31 de julho de 2009

Migração

De mãos abanando, tentou voar para um lugar melhor e, após longa jornada, acabou abrigando-se à sombra dos arranha-céus.

Saudoso do sol, não via a hora de poder voltar ao ninho.

30 de julho de 2009

28 de julho de 2009

Consolo

Na sala de espera do consultório, entre plantas de plástico e revistas "Caras", esperando ser chamada pela dermatologista, encontrou algumas velhas amigas e, enfim, sentiu-se um pouco melhor.

Percebeu, com um leve sorriso no rosto, que não havia sido a única vítima do tempo.

27 de julho de 2009

É Barra

Assim como eu, todos os que moram aqui são muito felizes.

Quanto aos que só vêm para trabalhar e depois vão embora. Bom, esses não são problema nosso.

26 de julho de 2009

Prestígio pueril

Sentados no meio-fio, todos os garotos aguardavam o Seu Alberto voltar do centro carregando a promessa debaixo do braço. Se o Marquinhos passasse de ano, ganharia o videogame. Todos os meninos da rua ajudaram nos estudos e, agora, estavam aguardando a hora de poder testar o novo jogo.

Estavam todos esperançosos, exceto Diego, que assistia a cena pela janela de sua casa, ansioso, percebendo que perderia o controle.

25 de julho de 2009

Esplendor

A sala era divida em 4 blocos, que, por sua vez, eram divididos em 4 cubículos. Apenas a sala do chefe, separada da outra, tinha janelas - que de nada adiantavam, uma vez que não se abriam e que eram cobertas por uma película escura.

Os cúbiculos estavam ocupados, com exceção de um. Discutiu com o chefe e pediu demissão, não aguentava mais. Dizem que foi porque um dia teve que sair um pouco mais cedo, para levar o filho ao dentista, e, só então, depois de anos, reparou que o mundo não era cinza como na hora em que saia de casa ou na hora em que voltava. Com um sorriso reluzente, comentou com o filho: "o mundo é amarelo".

24 de julho de 2009

Na média II

Na faculdade, o ambiente acadêmico, conhecida por ter formado grandes líderes e pelo posicionamento de seus membros nas lutas históricas, engajou-se nas questões sociais que estavam em voga.

- Precisamos fazer algo...
- Algo grande!
- Isso! Diferente de tudo que já foi feito.
- Para marcar as pessoas.
- Exatamente.
- Já sei!
- O que?
- Vamos alugar uma chácara e fazer uma rave open bar, com um som irado!
- Não era nisso que eu estava pensando...
- Não?
- Não gosto muito de música eletrônica.
- Mas pode ter vários ambientes... E o importante é ser open bar!
- É, tendo bebida...

23 de julho de 2009

Na média I

Cresceu naquele bairro razoavelmente seguro, mas que, como todos os cantos da cidade, com exceção aos longínquos bairros-prisão de segurança máxima, havia tornado-se violento.

- Acredita que entraram na casa da Dona Adélia?
- Não creio...
- Sim, e ela estava lá na hora...
- Meu Deus! Ela está bem?
- Parece que ainda não se recuperou do susto.
- Alguém chamou a polícia?
- O pessoal ficou com medo de ligar. A própria Dona Adélia disse para não ligar porque o bandido podia voltar, mas depois ela viu que uns cheques e documentos haviam sumido e ligou para fazer um BO.
- E a polícia fez o que ?
- O de sempre. Chegaram quase uma hora depois, fizeram algumas perguntas, poucas anotações e foram embora sem deixar muita esperança de recuperar qualquer coisa.
- É um absurdo o que eles fazem. Alguém reclamou disso? Para o delegado, promotor, sei lá...
- Lógico que não! Imagine, mexer com a polícia... está doido?
- Alguém precisa fazer alguma coisa. Esse governo, não dá para aguentar mais.
- É, seria bom se alguém fizesse logo.

22 de julho de 2009

Matilha

Todas as férias, sem exceção, iam todos para a casa da avó. A família inteira reunia-se em retratos repletos de sorrisos.

