O racismo
Neste momento, é velado
E inocente de quem pensa, se engana
Que o racismo está morto
Exercícios literários e outras peças mal acabadas que não são adequadas para o comércio como produtos culturais.
30 de novembro de 2007
29 de novembro de 2007
Nossos nós
Atamos os nossos nós
Encontramos a nossa calma
Se você canta eu sou sua voz
Se sou poeta, você minha alma
Encontramos a nossa calma
Se você canta eu sou sua voz
Se sou poeta, você minha alma
27 de novembro de 2007
24 de novembro de 2007
Destino bipolar
Em alguns momentos
A sorte sorri para mim
Mas no momento seguinte
Emburrada
Franze o cenho, faz bico
E me dá as costas
A sorte sorri para mim
Mas no momento seguinte
Emburrada
Franze o cenho, faz bico
E me dá as costas
23 de novembro de 2007
Rêve
Se rebeller
C'est en quelque point
Entre rêver et réveiller
Sonho
Se rebelar
Está em algum ponto
Entre sonhar e acordar
C'est en quelque point
Entre rêver et réveiller
Sonho
Se rebelar
Está em algum ponto
Entre sonhar e acordar
21 de novembro de 2007
Timidez
Esse é o meu jeito
Com você falando assim
Olhando nos olhos, com este sorriso
Eu fico sem jeito
Com você falando assim
Olhando nos olhos, com este sorriso
Eu fico sem jeito
20 de novembro de 2007
19 de novembro de 2007
Passagem
Acredita-se que a vida é uma passagem
Tem origem e destino
Uns têm lanche
Uns têm espaço
Outros não tem nada
Quem tem espaço e comida
Deita e estica as pernas
Quem não têm
Fica em pé e passa fome
Mas o ônibus está ficando lotado
A gasolina está acabando
E a água já acaba também
Logo logo, o motor funde
E ficaremos todos parados
Perderemos a viagem
Tem origem e destino
Uns têm lanche
Uns têm espaço
Outros não tem nada
Quem tem espaço e comida
Deita e estica as pernas
Quem não têm
Fica em pé e passa fome
Mas o ônibus está ficando lotado
A gasolina está acabando
E a água já acaba também
Logo logo, o motor funde
E ficaremos todos parados
Perderemos a viagem
Fazendo as pazes
Às vezes tenho lá meus desentendimentos com o mundo. Ficamos brigados, ambos emburrados e em silêncio. Ontem mesmo tivemos uma briga feia. O mundo pode ser bem cruel de vez em quando.
Mas ao final da tarde, uma borboleta pousou ao meu lado na rede. Chegou, me olhou e ali ficou, batendo asas como se dançasse. Aceitei as desculpas imediatamente, sem pensar duas vezes.
Mas ao final da tarde, uma borboleta pousou ao meu lado na rede. Chegou, me olhou e ali ficou, batendo asas como se dançasse. Aceitei as desculpas imediatamente, sem pensar duas vezes.
Sobre o começo
Você me apresenta seu mundo
E eu te apresento o meu
Quem sabe até construímos um outro
Só nosso
E eu te apresento o meu
Quem sabe até construímos um outro
Só nosso
Lugar ao sol
E todas as flores lutavam entre si
Por um espaço
Um galho mais alto
Um degrau acima
As que conseguiam, morriam
Queimadas pelo sol
Por um espaço
Um galho mais alto
Um degrau acima
As que conseguiam, morriam
Queimadas pelo sol
14 de novembro de 2007
Fazendo música
Passo, inspiro, passo
Passo, expiro, passo
Passo, assobio, passo
Passo, suspiro, passo
Coço a cabeça
Passo
Engulo saliva
Passo
Subo as escadas
Degrau, degrau, degrau
Passo
Degrau, degrau, degrau
Passo
Giro a chave, passo
Abro a porta, passo
Passo
E fecho a porta
Passo, expiro, passo
Passo, assobio, passo
Passo, suspiro, passo
Coço a cabeça
Passo
Engulo saliva
Passo
Subo as escadas
Degrau, degrau, degrau
Passo
Degrau, degrau, degrau
Passo
Giro a chave, passo
Abro a porta, passo
Passo
E fecho a porta
13 de novembro de 2007
Matematicamente
Sempre se deu bem com números
Somando investimentos
Fez os números se multiplicarem
Em relação aos outros, subtraia
Nunca aprendeu a dividir
Somando investimentos
Fez os números se multiplicarem
Em relação aos outros, subtraia
Nunca aprendeu a dividir
12 de novembro de 2007
Você sabe
Você também já sentiu
O peso no fundo dos olhos
Os olhos no fundo do rosto
O rosto no fundo do poço
O peso no fundo dos olhos
Os olhos no fundo do rosto
O rosto no fundo do poço
9 de novembro de 2007
A arte
A beleza está nos olhos de quem vê
Nos traços de quem a desenha
Nas cores de quem a pinta
Nas cenas de quem a filma
Nos quadros de quem a fotografa
Nas palavras de quem a descreve
Mas neste instante
Neste momento preciso
E precioso
A beleza está nos olhos de quem lê
Nos traços de quem a desenha
Nas cores de quem a pinta
Nas cenas de quem a filma
Nos quadros de quem a fotografa
Nas palavras de quem a descreve
Mas neste instante
Neste momento preciso
E precioso
A beleza está nos olhos de quem lê
8 de novembro de 2007
Insone
No meio da madrugada
Não sei se pensei nela dormindo
Ou se acordei pensando nela
Não sei se acordei para trazê-la ao mundo
Ou se ela me acordou, inquieta
Ansiosa para sair do mundo das idéias
Não sei se pensei nela dormindo
Ou se acordei pensando nela
Não sei se acordei para trazê-la ao mundo
Ou se ela me acordou, inquieta
Ansiosa para sair do mundo das idéias
6 de novembro de 2007
Memórias
Desde aquele dia, virei um fantasma
Uma sombra
Um vulto
Aquele reflexo no espelho
No qual você não se reconheceu
Aquele era eu
Uma sombra
Um vulto
Aquele reflexo no espelho
No qual você não se reconheceu
Aquele era eu
5 de novembro de 2007
Queimação
Escrevo porque passo mal
Não consigo digerir este mundo
E vomito palavras
Ácidas
Suco gástrico literário
Não consigo digerir este mundo
E vomito palavras
Ácidas
Suco gástrico literário
1 de novembro de 2007
Conclusão
A única conclusão a se tirar
De um planetinha tão agradável
Destruído da maneira como está sendo
É que, às vezes
Pessoas ruins acontecem a coisas boas
De um planetinha tão agradável
Destruído da maneira como está sendo
É que, às vezes
Pessoas ruins acontecem a coisas boas
Ahn?
- Se eu morasse na Escócia eu ia andar de ônibus.
- Ahn?
- É. Porque o sistema de transporte público de lá funciona.
Ainda sem entender o sentido da conversa, ele questionou novamente:
- Ahn?
- Você estava ouvindo o que eu estava falando?
- Como assim?
- Eu estou aqui há meia hora conversando com você e você parece não ter entendido nada.
- Meia hora? Claro que não, você acabou de chegar e falar que você andaria de ônibus se morasse na Escócia.
- Sério? Não... Não pode ser. Eu estou conversando com você faz tempo.
- Tem certeza?
- Absoluta. Você tem certeza de que eu não estava aqui?
- Acho que sim. Ou melhor, que não. Que não estava. Estava?
- Acho que estava.
- Tem certeza.
- Acho que não. Ou melhor, acho que sim, que estava. Mas não tenho certeza agora.
- Mas por que é mesmo que você falou sobre andar de ônibus?
- Porque o sistema de transporte de lá funciona.
- Não. Não isso, por que é que você falou sobre a Escócia?
- Não sei. Mas é um país legal.
- É.
- Se eu morasse lá eu ia andar de ônibus.
- Eu prefiro caminhar.
- E se fosse longe?
- Daí eu ia de bicicleta.
- E se estivesse frio?
Ele abaixou a cabeça, ela virou para o lado e, depois de alguns segundos de silêncio, ele falou:
- Se eu morasse na Escócia eu ia andar de ônibus.
- Ahn?
- Ahn?
- É. Porque o sistema de transporte público de lá funciona.
Ainda sem entender o sentido da conversa, ele questionou novamente:
- Ahn?
- Você estava ouvindo o que eu estava falando?
- Como assim?
- Eu estou aqui há meia hora conversando com você e você parece não ter entendido nada.
- Meia hora? Claro que não, você acabou de chegar e falar que você andaria de ônibus se morasse na Escócia.
- Sério? Não... Não pode ser. Eu estou conversando com você faz tempo.
- Tem certeza?
- Absoluta. Você tem certeza de que eu não estava aqui?
- Acho que sim. Ou melhor, que não. Que não estava. Estava?
- Acho que estava.
- Tem certeza.
- Acho que não. Ou melhor, acho que sim, que estava. Mas não tenho certeza agora.
- Mas por que é mesmo que você falou sobre andar de ônibus?
- Porque o sistema de transporte de lá funciona.
- Não. Não isso, por que é que você falou sobre a Escócia?
- Não sei. Mas é um país legal.
- É.
- Se eu morasse lá eu ia andar de ônibus.
- Eu prefiro caminhar.
- E se fosse longe?
- Daí eu ia de bicicleta.
- E se estivesse frio?
Ele abaixou a cabeça, ela virou para o lado e, depois de alguns segundos de silêncio, ele falou:
- Se eu morasse na Escócia eu ia andar de ônibus.
- Ahn?
30 de outubro de 2007
Um par de brincos
Em meio à multidão, ele olhou para o chão e viu algo brilhante. Com muita dificuldade, abaixou-se e juntou o pequeno objeto do chão. Era um brinco, o tipo de coisa que só se encontra quando não se está procurando.
Deu uma olhada em volta. Não demorou para notar uma garota que olhava para o chão, como se procurasse por algo. Após reparar na garota, espremeu-se entre a multidão, chegou até ela e perguntou:
- Procurando algo?
Ela levantou o rosto e sorriu, ainda que fosse um sorriso um tanto chateado, e respondeu:
- Perdi meu brinco.
Então foi ele que sorriu, abriu a mão esquerda expondo o achado e disse:
- Este aqui?
Ela sorriu. Agora um outro sorriso, inexplicável, imensurável.
Não era o brinco dela. Nem ao menos combinava com a roupa que ela estava usando. Mas os brincos formaram um belo par.
Deu uma olhada em volta. Não demorou para notar uma garota que olhava para o chão, como se procurasse por algo. Após reparar na garota, espremeu-se entre a multidão, chegou até ela e perguntou:
- Procurando algo?
Ela levantou o rosto e sorriu, ainda que fosse um sorriso um tanto chateado, e respondeu:
- Perdi meu brinco.
Então foi ele que sorriu, abriu a mão esquerda expondo o achado e disse:
- Este aqui?
Ela sorriu. Agora um outro sorriso, inexplicável, imensurável.
Não era o brinco dela. Nem ao menos combinava com a roupa que ela estava usando. Mas os brincos formaram um belo par.
Livre interpretação
Não imploro. Não peço. Nem ao menos insinuo
Não declaro. Não escrevo. Nem deixo a entender
Mas uns ainda ousam. Se assanham, corajosos, a explicar o que não tem sentido.
Não dá para entender este mundo, sem sentido, que eu tento explicar aqui do meu mundinho.
Não declaro. Não escrevo. Nem deixo a entender
Mas uns ainda ousam. Se assanham, corajosos, a explicar o que não tem sentido.
Não dá para entender este mundo, sem sentido, que eu tento explicar aqui do meu mundinho.
26 de outubro de 2007
Povo das sombras
O povo das sombras aparece sempre no mesmo horário, junto com as sombras, assim que o sol nasce. Sempre muito cedo... Ainda na madrugada mas, aparentemente, sem nenhuma ajuda de deus.
