, a justiça permanece sentada e vendada, enquanto o apresentador aponta para um político corrupto, depois para um ladrão de galinha e pergunta:

- Você solta esse para prender este aqui?

Diante de tantos olhos, mas sem qualquer vergonha ou hesitação, ela grita:

- Siiim!

26 de novembro de 2010

Maria fumaça

As engrenagens
um pouco gastas
em eterno vai e volta
atritam-se - barulhentas

Enquanto isso
sobre as chamas
a válvula dá voz aguda
aos vapores - insistentes

Na estação da memória

entre a máquina de lavar
e a panela de pressão

embarco nesta viagem
às manhãs de domingo
na casa de Maria
minha mãe - locomotiva

25 de novembro de 2010

Chuva de verão

Quando o calor
tornou-se constante

e as escassas fontes
de água doce
começaram a secar

caminhar pelas ruas
tornou-se um tanto perigoso

lá do alto
choviam corpos
desesperados

Cantando na chuva

 Naquela época, não havia quem não o reconhecesse quando caminhava pelo centro. Alguns até ensaiavam alguns passos e o seguiam pela rua, na expectativa de que ele cantasse - ao menos algum refrão - e exibisse toda sua habilidade no sapateado. Ainda que um pouco contrariado, e um bom tanto sem graça, ele sucumbia aos desejos dos fãs e acabava por apresentar alguns passos e um trechinho de alguma das canções dos sucessos de bilheteria.
Paolo Bellini, apesar do nome estrangeiro, era uma estrela nacional, ainda não era das maiores, mas despontava como um dos atores e cantores com maior potencial de futuro. Os críticos diziam que seria o Gene Kelly tupiniqueim; que logo estaria dando as caras - e as cartas - em Hollywood, enquanto os colegas o admiravam pela capacidade de criação, direção e atuação nos grandes musicais.
Contudo, apesar do otimismo, tão logo ele despontou, os musicais começaram a perder força. Ainda que os produtores insistissem, tentando inserir elementos da cultura nacional e da comédia, as bilheterias caíram vertiginosamente após o “efeito novidade”: todos quiseram conhecer o cinema falado e cantado, mas muitos, depois de conhecer, preferiam ouvir rádio, que era de graça. Com a queda nos rendimentos, e o consequente corte de gastos, a qualidade das produções também caiu; Apesar de continuar atuando, por não poder se dar ao luxo de recusar os minguados salários, ele já não tinha mais tanto espaço - nem tantas expectativas. Geralmente, quando escalado, fazia papéis secundários, quase figurantes, entre recepcionistas de motel e turistas abobalhados.
Com a chegada da televisão e das novas influências no cinema, Paolo perdeu definitivamente o pouco espaço que tinha. Ainda marcado por suas atuações nos musicais, seguidas por pontas estereotipadas em comédias de mau gosto, acabou sendo visto como um bom cantor, mas que não tinha talento algum para a atuação. Por este rótulo, ingratamente anexado a ele, acabou esquecido tanto pelo cinema quanto pelos canais de televisão, que haviam contratado boa parte dos seus antigos colegas.
Depois de tantas decepções, com o esvaziamento de seu potencial - consumido pelo álcool e pelo cigarro, foi uma questão de tempo até que ele arruinasse qualquer chance de recuperação da carreira. Por um punhado de trocados, cantava em bares, casas noturnas e ambientes pouco familiares. Além de ganhar pouco, ainda gastava mais da metade antes mesmo de cambalear de volta para o quartinho imundo em que se largava; A essa época, morava na Gomes Freire, em um puxadinho nos fundos de uma pensão para solteiros.
O passar dos anos fez questão de surrar-lhe a voz e as juntas. Após algumas décadas, ele mal podia reconhecer-se nos cartazes dos tempos áureos, que guardava bem dobrados, com todo cuidado, em uma velha maleta de couro, debaixo da cama do quartinho da pensão - onde já morava de favor há mais de dez anos. Naquele tempo, usava barba longa e bigode, saia à rua apenas para o essencial e tinha pavor de citar o próprio nome - sentia-se extremamente mal, irritado e injustiçado, quando alguém o reconhecia, por rosto ou por nome, e questionava: “Mas você não era ator de cinema?”.
Nos bares da região, muitos dos garçons o conheciam - dos tempos de cantor boêmio - e, quando podiam, tratavam de alimentá-lo. No entanto, quando os clientes pediam, não demoravam a afastá-lo. Nunca chegou reclamar ou a agredir alguém, talvez nem tivesse condições físicas para isso, mas causava um mal estar e, então, os garçons preferiam retirá-lo, até para evitar que se criasse confusão. Diante das expulsões, ele costumava abaixar a cabeça e dirigir-se ao abrigo do velho quartinho da pensão.
Uma tarde, no entanto, ele apareceu no botequim muito sujo, esfarrapado, parecia ter passado dias na rua, e começou a cantarolar. Os clientes logo reclamaram e, quando o Arlindo, garçom do botequim, sugeriu que ele se retirasse, a reação foi diferente do esperado. Ao invés de acatar a ordem de retirada, ele puxou-o pelas mãos e arriscou alguns passos. Visivelmente acanhado, Arlindo travou as pernas no chão e apenas observou o sapatear destrambelhado, ainda que bem ritmado, daquele velho conhecido de vista, da noite. Incomodado com a falta de ritmo e com o acanhamento do garçom, ele corrigiu a postura - o máximo que podia - e contraiu o punhado de rugas que lhe cobria a face, expressando profunda irritação; Entre algumas palavras mais rudes, disse que não podia continuar daquela maneira, com parceiros sem talento, e saiu do bar, apressado.
