11 de março de 2009

Manhosa

Vem toda cheia de mimimi
transbordando de artimanhas amorosas

Quando a encho de beijinhos
em um suspiro, esvazia

10 de março de 2009

Correspondente de guerra

Após algum tempo
sem o estalar de tiros
ou a covardia dos assaltos

Pergunto-me curioso
nesta zona de guerra
se, ao menos um pouco
a mídia não exagera

8 de março de 2009

Seleção natural

Entrou na sala, ajeitou-se na cadeira e entregou um questionário que abordava os seguintes temas: qual foi a última pessoa que ocupou o cargo, ultimo salário, motivo da saída, quais outras experiências a empresa tinha na formação de profissionais, quanto pretendia oferecer de salário, se envolvia-se em algum projeto social, cultural ou ambiental, etc.

Permaneceu revirando alguns papéis sobre a mesa enquanto a gerente de recursos humanos respondia ao questionário.

Após o preenchimento, pediu a ela que explicasse um pouco melhor sobre a empresa. Pouco convencido de que o trabalho valeria a pena, avisou sobre as etapas seguintes, uma avaliação de responsabilidade social e uma dinâmica de empresas, e disse que entraria em contato assim que tivesse uma resposta.

7 de março de 2009

Dedicatória

Alegrou-se com a notícia de que o livro seria dedicado a ela. Caminhou até a livraria com passos e um sorriso dignos de uma musa imortal, inesquecível.

Ao abrir na primeira página, leu: "Em memória de..."

O livreiro recolheu o corpo.







2007 - XVII Concurso de Contos Luiz Vilela - Fundação Cultural de Ituiutaba - MG;
Publicado na coletânea do concurso

6 de março de 2009

Visita indesejada

Na casa da ansiedade

Mesmo após o café
o cigarro
e o pacote de biscoito

As horas resolvem ficar mais um pouco

5 de março de 2009

Caçada

Diante do formulário de ocorrência, no local reservado ao estado civil, escreveu com letras garrafais: caçada.

De início, acharam que fosse um erro. Ao verem as marcas, perceberam que o erro era suplício.

4 de março de 2009

Vozes

Cansadas de ouvir, acostumadas pela vida a serem ignoradas

Sorriem sinceramente quando lhes é dada oportunidade de não calar

3 de março de 2009

Salto

Na primeira vez que vi os salmões atirando-se contra pedras e caindo nas garras de ursos, acreditei que estavam cometendo suicídio. Na época, explicaram-me que eles voltavam todo ano ao lugar em que nasceram, para procriarem. Também disseram que, para chegar, precisavam subir o rio, nadar contra a correnteza e enfrentar todos os perigos.

Atualmente, como o maior perigo tornou-se a água, corrosiva, os salmões, implorando por uma morte rápida, saltam mirando a boca dos ursos.

28 de fevereiro de 2009

Democrático

Dou filé para quem mastiga
e purê para quem engole

Só não escrevo para quem tem preguiça de pensar

27 de fevereiro de 2009

Instável

Nos bairros ricos, os morros sorriem, com seus dentes de concreto, sustentando os lábios para que não beijem os prédios.

Nos pobres, os morros choram, rios de lágrimas, levando tudo que encontram pelo caminho.

26 de fevereiro de 2009

Acasalamento

Na época do acasalamento, os machos enfeitam-se e emitem melodias repetitivas em alto volume, com a intenção de impressionar e atrair as fêmeas.

Devido à elevação na quantidade de hormônios, ficam também mais agressivos. Sendo assim, se outro macho estacionar ao lado, com o som mais alto, acabam por duelar, em alguns casos, até a morte.

25 de fevereiro de 2009

Impunes

Os direitos de um indivíduo costumavam ir até os direitos de outros indivíduos.

No trânsito, as coisas mudaram. Os direitos dos indivíduos vão, no máximo, até o meio-fio.

Uma vez na rua, reina a lei dos automóveis, implacáveis, que passam por cima dos que ousam ferir o seu sagrado direito de ir e vir.

24 de fevereiro de 2009

Engasgue

Colecionava rancores. Vivia guardando-os numa caixa, escondidos debaixo da cama. Com o tempo, a caixa ficou pequena, os rancores espalharam-se pelo chão e ele teve que começar a se desfazer de outras coisas, menos importantes, para abrir espaço.

A situação ainda era suportável quando decidiu levar para casa os desaforos. Em pouco tempo a casa ficou tomada de rancores e desaforos. Não se abria uma porta ou gaveta sem dar de cara com alguns. Inevitavelmente, acabou ficando só. Não se importou muito, afinal, da separação sobraram um bocado de espaço e alguns itens para a coleção.

Ao final de seus dias, não conseguia mais sair de casa, a porta estava bloqueada. Morreu sufocado, com tudo aquilo que não disse.

23 de fevereiro de 2009

Revés

Idealista, queria dar oportunidade a todos

Esquecendo-se de si próprio, deu chance ao azar

22 de fevereiro de 2009

Don Quixote 2

Em meio ao calor sobrehumano, ao cair das primeiras gotas, fecha os olhos, abre os braços e sente que alguém lá de cima, uma vez na vida, atendeu os seus anseios.

Lá de cima, observando a cena, o empresário ordena à secretária que chame o técnico, para consertar logo o vazamento do ar.

21 de fevereiro de 2009

Don Quixote

Após uma jornada cansativa, de duras batalhas, voltando ao seu lar, vê as damas nas janelas dos castelos, acenando com seus lenços. Diante daquela cena, sente-se realizado e sorri.

As moças debruçadas nas janelas, estendendo roupas no varal, sorriem de volta.

20 de fevereiro de 2009

Guerra dos quatro dias

Os tambores convocam para a batalha. Na linha de frente, seguem os soldados mais bem treinados. Em veículos bem equipados, os mais experientes comandam a invasão, os avanços e as retiradas.

Ao final da guerra, os vencedores desfilam. Os vencidos sambam.