Preparam seu café antes de você acordar, limpam o escritório antes de você chegar, colocam o ônibus para rodar antes de você se aglomerar ao congestionamento... Ligam os motores e preparam a cidade para você só chegar e sentar na janelinha, exigindo serviço de bordo.
E você nem ao menos os enxerga, faz questão de desviar o olhar.
Preparam seu café antes de você acordar, limpam o escritório antes de você chegar, colocam o ônibus para rodar antes de você se aglomerar ao congestionamento... Ligam os motores e preparam a cidade para você só chegar e sentar na janelinha, exigindo serviço de bordo.
E você nem ao menos os enxerga, faz questão de desviar o olhar.
25 de outubro de 2007
Cinzas
Em uma metrópole qualquer. Debaixo de uma chuva fina, mas tão fina que se tornava quase invisível, caminhavam lado a lado, de mãos dadas, o garotinho e a mãe. A mãe ia andando com pressa, sem dar atenção ao filho, arrastando-o pela mão.
Quando pararam em um cruzamento, esperando o sinaleiro abrir, o garotinho girou o pescoço e reparou no mundo à sua volta: nas centenas de pessoas apressadas, nas plantas, pássaros, prédios e tudo o mais. Após uma breve análise, por sinal muito precisa, ele virou-se para a mãe e perguntou:
- Mamãe, se os passarinhos são coloridos, as plantinhas são coloridas, os prédios são coloridos e até mesmo a comida é colorida... Por que é que as pessoas são todas cinza?
E ele ficou olhando, esperando por uma resposta. Enquanto o rosto da mãe, por vergonha, passou de cinza para rosa.
Quando pararam em um cruzamento, esperando o sinaleiro abrir, o garotinho girou o pescoço e reparou no mundo à sua volta: nas centenas de pessoas apressadas, nas plantas, pássaros, prédios e tudo o mais. Após uma breve análise, por sinal muito precisa, ele virou-se para a mãe e perguntou:
- Mamãe, se os passarinhos são coloridos, as plantinhas são coloridas, os prédios são coloridos e até mesmo a comida é colorida... Por que é que as pessoas são todas cinza?
E ele ficou olhando, esperando por uma resposta. Enquanto o rosto da mãe, por vergonha, passou de cinza para rosa.
19 de outubro de 2007
Revolução dos segredos
No início achávamos impossível, mas com o tempo nos acostumamos com a ideia: não havia mais segredos. Pensávamos na época que o que se produzia em nossas cabeças ficava, e sempre ficaria, restrito a nós. Mas um dia qualquer, não se sabe a data exata, alguns se mostraram um passo à frente: sabiam o que se passava na cabeça ao lado. E todos se indagaram sobre como isso era possível, elaboraram diversas teorias envolvendo psiquiatria, física quântica ou telepatia, mas sempre ficava faltando algo, um elo.
Depois de algum tempo, o fenômeno difundiu-se, algumas pessoas até deixaram de conversar, sabiam que a pessoa ao lado sabia o que estavam pensando, a sintonia era quase visível. E foi o termo sintonia que desencadeou a explicação mais aceita para o que acontecia: eram ondas. Não produzíamos apenas ondas sonoras e calor, mas a cada pensamento, a cada ideia, emitíamos ondas que até então não eram captadas e, em algum momento de evolução, passamos a ter a capacidade de captá-las.
Com a expansão incontrolável desta habilidade, não havia mais segredos, nada mais era só nosso: cada pensamento era compartilhado. No início foi extremamente complicado para as relações humanas, a sinceridade do pensamento contrastava com os esconderijos da fala e do silêncio. Mas foi ainda mais complicado para as relações sociais e políticas. Cada segredo estratégico, cada desvio de verba, tudo acabava escapando em um pensamento. E vários dos governantes foram desmascarados pelo movimento autodenominado In Veritas, que costumava abordar os políticos que ousassem transitar por locais públicos e indagá-los sobre suas ações frente ao governo e à corrupção. Por mais que as bocas se fechassem, a confissão era inevitável. Os mais poderosos chegaram a cogitar um equipamento que bloqueasse a leitura dos pensamentos, investiram bilhões, mas a única conclusão a que se chegou foi a do senso comum: não há barreiras para o pensamento.
Além do fim dos segredos, a liberdade de expressão fez-se efetiva quando ninguém mais precisava, ou até mesmo conseguia, pensar antes de expor uma opinião. O que também causou muito desconforto, pois a exposição de tantos conceitos acarretaria o fim da ditadura do pensamento. Foi então que se deu a última tentativa de conter a proclamada sintonia geral. A intenção era calar os pensamentos subversivos, e tentaram de tudo; Mas, nem mesmo o medo, semeador de silêncios, foi suficiente para conter a revolução dos segredos.
18 de outubro de 2007
Banho de sol
Dá até para sentir-se preso
Quando é preciso passar pelo caos
Para ir a um lugar um pouco mais tranquilo
Quando é preciso passar pelo caos
Para ir a um lugar um pouco mais tranquilo
17 de outubro de 2007
Pó
Passou o dedo pela cabeceira e mostrou para a garotinha deitada na cama ao lado:
- Olha essa sujeira, minha filha, isso aqui está uma vergonha!
- Mas não fui eu que sujei.
- Foi você sim. Está aqui no seu quarto.
- Mas...
- Nada de mas. Ainda hoje você pega um paninho e limpa. Quando eu voltar quero ver isso aqui brilhando.
A garotinha, ainda deitada na cama, refletiu sobre o pó em cima da cabeceira e sua relação de culpa em relação ao pó. E quando a mãe voltou, a cabeceira ainda estava toda empoeirada. Ela então cobrou a filha:
- Por que é que a cabeceira continua toda cheia de pó?
Com um ar de saber só de experiências feito, a garotinha respondeu, até com um certo descaso:
- Não adianta limpar. Vai sujar de novo. É pó de gente.
- Olha essa sujeira, minha filha, isso aqui está uma vergonha!
- Mas não fui eu que sujei.
- Foi você sim. Está aqui no seu quarto.
- Mas...
- Nada de mas. Ainda hoje você pega um paninho e limpa. Quando eu voltar quero ver isso aqui brilhando.
A garotinha, ainda deitada na cama, refletiu sobre o pó em cima da cabeceira e sua relação de culpa em relação ao pó. E quando a mãe voltou, a cabeceira ainda estava toda empoeirada. Ela então cobrou a filha:
- Por que é que a cabeceira continua toda cheia de pó?
Com um ar de saber só de experiências feito, a garotinha respondeu, até com um certo descaso:
- Não adianta limpar. Vai sujar de novo. É pó de gente.
16 de outubro de 2007
Jardim de Inverno
Mãe e filho aguardavam pela consulta na sala de espera. Ela estava entretida com uma revista, lendo sobre a vida daqueles que menos se importam com a vida alheia. Enquanto isso, ele se divertia com a cara grudada no vidro. Desenhando na parte embaçada pelo próprio bafo, criando estórias e aventuras envolvendo a pequena selva que o encarava através do vidro.
Depois de um tempo, entediado, o garoto decidiu que queria explorar os territórios além-vidro, e questionou a mãe:
- Mãe, posso brincar neste quintalzinho?
- Não é um quintalzinho, filho, é um jardim de inverno. E não pode brincar nele, jardim de inverno é só para ver.
O garoto, ainda parado de frente para o vidro, pensou um pouco e respondeu:
- Eu quero ter um desses em casa.
- Não dá, meu filho, só gente com muito dinheiro consegue ter um desses em casa.
O garoto entendeu a lição.
Muitos anos depois, ele parou com o rosto colado no vidro da vitrine de uma das lojas mais caras da cidade. Desta vez, ele é que foi questionado:
- Papai, o que é que você está olhando?
- Jardins de inverno.
E seguiram em frente. Não dava para brincar além do vidro.
Depois de um tempo, entediado, o garoto decidiu que queria explorar os territórios além-vidro, e questionou a mãe:
- Mãe, posso brincar neste quintalzinho?
- Não é um quintalzinho, filho, é um jardim de inverno. E não pode brincar nele, jardim de inverno é só para ver.
O garoto, ainda parado de frente para o vidro, pensou um pouco e respondeu:
- Eu quero ter um desses em casa.
- Não dá, meu filho, só gente com muito dinheiro consegue ter um desses em casa.
O garoto entendeu a lição.
Muitos anos depois, ele parou com o rosto colado no vidro da vitrine de uma das lojas mais caras da cidade. Desta vez, ele é que foi questionado:
- Papai, o que é que você está olhando?
- Jardins de inverno.
E seguiram em frente. Não dava para brincar além do vidro.
2 de outubro de 2007
Sobre os caminhos
Na direção contrária ao fluxo
Não tem carona
Mas tem sempre alguém para andar ao lado
Não tem carona
Mas tem sempre alguém para andar ao lado
Separação
Um dia ele acordou, lavou o rosto e parou na frente do espelho.
As escovas de dente já não estavam mais ali, ao lado da pia, uma virada para a outra.
E foi naquele momento que ele se deu conta.
As escovas de dente já não estavam mais ali, ao lado da pia, uma virada para a outra.
E foi naquele momento que ele se deu conta.
20 de setembro de 2007
19 de setembro de 2007
Revisão
- O que você pensa sobre o raciocínio?
- O raciocínio é o pensamento que, de acordo com a razão, leva a alguma ação.
- E a razão leva em conta o que?
- O que é correto, justo. O que é mais certo.
- Mas e quando o que leva a uma ação é uma idéia ou objetivo errado, injusto?
- Também chamam de raciocínio.
- E você acha que é o termo mais correto?
- Talvez devessem chamar de raciocídio.
- Raciocídio ilógico.
E ficaram em silêncio. Raciocinando.
- O raciocínio é o pensamento que, de acordo com a razão, leva a alguma ação.
- E a razão leva em conta o que?
- O que é correto, justo. O que é mais certo.
- Mas e quando o que leva a uma ação é uma idéia ou objetivo errado, injusto?
- Também chamam de raciocínio.
- E você acha que é o termo mais correto?
- Talvez devessem chamar de raciocídio.
- Raciocídio ilógico.
E ficaram em silêncio. Raciocinando.
13 de setembro de 2007
Gerenciar o tempo
Dar um tempo
Tirar um tempo
Colocar um pouco aqui
Tirar um pouco dali
Um minuto para você
E outro para mim
Hora de comer
Hora de dormir
Horário de trabalho
Cronograma, prazo
Calendário
Fazendo do tempo gerente
Subalternos, vivendo em função
Dos desejos do relógio
Tirar um tempo
Colocar um pouco aqui
Tirar um pouco dali
Um minuto para você
E outro para mim
Hora de comer
Hora de dormir
Horário de trabalho
Cronograma, prazo
Calendário
Fazendo do tempo gerente
Subalternos, vivendo em função
Dos desejos do relógio
12 de setembro de 2007
Viver e recordar
Depois de muito tempo, descobriu-se que, na verdade, os responsáveis pelas famosas pinturas nas cavernas não foram os homens, mas sim os antílopes, mamutes, tigres e gnus. Cada espécie havia feito suas pinturas em homenagem a seus mortos durante as batalhas do dia a dia. Somente após terem encontrado estes registros é que os homens começaram a fazer os seus também.
Atualmente, os homens são os únicos a manter registros além das marcas no corpo e na alma. Os outros animais não tem dúvida de que o homem vai ser o último a perceber que é melhor viver do que recordar.
Atualmente, os homens são os únicos a manter registros além das marcas no corpo e na alma. Os outros animais não tem dúvida de que o homem vai ser o último a perceber que é melhor viver do que recordar.