Ao chegar ao largo da catedral, ainda irritado, ouviu os acordes e batuques de alguns músicos que costumavam tocar por ali, quase todo dia, entre o horário do almoço e o final da tarde. Em sua deixa, ele começou a acompanhar a música, cantarolando e sapateando, girando em torno de si mesmo. Ao olhar em volta, demonstrou novamente aquela profunda irritação e começou a fazer gestos bruscos, dando ordens para que todos seguissem os passos e fizessem parte do coro. Tentou mais uma vez, do início, sempre olhando para os que o cercavam e balbuciando ora palavras de ordem, ora de incentivo.
Um casal de estudantes, Vinícius e Patrícia, entusiasmados com a intervenção, começaram a participar: cantarolavam junto e dançavam conforme as instruções daquele senhor esfarrapado. Logo, Paulo, um garoto recém-saído da escola começou a captar a movimentação na câmera do celular e alguns de seus colegas começaram a seguir os passos indicados. Em cinco minutos, havia uma dezena de figurantes sob o comando daquele inusitado coreógrafo; Até mesmo a banda resolveu seguir as instruções. Aquela trupe aleatória, após dez minutos de ensaios e ajustes, atraiu dezenas de curiosos e executou um breve número musical, com uma só canção.
No entanto, ao fim desta apresentação, logo depois dos aplausos, a trupe acabou separando-se, pelos mesmos motivos que as trupes sempre se separam: divergências em relação aos cachês, incompatibilidade de horários, brigas internas, etc. Os dançarinos, em horário de almoço, tratavam aquela trupe como uma diversão, no máximo um projeto paralelo de um dia aleatório, algo para se contar aos amigos na mesa de bar. Inevitavelmente, acabaram desertando e seguindo suas vidas; Ele não se preocupou, arranjaria facilmente dançarinos melhores.
O grande problema foi com a banda. Alguns dos curiosos, ao final da apresentação, dirigiram-se ao protagonista, diretor e coreógrafo, para dar-lhe alguns trocados; Ele, no entanto, recusava-se a recebê-los e ainda respondia, com empáfia, que não trabalhava por migalha. Diante da recusa, os integrantes da banda viram escapar-lhes - das mãos e chapéus - diversas moedas, algumas notas de dois, pouquíssimas de cinco e até mesmo uma rara nota de dez.
Não demorou até que o palco se esvaziasse, e foi então que os músicos, sentindo-se injustiçados, aproveitaram para rediscutir as cláusulas do contrato. Carregaram aquele senhor, conhecido de rua, até o outro lado do largo, nos fundos da velha catedral, e o surraram, entre gritos de “velho desgraçado”, “burro” e outros termos menos apropriados. Nas pausas entre chutes, ele mal conseguia respirar, mas quando falou, implorou desesperado, pedindo por um dublê. Os músicos, no papel de juízes e carrascos, aplicaram a justiça da rua; E o deixaram por ali. Alguns sentiram um pouco de dó, principalmente pelas condições do sujeito que massacraram, mas não podiam se deixar levar por um sujeito qualquer, que recusou, em nome deles, uma noite em camas quentes - talvez até acompanhados.
No dia seguinte, envolvido em lençóis de algodão, com as feridas já limpas, mas muito doloridas e completamente roxas, ele tentou falar com Beatriz, a enfermeira que atendia o paciente ao lado, não conseguiu e urrou de dor, por conta do maxilar deslocado. Conformou-se com a idéia de que ficaria ali por dias, tomando sopa de canudinho, sem saber como chegara nem quando partiria. Passou a observar os outros pacientes e a bolar coreografias de acordo com os aparelhos e limitações de cada um. Ao final de três semanas, quando já conseguia falar e tinha dois dos três atos bem planejados, começou a conversar com os que o cercavam, dando instruções do que cada um devia fazer.
De início, Beatriz achou aquilo tudo muito inusitado, engraçado, mas começou a preocupar-se na época em que se iniciaram os ensaios. Alguns dos pacientes, dos poucos que seguiram as direções, tiveram considerável piora em suas condições clínicas. Por esses agravos, acabaram, em um primeiro momento, mudando ele de ala. Contudo, depois de repetir-se a situação com alguns pacientes da segunda ala, tiveram certeza de qual era o foco daqueles problemas e, para pôr um fim à situação, o isolaram.
Alguns dias depois, devido ao alto custo de mantê-lo sozinho em um apartamento, ele acabou recebendo alta. Antes de sair, Beatriz, sabendo que ele ainda não estava exatamente curado, questionou-lhe se havia alguém para avisar, para que viesse buscá-lo, mas ele não soube responder. Depois, perguntou como ele voltaria para casa, mas ele já estava saltitando para fora, acostumado que estava após dois meses com a muleta. A enfermeira, apesar de sentir-se comovida, retornou a seus afazeres e logo esqueceu aquele sujeito arrebentado, que conhecia pela ficha médica e por uma ou outra agulhada no braço.
Ele chegou à praça principal pouco depois do início da chuva. Após a longa caminhada, sentia dores por todo o corpo, principalmente nos braços. Todavia, sendo uma estrela, não se deixaria abater por estes pequenos incômodos. Começou a arriscar alguns passos, com a muleta, enquanto tentava cantar; Não demorou até que ele se desequilibrasse. No meio da praça vazia, caído sobre uma das pernas, com os braços estatelados, um para cada lado, e a orelha esquerda mergulhada em uma fina lâmina de água, só lhe restava tentar cantar, apesar de seu inglês pouco lapidado, entre pausas de profundo lamento e dor:
- I´m singing in the rain...