19 de fevereiro de 2009

Pares

Andam em meio a milhares de outros, todos tão sós, isolados. Remoem a solidão enquanto percorrem o chão da cidade. Nunca se trombam e dificilmente se cruzam, sentem medo dos outros. Exibem este medo enquanto percorrem todos os detalhes e desviam apenas de seus pares.

Embora pareçam tão inertes, quando se encontram ao acaso, os olhares, excitados, resolvem provocar os sorrisos.

18 de fevereiro de 2009

Minimalismo

Tela sobre papelão, de José e esposa
Lona sobre cabos de vassoura, de Aparecida e filhos
Jornal sobre calçada, de Maria e filha

Muito pouco sobre quase nada
A dura arte de sobreviver

17 de fevereiro de 2009

Toca do coelho

Alucinado, cercado por sorrisos falsos, acreditou que estava entrando na toca do coelho

Descobriu tarde demais que se tratava de um ninho de cobras

16 de fevereiro de 2009

Direitos

Não importava o local em que parasse, sempre acabava acossado e expulso

Sem ter onde ficar, ir e vir tornou-se obrigação

15 de fevereiro de 2009

Ordem mundial

Nos bastidores do poder, a cada dia é estabelecida uma nova ordem

Alguns dão a ordem

A maioria apenas abaixa a cabeça e obedece

14 de fevereiro de 2009

Consumismo desenfreado

Após um século de consumo excessivo, notaram que o consumismo não se tratava da capacidade delas de consumir produtos.

Perceberam tardiamente, quando os estoques já estavam escassos, que se tratava da capacidade das empresas de consumi-las.

13 de fevereiro de 2009

Exemplo

No Japão feudal, os homens que perdiam a honra eram condenados pela sociedade e executavam a própria pena

No Brasil atual, os desonrados nem ao menos sentem pena da sociedade que condenam

12 de fevereiro de 2009

Poesia oca

Escrevia, com rimas e floreios, sobre os próprios sentimentos

Transcrevia emoções com perfeição

Infelizmente, na maioria das vezes, sentia-se vazio

11 de fevereiro de 2009

Má companhia

Não tem olhos nem ouvidos, mas possui uma língua muito afiada

Mesmo sem ver ou ouvir nada, tira conclusões precipitadas e espalha acusações caluniosas

Quando percebi que via apenas os espinhos nas rosas, abandonei a Paranóia

10 de fevereiro de 2009

Testemunha

Às vezes, fecho os olhos

Sobretudo para não ver
tudo que os outros não querem
nem ouvir falar sobre

9 de fevereiro de 2009

Destino

Separou o dinheiro, fez o sinal e, após a parada total, subiu as escadas. Antes do ônibus partir, perguntou ao condutor:

- Esse ônibus vai para onde?

- Vai para onde você está indo.

Na hora, não soube dizer se ele estava sendo irônico. Ainda assim, seguiu viagem.

8 de fevereiro de 2009

6 de fevereiro de 2009

Distinto

O vento começa a soprar mais forte e as árvores balançam desesperadas, incapazes de fugir do temporal. Os pássaros escondem-se rapidamente enquanto os carros, também apressados, enfileiram-se pelas ruas, buzinando, desesperados como as árvores.

Enquanto isso, dentro de casa, ela repara de longe naquele sorriso e ouve o que já pressentia:

- Mãe, posso tomar banho de chuva?

5 de fevereiro de 2009

Terapia de casal

Puxou-a pelos cabelos e acertou um gancho em seu queixo. Ela não deixou barato, acertou um chute no rosto e mais alguns socos.

Brigaram e se xingaram até cairem ao chão em frente ao sofá. Abraçados, rolando pelo tapete, entrelaçaram-se nos cabos do videogame.

4 de fevereiro de 2009

Sufocada

Presa naquela relação, rotina de brigas e discussões, começou a sentir-se sufocada. Não tinha voz e, por mais que resistisse, acabou sem ação.

Ironicamente, ela adorava sentir o cheiro dele naquele travesseiro.

3 de fevereiro de 2009

Colecionando

A cada dúvida ou problema
parava, pensava e agia

Respostas,
não tinha uma sequer

No entanto,
colecionava hipóteses

e possíveis soluções

2 de fevereiro de 2009

1 de fevereiro de 2009

Anexo

Às vezes, a alma ferida se contrai

E o corpo, puxado por ela, encolhe-se em um canto

31 de janeiro de 2009

Deficiente

Ao sair do carro andando apressado, após estacionar na vaga exclusiva, foi abordado por um sujeito que lhe avisou:

- Não sei se o senhor sabe, mas esta vaga não é destinada a quem possui apenas deficiência de caráter.

Ao ouvir isso, deixou cair ao chão toda a hipocrisia que vinha carregando e, percebendo-se pela primeira vez através dos olhos com que julgava os outros, condenou-se à vergonha.

30 de janeiro de 2009

Sem senso

Embriagado por elogios falsos, acreditava-se um difusor de ironia destilada


Talvez por ser tão inteligente e sutil
Quanto um bêbado chegando em casa, tropeçando na própria calça

29 de janeiro de 2009

Pânico

Correram para dentro de casa enquanto o portão batia aos fundos. Em seguida, percorreram todos os cantos trancando portas e janelas, cobrindo toda e qualquer fresta.

Quando enfim sentiram-se seguros, sentaram-se no sofá da sala e ligaram a televisão. Erro fatal, foi aí que a crise entrou.