31 de agosto de 2007
O tempo das paixões
A todo momento há algumas paixões despertando
E outras, em fuso horário diferente, indo dormir
E outras, em fuso horário diferente, indo dormir
29 de agosto de 2007
Legítima defesa
O advogado alegou legítima defesa. E os juízes absolveram o comandante e mais 11 réus de todas as acusações: homicídio, agressão e uso abusivo de força
Mais um caso de legítima defesa, em defesa da ordem social
Mais um caso de legítima defesa, em defesa da ordem social
23 de agosto de 2007
Vítimas
Na ditadura do medo
Acaba-se preso
Por porte de esperança
Na ditadura do pensamento
Acaba-se exilado
Por formação de idéias
Na ditadura do silêncio
Acaba-se morto
Por tentativa de expressão
Em meio a tantas ditaduras
Acaba-se preso, exilado, morto
Dentro de si mesmo
Acaba-se preso
Por porte de esperança
Na ditadura do pensamento
Acaba-se exilado
Por formação de idéias
Na ditadura do silêncio
Acaba-se morto
Por tentativa de expressão
Em meio a tantas ditaduras
Acaba-se preso, exilado, morto
Dentro de si mesmo
20 de agosto de 2007
15 de agosto de 2007
7 de agosto de 2007
Capacidade
Desde que o tempo é tempo, as pessoas desejam ter a capacidade de enxergar através das outras. Sensações, sentimentos e os mais profundos pensamentos. E a essa capacidade, deu-se o nome de compreensão.
Nos tempos atuais, caminhando pela rua, percebe-se que as pessoas têm a capacidade de enxergar através das outras. E a essa capacidade, dá-se o nome de indiferença.
Nos tempos atuais, caminhando pela rua, percebe-se que as pessoas têm a capacidade de enxergar através das outras. E a essa capacidade, dá-se o nome de indiferença.
3 de agosto de 2007
O cheiro
Nem me importo mais em levar uma sacolinha ou jornal quando levo o cachorro para passear.
O cocô no chão não é mais um problema. As crianças não andam mais descalças e os executivos, engravatados e com sapatos, esses já cheiram à merda.
O cocô no chão não é mais um problema. As crianças não andam mais descalças e os executivos, engravatados e com sapatos, esses já cheiram à merda.
1 de agosto de 2007
31 de julho de 2007
26 de julho de 2007
Pela rua
- Lá vem você de novo com esse sorriso de mulher fácil.
- Fácil mesmo.
- Bom que admite. Pecadora.
- Difícil deve ser olhar para essa sua cara de cu.
- Fácil mesmo.
- Bom que admite. Pecadora.
- Difícil deve ser olhar para essa sua cara de cu.
25 de julho de 2007
Idade das trevas
Foi-se, há muito tempo
O tempo em que a felicidade era compartilhada
E a tristeza comovia
Nesses novos tempos
A felicidade dos outros incomoda
E a tristeza...
A tristeza é alheia.
O tempo em que a felicidade era compartilhada
E a tristeza comovia
Nesses novos tempos
A felicidade dos outros incomoda
E a tristeza...
A tristeza é alheia.
24 de julho de 2007
Todo dia
- Eu passo o dia todo esperando ela aparecer.
- Que triste isso...
- Não é triste não. Triste é quando ela não vem.
- Que triste isso...
- Não é triste não. Triste é quando ela não vem.
19 de julho de 2007
Invasão
De nada adianta expandir a mente
Se o terreno continua improdutivo
Mais vale um grão de subsistência
Que um latifúndio vazio
Se o terreno continua improdutivo
Mais vale um grão de subsistência
Que um latifúndio vazio
Sílabas limitaristas
Ao que ele respondeu em alto e bom tom:
- Vá contar as sílabas
poéticas, métricas, hipotéticas
no olho do seu cu!
- Vá contar as sílabas
poéticas, métricas, hipotéticas
no olho do seu cu!
16 de julho de 2007
O cão
Rodou pela rua mais escura e perigosa como se fosse seu território.
Rosnou para os carros, perseguiu as motos e atacou os pedestres.
Como todo macho rejeitado faria.
O cão 2
Perguntou-me se eu era possessivo.
Respondi que sim, desde o primeiro beijo até o momento em que rolo para o lado e me deito.
O cão 3
Dizem que não se deve olhar policial nos olhos.
Ele sente o medo.
Rosnou para os carros, perseguiu as motos e atacou os pedestres.
Como todo macho rejeitado faria.
O cão 2
Perguntou-me se eu era possessivo.
Respondi que sim, desde o primeiro beijo até o momento em que rolo para o lado e me deito.
O cão 3
Dizem que não se deve olhar policial nos olhos.
Ele sente o medo.
Desesperança
Haviam começado o namoro há pouco tempo. Sorrisos, bicos, charmes e birras. Apelidos fofos e juras de amor.
Foi quando ele escreveu a carta de despedida, com a certeza de que a entregaria em breve. Sabia até os motivos da separação. Tinha tudo anotado, explicado, em palavras friamente selecionadas.
Nunca teve a chance de entregá-la.
Foi quando ele escreveu a carta de despedida, com a certeza de que a entregaria em breve. Sabia até os motivos da separação. Tinha tudo anotado, explicado, em palavras friamente selecionadas.
Nunca teve a chance de entregá-la.
10 de julho de 2007
Aqueles olhos
Aqueles olhos, em meio a tantos outros olhos e olhares.
Aqueles olhos que não olhavam de volta. Que pareciam perdidos em algum ponto entre a raiva e a decepção.
Aqueles olhos, lacrimejantes. Mas quem se importa? Ela é linda.
Aqueles olhos que não olhavam de volta. Que pareciam perdidos em algum ponto entre a raiva e a decepção.
Aqueles olhos, lacrimejantes. Mas quem se importa? Ela é linda.
8 de julho de 2007
Sabia assobiar
Cabisbaixos, ambos, ele e o canário. Ele sentou-se na varanda, abaixo da gaiola e começou a assobiar, lenta e tristemente.
O canário, que até então nunca havia sequer piado, respondeu, com um canto rápido e alegre. Ele então sorriu, como nunca havia sorrido.
Não se sabe até hoje quem ensinou quem.
O canário, que até então nunca havia sequer piado, respondeu, com um canto rápido e alegre. Ele então sorriu, como nunca havia sorrido.
Não se sabe até hoje quem ensinou quem.
6 de julho de 2007
Conto de fadas
- Odeio fadas!
- Como você odeia fadas?
- Ah. Elas sempre aparecem com aquela coisa de deixar tudo perfeito... E não é assim que as coisas acontecem.
- Perfeito não, justo.
- Justo?
- Sim, justo. O próprio nome diz: contos de fadas, fairy tales, fairy é fair, justo, só que de um jeito mais carinhoso.
- Faz sentido.
- Contos de fadas terminam de um modo justo.
- É... Justo.
E viveram felizes para sempre.
- Como você odeia fadas?
- Ah. Elas sempre aparecem com aquela coisa de deixar tudo perfeito... E não é assim que as coisas acontecem.
- Perfeito não, justo.
- Justo?
- Sim, justo. O próprio nome diz: contos de fadas, fairy tales, fairy é fair, justo, só que de um jeito mais carinhoso.
- Faz sentido.
- Contos de fadas terminam de um modo justo.
- É... Justo.
E viveram felizes para sempre.
4 de julho de 2007
Ela fugiu
No começo era papo de casal apaixonado, mas a fuga virou promessa.
Mas quando ela disse que fugiria comigo, não imaginei que fosse dessa maneira. Ela fugiu sim... E fugiu comigo, mas apenas com um pedaço meu. Fiquei desolado.
De início eu não sabia se foi por esquecimento ou de propósito, mas ela deixou aqui comigo um pedaço dela também. Guardei-o em uma caixa de sapatos, em cima do armário.
Um dia, entre goles e suspiros, peguei o tal pedaço... E descobri que não foi ao acaso. Encaixava direitinho... Na ausência do que ela levou.
Mas quando ela disse que fugiria comigo, não imaginei que fosse dessa maneira. Ela fugiu sim... E fugiu comigo, mas apenas com um pedaço meu. Fiquei desolado.
De início eu não sabia se foi por esquecimento ou de propósito, mas ela deixou aqui comigo um pedaço dela também. Guardei-o em uma caixa de sapatos, em cima do armário.
Um dia, entre goles e suspiros, peguei o tal pedaço... E descobri que não foi ao acaso. Encaixava direitinho... Na ausência do que ela levou.
1 de julho de 2007
Decepção
- E a borboleta?
- Fez um casulo e virou lagarta...
- Ah! Que pena.
- É... Acontece.
- Mas não se preocupe, tem muita borboleta no ar.
- Fez um casulo e virou lagarta...
- Ah! Que pena.
- É... Acontece.
- Mas não se preocupe, tem muita borboleta no ar.
26 de junho de 2007
Incapacidade
Eram feitos um para o outro.
Ela muda. Ele cego.
Ela muda. Ele surdo.
Cansada de mudar sem ser vista ou ouvida, ela fez um enorme discurso de despedida. Ele mudo.
Ela muda. Ele cego.
Ela muda. Ele surdo.
Cansada de mudar sem ser vista ou ouvida, ela fez um enorme discurso de despedida. Ele mudo.
20 de junho de 2007
Inocência cruel
O pai e a filhinha de 5 anos no estádio. Dia de jogo, campeonato brasileiro, libertadores, campeonato regional, não importa.
Antes do início do jogo, entrou em campo um sujeito com uma perna amputada na altura do joelho, usando duas muletas e fazendo malabarismos com a bola. Batia balãozinho na coxa, peito, cabeça e não deixava a bola cair. Ao vê-lo, a garotinha apontou o dedo para ele e soltou sonoras gargalhadas.
- Olha, pai! Olha! - E continou rindo.
O pai - nesse momento constrangido pelo que ele mesmo classificou como inocência cruel - olhou para as pessoas na fileira de trás e deixou escapar um sorriso daqueles que diz: é uma criança, vocês sabem como é.
Depois do constrangimento, o pai virou-se para a filha - em uma tentativa frustrada de dar a ela uma lição aproveitando o exemplo - e disse:
- Filhinha, você viu aquele cara que esforçado. Mesmo com só uma perna ele consegue fazer tudo aquilo com bola. Imagine se ele tivesse as duas!
- Com as duas?
- É.
- Daí não é legal.
Antes do início do jogo, entrou em campo um sujeito com uma perna amputada na altura do joelho, usando duas muletas e fazendo malabarismos com a bola. Batia balãozinho na coxa, peito, cabeça e não deixava a bola cair. Ao vê-lo, a garotinha apontou o dedo para ele e soltou sonoras gargalhadas.
- Olha, pai! Olha! - E continou rindo.
O pai - nesse momento constrangido pelo que ele mesmo classificou como inocência cruel - olhou para as pessoas na fileira de trás e deixou escapar um sorriso daqueles que diz: é uma criança, vocês sabem como é.
Depois do constrangimento, o pai virou-se para a filha - em uma tentativa frustrada de dar a ela uma lição aproveitando o exemplo - e disse:
- Filhinha, você viu aquele cara que esforçado. Mesmo com só uma perna ele consegue fazer tudo aquilo com bola. Imagine se ele tivesse as duas!
- Com as duas?
- É.
- Daí não é legal.
8 de junho de 2007
Sinais
Dificilmente saia de casa. Além disso, nenhuma peculiaridade daquela tarde quente dava o mínimo sinal de que o dia seria uma exceção. Do sofá da sala de visitas, local onde costumamos receber a pequena parcela do mundo com a qual nos relacionamos, apenas observava o formato das nuvens e os diferentes tons de azul e cinza, além do branco.
- É claro!
Exclamou em voz alta, irrompendo o silêncio que havia tomado a sala. Sentiu o leve incômodo que nos persegue quando ainda não sabemos que ninguém é normal. Seguiu-se ao incômodo um diálogo mental no qual prometeu a si mesmo que nunca mais falaria a sós. No final do mesmo diálogo, que por pouco não virou discussão, já duvidou que conseguiria cumprir a promessa.