24 de novembro de 2010

A cada um seu fardo

O patrão precisava de alguém que estivesse disposto a enfiar-se naquele macacão felpudo, colocar aquela peruca com forro de espuma e que, tal qual uma costela embrulhada em celofane, permanecesse ali, na frente da loja, cozinhando por várias horas. Demoraram a encontrar um corajoso - ou louco - e, em cima da hora, sem outra opção, o primeiro candidato foi logo efetivado.

Ele, que só estava ali porque também não tinha outra opção, chegou as oito e meia e desde as nove da manhã estava fantasiado, balançando uma placa com o novo slogan e observando as pessoas passarem indiferentes. Uma ou outra criança animava-se ao avistá-lo, mas todas mantinham-se de mãos dadas com as mães - nenhuma criou coragem para largá-las e aproximar-se um pouco mais. Mas também, com aquele rosto vermelho de ressaca, coberto de rugas, por onde escorriam rios de suor, e o olhar desesperado, apontado para os carros passando na rua e, vez em quando, para o relógio-termômetro da praça, não inspirava lá muita confiança. Além disso, aquele corpo todo, muito magro, tremia todo, incontrolável.

Às três da tarde, parou uma hora para o almoço, ali mesmo, nos fundos da loja, onde recebeu uma quentinha com arroz feijão e mistura. O moço até perguntou se ele queria salada, mas não fazia questão não. Comeu pouco, menos da metade, e largou a quentinha aberta, no canto da escada, onde sabia que viria comer um vira-lata que espreitava. Chamou de volta o moço que cuidava das coisas por ali e pediu um adiantamento, com a desculpa de aproveitar o resto da pausa para resolver um assunto ali na vizinhança. Aquele rapaz bem apessoado, de camisa, calça e sapato - já com a gravata um pouco frouxa, tinha cara de cansado, olheiras fundas e suava bastante. Após procurar um pouco na carteira, tirou dali uma nota amassada e resolveu logo o problema do palhaço.

Com aqueles dez reais no bolso, na frente da loja, ele reparou novamente no relógio-termômetro, fez as contas, com certa dificuldade, e concluiu que dava tempo. Partiu para a esquerda, cruzou a avenida, margeou a praça equilibrando-se sobre o meio-fio - um de seus passatempos prediletos - e foi dar com os cotovelos no balcão verde-claro do boteco do Seu Coisinho, que era o nome que ele dava para todos os anônimos donos de bares. Esse Seu Coisinho, como todos os outros, tinha bigode, mas era mais gordo que a média e usava uma camisa azul sobre uma camiseta branca. Naquele muquifo dois por três, o calor era tanto que o suor já manchava a camisa azul, deixando-a com duas marcas azul marinho sob os braços.

Algumas doses depois, retornou à loja e já era outro sujeito, já não tremia mais a mão. O vermelho do rosto abria espaço para um sorriso desalinhado e, além de segurar a placa, agora ele dançava. Estava tão empolgado, ainda mais vestido de palhaço, que resolveu animar a platéia. Dirigia-se aos pedestres, cantando e contando piada, tropeçava nas próprias pernas e cambaleava, perdia a peruca, ao tentar pegá-la derrubava a placa e acabava, por fim, lutando para pegar as duas e permanecer em pé.

Seria um perfeito Carlitos, não fosse o cheiro de caninha e os gestos bruscos, desmedidos e ameaçadores. As mães, assustadas, atravessavam a rua falando para as crianças não olharem. Os pedestres passavam com presa, tentando evitar que fossem abordados, e quando não conseguiam, chegavam até a empurrá-lo, antes que ele continuasse borrifar saliva para todos os lados enquanto falava, quase gritando.

Os dois seguranças, também cansados, embrulhados em ternos escuros e suando a bicas, não demoraram a perceber a confusão se formando, mas só tomaram uma atitude quando o patrão ordenou ao moço, pelo rádio, que cuidasse daquilo também - e bem rápido. Mesmo sem ser visto pelo vidro escuro, aquele senhor com nó duplo na gravata, ainda engomada, conseguia ver tudo lá de sua sala. Sem outra opção, o moço chamou os seguranças, que pegaram o palhaço pelos braços.

Ao saber que estava dispensado, ele subitamente parou de sorrir, fez as vezes de arrependido, triste, e pediu para que o soltassem. Todavia, logo que afrouxaram-lhe as amarras, zarpou a sapatear, cantarolando novamente.