Nos intervalos entre uma foto e outra, rosnavam e discutiam.

21 de julho de 2009

O curioso caso da Literatura

E aquela simpática senhora, que contava histórias repletas de detalhes e encantamentos, transformou-se na criança birrenta, que chora, como se sofresse, apenas por um pouco de atenção

20 de julho de 2009

A carniceira da Cinelândia

A salinha era pequena, com paredes amareladas pelo tempo e com cheiro forte de algum produto químico. Pela janela, ainda que escurecida, notava-se a cruz na ponta da catedral, a algumas quadras de distância.

Eu já estava deitado, com uma luz forte sobre o meu rosto, quando ouvi a batida seca daqueles saltos, aproximando-se por trás de mim. Ela chegou mostrando a que veio, sentou-se ao meu lado, aproximou ainda mais a luz do meu rosto e começou a utilizar uma das inúmeras ferramentas que estavam ao alcance dos meus olhos. No primeiro movimento, arrancou-me sangue e, então, dona da situação, começou a questionar-me sobre os motivos que me levaram a estar na cidade, há quanto tempo eu estava ali e quais eram os meus objetivos. Mesmo que eu quisesse, não podia falar, seria pior.

Fechei os olhos, tentando suportar a dor calado, enquanto ela resolveu utilizar todo seu repertório. Sentia-me dilacerado, com cheiro e gosto de sangue, mas permanecia calado e de olhos fechados.

Ela continuou aplicando seus métodos até que, para meu alívio, uma campainha soou. Ela deteve-se, olhou para a assistente e fez um sinal com os olhos para que ela fosse verificar a situação. A assistente saiu, vagarosamente, e dirigiu-se ao corredor. Ela voltou-se novamente para a mesa de instrumentos, mas, após alguns instantes, a assistente voltou e sussurrou algo em seu ouvido. Neste instante, ela deteve-se novamente, olhou-me nos olhos e disse:

- Eu já volto!

Respirei fundo, cuspi sangue e tentei relaxar os músculos - a este ponto, estavam totalmente tensos. A assistente observava-me, parecia sentir um pouco de pena. A chefe voltou, mandou que ela se retirasse da sala e sentou-se novamente ao meu lado.

Quando achei que ela escolheria algum novo equipamento para infligir-me alguma dor, surpreendeu-me com um pedaço de papel e limpou-me o rosto. Após recomendar que eu me cuidasse para não precisar vê-la de novo em breve, liberou-me. Atravessei o corredor ainda atordoado. Ao chegar na recepção, dei de cara com o próximo paciente. Eu queria avisá-lo, mas não consegui, minha boca toda doía.

19 de julho de 2009

Rotação

Entediada, preparava uma nova ida a cada retorno. Nos intervalos, mostrava aos poucos amigos tudo que havia comprado daqueles povos exóticos, bárbaros. Fazia questão de mostrar também os álbums, com as mesmas fotos, mesmas caras e bocas, mudando apenas um pouco, do pouco que se via do fundo.

Dava voltas pelo mundo, girando em torno de si mesma.

18 de julho de 2009

Hamsters

Presos ao propósito de agradar aos outros, correm em círculos, desesperados, sem sair do lugar

Dizem que é para manter a forma

17 de julho de 2009

2019

Em meio ao cenário desolador, sabendo das graves consequências, alguns ainda arriscam-se a escondê-los no porão para evitar que sejam executados.

Enquanto isso, os governantes frisam a importância de entregá-los às autoridades competentes e a mídia relata, entre telejornais e interrupções urgentes, a incessante dispersão, as incontáveis vítimas e as prováveis consequências da gripe canina.

16 de julho de 2009

Teatro

Com a garganta já seca
lembrou-se de fechar a boca

Aproveitando o momento
respirou fundo

mergulhou de volta

14 de julho de 2009

Passageiro

Parada em minha frente, enquanto abaixava o rosto, ela começou a chorar. Em meio a lágrimas e engasgues, sussurou:

- Eu não quero que termine assim...