A frase que irrompeu o silêncio da sala pareceu ter acordado a cidade. Então o alarme de algum carro ou casa, sem cerimônias, entrou pela janela e veio sentar-se ao seu lado no sofá. O alarme tocando e o mal-estar se iniciando. Começou a pensar que havia algo de errado, não sabia o que, mas algo o incomodava, algo estava errado. Imaginou que devia ser dentro de seu corpo, sabia que devia se cuidar melhor, e lembrou-se da avó dizendo que tudo que fazemos com o corpo é cobrado depois. Foi até a estante e agarrou seu livro sobre medicina básica, mas de nada adiantou, porque não sabia nem ao certo o que incomodava, se era dor de cabeça, no estômago, ânsia de vômito ou dor no peito, não tinha nenhuma certeza além do mal-estar. A este ponto estava difícil respirar, a testa suava frio, as mãos se cruzavam e passavam constantemente pelos cabelos, da testa até a nuca, e os dentes se comprimiam como se disputassem o espaço dentro da boca.
Os primeiros ônibus e carros começaram a circular pelas ruas e o barulho emitido por eles parecia rasgar a pele daquele corpo tenso, que nesse momento encolhia-se em um canto do sofá enquanto o alarme continuava a tocar. As mãos lhe cobriam os ouvidos, mas os visitantes indesejados gritavam rente à sua face. Buzinas, freadas, batidas, tiros, o som do vizinho de cima e a televisão do de baixo, o canto estúpido do vizinho ao lado no chuveiro enquanto os filhos dele jogam o videogame no último volume, o caminhão do lixo, o carro da polícia, a ambulância, o profeta do apocalipse, as crianças do coral natalino.
Em meio ao caos interno, o telefone tocando. Sempre é alguém querendo vender algo, sempre querem algo em troca por simples palavras. O telefone tocou, tremeu e implorou até cansar. Mas uma hora ele parou. Já era tarde, as visitas viram que era hora de ir embora, o silêncio tomou conta novamente. O corpo, antes encolhido, estirava-se pelo sofá, respirando com alívio e sem a tensão que se imprimira pelas horas que antecederam este momento. Agora a sós, pensou naquela tarde e, já esquecendo da promessa, disse a si mesmo:
- Esse mundo aqui dentro está muito perigoso. Amanhã eu prometo que vou passar o dia na praça.
Ninguém respondeu. Mas mesmo assim, dava para notar no rosto a descrença com a nova promessa.
- É claro!
Exclamou em voz alta, irrompendo o silêncio que havia tomado a sala. Sentiu o leve incômodo que nos persegue quando ainda não sabemos que ninguém é normal. Seguiu-se ao incômodo um diálogo mental no qual prometeu a si mesmo que nunca mais falaria a sós. No final do mesmo diálogo, que por pouco não virou discussão, já duvidou que conseguiria cumprir a promessa.
A frase que irrompeu o silêncio da sala pareceu ter acordado a cidade. Então o alarme de algum carro ou casa, sem cerimônias, entrou pela janela e veio sentar-se ao seu lado no sofá. O alarme tocando e o mal-estar se iniciando. Começou a pensar que havia algo de errado, não sabia o que, mas algo o incomodava, algo estava errado. Imaginou que devia ser dentro de seu corpo, sabia que devia se cuidar melhor, e lembrou-se da avó dizendo que tudo que fazemos com o corpo é cobrado depois. Foi até a estante e agarrou seu livro sobre medicina básica, mas de nada adiantou, porque não sabia nem ao certo o que incomodava, se era dor de cabeça, no estômago, ânsia de vômito ou dor no peito, não tinha nenhuma certeza além do mal-estar. A este ponto estava difícil respirar, a testa suava frio, as mãos se cruzavam e passavam constantemente pelos cabelos, da testa até a nuca, e os dentes se comprimiam como se disputassem o espaço dentro da boca.
Os primeiros ônibus e carros começaram a circular pelas ruas e o barulho emitido por eles parecia rasgar a pele daquele corpo tenso, que nesse momento encolhia-se em um canto do sofá enquanto o alarme continuava a tocar. As mãos lhe cobriam os ouvidos, mas os visitantes indesejados gritavam rente à sua face. Buzinas, freadas, batidas, tiros, o som do vizinho de cima e a televisão do de baixo, o canto estúpido do vizinho ao lado no chuveiro enquanto os filhos dele jogam o videogame no último volume, o caminhão do lixo, o carro da polícia, a ambulância, o profeta do apocalipse, as crianças do coral natalino.
Em meio ao caos interno, o telefone tocando. Sempre é alguém querendo vender algo, sempre querem algo em troca por simples palavras. O telefone tocou, tremeu e implorou até cansar. Mas uma hora ele parou. Já era tarde, as visitas viram que era hora de ir embora, o silêncio tomou conta novamente. O corpo, antes encolhido, estirava-se pelo sofá, respirando com alívio e sem a tensão que se imprimira pelas horas que antecederam este momento. Agora a sós, pensou naquela tarde e, já esquecendo da promessa, disse a si mesmo:
- Esse mundo aqui dentro está muito perigoso. Amanhã eu prometo que vou passar o dia na praça.
Ninguém respondeu. Mas mesmo assim, dava para notar no rosto a descrença com a nova promessa.
31 de maio de 2007
O baú
E ela foi até o quartinho dos fundos. Em um canto escuro e empoeirado, encontrou o velho baú.
Levou o baú até a sala e começou a redescobrir tudo que estava ali guardado há anos. Tinha ali um sorriso sincero que já estava até um pouco amarelado pela falta de uso. Havia também uma porção de otimismo infantil, que apesar de serem infantis eram pelo menos dez vezes maiores do que os adultos. Também brincou um pouco com os sonhos, fantasias e ilusões. Encontrou até alguns medos, mas algumas peças tinham sumido com o tempo.
O velho baú rendeu bons momentos. Mas ao final da tarde, ela recolheu tudo do chão, fechou o baú e o colocou de volta no canto escuro e empoeirado. O sorriso, amarelado, acabou ficando esquecido debaixo do tapete.
Levou o baú até a sala e começou a redescobrir tudo que estava ali guardado há anos. Tinha ali um sorriso sincero que já estava até um pouco amarelado pela falta de uso. Havia também uma porção de otimismo infantil, que apesar de serem infantis eram pelo menos dez vezes maiores do que os adultos. Também brincou um pouco com os sonhos, fantasias e ilusões. Encontrou até alguns medos, mas algumas peças tinham sumido com o tempo.
O velho baú rendeu bons momentos. Mas ao final da tarde, ela recolheu tudo do chão, fechou o baú e o colocou de volta no canto escuro e empoeirado. O sorriso, amarelado, acabou ficando esquecido debaixo do tapete.
9 de maio de 2007
Sete
- E quanto ao seu texto. Achei a idéia interessante, mas ficou um pouco confuso.
- Em qual parte?
- Não sei direito. Em tudo...
- Dê um exemplo.
- Por exemplo. Por que é que o nome é "Sete Dias" quando fica claro que passam apenas cinco?
- Isso é um detalhe. Para que interpretem o que quiserem quanto aos dias que faltaram. Pode ser porque o final de semana não conta. Ou porque ele perdeu dois dias no meio da memória, por qualquer coisa. Não é de grande importância.
- O título não é de grande importância?
- Não. Para o texto em si, se muito, serve como introdução.
- Mas o título tem que ser coerente com o texto.
- E não é?
- Bom, passam alguns dias, mas não sete.
- Se "Os Três Mosqueteiros" eram quatro, por que meus cinco dias não podem ser sete?
- Mas tinha um que era meio inimigo e que depois se junta de novo. Se o nome fosse quatro ia estragar a surpresa. E também soaria meio estranho... "Os Quatro Mosqueteiros".
- "Cinco Dias" me parece estranho. Pronto! Agora eu tenho uma boa desculpa?
- Não sei.
- Nem tudo precisa ter um amplo sentido por trás. Nem sempre precisa de regras.
- Mas tem que ter regras.
- Por que?
- Porque senão qualquer coisa que fizerem, cheia de erros, pode ser considerada arte.
- Mas a arte não é uma forma de romper com as regras e padrões?
- Mas imagine um texto cheio de erros.
- Imagine um quadro abstrato, ou algo surreal. Melhor ainda, cubista. Ou um filme, no cinema a regra é: introdução, ponto de virada um, conflito, ponto de virada dois, conclusão, final feliz. Só se for de acordo com as regras é arte?
- Não...
- O que é arte?
- Não sei. Você sabe?
- Tanto quanto você... Ou qualquer um.
Um breve silêncio. Deram os últimos goles da cerveja, retiraram o casco do suporte e acenaram para o garçom. Sinalizaram o início de uma nova rodada.
- Mas eu gostei do texto. Só não gostei do título.
- Eu coloquei o sete só para confundir mesmo.
- Em qual parte?
- Não sei direito. Em tudo...
- Dê um exemplo.
- Por exemplo. Por que é que o nome é "Sete Dias" quando fica claro que passam apenas cinco?
- Isso é um detalhe. Para que interpretem o que quiserem quanto aos dias que faltaram. Pode ser porque o final de semana não conta. Ou porque ele perdeu dois dias no meio da memória, por qualquer coisa. Não é de grande importância.
- O título não é de grande importância?
- Não. Para o texto em si, se muito, serve como introdução.
- Mas o título tem que ser coerente com o texto.
- E não é?
- Bom, passam alguns dias, mas não sete.
- Se "Os Três Mosqueteiros" eram quatro, por que meus cinco dias não podem ser sete?
- Mas tinha um que era meio inimigo e que depois se junta de novo. Se o nome fosse quatro ia estragar a surpresa. E também soaria meio estranho... "Os Quatro Mosqueteiros".
- "Cinco Dias" me parece estranho. Pronto! Agora eu tenho uma boa desculpa?
- Não sei.
- Nem tudo precisa ter um amplo sentido por trás. Nem sempre precisa de regras.
- Mas tem que ter regras.
- Por que?
- Porque senão qualquer coisa que fizerem, cheia de erros, pode ser considerada arte.
- Mas a arte não é uma forma de romper com as regras e padrões?
- Mas imagine um texto cheio de erros.
- Imagine um quadro abstrato, ou algo surreal. Melhor ainda, cubista. Ou um filme, no cinema a regra é: introdução, ponto de virada um, conflito, ponto de virada dois, conclusão, final feliz. Só se for de acordo com as regras é arte?
- Não...
- O que é arte?
- Não sei. Você sabe?
- Tanto quanto você... Ou qualquer um.
Um breve silêncio. Deram os últimos goles da cerveja, retiraram o casco do suporte e acenaram para o garçom. Sinalizaram o início de uma nova rodada.
- Mas eu gostei do texto. Só não gostei do título.
- Eu coloquei o sete só para confundir mesmo.
30 de abril de 2007
A cadeira
Ali sentado. O cansaço bate. E nada acontece. E o cansaço bate mais forte. Bate no corpo, bate no rosto. Não há distração que faça o relógio correr. Ou ao menos andar. No momento, ele parece parado. Parado naquele momento. Todo o resto correndo. E ele parado.
Esperando.
Esparramou-se na cadeira. Como um sorvete que derrete-se na casquinha. Tomou a forma da cadeira. Inerte. Angústia, cansaço. Uma dor que não sabe ao certo se é no pescoço, na nuca, nas costas ou nos três.
Esperando.
Pegou mais um café. Já é o terceiro (é grátis mesmo). Sentou novamente, corrigiu a postura. Queimou a ponta da língua. Arqueou novamente a coluna, tomando a forma da cadeira. Subiu o olhar para o relógio. Aproximou o copo da boca e assoprou. Seguiu assoprando. O café esfriando.
Esperando.