Enquanto os seguranças andavam atrás dele, as crianças e mães permaneciam estáticas, em um fino equilíbrio, enquanto os primeiros tentavam aproximar-se, elas só queriam distância. Após dar uma volta por toda a loja, com o moço tentando convencê-lo a devolver a fantasia e partir, dizendo até que receberia todo o valor combinado, ele resolveu equilibrar-se novamente no meio-fio e desafiou os seguranças, seus perseguidores, a arriscarem-se na travessia.

As crianças riam da situação e as mães, no fim de tarde, já um tanto cansadas, castigadas pelo sol forte e pelas tarefas diárias, deixavam-nas deslizar pelas mãos suadas para aproveitar o pequeno espetáculo. Os seguranças, no entanto, sentindo-se ridicularizados, após serem avisados pelo rádio que se não dessem conta desse palhaço, podiam ir embora junto com ele, perderam a paciência e, sem ver outra alternativa, tentaram agarrá-lo em um bote rápido.

Foi o balanço da corda bamba, e as mãos suadas deslizaram pela fantasia, sem conseguir segurá-la, e o palhaço cambaleou, girou os braços para trás e, por fim, pousou na pista. O motorista do ônibus, apressado e estressado, por ter que fazer o trabalho dele e do cobrador ao mesmo tempo, embrulhado em seu uniforme, trancado naquela lata com dezenas de pessoas, também suava muito, e, bem na hora, para azar do palhaço, separava um troco do maço.

22 de novembro de 2010

Negação

Tentando conter, sem sucesso, a ansiedade - como se a apertasse contra o peito com as duas mãos, ela comentava:

- Esses moleque tão só brincando, pregando peça, vão se espocar de rir quando ele levantar

A cabeça do menino, carregado com pressa ladeira abaixo, balançava em negação

19 de novembro de 2010

Para poucos

Já era noite e a lua sorria, ainda que meio amarelada e entrecortada por algumas nuvens de chuva. Uma ou outra estrela despontavam naquele céu encoberto - de vez em quando era avião, mas a gente percebia logo a diferença. Entre as outras luzes por ali, só os vagalumes e o nosso lampiãozinho, desses de pilha mesmo, já que eu morro de medo de mexer com aqueles a gás.

Com a maré baixando, o mar afastava-se cada vez mais do cantinho onde nos assentamos, perto do coqueiro solitário, que era para ficar mais fácil de achar a trilha para o camping na hora que desse vontade de dormir. Ficamos ali sei lá quanto tempo, bem quietos, só observando o mar, ouvindo as ondas quebrando cada vez mais longe e os grilos cantando cada vez mais baixo. Vez ou outra, um siri deparava-se conosco e, um tanto assustado, como bichos ariscos que são, saia correndo de volta pra o lado de onde tinha vindo.

De repente, ela levantou-se para dizer que precisava fazer xixi. Eu percebi logo que ela estava em dúvida: devia fazer no mar ou percorrer toda a trilha na ida e na volta? Aí, para incentivar, eu falei para fazer por ali mesmo, era só pegar o lampião e andar em frente até achar a água. Um pouco constrangida - mas em parte aliviada - ela acatou a sugestão, pegou o lampião, o levantou acima da cabeça e seguiu em direção ao mar.

E foi naquele momento, tão ao acaso, assim que ela distanciou-se, que o espetáculo começou. Naquela praia vazia e escura, enquanto ziguezagueava para desviar dos siris curiosos e das águas-vivas abandonadas pelo mar, o único foco de luz estava irradiando dela e formava a sua volta, na areia, uma circunferência perfeita. Para mim, ela era uma estrela, em um número impecável de sapateado, seguida de perto por um holofote que vinha lá do alto, não sei de onde; Talvez fosse da lua, que, naquela hora, sem conseguir conter-se, sorria abertamente.

18 de novembro de 2010

O cafajeste

Com o tédio beirando os limites da sanidade, ela olhava para cima, desesperada, com o rosto todo contraído. Ao lado, na mesa, a mãe continua a conversar com uma amiga. Ela tentou armar uma birra, mas pelo olhar da mãe, aquele de castigos passados, desistiu logo. Vencida antes mesmo da batalha, decidiu prestar atenção no que falava aquela moça que estava do outro lado da mesa:

- Era sempre "minha princesa", "querida", "meu amor" - fez uma breve pausa para passar o lenço na ponta do nariz - Ele só não queria trocar os nomes!

Nesse instante a garota ficou intrigada com a situação e passou a prestar atenção na história. Permaneceu em silêncio durante o resto do desabafo - incluindo as sessões de descarrego e consolo.

No trajeto até o apartamento, ela permaneceu quieta - a mãe até chegou a ficar preocupada, mas depois achou que era sono. Ao chegar, foi direto ao quarto do casal, onde encontrou o pai já de pijama, deitado na cama e lendo um livro. Muito séria, ela disse:

- Oi, pai.

- Oi, minha princesinha!

Ela abaixou a cabeça, emburrada, e saiu do quarto resmungando:

- Cafajeste...