Eu fiquei estático, em silêncio.

Após um breve silêncio, ficando cada vez mais agitada, começou a passar a mão pelos cabelos, em claro sinal de desespero. Com as lágrimas escorrendo pelas bochechas, saltando pelo queixo e pousando sobre as pernas, precisou reunir forças para falar, com a voz já rouca, entrecortada por soluços:

- Eu ainda te amo!

Ainda que estivesse comovido, permaneci parado e calado. Eu não podia fazer nada.

Tentando apagar aquele sentimento, esfregando o rosto com a mão e, em seguida, com o braço, acabou manchando a blusa branca com a maquiagem, que a esta altura lhe cobria de maneira disforme quase metade do rosto, dando-lhe ares de uma triste figura pintada por Pablo Picasso. Neste momento, emudeceu, como se aceitasse a própria sorte e, por fim, disse com mais calma:

- Então, acho que é adeus...

Quando ela levantou a cabeça, eu desviei o olhar. De canto de olho, percebi que ela apoiou a cabeça em uma das mãos e continuou a chorar. Enquanto eu, apenas mais um passageiro, não podia fazer nada.

13 de julho de 2009

Êxodo

Recém-formados, com curso superior, submetem-se a salários subhumanos.

Logo, incapazes de sustentar-se com o próprio soldo, os revoltosos entoam o grito de liberdade:

- Independência ou norte!

12 de julho de 2009

De cristal

Era, sem dúvida, uma boa pessoa. Tratava todos muito bem, sem nenhuma distinção, cuidava de animais abandonados, doava sangue e trabalhava duro para manter sua humilde casa. Em seu pequeno jardim, cultivava hortelã e manjericão. No modesto armário de louças, colecionava copos de requeijão.

Aquela visita à avó, quando reparou nas belas taças, foi um dos raros momentos em que desejou o mal a alguém.

11 de julho de 2009

Doce vingança

Conspiram, todos juntos, por aquilo que lhes foi negado

Na primeira chance que lhes é dada, agem com rapidez e precisão

Ao serem confrontados, os olhos, dando voltas, enrolam-se, a boca, cheia de culpa, se fecha, e os dedos, ainda repletos de açúcar, refugiam-se nos bolsos

10 de julho de 2009

Sujeito

Tosse, tosse e se retorce. Na sala de espera do hospital, sozinho, chora. Angustiado, levanta-se e sai apressado, buscando tomar um pouco de ar puro.

Para acalmar-se, acende mais um cigarro, torcendo para que seja o último.

9 de julho de 2009

Nação

Naquela região,
sobre os castelos e casebres,
tremula a mesma bandeira

ecoa o mesmo grito de gol

8 de julho de 2009

Tendências

Seguem as tendências do mundo moderno, coisas simples e básicas, mínimas.

No chão, terra batida. Na dispensa, apenas o básico. No começo do mês, o mínimo.

7 de julho de 2009

Circo econômico

Enquanto bancos e outros especuladores chacoalham para cima e para baixo

Trabalhadores e outros malabaristas, sem rede de segurança, tentam equilibrar-se

6 de julho de 2009

Portabilidade

Insatisfeito com os serviços prestados, muito aquém do quanto ele desembolsava todo dia, todo mês e todo ano, solicitou seu passaporte e arrumou as malas.