Pensou que podia ter aproveitado melhor esse tempo. Umas horinhas poderiam fazer alguma diferença. Talvez pudesse ter adiantado aquele trabalho. Podia ter conversado com alguém interessante. Chegou à conclusão de que nada o impedia de conversar com alguém ali mesmo. Era o que pensava. Na prática percebeu que muita coisa o impedia de ter uma boa conversa. A pressa, o medo, a tendência a não falar nada interessante, a falta de intimidade, o distanciamento mínimo comum, o pensamento múltiplo comum, as idéias vagas, as vagas idéias, as idéias procurando vagas, sem espaço para estacionar em meio aos transtornos que ocupam as mentes. Desistiu após duas conversas sobre o clima, quatro sobre futebol, uma sobre violência e outras três sobre religião. Caminhou desoladamente, de volta para sua cadeira. Não que fosse sua, mas aquela onde ele estava antes, na qual devia ter sentado muita gente diferente. Tentou fazer um cálculo de quantas pessoas deviam passar ali por dia, dividir pelo número de cadeiras e talvez chegar a um número médio de pessoas por dia naquela cadeira. Podia fazer um livro só sobre aquela cadeira e os tantos personagens incomuns que passam por ali. Mas desistiu da idéia. Esparramou-se novamente na cadeira. E ficou ali.
Esperando.
Esperando.
Esparramou-se na cadeira. Como um sorvete que derrete-se na casquinha. Tomou a forma da cadeira. Inerte. Angústia, cansaço. Uma dor que não sabe ao certo se é no pescoço, na nuca, nas costas ou nos três.
Esperando.
Pegou mais um café. Já é o terceiro (é grátis mesmo). Sentou novamente, corrigiu a postura. Queimou a ponta da língua. Arqueou novamente a coluna, tomando a forma da cadeira. Subiu o olhar para o relógio. Aproximou o copo da boca e assoprou. Seguiu assoprando. O café esfriando.
Esperando.
Pensou que podia ter aproveitado melhor esse tempo. Umas horinhas poderiam fazer alguma diferença. Talvez pudesse ter adiantado aquele trabalho. Podia ter conversado com alguém interessante. Chegou à conclusão de que nada o impedia de conversar com alguém ali mesmo. Era o que pensava. Na prática percebeu que muita coisa o impedia de ter uma boa conversa. A pressa, o medo, a tendência a não falar nada interessante, a falta de intimidade, o distanciamento mínimo comum, o pensamento múltiplo comum, as idéias vagas, as vagas idéias, as idéias procurando vagas, sem espaço para estacionar em meio aos transtornos que ocupam as mentes. Desistiu após duas conversas sobre o clima, quatro sobre futebol, uma sobre violência e outras três sobre religião. Caminhou desoladamente, de volta para sua cadeira. Não que fosse sua, mas aquela onde ele estava antes, na qual devia ter sentado muita gente diferente. Tentou fazer um cálculo de quantas pessoas deviam passar ali por dia, dividir pelo número de cadeiras e talvez chegar a um número médio de pessoas por dia naquela cadeira. Podia fazer um livro só sobre aquela cadeira e os tantos personagens incomuns que passam por ali. Mas desistiu da idéia. Esparramou-se novamente na cadeira. E ficou ali.
Esperando.
18 de abril de 2007
Piada
Eu sou uma piada
Uns entendem, outros não entendem
Mas no final a maioria acaba rindo
E se eu me explicasse... perderia a graça
Uns entendem, outros não entendem
Mas no final a maioria acaba rindo
E se eu me explicasse... perderia a graça
10 de abril de 2007
4 de abril de 2007
Mais perto do senhor
Ela vestiu sua melhor roupa, tirou do armário aquele perfume guardado para ocasiões especiais e ficou fazendo e desfazendo o cabelo até que ele ficasse impecável.
Saiu de casa meia hora antes do que de costume e caminhou pelas ruas vazias em direção à praça. As poucas almas vivas que encontrava estavam entre vivas e mortas, acordadas e desmaiadas, resquícios da noite anterior. Era assim toda manhã de domingo, especialmente na época da colheita do café, quando a população da cidade dobrava apenas com os trabalhadores temporários, nômades, a serviço de quem tivesse serviço a oferecer.
Como planejado, chegou a tempo de pegar o melhor lugar, na primeira fila, à margem do altar. Observou atentamente cada movimento do padre enquanto ele preparava-se para subir ao púlpito, estava esperando por este momento desde a semana anterior, mas não se arriscava a dirigir-lhe a palavra. Ela pensava que se ele ao menos a olhasse com atenção, ela nem precisaria falar nada.
Em pouco tempo começaram a chegar outros fiéis, alguns infiéis e outros que nem sabiam muito bem o que estavam fazendo ali. Entre todos, uma lhe chamou a atenção, ela nunca tinha visto aquela moça por ali. Não era muito bela fisicamente, tinha lá um ou outro detalhe a reparar, mas o que mais chamava a atenção era a roupa. Era uma roupa de sábado, parecia imprópria para a missa de domingo, uma saia alguns dedos acima do joelho e uma blusa de alça, com um leve decote, que deixava à mostra as linhas do pescoço adornadas com um belo par de colares, um em tons de madeira e o outro vermelho.
Logo ela deixou de reparar no pescoço e na moça dona do pescoço. Mas então quem reparou na moça foi o padre e, após reparar que ele havia reparado, ela voltou a reparar na moça. Analisou cada detalhe, cada leve defeito, cada pecado que ela havia de ter cometido. E reparava também no padre, nos seus olhares e seus sorrisos. Assemelhavam-se ao olhar e ao sorriso do último domingo, mas ela tinha certeza que se direcionavam ao quinto banco do lado esquerdo da igreja.
A situação foi lhe deixando ansiosa, não sabia como proceder diante de tal afronta. Ainda mais porque ela estava na primeira fileira, em meio a duas senhoras, no meio da cerimônia, em meio aos olhares e colares, pensando em um meio de cessar aqueles atos indecentes. Foi então que começaram uma oração e ela, sem outra opção, começou a rezar alto, mais fervorosamente do que qualquer pessoa já havia orado diante daquele altar. Por conta disso, os olhares de todos, inclusive os do padre, direcionaram-se a ela. Percebendo a situação, ela continuou, em alto e bom tom, a pronunciar todas as falas que cabiam aos que ficavam de frente para o altar, já sabia todas de memória.
Ao final da cerimônia, após cânticos entusiasmados e orações fervorosas, ela olhou para o padre e ele fez um gesto para que ela se aproximasse. Ela sentiu um frio na espinha, até o ar dentro dos seus pulmões sentiu-se intimidado e acabou ficando por ali mesmo enquanto ela caminhava em direção ao altar. Durante a breve caminhada, observou com um sorriso a moça dos colares retirando-se pela porta lateral.
Quando ela já estava perto o suficiente, ele disse:
— Já na minha segunda celebração não pude deixar de notar tua presença. Não há modo de não ficar admirado com tua devoção às orações e aos cânticos. Tens algum motivo especial a celebrar?
Ela deu mais um passo em direção a ele e respondeu:
— Tenho só um motivo, ficar mais perto do senhor.
Saiu de casa meia hora antes do que de costume e caminhou pelas ruas vazias em direção à praça. As poucas almas vivas que encontrava estavam entre vivas e mortas, acordadas e desmaiadas, resquícios da noite anterior. Era assim toda manhã de domingo, especialmente na época da colheita do café, quando a população da cidade dobrava apenas com os trabalhadores temporários, nômades, a serviço de quem tivesse serviço a oferecer.
Como planejado, chegou a tempo de pegar o melhor lugar, na primeira fila, à margem do altar. Observou atentamente cada movimento do padre enquanto ele preparava-se para subir ao púlpito, estava esperando por este momento desde a semana anterior, mas não se arriscava a dirigir-lhe a palavra. Ela pensava que se ele ao menos a olhasse com atenção, ela nem precisaria falar nada.
Em pouco tempo começaram a chegar outros fiéis, alguns infiéis e outros que nem sabiam muito bem o que estavam fazendo ali. Entre todos, uma lhe chamou a atenção, ela nunca tinha visto aquela moça por ali. Não era muito bela fisicamente, tinha lá um ou outro detalhe a reparar, mas o que mais chamava a atenção era a roupa. Era uma roupa de sábado, parecia imprópria para a missa de domingo, uma saia alguns dedos acima do joelho e uma blusa de alça, com um leve decote, que deixava à mostra as linhas do pescoço adornadas com um belo par de colares, um em tons de madeira e o outro vermelho.
Logo ela deixou de reparar no pescoço e na moça dona do pescoço. Mas então quem reparou na moça foi o padre e, após reparar que ele havia reparado, ela voltou a reparar na moça. Analisou cada detalhe, cada leve defeito, cada pecado que ela havia de ter cometido. E reparava também no padre, nos seus olhares e seus sorrisos. Assemelhavam-se ao olhar e ao sorriso do último domingo, mas ela tinha certeza que se direcionavam ao quinto banco do lado esquerdo da igreja.
A situação foi lhe deixando ansiosa, não sabia como proceder diante de tal afronta. Ainda mais porque ela estava na primeira fileira, em meio a duas senhoras, no meio da cerimônia, em meio aos olhares e colares, pensando em um meio de cessar aqueles atos indecentes. Foi então que começaram uma oração e ela, sem outra opção, começou a rezar alto, mais fervorosamente do que qualquer pessoa já havia orado diante daquele altar. Por conta disso, os olhares de todos, inclusive os do padre, direcionaram-se a ela. Percebendo a situação, ela continuou, em alto e bom tom, a pronunciar todas as falas que cabiam aos que ficavam de frente para o altar, já sabia todas de memória.
Ao final da cerimônia, após cânticos entusiasmados e orações fervorosas, ela olhou para o padre e ele fez um gesto para que ela se aproximasse. Ela sentiu um frio na espinha, até o ar dentro dos seus pulmões sentiu-se intimidado e acabou ficando por ali mesmo enquanto ela caminhava em direção ao altar. Durante a breve caminhada, observou com um sorriso a moça dos colares retirando-se pela porta lateral.
Quando ela já estava perto o suficiente, ele disse:
— Já na minha segunda celebração não pude deixar de notar tua presença. Não há modo de não ficar admirado com tua devoção às orações e aos cânticos. Tens algum motivo especial a celebrar?
Ela deu mais um passo em direção a ele e respondeu:
— Tenho só um motivo, ficar mais perto do senhor.
3 de abril de 2007
Espera
A luz baixa, vinha pelos cantos, escorrendo, como se perdesse força ao se arrastar pelas paredes. Um casal, um grupo de amigos, um trio de amigas e ele sentado sozinho em uma mesa. Colocou o celular e a ficha de consumação em cima da mesa, lhe pareceu que o ambiente permitia estes pequenos descuidos.
Naquele momento iniciou-se uma espera, mas não daquelas esperas desesperadas e desesperadoras, que costumam estar acompanhadas de um trilha de suspense. Esta espera, especificamente, estava acompanhada por um jazz dos mais suaves. E ele pensou na espera, que era uma espera da qual já se sabia mais ou menos o que esperar, uma espera com o tempo a seu favor.
E antes que pudesse pensar no que dizia, como se não fosse ele que estivesse expressando, mas sim a idéia que houvesse escolhido a voz dele como meio para ir ao mundo, ele exclamou bem baixinho:
- Uma espera de esperança!
Naquele momento iniciou-se uma espera, mas não daquelas esperas desesperadas e desesperadoras, que costumam estar acompanhadas de um trilha de suspense. Esta espera, especificamente, estava acompanhada por um jazz dos mais suaves. E ele pensou na espera, que era uma espera da qual já se sabia mais ou menos o que esperar, uma espera com o tempo a seu favor.
E antes que pudesse pensar no que dizia, como se não fosse ele que estivesse expressando, mas sim a idéia que houvesse escolhido a voz dele como meio para ir ao mundo, ele exclamou bem baixinho:
- Uma espera de esperança!