17 de novembro de 2010

Compasso

Enquanto cruzo a cidade a caminho de casa, ele me segue, sorrateiro - quando me dou conta, já está ali

Eu até que gosto da companhia e, se acabo me apressando, trato de estalar os dedos, bater palma ou assobiar, tentando atraí-lo de volta

Nessa cidade de tantos ritmos, este é o que me segue - e, bom, tenho que admitir: é também o que eu tento acompanhar

16 de novembro de 2010

Fobia

Para ele, eram iguais aranhas: ao menor descuido, estaria preso em suas teias e eles avançariam sobre seu corpo, por caminhos sinuosos, despejando o veneno da imoralidade - tal qual o pastor explicou.

Ao avistar um suspeito - ou um grupo deles, forçava a vista, pondo foco no perigo e tratava de juntar a arma que fosse - capacete, pedaço de pau ou barra de ferro, o que estivesse mais perto, para surpreendê-los em pancadas. Em último caso, sem qualquer arma ao alcance, pisava e dava chutes, perseguindo-os pelos cantos da parede, decidido a esmigalhá-los e deixá-los ao chão, quase inertes, não fosse pelos espasmos das pernas e braços.

Antes de partir, escarrava no pré-defunto:

- Bicha de merda!







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11 de novembro de 2010

Ninho de Chupins

Após adentrar a sala, girou a chave da porta quatro vezes e repetiu para si mesma:

- Precaução nunca é demais!

Logo depois de conferir as janelas de todos os cômodos daquela enorme casa vazia, erguida pela própria família, em área hoje cobiçada pela especulação imobiliária, ela programou a televisão para desligar em meia hora, apagou a luz e deitou-se.

Antes de fechar os olhos, apalpou a cabeceira para pegar o aparelho celular, esperançosa de encontrar por ali uma chamada não atendida ou mensagem recebida - nunca tinha nada, nem sinal de nenhum dos filhos. Então, ela encolheu-se num canto estreito da velha cama de casal, abraçando os dois joelhos e, por fim, despediu-se mais uma vez da casa - certa de que, um dia, cairiam juntas.

10 de novembro de 2010

Literófila

Carregada pela insistência

no bar ou na balada

folheava pretendentes intragáveis


Nunca havia entendido

por que é que trocavam aquilo

pelas páginas de um bom livro

9 de novembro de 2010

Condecorados

Após as duras batalhas
do cotidiano

os veteranos reúnem-se
nos bancos da praça


Entre os cerimoniais
e as partidas de dominó

exibem orgulhosos
profundas cicatrizes

medalhas de honra ao mérito

8 de novembro de 2010

Vitória-régia

Tal qual a nata

que era como se julgava

ela não se misturava


Com ares um tanto blasé

apenas flutuava, pomposa

sentindo-se a dona do lago

5 de novembro de 2010

Culatra

Ao chegar em casa naquela noite fria, ainda mais tarde que de costume, já abriu a porta reclamando:

- Quantas vezes vou ter que falar para não deixar o gás ligado?

Logo que entrou no pequeno quarto, de janelas bem fechadas, as palavras voltaram-lhe pela boca, com toda a força, arranhando-lhe a garganta

3 de novembro de 2010

1 de novembro de 2010

A porta aberta

Já era a terceira vez naquela mesma semana que eu ia até o 702 para arrumar a televisão do seu Alício. E era sempre a mesma coisa: eu chegava, batia à porta, só por educação, porque sabia que ficava aberta, o velho gritava lá de dentro para entrar e, só então, eu entrava, pedindo licença, para dar de cara com a sala-cozinha vazia, com a televisão no canto da janela e com os cabos da antena novamente embaralhados.

Ao notar a nova confusão, perguntei, em bom tom, para que fosse ouvido do quarto:

- Seu Alício, o senhor andou mexendo aqui de novo, não foi?

- Eu tentei consertar, ficou tudo chiado.

Era a mesma coisa, cada vez mais frequente: eu deixava a televisão funcionando e o safado ia lá mexer em tudo. Comecei a imaginar que era até de propósito, que ele estragava o serviço só para ter uma visita, com quem trocar algumas palavras, dar um pouco de vida àquele sarcófago de dois cômodos. Ele até recebia visitas, uma vez por mês, gente da família, mas eles nunca subiam, ficavam no carro e só um homem vinha até a portaria para chamá-lo, devia ser filho dele, tinha uns quarenta, cinquenta anos. Mas já deve fazer quase dois meses que seu Alício tem pedido para falar que ele não está. Devem ter brigado, aí o velho desandou a ficar carente e eu, bom, eu estou aqui, desenrolando cabos e tentando ouvir o que ele fala lá de dentro.

Após desfazer a confusão de cabos, antes de sair do apartamento, tentando evitar de ter que voltar ali em um ou dois dias, resolvi intimá-lo:

- Seu Alício, o senhor pode vir até a sala, por favor?

- Precisa mesmo?

- Para ver como é que tem que deixar os cabos.

Um pouco surpreso, ele relutou, tentou dar uma desculpa, resmungou, mas eu insisti, falando que era rapidinho, e ele acabou cedendo.

Quando seu Alício apareceu na sala-cozinha, eu olhei imediatamente para os cabos da antena, bem no caminho para a única janela do apartamento, e minhas pernas estremeceram. Ele vinha vagarosamente, apalpando as paredes e móveis, falando comigo, mas olhando para o meio da sala, estava completamente cego. Saí sem bater a porta.