27 de janeiro de 2009

26 de janeiro de 2009

Rascunho

Circulando e chacoalhando
com traço virando rabisco

Percebeu de forma tardia

no ônibus não sai poesia

25 de janeiro de 2009

24 de janeiro de 2009

Estética do lixo

Solto com delicadeza
como se fosse invisível

Ninguém repara na sutileza

do lixo jogado ao chão

23 de janeiro de 2009

Colateral

Bebeu para afogar as mágoas

As mágoas, sem outra opção, fugiram para o ponto mais alto

No dia seguinte, ao acordar, sentiu a cabeça prestes a explodir

22 de janeiro de 2009

Queda de braço

Seguramos as mãos e eu puxei para o meu lado com todas as forças

Após muito esforço, sem sucesso, desisti. Assistimos a comédia romântica

21 de janeiro de 2009

Levado

Plenamente satisfeito, ele usava as mãos para brincar com o que havia sobrado

Ela, esgotada, reclamava:

- Para! Tá sensível...

20 de janeiro de 2009

19 de janeiro de 2009

17 de janeiro de 2009

Pai

Ao vê-la montada naquele cisne, autocoroando-se rainha do lago, esqueceu a discussão pelo preço do pedalinho.

16 de janeiro de 2009

Vigilante

Na Lagoa, a garotinha olhou bem para o Cristo e, percebendo-se fora do alcance, aproveitou para jogar lixo ao chão.

O pai dela, atento, logo avisou:

- Ele tem olhos até na nuca!

14 de janeiro de 2009

Herói

Cansado de ver os livros de história tomados por reis e papas, nobres e distintos saqueadores, fez história com as próprias mãos.

11 de janeiro de 2009

Relativo

Quando estava indo ao encontro dela, o relógio andava aos trancos, com muito esforço, como se pequenos demônios estivessem pendurados no ponteiro dos minutos.

Na hora de partir, os pequenos malditos mudaram de lado.

9 de janeiro de 2009

7 de janeiro de 2009

Alheio

Desde que nasceu, perceberam que era uma criança diferente. Com o tempo, tornou-se mais e mais perceptível, até o ponto em que os pais não conseguiam mais esconder dos familiares e amigos.

Já em idade adulta, não tinha nenhuma noção de tempo, dinheiro e, muito menos, da sociedade em sua volta. Foi então que apareceu um médico com uma cura milagrosa. Os pais, que há muito haviam perdido as esperanças, animaram-se. Após alguns meses de tratamento, aulas e treinamento, ele pôde escrever em um pedaço de papel: "Parem! Estou piorando."

6 de janeiro de 2009

Desencanto

Ao final daquele discurso, o mesmo de sempre, eu disse:

- Não me livre de seus medos.

Custou a entender. Mas, após um breve silêncio, quando voltou atrás, eu é que não queria aquela insegurança.

5 de janeiro de 2009

Ídolos

Jesus era ouvido por centenas de pessoas

Maomé foi seguido por milhares rumo a Meca

Martin Luther King reuniu duzentas mil pessoas contra o racismo

Ashton Kutcher criou uma conta no twitter e já tem mais de um milhão de seguidores

4 de janeiro de 2009

Reconhecimento

A qualquer lugar que fosse, era recebido de maneira diferente. As pessoas geralmente o viam de relance e tornavam a olhar. Evitavam encarar e, principalmente, evitavam que ele percebesse que estava sendo observado.

Geralmente era servido de um bom prato de comida e recebia alguns trocados, contanto que não ficasse muito tempo perambulando pela frente do estabelecimento. Diziam que espantava a freguesia.

3 de janeiro de 2009

2 de janeiro de 2009

Pássaros

A maioria dos pássaros, acomodados, deixam-se levar e vão para onde o vento soprar

Enquanto o beija-flor, esforçado, bate asas contra a corrente e vai onde quer ir

1 de janeiro de 2009

Miró

O ponto azul, apressado, fugiu deixando um rastro preto e desviando de figuras disformes

O ponto vermelho, surpreso e estático, avisou:

- Você pode correr, mas nunca vai conseguir se esconder nesta tela branca!

31 de dezembro de 2008

Últimas palavras

Em um último esforço, concentrando-se, fixou o olhar em cada um dos pares de olhos piedosos que o cercavam e que, um a um, se desviaram. Antes de tornar-se incomunicável, balbuciou:

- Eu não preciso das drogas. Elas é que precisam de mim... para expor ao mundo seus efeitos.

30 de dezembro de 2008

Enquadramento

Neste mundo de pessoas de visão
Bem informadas e moldadas

Amplia-se os horizontes
De polegada em polegada

29 de dezembro de 2008

Madalênico II

E tem gente que diz
Que tem pena das putas

Eu tenho pena é dos pobres putos
Que precisam de psicólogas
Esposas ou companheiras
E só as encontram nas ruas

A preço de ouro e prata
Ou, quem sabe
Dependendo do movimento
Um papo cortês e um anel de lata

28 de dezembro de 2008

Madalênico

Nos encontrávamos no mínimo duas vezes por semana

Ele, cidadão exemplar, ao final de cada encontro, dizendo-se encantado, me entregava uma lembrança que ele dizia não representar um décimo do que sentia por mim

Eu, como de praxe, aceitava o agrado, de bom grado, e partia para outro quarto, outro velho - ou garoto - babão e solitário

27 de dezembro de 2008

Louva-deus

Na aula de biologia, a professora explicou sobre o acasalamento muito peculiar de um inseto. Detalhou o processo no qual a fêmea devora a cabeça do macho ainda antes de copular e depois devora, aos poucos, o resto do corpo.

No final de semana seguinte, durante as horas que tinham para ficar juntos, em meio às frequentes reclamações do pai, ele perguntou:

- Papai, você acredita muito em Deus?

25 de dezembro de 2008

Decadente

Naquela noite, uma estrela cortou o céu a caminho da precária maternidade.

Horas depois, em entrevista aos jornais, o comandante garantiu que tratava-se de um esconderijo dos rebeldes.