31 de março de 2007
Pouco espontânea
Estava visivelmente desconfortável, com a respiração travada, assim como o sorriso. Na impossibilidade de cobrir o rosto com as mãos parecia cobrir timidamente os dentes com os lábios. As articulações pareciam ter sido reduzidas apenas ao pescoço e à cintura, ainda que ambas tivessem seus movimentos semelhantes aos de engrenagens enferrujadas, indo aos trancos. Além disso, a expressão nos olhos era de quem estava prestes a despencar em um barranco. Mas então, aos trancos e barrancos, ele tirou a foto. E ela finalmente pôde sorrir.
Cheiro de chuva
Em 5 minutos tudo mudou
De laranja para cinza
E todo mundo reclama
O engarrafamento se forma
O dia acaba... mas não para mim
Eu, só o que eu quero é ficar na chuva
De braços abertos e olhos fechados
Sentir como se as gotas estivessem paradas
E eu me chocasse contra elas
Quero sentir esse movimento
Esse momento
E muitos outros
Pequenos potinhos de felicidade
Me concede o prazer desta dança?
De laranja para cinza
E todo mundo reclama
O engarrafamento se forma
O dia acaba... mas não para mim
Eu, só o que eu quero é ficar na chuva
De braços abertos e olhos fechados
Sentir como se as gotas estivessem paradas
E eu me chocasse contra elas
Quero sentir esse movimento
Esse momento
E muitos outros
Pequenos potinhos de felicidade
Me concede o prazer desta dança?
24 de março de 2007
23 de março de 2007
Uma impressão
Por alguns momentos tenho a impressão de que o artista que lida com imagens, desenhos e pinturas tem mais facilidade do que o que lida com as palavras, sentimentos, emoções e reações.
Até porque tenho a impressão de que a imagem você começa copiando para depois fazer seu próprio trabalho. Mas os sentimentos, reações e emoções, você deve primeiro vivê-los para depois ainda traduzí-los em palavras.
Mas no final acaba sendo tudo uma impressão.
Até porque tenho a impressão de que a imagem você começa copiando para depois fazer seu próprio trabalho. Mas os sentimentos, reações e emoções, você deve primeiro vivê-los para depois ainda traduzí-los em palavras.
Mas no final acaba sendo tudo uma impressão.
22 de março de 2007
Muda
Como sempre, ele estava falando sobre as coisas do mundo que ninguém há de entender, muito menos ele mesmo:
- Não é de hoje, mas cada dia piora. Isso me preocupa. Está na televisão, na internet, na faculdade, no papo de boteco, na lotérica ali da esquina. Na televisão, há cada vez mais programas para que resolvam alguma coisa na sua vida, te dar dinheiro, um novo rosto, um novo carro, uma nova casa e até um novo amor. E as pessoas já não sonham mais em conseguir as coisas, pensam que alguém ou algo podia resolver lhes dar.
- Desculpa, não ouvi direito o que você falou.
- Outro problema. Ninguém ouve, ninguém dá bola, ninguém respeita, ninguém cuida de ninguém. Esses dias mesmo eu fui ao hospital e me negaram atendimento porque tinha que ter passado primeiro por um ambulatório que ficava mais longe de casa do que o hospital.
- Não precisa ficar nervoso.
- Claro que não preciso, eu posso simplesmente não me importar. Ou eu posso tentar fazer algo, sei lá, mesmo que seja pouco. Quando eu cheguei em casa, enviei uma sugestão de pauta aos jornais para que façam uma matéria explicativa sobre o funcionamento do hospital. Para que os desavisados dirijam-se ao ambulatório e não diretamente ao hospital.
- E saiu a matéria?
- Não sei. Eu não leio jornal.
- Então que diferença faz?
- Para mim? Nenhuma! Mas deve ter alguém que lê o jornal e que pode ficar doente algum dia e daí vai lembrar de ir ao ambulatório primeiro.
- Então você pode estar salvando uma vida?
- Indiretamente eu posso estar colaborando.
- Parabéns...
- Por que o sarcasmo?
- Você e essas suas idéias utópicas de mudar o mundo.
- Eu disse que talvez eu ajude alguém, não que mudaria o mundo.
- Mudar alguém, algo, o mundo.
- São coisas diferentes.
- Mas a idéia é sempre mudar.
- Para melhor.
- E muda?
- Se você mudar muda.
- Muda o que?
- Primeiro você tem que mudar.
- Mas o que em mim tem que mudar?
- O seu jeito de pensar.
- E depois o que muda?
- A muda.
- A muda?
- A muda muda. Vira árvore, dá flores e frutos.
E por alguns minutos, com um sorriso no rosto e um novo brilho nos olhos, ela ficou muda.
- Não é de hoje, mas cada dia piora. Isso me preocupa. Está na televisão, na internet, na faculdade, no papo de boteco, na lotérica ali da esquina. Na televisão, há cada vez mais programas para que resolvam alguma coisa na sua vida, te dar dinheiro, um novo rosto, um novo carro, uma nova casa e até um novo amor. E as pessoas já não sonham mais em conseguir as coisas, pensam que alguém ou algo podia resolver lhes dar.
- Desculpa, não ouvi direito o que você falou.
- Outro problema. Ninguém ouve, ninguém dá bola, ninguém respeita, ninguém cuida de ninguém. Esses dias mesmo eu fui ao hospital e me negaram atendimento porque tinha que ter passado primeiro por um ambulatório que ficava mais longe de casa do que o hospital.
- Não precisa ficar nervoso.
- Claro que não preciso, eu posso simplesmente não me importar. Ou eu posso tentar fazer algo, sei lá, mesmo que seja pouco. Quando eu cheguei em casa, enviei uma sugestão de pauta aos jornais para que façam uma matéria explicativa sobre o funcionamento do hospital. Para que os desavisados dirijam-se ao ambulatório e não diretamente ao hospital.
- E saiu a matéria?
- Não sei. Eu não leio jornal.
- Então que diferença faz?
- Para mim? Nenhuma! Mas deve ter alguém que lê o jornal e que pode ficar doente algum dia e daí vai lembrar de ir ao ambulatório primeiro.
- Então você pode estar salvando uma vida?
- Indiretamente eu posso estar colaborando.
- Parabéns...
- Por que o sarcasmo?
- Você e essas suas idéias utópicas de mudar o mundo.
- Eu disse que talvez eu ajude alguém, não que mudaria o mundo.
- Mudar alguém, algo, o mundo.
- São coisas diferentes.
- Mas a idéia é sempre mudar.
- Para melhor.
- E muda?
- Se você mudar muda.
- Muda o que?
- Primeiro você tem que mudar.
- Mas o que em mim tem que mudar?
- O seu jeito de pensar.
- E depois o que muda?
- A muda.
- A muda?
- A muda muda. Vira árvore, dá flores e frutos.
E por alguns minutos, com um sorriso no rosto e um novo brilho nos olhos, ela ficou muda.
21 de março de 2007
Nosso espaço
A poesia nunca teve lugar
Não que ela não estivesse ali
Ela estava, mas não se encaixava
O espaço era pequeno
E ela sempre foi exagerada
Até que veio você
E com você veio o nós
E conosco o nosso amor
Que é nosso, não é só meu ou só seu
E, por isso, há espaço de sobra para a poesia
A poesia agora se encaixa
E o que era hipérbole
Virou eufemismo ...
Não que ela não estivesse ali
Ela estava, mas não se encaixava
O espaço era pequeno
E ela sempre foi exagerada
Até que veio você
E com você veio o nós
E conosco o nosso amor
Que é nosso, não é só meu ou só seu
E, por isso, há espaço de sobra para a poesia
A poesia agora se encaixa
E o que era hipérbole
Virou eufemismo ...
20 de março de 2007
Nada em vão
Dias em vão
Dias que vão
E você nem sente
Nem vê passar
Esse dias vão
Nem as memórias ficam
E você nem lembra
Nem sabe o que fez
E de vão em vão
Se faz um buraco
O buraco é fundo
Mas não acabou-se o mundo
Eis que vem a salvação
Um dia especial
Com momentos inesquecíveis
Memoráveis, incomparáveis
Momentos que você sente
Que não quer deixar passar
Uma hora eles vão
Mas as memórias ficam
E depois você lembra
De tudo que fez
E de momento em momento
Chegamos à conclusão
De que nada é em vão
Dias que vão
E você nem sente
Nem vê passar
Esse dias vão
Nem as memórias ficam
E você nem lembra
Nem sabe o que fez
E de vão em vão
Se faz um buraco
O buraco é fundo
Mas não acabou-se o mundo
Eis que vem a salvação
Um dia especial
Com momentos inesquecíveis
Memoráveis, incomparáveis
Momentos que você sente
Que não quer deixar passar
Uma hora eles vão
Mas as memórias ficam
E depois você lembra
De tudo que fez
E de momento em momento
Chegamos à conclusão
De que nada é em vão
24 de janeiro de 2006
O tal ponto de vista
Algumas pessoas dizem que não
Não se deve deitar ao chão
Que não é digna essa posição
Dizem que assim você é visto por cima
Que quem passar não vai te dar a mínima
Ainda assim, é o melhor lugar para ver o céu
Não se deve deitar ao chão
Que não é digna essa posição
Dizem que assim você é visto por cima
Que quem passar não vai te dar a mínima
Ainda assim, é o melhor lugar para ver o céu
23 de janeiro de 2006
Má interpretação
A interpretação equivocada é um grande problema
Confunde-se o substantivo "poder" com o verbo "poder"
E quem não pode, só se f...
Confunde-se o substantivo "poder" com o verbo "poder"
E quem não pode, só se f...
22 de janeiro de 2006
Cansado do tédio
Algumas vezes eu me sinto cansado
De interpretar todos os dias o mesmo papel
Alguns dias eu queria ser o mocinho
Em outros o vilão
Ter meus dias de figurante
E uns dias fora de cena
Outras vezes eu me sinto bravo
Por estar triste
Ou por estar feliz sem motivo
E queria poder resolver tudo
Com um comando simples:
Transtorno bipolar ATIVAR!
De interpretar todos os dias o mesmo papel
Alguns dias eu queria ser o mocinho
Em outros o vilão
Ter meus dias de figurante
E uns dias fora de cena
Outras vezes eu me sinto bravo
Por estar triste
Ou por estar feliz sem motivo
E queria poder resolver tudo
Com um comando simples:
Transtorno bipolar ATIVAR!
21 de janeiro de 2006
Relógio
Andando
De um lado para o outro
Passando
O sol, nascendo e se pondo
Morrendo
Se é que já não está morto
Vivendo
Na solidão de Macondo
Tic Tac
Tic Tac
Tic Tac
Bum!
De um lado para o outro
Passando
O sol, nascendo e se pondo
Morrendo
Se é que já não está morto
Vivendo
Na solidão de Macondo
Tic Tac
Tic Tac
Tic Tac
Bum!
20 de janeiro de 2006
Influência
Atravessou a rua de mãos dadas com os dois, cruzou a praça e já estava no portão do colégio. Primeiro dia na escola nova, na cidade nova... Quer dizer, nova para eles, porque ali já tinha passado muitas vezes a tal da História. Ao deixá-los com a professora, perguntou:
- Que horário devo buscá-los?
- As aulas acabam cinco horas. Mas nós servimos sopa, então seria melhor tu deixares para pegar os guris cinco e meia.
- Eles não gostam de sopa. Venho às cinco horas mesmo.
- Eles não gostavam! - Disse a professora confiante. - Venha cinco e meia. Com todas as outras crianças comendo os guris aprenderão a gostar.
- Tudo bem. Cinco e meia. - Respondeu a mãe desacreditada.
Foram-se as horas, o sol cruzou o céu, a mãe atravessou a rua, cruzou a praça e chegou de novo ao colégio. Chegando lá, os dois já estavam esperando na porta, junto com a professora que os recebeu. A professora se aproximou da mãe e começou a falar:
- Eu queria te pedir um favor.
- Qual?