29 de outubro de 2010

Salgueiro-chorão

Um tanto inseguro

curvava-se, desiludido

diante dos menores desafios


Enraizado em apatia,

quanto mais ele crescia,

mais perto ficava do chão


28 de outubro de 2010

Anestesiado

No centro da cidade, paro diante da banca de jornal e, já acostumado, não me surpreendo mais com as capas dos diários sanguinários, entre linchamentos, psicopatas e incendiários. Seguindo meu caminho, cruzo com dois ou três mendigos, flagelados, mutilados e doentes, comendo lixo e desvirando gente, cena também recorrente, que não mais me surpreende.

Ao chegar ao calçadão, deparo-me então com uma rodinha de curiosos, extasiados, cobrindo-me a visão e obrigando-me a abrir espaço. Ao conseguir aproximar-me, deparo-me com um grupo menor, de uns cinco ou seis, todos agachados, a devorar um rapaz, bem moço, devia ter uns vinte e dois. De quando em quando, um ou outro, já saciado, dava o lugar a um dos que esperavam em pé, ali em volta, já com água na boca. Um pouco surpreso, mas sem fazer muito caso, perguntei a um sujeito ao meu lado, que havia acabado de dar a vez:

- O que foi que ele fez?

Após limpar o sangue do canto da boca com as costas da mãos, ele respondeu, calmamente, com toda a lucidez:

- Furando fila...

26 de outubro de 2010

Mitomaníaco depressivo

Aquilo que ele tinha era mesmo vocação, um talento nato, pra essa coisa de ser enganado

Na maioria das vezes, nem precisava recorrer ao auxílio dos outros, de boa ou de má vontade, iludindo-se a si próprio

25 de outubro de 2010

Ensaio sobre a suspensão

Na outra ponta da vara, após a linha e a bóia, traído por iscas atraentes, o peixe debate-se, luta bravamente. Em seu meio, a água, ele tem força, parece ter duas ou três vezes mais peso, e, invariavelmente, ao pairar suspenso no ar, nos surpreende com seu tamanho, muito menor que o esperado, pela força que exige dos braços.

Nós, por outro lado, ao sermos puxados ou empurrados, tendemos a fincar os pés em terra e resistir, usando de todo o nosso peso para lutar pelo nosso lugar. Nos meios virtuais, no entanto, sem ter onde pôr os pés, pairando sobre águas turvas, deixamo-nos levar, como penas ao vento, e seguimos, fisgados, para onde as correntes nos levarem, sem nem ao menos debater.

22 de outubro de 2010

Insensitivo

Sentiu uma influência estranha pairando no ar. Pegou rapidamente uma caneta, fechou os olhos e, com as mãos à testa, tentou psicografar uma nova obra

Com as mãos estáticas, abriu um pouco o olho direito, tentando espiar a folha à sua frente. Ao ver o papel em branco, arregalou os olhos e esbravejou em pensamento: malditos espíritos sem talento

21 de outubro de 2010

Cócegas

Despido e alucinado

estapeou-se diante de todos

entre risos de agonia


Sob aqueles olhares incrédulos

percorriam seu corpo todo

mil aranhas de pernas finas

20 de outubro de 2010

Sacrifício

Já passava de quinze horas seguidas na cozinha, sofrendo com o calor e enxugando o suor da testa com as costas das mãos. Vez ou outra, enfrentando o cansaço e as dores nas costas, curvava a coluna e o pescoço, com as mãos apoiadas nos joelhos.

Na pia, além do liquidificador e da batedeira, acumulava-se uma pilha de panelas, espátulas, colheres de pau e outros acessórios, todas engorduradas, encardidas, avisando-a que não bastava terminar todos os pratos, o trabalho ainda duraria até bem tarde.

Para piorar a situação, a cada sobremesa terminada, sofria para encaixá-la no frágil equilíbrio das prateleiras da geladeira. Já havia derrubado mais de um dos potes de conserva ao tentar encaixar as travessas entre os mantimentos, as sobras das receitas e os refrigerantes. Quanto aos pratos que seguiam para a mesa, o problema era ainda maior, pois o espaço era menor e não podia faltar lugar para as pessoas, para os copos, os pratos de cerâmica, ainda novos, e os aperitivos, que já estavam precisando de reposição por conta dos larápios que rodeavam a sala desde o final da tarde.

Quando finalmente terminou tudo, com exceção da louça, que deu-se ao luxo de deixar para depois da refeição, seguiu direto para o chuveiro. Passou um bom tempo debaixo da água quente, tentando relaxar a cabeça e os músculos cansados, apesar de todo o barulho dos convidados que chegavam.

Após embrulhar-se em roupas e sapatos recém-comprados, maquiar-se e ajeitar bem o cabelo, percorreu triunfante, sorridente, o corredor em direção à sala. A alegria, no entanto, durou pouco. Ao adentrar, reparou que todos já estavam servidos e, alguns, até satisfeitos, já assaltavam a geladeira atrás das guloseimas. Nas travessas, restava pouca coisa, quase nada. Por todos os cantos, acumulavam-se os pratos com restos indesejados. E no tecido claro do sofá, destacavam-se as manchas dos que recusaram-se a buscar os guardanapos na despensa.