19 de dezembro de 2008

Ao pé das letras

E aquele poeta, coração mole, apaixonava-se a cada instante, a cada página virada

Mesmo sabendo que se tratavam de amores platônicos, fazia de tudo para servir as suas musas. Submisso, vivia sempre aos seus rodapés

18 de dezembro de 2008

Flores sem cores

As borboletas costumavam disfarçar-se de flores para escapar dos pássaros

Na falta de flores, cercadas por asfalto e concreto, até as borboletas ficaram cinza

17 de dezembro de 2008

Somando

Neste mundo de tantas raças
Tantas classes
E tantas crenças

É preciso lutar pela igualdade
Para fazer a diferença

16 de dezembro de 2008

15 de dezembro de 2008

Revoada

Sempre nesta mesma época, no final de ano, com o fechamento das filiais, o dinheiro, que vem para cá se reproduzir, migra de volta para o norte carregando seus filhotes

E nunca mais volta

14 de dezembro de 2008

13 de dezembro de 2008

Medo

O garoto, inocente, adorava dar asas à imaginação.

O irmão mais velho, definitivamente culpado, acrescentava os olhos vermelhos, dentes afiados e garras.

12 de dezembro de 2008

Alice no País de Marlboro

Seguindo o Elefante Branco da publicidade, sempre apressado, por ter apenas 30 segundos para aparecer e sumir, Alice foi parar no País de Marlboro.

Chegando lá, Alice descobriu que o Chapeleirto Maluco e a Lebre de Março estavam tentando, sem sucesso, substituir o cigarro pelo café. Ansiosos, tomavam litros e mais litros, mal dormiam e, ainda assim, precisavam fumar.

Entre uma visita e outra, Alice acompanhou o drama da Lagarta, que trocou o cigarro pelo narguile, um vício por outro, e quase não dava conta de trocar as brasas e essências.

Com o tempo, Alice descobriu que a Rainha de Copas ficava estressada e descabelada, ordenava execuções a torto e a direito, enquanto não parasse para fumar um cigarrinho.

Quando Alice finalmente resolveu sair daquele lugar, descobriu que a porta havia encolhido e que ela, assim como os outros, não conseguiria escapar.

9 de dezembro de 2008

Inseguro

Quando se cruzavam, ele sempre saia correndo. Talvez por medo de, sem querer, revelar algum segredo.

Medroso, mesmo que não soubesse para onde ir, meu olhar sempre evitava o teu.

7 de dezembro de 2008

1 de dezembro de 2008

Cítrica literária

Literatura ácida
Sem esperança

Textos secos e sem respostas
Ou, ao menos, algumas perguntas

Explorando tragédias,
Indiferente

Escrevendo
Má e porca mente

28 de novembro de 2008

Ilusionista

A bruxa do norte insistia, há muitos anos dizia que as bruxas do leste, do oriente, é que eram más

Mas era ela própria quem poluia aquele mundo e destruia, pouco a pouco, a camada de Oz

22 de novembro de 2008

19 de novembro de 2008

Desvios

Com tantas placas e setas, tantos mapas e anexos

Com tanta gente apontando para um lado e outras gentes puxando para outro

A verba nunca acertava o caminho

16 de novembro de 2008

Superstição

Era um povo muito supersticioso. Em meio a outras crenças, acreditavam que cruzar os dedos trazia sorte.

Acreditavam tanto, mas tanto, que cruzaram não só os dedos, mas também os braços, e ficaram esperando.

13 de novembro de 2008

Vira-latas

Sem pompons, regras ou frescuras. Sem roupinha para o frio ou coleira para o medo de não se encontrar. Sem tigela de ração, mas, de vez em quando, um potinho de qualy com feijão

Prefiro assim, gosto mesmo é de poesia vira-latas

10 de novembro de 2008

De lua

- Ela é meio de lua.

- Ah é? Meio instável?

- Não, não. Se faz bela com o brilho dos outros.

9 de novembro de 2008

Cortesia

Sou um sujeito avaro

Por minhas paixões, geralmente cobro caro

Mas de você, sinceramente, gostei de graça

7 de novembro de 2008

Venda casada

Quando cansava das reclamações da esposa, pagava pelo silêncio

Quando estava preocupado com o silêncio, pagava pela conversa

Para ele, o sexo era um brinde

3 de novembro de 2008

Faminto

Comeu meu nome, meu telefone e minha identidade

Depois, comeu meu CPF, minha carteira de trabalho e duas fotos três por quatro

Em seguida, comeu minha barba, meu cabelo e meu tempo

Por fim, como sobremesa, o trabalho comeu meu amor







ps: Os três mal-amados, de João Cabral de Melo Neto

30 de outubro de 2008

Desfocado

Na visão de quem quer girar o mundo com os pés
de quem vive na correria
dia após dia

e nem vê passarem as horas


minutos




segundos




até flor vira borrão

29 de outubro de 2008

Seguro

O juiz emitiu uma ordem de restrição obrigando-o a ficar a uma distância mínima de 50 metros da ex-esposa.

Ele nem se importou, sempre teve uma ótima mira.

28 de outubro de 2008

Instinto

Todo animal acuado, preso, reage com violência. Às vezes, na impossibilidade de atacar seu agressor, age contra as outras vítimas que o cercam.

Os policiais, coagidos a coagir, seguem a mesma tendência.

27 de outubro de 2008

Roubo do século

Em suas ações, pequenos delitos, roubavam bolsas e carteiras, objetos de pouco valor. Um dia, resolveram pensar grande e decidiram organizar o maior assalto da história do país, saquear os mais preciosos valores.

O plano, muito bem composto, foi orquestrado com perfeição. Tomaram o controle do prédio, colocaram todos os engravatados de cara para o chão e então perguntaram:

- Onde está todo o dinheiro?

Instantaneamente, todos começaram a rir, contraiam-se pelo chão tentando conter as gargalhadas. E os assaltantes, em um primeiro momento confusos, ficaram furiosos, sentiram-se humilhados pelas risadas sarcásticas e começaram a atirar.

Muitos acabaram morrendo antes da moça da limpeza, muito sensata e corajosa, ter se levantado para explicar:

- Seu moço, não tem dinheiro nenhum aqui não! Aqui só fica esse pessoal o dia todo correndo e gritando para um lado e para o outro, com uns 5 celulares pendurados no pescoço, brincando com dinheiro de mentirinha, dos outros e que só existe no computador.