- Se puderes buscá-los às cinco horas, seria melhor.
- Por quê? Não quiseram sopa? - Perguntou a mãe com um leve tom irônico.
- Não só não quiseram como fizeram tanta cara de nojo, que algumas das outras crianças pararam de comer.
- Que horário devo buscá-los?
- As aulas acabam cinco horas. Mas nós servimos sopa, então seria melhor tu deixares para pegar os guris cinco e meia.
- Eles não gostam de sopa. Venho às cinco horas mesmo.
- Eles não gostavam! - Disse a professora confiante. - Venha cinco e meia. Com todas as outras crianças comendo os guris aprenderão a gostar.
- Tudo bem. Cinco e meia. - Respondeu a mãe desacreditada.
Foram-se as horas, o sol cruzou o céu, a mãe atravessou a rua, cruzou a praça e chegou de novo ao colégio. Chegando lá, os dois já estavam esperando na porta, junto com a professora que os recebeu. A professora se aproximou da mãe e começou a falar:
- Eu queria te pedir um favor.
- Qual?
- Se puderes buscá-los às cinco horas, seria melhor.
- Por quê? Não quiseram sopa? - Perguntou a mãe com um leve tom irônico.
- Não só não quiseram como fizeram tanta cara de nojo, que algumas das outras crianças pararam de comer.
19 de janeiro de 2006
18 de janeiro de 2006
O conto do conto
O conto nasceu assim: o pai dos contos plantava sementes de criatividade e os contos brotavam delas. Quando o conto nasceu, um contou para o outro, o outro contou para outro, este outro para outro, outro e assim foi. O conto veio depois da conta, mas o contador das contas veio bem depois do contador dos contos.
Certo dia o conto começou a ficar bem falado, gente importante começou a escrever sobre ele e, quando foi perceber, já estava estampado por livros, revistas e jornais. Sucesso de público e crítica, o conto fez história. O conto pregava que quem corre atrás consegue. Ele conseguiu, ganhou prêmios e tudo o mais. Estava vivendo um conto de fadas.
Mas o inevitável aconteceu: tudo que sobe tem que descer. O conto começou a se envolver com drogas, sexo e carnificinas. Passava a noite na taverna, envolvia-se em brigas, participava de rituais e organizava orgias de fazer inveja ao marquês dos contos proibidos.
Antigamente, o conto tinha um discurso de moralismo bem próximo das fábulas. Agora, não respeitava mais nada nem ninguém. Tornou-se intolerante e atacava, a golpes de machado, as igrejas, os governos, os santos e as putas. E o problema agravou-se quando o conto se vendeu: passou a defender qualquer causa ou pessoa com intenções duvidosas por apenas alguns contos.
Quando o conto começou a ficar mal falado, qualquer um contava o conto como se fosse um conto qualquer e contavam um conto qualquer como se fosse o conto. Os amigos foram se afastando na mesma medida que a fama ia acabando. Os que ficaram: nos dedos se contava.
E o conto acabou sozinho, quando percebeu que havia caído em um conto: o conto do conto.
Certo dia o conto começou a ficar bem falado, gente importante começou a escrever sobre ele e, quando foi perceber, já estava estampado por livros, revistas e jornais. Sucesso de público e crítica, o conto fez história. O conto pregava que quem corre atrás consegue. Ele conseguiu, ganhou prêmios e tudo o mais. Estava vivendo um conto de fadas.
Mas o inevitável aconteceu: tudo que sobe tem que descer. O conto começou a se envolver com drogas, sexo e carnificinas. Passava a noite na taverna, envolvia-se em brigas, participava de rituais e organizava orgias de fazer inveja ao marquês dos contos proibidos.
Antigamente, o conto tinha um discurso de moralismo bem próximo das fábulas. Agora, não respeitava mais nada nem ninguém. Tornou-se intolerante e atacava, a golpes de machado, as igrejas, os governos, os santos e as putas. E o problema agravou-se quando o conto se vendeu: passou a defender qualquer causa ou pessoa com intenções duvidosas por apenas alguns contos.
Quando o conto começou a ficar mal falado, qualquer um contava o conto como se fosse um conto qualquer e contavam um conto qualquer como se fosse o conto. Os amigos foram se afastando na mesma medida que a fama ia acabando. Os que ficaram: nos dedos se contava.
E o conto acabou sozinho, quando percebeu que havia caído em um conto: o conto do conto.
17 de janeiro de 2006
Pessoas imaginárias
Assim como os números
Elas têm uma parte real
E uma parte imaginária
A parte imaginária
Apesar de simples
É chamada de complexa
Possuem infinitas casas depois da vírgula
Infinitas possibilidades
Não se restringem ao que é mensurável
Previsível
Comum
Indivisíveis
Incomparáveis
Invariavelmente interessantes
Adaptam-se aos reais
Aos naturais
Aos primos, amigos, irmãos
Também criam seus próprios conjuntos
Criam seus mundos
Seus cálculos
E suas respostas
Não seguem muitos padrões
Regras
Tabuadas
Transtornadas
Incorfomadas
Normalmente flexíveis
Pessoas que adicionam
E que multiplicam
Crescem em progressão geométrica
Indescritíveis
E, exatamente por isso,
Eternamente seguidas pelas reticências ...
Elas têm uma parte real
E uma parte imaginária
A parte imaginária
Apesar de simples
É chamada de complexa
Possuem infinitas casas depois da vírgula
Infinitas possibilidades
Não se restringem ao que é mensurável
Previsível
Comum
Indivisíveis
Incomparáveis
Invariavelmente interessantes
Adaptam-se aos reais
Aos naturais
Aos primos, amigos, irmãos
Também criam seus próprios conjuntos
Criam seus mundos
Seus cálculos
E suas respostas
Não seguem muitos padrões
Regras
Tabuadas
Transtornadas
Incorfomadas
Normalmente flexíveis
Pessoas que adicionam
E que multiplicam
Crescem em progressão geométrica
Indescritíveis
E, exatamente por isso,
Eternamente seguidas pelas reticências ...
16 de janeiro de 2006
Meio cansado
Incomoda discutir porque tudo já foi falado
E é tudo óbvio
É tudo boçal e pedante
E, principalmente, não tem mesinha de metal dobrável nem cerveja
E é tudo óbvio
É tudo boçal e pedante
E, principalmente, não tem mesinha de metal dobrável nem cerveja
15 de janeiro de 2006
14 de janeiro de 2006
Ironia
Queria comprovar o quanto cada pessoa é insignificante. Resolveu, aleatoriamente, atear fogo ao próprio.
Morreu.
Foi martirizado e virou herói. Comprovou a incoerência.
Morreu.
Foi martirizado e virou herói. Comprovou a incoerência.
13 de janeiro de 2006
Conceitos
Perfeito significa "feito com começo e fim"
Infinitos finais e infinitos começos
Infinitas chances de se tornar algo melhor
E infinitas chances de se tornar algo pior
Somos todos perfeitos
Infinitos finais e infinitos começos
Infinitas chances de se tornar algo melhor
E infinitas chances de se tornar algo pior
Somos todos perfeitos
12 de janeiro de 2006
Revendo
Amar é gostar muito, querer passar muitos momentos juntos, não tem prazo de validade nem contra-indicações.
Simples assim.
Simples assim.
11 de janeiro de 2006
Evolução dos meios
No início, caçavam, coletavam e viviam em bandos.
Depois, aprenderam a plantar e a colher. Começaram a ver que podiam domesticar e alimentar os animais. Descobriram que plantando mais podiam alimentar e criar mais animais. Surgiu o excesso e com ele veio o comércio.
Descobriram então que podiam domesticar e alimentar as outras pessoas e que essas pessoas podiam produzir os alimentos e cuidar dos animais.
E assim foi.
Depois, aprenderam a plantar e a colher. Começaram a ver que podiam domesticar e alimentar os animais. Descobriram que plantando mais podiam alimentar e criar mais animais. Surgiu o excesso e com ele veio o comércio.
Descobriram então que podiam domesticar e alimentar as outras pessoas e que essas pessoas podiam produzir os alimentos e cuidar dos animais.
E assim foi.
10 de janeiro de 2006
Má notícia
- Minha filha, sente-se aqui. Tenho que contar uma coisa.
A garota sentou, de olhos bem abertos e boca entreaberta. Já imaginando o que estava por vir.
- Você lembra que há algum tempo eu falei sobre alguém que estava muito doente?
A menina, agora um pouco mais triste, fez sinal de positivo com a cabeça.
- Ele faleceu hoje pela manhã, enquanto você estava na escola.
A garota não conseguiu conter algumas lágrimas, a mãe a abraçou e continuou falando:
- Essas coisas acontecem. Foi melhor assim. Ele estava velho, sofrendo e já tinha perdido mais da metade da visão.
- Mas eu gostava dele! - Exclamou a garota indignada.
- Todos nós o amávamos, mas não havia nada que pudéssemos fazer.
- E onde ele está agora? Eu quero ver ele.
- Achamos melhor que você não o visse daquele jeito, é melhor que guarde lembranças dele vivo e feliz.
- Mas o que fizeram com ele?
- O papai o embrulhou em um cobertor velho e enterrou na beirada do lago, perto daquela árvore que ele tanto gostava.
- Aquela que a gente sempre ia?
- Sim, aquela que se enche de flores roxas na primavera, bem ao lado de onde costumávamos ir pescar.
- Então ele deve estar feliz.
- Provavelmente. Mas por que você diz isso? - Disse a mãe, um pouco surpresa com a frase da filha.
- Ele me contou que foi lá que ele conheceu a vovó.
A mãe ficou sem palavras. Neste momento, o avô entrou na sala:
- Minha netinha querida, não chore! O vovô compra outro gatinho para você.
A garota começou a soluçar de tanto chorar.
A garota sentou, de olhos bem abertos e boca entreaberta. Já imaginando o que estava por vir.
- Você lembra que há algum tempo eu falei sobre alguém que estava muito doente?
A menina, agora um pouco mais triste, fez sinal de positivo com a cabeça.
- Ele faleceu hoje pela manhã, enquanto você estava na escola.
A garota não conseguiu conter algumas lágrimas, a mãe a abraçou e continuou falando:
- Essas coisas acontecem. Foi melhor assim. Ele estava velho, sofrendo e já tinha perdido mais da metade da visão.
- Mas eu gostava dele! - Exclamou a garota indignada.
- Todos nós o amávamos, mas não havia nada que pudéssemos fazer.
- E onde ele está agora? Eu quero ver ele.
- Achamos melhor que você não o visse daquele jeito, é melhor que guarde lembranças dele vivo e feliz.
- Mas o que fizeram com ele?
- O papai o embrulhou em um cobertor velho e enterrou na beirada do lago, perto daquela árvore que ele tanto gostava.
- Aquela que a gente sempre ia?
- Sim, aquela que se enche de flores roxas na primavera, bem ao lado de onde costumávamos ir pescar.
- Então ele deve estar feliz.
- Provavelmente. Mas por que você diz isso? - Disse a mãe, um pouco surpresa com a frase da filha.
- Ele me contou que foi lá que ele conheceu a vovó.
A mãe ficou sem palavras. Neste momento, o avô entrou na sala:
- Minha netinha querida, não chore! O vovô compra outro gatinho para você.
A garota começou a soluçar de tanto chorar.
9 de janeiro de 2006
Experiência interessante
Eu aqui escrevendo
E nós dividindo o momento
Eu no que agora é passado
E você aí, no presente
E nós dividindo o momento
Eu no que agora é passado
E você aí, no presente
8 de janeiro de 2006
7 de janeiro de 2006
Traumas da insônia
Uma tia veio de longe para nos visitar. Na época morávamos em um apartamento bem no centro, era um apartamento pequeno, um quarto, uma suíte e não consigo nem me lembrar dos outros cômodos. A tia ia dormir na sala, já que não havia outro espaço que pudesse ser destinado aos hóspedes.