O sorriso desfez-se em raiva, angústia. Sentiu-se indignada com a falta de respeito que repetia-se, mais uma vez: comeriam e partiriam. Parada no centro da sala, cercada por aqueles que, naquele momento, mal reconhecia, teve, pela primeira vez em toda a vida, um legítimo desejo de fazer o mal a alguém, sem olhar a quem. Foi quando a nora dirigiu-se a ela, na melhor das intenções:

- Anime-se, querida! É Natal...

19 de outubro de 2010

Ofuscada

A irmã mais nova, destemida e orgulhosa, ia na frente, sem apoiar-se em nada. A mais velha seguia logo atrás, apoiando-se na bengala, segurando-a pelo braço e direcionando-lhe os passos.

Ainda quando eram crianças, a mais velha prometeu que sempre cuidaria da pequena. Apesar de saber dos riscos, deixava-a, ao menos, seguir e sentir-se à frente. Preferia que fosse assim, não queria tocar no assunto. Sabia muito bem o quanto seria doído, angustiante, para a mais nova assumir as dores nas juntas e, principalmente, a vista anuviada, primeiro estágio da catarata.

18 de outubro de 2010

Castigo

Antes de iniciar qualquer frase, tossia por três vezes, uma tosse seca, sofrida, com o punho cerrado diante da boca. Depois de respirar fundo, citava um dos elementos da santíssima trindade e, somente então, fazia alguma referência ao assunto.

Por quatro anos, durante o ensino fundamental, aquela moça com roupas e trejeitos de senhora tentou nos passar algum conhecimento nas aulas de ensino religioso. O problema é que, quando ela terminava o ritual das tosses e bençãos, ninguém mais estava prestando atenção. Durante os quatro anos, ela falava e falava, lia trechos da bíblia, explicava as parábolas e tentava nos encher de esperança no natal, culpa do carnaval até a páscoa e, entre a páscoa e o natal, um misto de compaixão e conformismo.

Até acredito que alguns daquela turma ainda carregam influência dela nos dias atuais, mais de vinte anos depois, principalmente os que foram alvos dos fervorosos - mas, felizmente, pouco frequentes - sermões. Teve um garoto que levou um ovo de chocolate para a escola, na semana anterior à páscoa, coitado. Ela deu-lhe um sermão de ecoar nas outras salas, crucificou-lhe pela gula e pelo descaso com o senhor, que estava prestes a sacrificar-se pelos pecados dele. O garoto tinha sete ou oito anos, não deve mais comer chocolate até hoje.

15 de outubro de 2010

Sem saída

Um dia acordou, olhou-se no espelho e percebeu de prontidão que estava mais velho. Ao chegar ao escritório, começou a reparar que as pessoas o olhavam de maneira diferente, tratavam-no com mais cuidado e dirigiam-se a ele em tom mais respeitoso.

Ao entrar no carro, de volta para casa, sentiu-se como um senhor sentado em um carro de frente larga, talvez um Landau ou Opala, com estofamento em imitação de veludo, coberto por um suporte para as costas repleto de bolinhas massageadoras de madeira.

Chegando em casa, viu-se no sofá, de chinelos felpudos, samba-canção e camisa regata, acompanhando os jogos de futebol na televisão enquanto a barriga crescia.

Ainda sem sono, após deitar-se na cama, ajeitando-se para não dar mal jeito na coluna, relembrou os velhos tempos: na juventude, antes de perceber aquela entrada, quando tinha a cabeça cheia de planos, sonhos e fios de cabelo.

14 de outubro de 2010

Abatido

Andava extremamente cansado e já não conseguia mais prestar atenção a nada nem ninguém. Esgotado, resolveu tirar um dia de folga, foi para a praia.

Com o vento afagando-lhe a face, levou pouco mais de cinco minutos para dormir à beira-mar. Ao cair da tarde, apesar de ter armado a cadeira bem longe da água, a maré subiu e algumas ondas bravias vieram lamber-lhe os pés. Acordou assustado, levantou-se de um impulso e correu atrás dos chinelos que iam sendo carregados. Quando finalmente resgatou os dois pares, virou-se para a praia vazia e, só então, lembrou: o garoto tinha vindo junto.

13 de outubro de 2010

Intento

Comovido com a situação, tida como rara nos dias de hoje, recebeu de volta a carteira, colocou-a no bolso e, após agradecer, estendeu a mão ao sujeito que lhe havia devolvido o pertence perdido. Esperando um sorriso agradecido, surpreendeu-se com a reação do sujeito que afastou-se, ao notar uma nota embrulhada entre os dedos, e indagou-lhe:

- O que é isso?

- Uma recompensa... - falou ele, inflado de sua nobre alma.

- Você acha que eu preciso disso?

Sem palavras, naquele exato instante, ele murchou, esvaziado pela ideia de que, com aquela atitude humilhante, contrariava aquele valores que pretendia exaltar.

12 de outubro de 2010

Dedução

As figueiras do passeio atraíram os olhares dos garotos. Os dois pararam, boquiabertos, diante daqueles troncos manchados de líquens e enrugados por dezenas de galhos entrelaçados. Antes que o pai pudesse fazer qualquer comentário, o mais velho, com oito anos, disse ao menorzinho:

- Essas árvores são muito antigas.

O pai, curioso, questionou:

- Como é que você sabe?

- Dá para ver pela cara.