26 de outubro de 2008

Antes que

Os mais antigos diziam que precisavam viajar, conhecer o mundo, antes que acabassem morrendo

Logo logo, se continuar assim, teremos que ir antes que o mundo acabe morrendo

25 de outubro de 2008

Defeito perfeito

- Odeio cigarro, da fumaça ao cheiro e, principalmente, o bafo!

- Mas você só se envolve com fumantes!

- É porque depois fica mais fácil de largar o vício.

24 de outubro de 2008

Ausência

Era um poeta de viver poesia

E escrevia contos

Mas, quando a coisa estava crônica, deixava de escrever

Preferia não ser a ser má influência

22 de outubro de 2008

Não

Queria eu ter uma chance
de não me despedir

Um momento
para não esquecer

Queria eu que esse não

não ecoasse

21 de outubro de 2008

Mudança

Sem palavras,
o criado mudo
isolou-se em um canto.

A geladeira,
sempre tão fria,
derreteu-se em lágrimas.

O chuveiro,
sempre tão quente,
agiu como se não ligasse.

As paredes ecoaram o silêncio da despedida.

Algumas portas se fecharam
e outras se abriram.

Enquanto eu,
que já não me sentia mais em casa,
parti.







2009 - Concurso Cassiano Nunes - Biblioteca da UNB - Brasília - DF;
Publicada na coletânea do concurso

20 de outubro de 2008

Dia da poesia

No dia 20 de outubro, dia nacional da poesia, ao acordar, ao invés de abrir os olhos, descerrei as cortinas das janelas de minha alma

18 de outubro de 2008

Quebra galho

Aquele grande tentáculo, de início assustador, oferecia-me, delicadamente, da ponta de um dedo curvado, uma bela flor.

Deitei-me ao chão e percebi que não se tratava mais de um tentáculo, mas de uma grande artéria, afluente de muitas veias, corrente por todo aquele corpo. Cheguei a procurar a nascente, a fonte, um coração diligente, mas as raízes do problema eram a solução.

Em um instante, um pulo, fiz dali meu mirante e, com pose de pirata, papagaio no ombro e barba na cara, observei a terra distante.

Já cansado, pendurei ali minha rede. Se é para ficar cada macaco no seu galho, eu me acomodo nesse.







2009 - 5º lugar no Concurso Maximiano Campos - Instituto Maximiano Campos - Olinda - PE;
Publicada na coletânea do concurso

16 de outubro de 2008

Vendedor

Mais precisamente

Preciso fazer você pensar
Que precisa
Do que eu preciso
Que você precise

15 de outubro de 2008

Cidades das pombas

Em pequenas cidades, no interior de qualquer lugar, as pombas pomposas, criadas a pipoca, empoleiram-se pelo centro, cobertas pelas marquises dos prédios históricos e pelas árvores dos passeios e praças

As primas pobres, pombas silvestres, batalham diariamente, debaixo de sol, por um pouco de milho e, em dias de sorte, alguns farelos

14 de outubro de 2008

13 de outubro de 2008

Leigo

Sou o sujeito mais ignorante de todos que conheço

Não sei nem metade da lista das coisas que eu, simplesmente, não sei

12 de outubro de 2008

Se não me falha

Um roteiro sem nexo
De um filme sem começo

Cheio de furos e pontos de virada
Com conclusões absurdas
E outras esperadas

A ficção que se encontra nos jornais
Baseada em fatos reais

A boa memória falha
A mente mente
O passado volta diferente

E essa história - ou estória
Eu não sei se volta
Ou se vai pra frente

11 de outubro de 2008

Incógnito

Era viciado em reuniões de anônimos

Ia a todas, dos narcóticos aos workaholics, passando por alcoólicos, comedores compulsivos e mulheres que amam demais

Tudo que ele queria era deixar de ser anônimo

10 de outubro de 2008

Terra seca e áspera

Um dia ela cansou de ser chamada de flor e tratada como espinho

Foi embora daquele lugar, cortou o mal pela raiz

9 de outubro de 2008

Ídolos

A lenda, o mito

No entanto
Por trás das cortinas do palco
Do lado de lá da tela
Havia um ser corroído
Inacabado e desiludido

Além do mito

8 de outubro de 2008

Piromaníaca

Acendia fogueiras, despretensiosa, apenas para vê-las arderem, estalarem e consumirem-se

Quando sentiu frio, desamparada, já não tinha mais ninguém para servir de lenha

7 de outubro de 2008

Notável

Naquela noite que se fez outro dia, a lua estava tão cheia, de si própria, que mesmo depois de o sol ter se aprumado, ostentoso, ela ainda desviava a atenção de muitos desavidados

6 de outubro de 2008

Obstáculo

Fazia planos e estabelecia metas, mas nunca ia até o fim

Quando parou para pensar, no meio do caminho, percebeu-se pedra

5 de outubro de 2008

Apnéia

Mergulhava em relações profundas, sonhos intensos

E quando terminava, sem fôlego, afogava-se em mágoas

4 de outubro de 2008

Controle

Começou me deixando sem palavras

Depois, colocava as palavras em minha boca, uma por uma

Quando percebi, pensei em tomar uma atitude, mas, a esse ponto, já era ela que marcava meus passos

Sem ação, pensei em desistir... E foi minha última idéia própria

3 de outubro de 2008

Partida

Para os jogadores, dribladores da miséria, a partida mais importante de toda a vida é para a Europa

2 de outubro de 2008

Decepção

Já havia perdido a esperança, mas, até a última hora do dia, esperou a festa surpresa

2 de setembro de 2008

Sobreviventes

Viveu para contar
Mas não foi o único
Muitos outros, apesar das dificuldades, continuavam escrevendo

1 de setembro de 2008

30 de agosto de 2008

Pontas

Não há mais palavras nas pontas das línguas

Agora elas ficam nas pontas dos dedos

E quando caem, embaralham-se nas letras do teclado

24 de agosto de 2008

Fora da lei

Desafiou todas as leis e quebrou uma por uma. Sempre conseguia se safar das consequências.