No meio da noite acordei e, com toda a coragem que eu tinha aos meus três anos de idade, fui sozinho pelo corredor com a intenção de chegar à cozinha para beber um copo de água. Nunca cheguei até a cozinha. Voltei correndo para o quarto, me cobri bem e fiz um esforço sobre-humano para não dormir.
No dia seguinte surpreendi minha mãe com a seguinte pergunta:
- Mãe, tem gente que quando dorme vira monstro?
Minha mãe riu. Minha tia roncava.
No meio da noite acordei e, com toda a coragem que eu tinha aos meus três anos de idade, fui sozinho pelo corredor com a intenção de chegar à cozinha para beber um copo de água. Nunca cheguei até a cozinha. Voltei correndo para o quarto, me cobri bem e fiz um esforço sobre-humano para não dormir.
No dia seguinte surpreendi minha mãe com a seguinte pergunta:
- Mãe, tem gente que quando dorme vira monstro?
Minha mãe riu. Minha tia roncava.
6 de janeiro de 2006
Ecologia humana
Somos mais irracionais do que o quanto nossa razão costuma nos fazer acreditar que somos.
5 de janeiro de 2006
Funcionou
- Eu vim até aqui, cruzei toda a festa, larguei meus amigos e provavelmente não vou encontrá-los novamente. Por que vim? Para te falar um oi e para me expor ao mundo como o sujeito ridículo que eu sou para depois perguntar seu nome e telefone, dependendo da reação ao oi e ao que viesse depois.
- Ahn?
- Sabia que você não era tudo aquilo que eu esperava... Adeus!
- Ahn?
- Sabia que você não era tudo aquilo que eu esperava... Adeus!
4 de janeiro de 2006
3 de janeiro de 2006
2 de janeiro de 2006
1 de janeiro de 2006
É assim
Você pode ajudar,
mas não pode resolver
Pode até colaborar,
mas não dá pra fazer
Pode divagar,
mas não consegue concluir
mas não pode resolver
Pode até colaborar,
mas não dá pra fazer
Pode divagar,
mas não consegue concluir
7 de janeiro de 2005
Um dia é da pesca
O garoto foi pescar com o pai, adorava esse tipo de programa. Ele e o pai juntos, viagem até o rio, aquela sensação de acampar — mesmo estando hospedado em um bom hotel — e pescar. Só tinha uma coisa que o incomodava: limpar os peixes. Ele não conseguia enfiar uma faca nos pobres peixes e arrancar-lhes as tripas com as próprias mãos.
Ele e o pai passaram o dia pescando no barranco, cada qual com seu baldinho. Os baldinhos encheram-se, as horas também e o pai começou a limpar os peixes que pegou. Enfiava a faca, colocava no rio e tirava as tripas. Enfiava a faca, colocava no rio e tirava as tripas.
O filho já estava enjoado e o pai, volta e meia, ainda falava:
— Olha, esse aqui tem ova! — E levantava as mãos exibindo algo não identificável e bem sujo de sangue.
Ao terminar de limpar o balde todo, o pai virou-se para o filho e perguntou:
— Não vai limpar os seus?
— Ah. Já limpo. Empresta a faca?
O pai deixou a faca e foi andando na direção do hotel.
Agora era só ele e os peixes. Olhou para o balde, faca na mão, suor na testa, olhos de peixe e mãos tremendo. Olhos nos peixes, mão no balde, suor na testa e hesitou. Não conseguiu pegar nenhum. Ficou apenas pensando na crueldade que era fazer aquilo com os animais.
Pensou mais um pouco e decidiu que ia soltá-los, todos. Decidido, foi até o balde e pegou o primeiro peixe na mão. O peixe se debateu, pulou contra seu rosto, fazendo-o gritar, escorregou entre suas mãos e foi para o chão.
Ao lado, dois moleques, que acabavam de chegar, riam da cena e o imitavam em gestos e no grito.
O garoto não teve dúvida, olhou bem nos olhos dos moleques e enfiou a faca. Depois colocou no rio, tirou as tripas e repetiu o processo até esvaziar o balde. Sem culpa ou remorso. Afinal, era ele ou eles.
Ele e o pai passaram o dia pescando no barranco, cada qual com seu baldinho. Os baldinhos encheram-se, as horas também e o pai começou a limpar os peixes que pegou. Enfiava a faca, colocava no rio e tirava as tripas. Enfiava a faca, colocava no rio e tirava as tripas.
O filho já estava enjoado e o pai, volta e meia, ainda falava:
— Olha, esse aqui tem ova! — E levantava as mãos exibindo algo não identificável e bem sujo de sangue.
Ao terminar de limpar o balde todo, o pai virou-se para o filho e perguntou:
— Não vai limpar os seus?
— Ah. Já limpo. Empresta a faca?
O pai deixou a faca e foi andando na direção do hotel.
Agora era só ele e os peixes. Olhou para o balde, faca na mão, suor na testa, olhos de peixe e mãos tremendo. Olhos nos peixes, mão no balde, suor na testa e hesitou. Não conseguiu pegar nenhum. Ficou apenas pensando na crueldade que era fazer aquilo com os animais.
Pensou mais um pouco e decidiu que ia soltá-los, todos. Decidido, foi até o balde e pegou o primeiro peixe na mão. O peixe se debateu, pulou contra seu rosto, fazendo-o gritar, escorregou entre suas mãos e foi para o chão.
Ao lado, dois moleques, que acabavam de chegar, riam da cena e o imitavam em gestos e no grito.
O garoto não teve dúvida, olhou bem nos olhos dos moleques e enfiou a faca. Depois colocou no rio, tirou as tripas e repetiu o processo até esvaziar o balde. Sem culpa ou remorso. Afinal, era ele ou eles.
6 de janeiro de 2005
5 de janeiro de 2005
Sentido
Ele achava que não fazia diferença e que não tinha porque existir
Aua vida não tinha nenhum sentido e nenhuma direção
Até que leu a seguinte frase "O que você faz em vida ecoa pela eterninade"
Merda!
Merda!
Merda
Aua vida não tinha nenhum sentido e nenhuma direção
Até que leu a seguinte frase "O que você faz em vida ecoa pela eterninade"
Merda!
Merda!
Merda
4 de janeiro de 2005
O começo
Tinha tudo para ser uma noite tranquila até ele se deparar com aquela garota. Ela usando meia listrada colorida, all star, uma camiseta de uma banda dessas que ninguém sabe o nome e óculos. Para completar o visual, arrumava o cabelo para parecer desarrumado.
Estavam na mesma festa, mas não juntos. para falar a verdade nem se conheciam. Pelo menos ela não o conhecia. Se dependesse dele já teriam se conhecido há um bom tempo, aquele rosto já era inconfundível, já tinha reparado até na estranheza do modo como ela segurava o cigarro. Frequentavam alguns lugares em comum, a cidade não é tão grande, as opções não são muitas, acabavam se cruzando.
Tímido, ele a observava. Ela nem dava bola, continuava dando tragadas, mexendo no cabelo, batendo papos e olhando em volta.
Ele continuava ali, parado, observando. Ficava pensando em fazer algo, no que devia fazer, no que devia falar, se devia falar e no que ela responderia. Ele pensou, pensou melhor e decidiu que ia falar com ela. Sempre acreditou que não podia perder oportunidades de conhecer gente interessante.
Caminhou na direção dela, um tanto quanto tenso. Ele se aproximou, ela virou-se e, então, ele disse:
- Prazer, eu sou ninguém.
Estavam na mesma festa, mas não juntos. para falar a verdade nem se conheciam. Pelo menos ela não o conhecia. Se dependesse dele já teriam se conhecido há um bom tempo, aquele rosto já era inconfundível, já tinha reparado até na estranheza do modo como ela segurava o cigarro. Frequentavam alguns lugares em comum, a cidade não é tão grande, as opções não são muitas, acabavam se cruzando.
Tímido, ele a observava. Ela nem dava bola, continuava dando tragadas, mexendo no cabelo, batendo papos e olhando em volta.
Ele continuava ali, parado, observando. Ficava pensando em fazer algo, no que devia fazer, no que devia falar, se devia falar e no que ela responderia. Ele pensou, pensou melhor e decidiu que ia falar com ela. Sempre acreditou que não podia perder oportunidades de conhecer gente interessante.
Caminhou na direção dela, um tanto quanto tenso. Ele se aproximou, ela virou-se e, então, ele disse:
- Prazer, eu sou ninguém.
3 de janeiro de 2005
2 de janeiro de 2005
1 de janeiro de 2005
Eterna dúvida
- Mas, vale mesmo a pena ?
- Você só vai saber se tentar...
- Vou ?
- É... Quem sabe, é provável
- Provável? Então não é certeza?
- Nada é certeza
- Então porque você disse que eu saberia ?
- Ah, você sabe. É essa época que nos faz tender ao otimismo
- É... sei
- Odeio o ano novo
- Eu também! Malditas resoluções e ilusões
- Você só vai saber se tentar...
- Vou ?
- É... Quem sabe, é provável
- Provável? Então não é certeza?
- Nada é certeza
- Então porque você disse que eu saberia ?
- Ah, você sabe. É essa época que nos faz tender ao otimismo
- É... sei
- Odeio o ano novo
- Eu também! Malditas resoluções e ilusões
15 de janeiro de 2004
14 de janeiro de 2004
13 de janeiro de 2004
12 de janeiro de 2004
raciocínio
nunca fui muito bom em decifrar meias palavras
sempre deixava espaços em branco nas palavras cruzadas
sempre deixava espaços em branco nas palavras cruzadas
11 de janeiro de 2004
baixa estima
quase todo dia ele recebia dezenas de cartas
cartas de amor e cartas de amizade
umas palavras de carinho e outras de cumplicidade
mesmo assim ele era desconfiado
e achava que com ele ninguém se importava
afinal, não sabia ler
cartas de amor e cartas de amizade
umas palavras de carinho e outras de cumplicidade
mesmo assim ele era desconfiado
e achava que com ele ninguém se importava
afinal, não sabia ler
10 de janeiro de 2004
lógica
nada justifica
não tem desculpa
a consciência predomina
a lógica não mente:
os fins concluem os meios
não tem desculpa
a consciência predomina
a lógica não mente:
os fins concluem os meios
9 de janeiro de 2004
8 de janeiro de 2004
grades
olhei para a frente e me vi de cara com grades
eram grades sólidas e tão altas que nenhum homem sonharia em passar por cima
então, dei um passo para o lado e segui em frente
eram grades sólidas e tão altas que nenhum homem sonharia em passar por cima
então, dei um passo para o lado e segui em frente
7 de janeiro de 2004
o tempo
quando pensar que o tempo está passando rápido
lembre-se que é você que está ficando pra trás
lembre-se que é você que está ficando pra trás
6 de janeiro de 2004
caminho livre
viu seu caminho ser tomado por obstáculos
se concentrou apenas em seus desafios
um por um, passou pelos obstáculos
quando finalmente viu o caminho livre a sua frente
percebeu que seu destino havia ficado pra trás
se concentrou apenas em seus desafios
um por um, passou pelos obstáculos
quando finalmente viu o caminho livre a sua frente
percebeu que seu destino havia ficado pra trás
5 de janeiro de 2004
4 de janeiro de 2004
e agora nem adianta procurar
eu estava com uma palavra
na ponta da língua
mas tão na ponta,
tão na ponta
que caiu
na ponta da língua
mas tão na ponta,
tão na ponta
que caiu
-
Os donos do mundo sabem que o petróleo derivou-se de animais e vegetação soterrados Pensando no futuro, matam, desmatam e encobrem
-
Pela primeira vez em trinta anos, ela olhou fundo, bem nos olhos do marido: - Você que falou para o menino não se amiudar? Ele ficou surpres...
-
A lenda, o mito No entanto Por trás das cortinas do palco Do lado de lá da tela Havia um ser corroído Inacabado e desiludido Além do mito