11 de outubro de 2010

Degradação

Apesar da insistência do médico para que tomasse os remédios todos os dias, ela estava aprendendo a conviver com a dor. Com muito esforço, continuava realizando as tarefas da casa, indo ao mercado, à padaria, à praça e, aos domingos de manhã e quartas de noite, à missa. No entanto, em uma ida à padaria, sentiu uma dor aguda, profunda, nos dois joelhos, e acabou indo ao chão. Envergonhada, caída de bruços, com a saia levantada acima do joelho, as mãos raladas e as roupas cobertas por poeira e por folhas secas, permaneceu ali, naquela posição, até que dois taxistas aproximaram-se para ajudá-la a levantar.

Depois daquele tombo, não queria mais sair de casa, recolheu-se aos seus aposentos, reduzindo as caminhadas aos percursos entre quarto, cozinha, banheiro e sala, sempre se apoiando nas paredes, com medo de cair de novo. Ao fim de uma semana, as dores eram tantas, que ela havia começado a dormir sentada na poltrona da sala, para evitar cruzar todo o corredor até o quarto e, principalmente, a grande dificuldade para levantar-se da cama.

Um dia, a filha, sem notícias dela por semanas, resolveu visitá-la. Ao chegar à porta do prédio, foi alarmada por uma vizinha antiga da mãe, que já não a via mais sair para nada e que, nos últimos dias, também não ouvia muita coisa. Apressou-se a subir as escadas e, ao chegar à porta, sentiu um cheiro forte, horrível, e demorou a abrir a porta por conta da tremedeira. Esperando o pior, adentrou o apartamento e encontrou-a na poltrona, empalidecida, assustadoramente magra. Já tinha feridas nas costas e nas partes dos braços e pernas que ficavam apoiadas na cadeira. Em volta da poltrona, remanesciam alguns pratos de comida, já apodrecida, repleta de fungos de diversas cores. Ao abrir os olhos e perceber que a filha estava ali, estática, ela ameaçou levantar-se, mas desistiu, e então disse:

- Oi, minha filha! Não repare na bagunça.

O choro foi inevitável. A filha não sabia o que dizer, o que fazer. Estava chocada. Ajudou a mãe a caminhar até o banheiro, colocou-a debaixo do chuveiro, limpou-a por inteiro, incluindo as feridas, e depois a ajudou a caminhar até o quarto, para deitá-la na cama. Ligou para o marido, pedindo para que viesse logo, e começou a arrumar a sala, único cômodo que tinha sinais de qualquer atividade recente. Naquela tarde, apesar da resistência da mãe, que dizia estar muito bem, carregaram-na até o hospital - sem precisar usar de força, uma vez que ela não tinha condições de resistir fisicamente.

Nas semanas em que permaneceu internada, ainda com imensa dificuldade para levantar-se e caminhar até o banheiro, ela continuou a recusar os analgésicos e antiinflamatórios, insistia que estava sentindo-se bem. Por mais que tentassem, até mesmo escondendo as pílulas na comida, não conseguiam convencê-la a engolir. Os médicos já cogitavam sedá-la, para então administrar a medicação no soro, e recomendavam à família que, assim que tivesse condições de receber alta, ela fosse levada a uma instituição psiquiátrica para avaliação - afinal, não era normal aquela recusa, insistente, de remédios que poderiam melhorar a qualidade de vida de pacientes no estado dela.

Nas breves conversas com a filha, desviava do assunto quando se tratava dos remédios. Antes de ser sedada, se negava a dar qualquer explicação aos médicos. Além disso, refutava os diagnósticos de piora no quadro da artrose e fazia questão, ainda que ninguém a ouvisse, de falar sobre o clima, os rumos das novelas e outros temas rotineiros, que costumavam dominar seus diálogos antes de ser tomada pelas dores. Ao psiquiatra, nunca revelou seus verdadeiros anseios e medos. Acabou, por fim, internada, sem nunca mencionar a ninguém os motivos de sua recusa, claro indício de depressão, autodegradação.

Após meses presa naquele quarto insípido, sob efeito de fortes sedativos, aliados aos analgésicos e antiinflamatórios, todos misturados ao soro, ela só dispunha-se a falar sobre tarefas domésticas, filmes e romances, enquanto mantinha-se calada sobre a recusa dos medicamentos. Ela sabia que os médicos e parentes insistiriam, mas não iria, de maneira alguma, sujeitar-se a engolir comprimidos diários. Ainda estavam frescas as memórias do falecido: era tão saudável, mas definhou em um instante, assim que se aposentou e incluiu as pílulas para o coração na rotina diária. Em pouco tempo, já engolia cerca de seis comprimidos por refeição, cada qual com seus efeitos e defeitos. O remédio da pressão piorou a circulação, que mexeu com o coração, que causou um problema no estômago, pedra no rim, sobrecarga do fígado e, por fim, naquele equilíbrio tão frágil, de folha de outono em galho seco, um vento frio causou uma gripe, que se converteu em bronquite, pneumonia, e assim ele foi-se. Nunca soube os motivos que levaram todas aquelas pessoas, algumas muito amadas e bem criadas, a convencê-lo a seguir aquele rumo. No entanto, mesmo que não soubesse, esforçava-se para manter a rotina dos velhos tempos, ela não se renderia, não assim, tão fácil.