Só não escapou impune à lei da gravidade. Os policiais concluiram que ele se jogou. Olhares aflitos e mãos tremulantes concordaram.

23 de agosto de 2008

Vagalume no fim do túnel

Um vagalume voando em círculos, vagando de mão em mão.

Acende-se nas bocas e ilumina as faces, desfiguradas pela noite e pelo medo.

Vagalume traiçoeiro que se acaba no cinzeiro.

12 de agosto de 2008

Felizes para sempre

Por aquelas terras, todos aceitavam a idéia de que a ignorância trazia felicidade.

Não se sabe ao certo quem havia formado esta opinião, afinal, poucos eram formadores de opinião. A grande maioria não formava nem a própria.

11 de agosto de 2008

10 de agosto de 2008

Protetor

Ele dá gritos agudos ao meu ouvido

Logo depois, me empurra com toda força

Em seguida, atira grãos de areia em meus olhos

Tudo para que eu volte para casa

O vento fica muito nervoso quando, por mais que ele avise, as pessoas insistem em enfrentar as tempestades

9 de agosto de 2008

Instáveis

Há um casal problemático que passeia entre minhas idéias

Não conseguem viver juntos por muito tempo

Se o álcool entra
A poesia logo sai

8 de agosto de 2008

7 de agosto de 2008

Abrindo portas

O primeiro mundo vai lhe abrir muitas portas

Entregar muitas chaves

E lhe dar uma boa gorjeta, contanto que sorria

6 de agosto de 2008

Lobisomem moderno

A avó contava uma estória do folclore nacional para os seus netinhos:

- Então, quando uma família já tem três filhas mulheres e depois nasce um homem, esse rapaz estará condenada a virar um lobisomem na primeira lua cheia após seu aniversário de 18 anos.

Um dos filhos, um tanto mais velho, interrompeu exclamando:

- Ei! Isso está errado. Não eram sete meninas e daí um menino?

A avó respondeu, do alto de sua experiência:

- Isso em 1950, meu filho. Hoje em dia, a gente precisa adaptar. Dizem que lá na China já estão em uma menina só!

5 de agosto de 2008

4 de agosto de 2008

Ressaca na praia

É chuva que cai sem se ver
Sol que queima e não se sente
Um rodopiamento inconsciente

É dor que desatina após beber

3 de agosto de 2008

2 de agosto de 2008

Tombos

Apaixonar-se é como andar de bicicleta

Você nunca esquece como se faz

Mas, ainda assim, acaba levando alguns tombos

1 de agosto de 2008

30 de julho de 2008

Retalhismo

Um corte daqui
Outro dali

Cenas apenas
Nada a mais
Nem a menos

Lampejos e surtos
Prosa e poesia
Tiros curtos

29 de julho de 2008

Comer fora

- É assim todo dia, meu marido chega em casa com uma vontade. Não aguento mais.

- Melhor chegar com apetite do que chegar saciado.

27 de julho de 2008

26 de julho de 2008

Ameaça

Era um adepto da não-violência. Mas, percebendo a ineficácia do pacífico aviso de que aquilo era uma garagem e as pessoas não deviam estacionar bem em frente, produziu uma nova placa com os dizeres: "Não estacione. Sujeito a pneu furado".

Nunca mais teve problemas.

24 de julho de 2008

Nascente

Nado contra a corrente

Todo rio de sujeira

Começa em um mar de gente







2008 - 18º Concurso de Poesias Helena Kolody - Secretaria de Estado da Cultura - Curitiba - PR;
2008 - 7º lugar no Concurso Internacional de Poetrix - Movimento Poetrix - Salvador - BA;
Publicada nas coletâneas de ambos os concursos

23 de julho de 2008

Apressado

Quando a mãe perguntou o que queria ser quando crescesse, ele não hesitou:

- Quero ser velho!

- Ué, você não queria ser advogado como seu pai?

- Isso antes de passar as férias na casa do vô. Agora, quando crescer, eu quero ser velho.

- Como assim, meu filho? Velho você vai ficar de qualquer jeito.

- Eu sei, mas o que eu quero é poder aproveitar a vida e relaxar.

A mãe fez cara de bronca e perguntou:

- Você sabe que seu avô passou anos trabalhando para poder descansar agora, não sabe?

- Sei sim. E ele disse que na época ele não sabia aproveitar a vida e que agora, que ele é mais experiente, se arrepende profundamente.

A mãe parou, refletiu e deu-se por vencida. No fundo ela sabia que o garoto estava mais certo do que errado e o mundo mais errado do que certo.

22 de julho de 2008

Janela para a lucidez

O muro de um sanatório gritava em vermelho:

O pior louco é aquele que não quer perder o controle

21 de julho de 2008

Lua de Chesire

A lua, deitada no céu, sorri um sorriso minguado

Ela sabe que, por estas ruas enevoadas, durante a madrugada, encontrará apenas os bêbados e os loucos

20 de julho de 2008

Cego

Deixava o espaço dela na cama
Andava de mãos dadas com o vento

Demorou a acreditar que acabou

19 de julho de 2008

Metamorfose

- Papai, de onde vêm os poetas?

- Quando um escritor perde a musa, ele se fecha em um casulo por um tempo e, quando sai, já virou poeta.

18 de julho de 2008

17 de julho de 2008

Pouco exigente

O protagonista que aceita os moldes da história

Torna-se personagem incompleto

Figurante do próprio romance

16 de julho de 2008

Naturalmente, carnívoros

Como todo dia, na pia, o ritual pós-sacrifício acontecia: limpar as peles, cortar em filés, tiras ou cubos, temperar e cozinhar. Naquele dia em especial, em uma tábua de madeira, diante do altar, encontrava-se uma galinha caipira, com o pescoço torcido e ainda mantendo algumas penas.

O garoto, curioso, aproximou-se da cozinha e observou, com um pouco de nojo, a mãe manuseando aquele bicho. Ela arrancando penas, cortando a cabeça e tirando as peles. Quando reparou que ele estava ali, ele olhou para ela e perguntou:

- Mãe, o que é isso?

- Franguinho, filho!

- Então... É isso que é franguinho?

15 de julho de 2008

Deportado

Ao ser mal tratado pelos agentes da imigração, percebeu, tardiamente

Le Monde
n'est pas
Diplomatique

14 de julho de 2008

13 de julho de 2008

Causas

Em um muro de Curitiba, lia-se o seguinte protesto:

Carne é crime

Alguns dias depois, a resposta apareceu ao lado:

Fome é foda

10 de julho de 2008

Liberdade

Perguntam-me onde é que vou parar

De amarras soltas, deixo o vento que responda por mim

9 de julho de 2008

Cômodo

Estável em minha infelicidade, mudei-me para uma casa de apenas um cômodo

Era mais do que o suficiente para um acomodado

8 de julho de 2008

7 de julho de 2008

Parceiro

Depois de quinze minutos naquela mesa de bar, sem uma palavra sequer, ele contou:

- Ela me pediu um tempo.

- E o que você fez?

- Eu dei. Dei dois minutos...

Me olhou nos olhos, ameaçou sorrir, soltou o ar pelo nariz e continuou:

- Para ela juntar as coisas dela e sumir.

Virou o copo e pediu outra dose. Eu, como bom amigo, o acompanhei, da ira ao choro.

6 de julho de 2008

Tempos pós-modernos

- Com o que você trabalha mesmo?

- Preocupo-me com detalhes que não fazem diferença.

- Que interessante, eu também.

5 de julho de 2008

Visionários

Os donos do mundo sabem que o petróleo derivou-se de animais e vegetação soterrados

Pensando no futuro, matam, desmatam e encobrem

4 de julho de 2008

Labirinto

Costumava dizer que estava apenas experimentando, abrindo portas

Algum tempo depois, entre tantas portas, já não sabia mais por qual sair

3 de julho de 2008

Insanidade

Depois de um dia cansativo, dando suor e sangue no trabalho, ele sentou-se à sua poltrona, no meio da sala. Seu filho surgiu correndo pelo corredor, saltou sobre ele e lhe deu um abraço apertado. Ele, já sem forças, retribuiu com um beijo no rosto e disse para o filho que se sentasse ao chão para que pudesse prestar atenção no jornal.

Após uma notícia, o garoto ficou curioso e perguntou:

- Mas, pai, como é que as vacas ficaram loucas?

- Elas foram alimentadas com ração que continha carne de vaca e um monte de produtos químicos, daí elas ficaram doentes e enlouqueceram.

- Então as vacas que se alimentaram de vacas são chamadas de vacas loucas?

- Sim. Isso mesmo.

- E como é que são chamadas as pessoas que se alimentam de pessoas?

Após pensar um pouco no seu dia e no estado em que estava, ele respondeu:

- Ricos, meu filho. Nós chamamos de ricos.

30 de junho de 2008

Salsa

Dá de ombros como quem não quer nada

Mas, no momento seguinte, aproximamos os corpos, entrelaçamos as pernas e esbarramos os olhares

28 de junho de 2008

Sem ressaca

Na manhã seguinte, os olhos estavam com o tom amarelado da falta de sono

E com o brilho de que valeu a pena

27 de junho de 2008

26 de junho de 2008

Insuspeito

Dentro do ônibus, foi arremessado ao chão após uma freada brusca. Algumas pessoas, solidárias, ajudaram-no a se levantar. Ele mal agradeceu e procurou um lugar onde pudesse segurar-se e permanecer em pé. Assim que se estabilizou, colocou as mãos no bolso e percebeu a ausência da carteira. Imediatamente, soltou o ar, bufando, extremamente nervoso, e, sem saber exatamente como agir, começou a observar e a pensar. Reconstituiu o momento da queda, cada detalhe e cada movimento. Repassou e fixou os olhos em cada rosto, como numa linha de reconhecimento de suspeitos. Falava para si mesmo:

- Foi aquele do cabelinho espetado e calça larga. Tem perfil de bandidinho, só pode ter sido. Ou então aquela crente, se fazendo de santa, mas sem um pingo de honestidade, deprimente. Pode ter sido o cobrador. Cobrador é sempre malandro, dando cantadas nas mães solteiras, enganando os turistas, não se salva um. Pode ter sido qualquer um, não boto minha mão no fogo por nenhum destes... destes... humanos.

Continuou sem ação e indignado até chegar a seu destino. Sentiu-se mal, mais pelas atitudes alheias do que pelo pouco dinheiro que carregava na carteira. Desceu do ônibus e prosseguiu apenas esmiuçando cada suspeito e contando a si mesmo a ficha criminal e os maus hábitos de cada um.

Após chegar em casa, encontrou a carteira escondida, devido ao medo de assalto, em um bolso interno da mochila. No ônibus, ninguém suspeitava do que se passava na cabeça daquele pobre sujeito que eles ajudaram a se levantar.

25 de junho de 2008

Indecisão

Peguei o ônibus errado. Quando percebi, ao invés de sair, sentei. Até que era confortável.

Só me voltava a agonia quando eu olhava, através do vidro, e via: tudo que eu queria ficando para trás. Quanto mais tempo eu ficava ali, mais longe ficava meu destino. Escorri pelo vidro como a chuva. Mas, fiquei inerte, na cadeira para dois com uma vazia, não sei se por orgulho ou teimosia.

Uma hora, o motorista parou, levantou e disse:

- É o ponto final.

- Tenho mesmo que descer?

- Pode ficar aqui, mas vai ficar só.

Naquele dia, dormi na garagem. Senti um pouco de frio, mas, de resto, era bem cômodo.

24 de junho de 2008

22 de junho de 2008

Punição exemplar

Chamamos, ironicamente, de país da impunidade

Um lugar onde a maioria é punida, diariamente, pela falta de oportunidade

19 de junho de 2008

Domador de demônios

Deito em minha cama e milhares de pequenos demônios infestam-me as idéias, o travesseiro e o canto escuro do quarto.

Ando cautelosamente até o som, ligo-o e volto para a cama; Com a música, ao menos, eles dançam.

18 de junho de 2008

Cumplicidade

Depois de separados pelas circunstâncias, ao se encontrarem, trocavam um abraço e tocavam os rostos, para saber que estavam bem.

Ao menos isso ainda podiam. No mínimo, deviam.

16 de junho de 2008

14 de junho de 2008

Descuidado

Delicadas, em minhas mãos, não duram

Quebro todas, quase que sem querer

Antigamente, as coisas eram feitas para durar, sólidas

Hoje em dia, até as regras são frágeis

12 de junho de 2008

Ausente

Embrulhei o futuro para presente e te entreguei

Em troca, recebi apenas uma lembrança

11 de junho de 2008

Prós e contras

Não há lugar mais seguro do que uma cela
Não há paixão mais estável do que a contida

Não há lugar ao sol que não queime

10 de junho de 2008

9 de junho de 2008

Contra o tempo

Explicou ao filho as coisas da vida e do tempo. Para facilitar, usou o relógio de exemplo:

- Aquele é o tempo, passando.

- Ele fica dando voltas?

- Nem sempre, às vezes passa correndo e nunca mais volta, por isso precisamos correr atrás do tempo.

No dia seguinte, após ficar horas observando o relógio enquanto o pai corria de um lado para o outro, o garoto retrucou:

- Você disse que a gente tem que correr atrás do tempo porque o tempo corre. Mas, ele tem uma perna bem maior que a outra, nem consegue correr. A gente é que tem que andar com mais calma... Para não deixar ele para trás.

8 de junho de 2008

Disputado

A faca pega em minha mão e acaricia meus pulsos

O lençol envolve-se em meu pescoço

E a sacada faz cócegas em meus pés

Mas, por fim, são as pílulas que me beijam a boca

7 de junho de 2008

Virando o avesso

Viramos mais um copo de pinga antes de virar mais um assunto do avesso. Ela começou:

- Quando é bom demais, sempre acaba.

- Estranho isso, não é? Deve ser aquela coisa de parábola.

- Parábola de estória?

- Não. Bom... Sim, é sim. Estória em parábola, aquela curva que sobe e desce, tipo o arco-íris!

- Ahn?

- Arco-íris! Sai do chão, vai ao céu e volta... Mas sem pote de ouro no fim.

- Nem duendes?

- Nem ao menos uma fada.

- Triste.

Estabelecemos um minuto de silêncio. Depois de quinze segundos, continuei:

- É, mas pelo menos dá para tomar banho de chuva.

- Ahn?

- Arco-íris. Sol e chuva.

- Casamento de viúva.

- Chuva e sol, casamento de espanhol.

- Achei que ninguém lembrasse disso.

- Lembro até do pé de cachimbo.

- É. O buraco é fundo.

- Não acabou-se o mundo.

- Não mesmo. Bola para a frente.

- Que atrás vem gente.

- Essa tinha continuação?

- Acho que não.

- Vamos inventar?

- Como?

- Sei lá. Bola para frente que atrás vem gente. Gente é carente, confunde a mente. Mente é fraca...

Após uma breve pausa, continuei:

- Só consigo lembrar de cloaca.

Ela deu uma risada sonora e exclamou:

- Cloaca! Não ouvia isso desde os tempos do colégio.

- Cloaca não rola. Faca, vaca, maca, babaca.

- Mente é fraca... enche de craca.

- Nossa! Essa eu não ouvia desde quando eu estava aprendendo a tomar banho sozinho. Minha mãe vinha conferir se eu tinha lavado tudo direitinho e perguntava, parte por parte, "Lavou o joelhinho?", eu respondia "Ih! Esqueci!". Depois ela falava que eu estava cheio de craca, craquento.

Rimos, paramos e ficamos pensando. Ela voltou ao assunto:

- Mente é fraca... Por que fraca? Não dá para mudar o fraca?

- Dá. Gente é carente, confunde a mente. Mente é paranóica...

Novamente rindo, com um brilho nos olhos, ela respondeu:

- Aí fode com a rima.

- Rima com perestroika!

Ela gargalhou e eu, num estalo, continuei:

- Mente e se engana.

- Olha. Adoro quando você faz isso!

- Isso o quê?

- Brincar com as palavras.

Quase encostando o queixo no peito, suspirei. Ela perguntou:

- Ficou envergonhado?

- É.

- Seu besta. É um elogio.

- Eu sei. Mas...

Não terminei a frase. Não consegui nem formular. Respirei fundo e continuei:

- Vamos terminar. Com engana.

- Tomando cana!

- Cana é braba, tudo acaba!

- Perfeita, seu boêmio!

Eu sorri, ela continuou:

- Gostei do final, mas já esqueci o começo. Como é que ficou?

- Bola para frente
Que atrás vem gente
Gente é carente
Confunde a mente
Mente e se engana
Tomando cana
Cana é braba
Tudo se acaba!

- Fechou fudido!

Extasiados, pedimos mais uma dose.

5 de junho de 2008

Desejo negado

O isqueiro acende a chama
Ilumina o olhar

Mas fica na vontade

Nem ao menos chega perto
Do calor da boca

4 de junho de 2008

Solução

Entediado, reparava nos detalhes verde-mofo da rotina, cartas marcadas

Inspirado, embaralhou-as com algumas lembranças avermelhadas

Debaixo do céu azul e com folhas no chão, amareladas, fez do outono primavera