4 de julho de 2009

O homem na rua

Eu salvava vidas todos os dias, mas não era de aço e, no tempo livre, gostava de ir ao boteco do chinês. Naquela tarde caminhei até o bar, cumprimentei o chinês, que dizia ser coreano, mas que não se importava com o apelido, e sentei-me em uma das mesas internas. Já havia reparado que as nuvens anunciavam chuva por vir e, por não pretender ir embora muito cedo, achei melhor prevenir-me da inevitável mudança de mesa. Estava na cidade há apenas três semanas, mas se havia uma coisa na qual havia reparado era nas mudanças graduais e anunciadas do clima. Além do clima, prestava muita atenção nas fantásticas histórias do chinês, coreano, sobre suas inventivas façanhas na guerrilha norte-coreana, um dos aperitivos que tornavam o boteco ainda melhor.
Ao final da tarde, como de costume, as ruas rapidamente encheram-se e esvaziaram-se enquanto os escritórios esvaziaram-se e os lares e bares encheram-se. O boteco do chinês, não sendo exceção, ficou sem uma mesa livre. Eram poucas as mesas, três internas e três externas. Na mesa mais próxima da minha havia um casal de jovens, padrão universitário, cerveja ruim na mesa, óculos na cara e all star no pé. Na mesa mais próxima ao balcão estavam dois sujeitos com uniformes de uma fábrica da região. De onde eu estava não conseguia enxergar nenhuma das mesas de fora porque havia muita gente em pé, bem na minha frente, em volta da juke box. Nunca achei que ressuscitariam essas máquinas, mas, agora que ressuscitaram, as pessoas debatem para saber quem vai colocar a próxima música, enquanto não se decidem, resta-me o silêncio.
O silêncio da indecisão durou pouco, seguido por... um... dois... Todos atiraram-se ao chão, desesperados, uns gritaram, outros se jogaram para dentro do bar e eu fiquei estático, tenso, colado à parede... três ... quatro .... cinco. Cinco tiros, seguidos novamente por um breve silêncio, dessa vez, rompido pelos gritos de um homem.
Eu, chocado, permaneci estático. O homem na rua gritava. Os funcionários da fábrica, que gritaram para as pessoas atirarem-se ao chão, acostumados pela rotina, levantavam-se calmamente. O homem na rua praguejava. A garota que estava na mesa de dentro gritava e chorava, desesperada, dando bronca no namorado que atirou-se ao chão sem pensar nela. O homem na rua chorava. O chinês, coreano, saiu de trás do balcão e, enquanto caminhava lentamente até a porta, disse para que todos permanecessem abaixados até que ele soubesse o que estava acontecendo. O homem na rua agonizava. Eu, ainda estático, olhava para o coreano, chinês, esperando uma reação, um sinal, talvez em código, de preferência que fosse um aviso de que o inimigo havia recuado. O homem na rua implorava.
Após espiar brevemente a rua deserta, exceto pelo homem caído, quase em frente ao mercado, o coreano, chinês, virou-se para mim e disse o que eu já sabia, mas ainda não havia assimilado, que havia um ferido. De prontidão, levantei-me. O homem na rua rezava. Hesitei por um momento. Visualizei-me em um campo de batalha, arrastando-me pelo chão até um soldado ferido, aplicando-lhe uma injeção de algum poderoso anestésico, mentindo que foi só um arranhão, recebendo de suas mãos a carta que eu deveria prometer que entregaria à querida Mary Jane, que o esperava no alto do morro. O homem na rua grunhia.
Caminhei até a porta e pude ver aquele corpo que agora pouco se movimentava, exaurindo-se de forças. Quando pensei em correr até ele, o coreano colocou a mão em meu peito e não me deixou prosseguir. Ele reconheceu o homem na rua, que agora apenas gemia, e explicou-me que, por ali, quem ajudava bandido era tratado como tal.
A chuva anunciada começou a cair, lavando o sangue e engasgando as últimas palavras balbuciadas pelo homem na rua.

3 de julho de 2009

Desnivelado

No topo da pirâmidade, carregada de títulos e regalias, resplandece a esmagadora minoria

1 de julho de 2009

Desgosto

Aproximou-se daquela precária prateleira de madeira, apoiada na bicicleta, para facilitar a fuga caso o rapa resolvesse dar as caras. Olhou fixamente para os caramelos. Não era muito de comer doce, nem podia se dar muito ao luxo, mas não resistia àqueles rechonchudos caramelos de Petrópolis. Permaneceu por alguns instantes observando os caramelos, ficou com água na boca e, então, ao reparar na desatenção do vendedor, que tentava trocar uma nota de 10 com o pipoqueiro, tentou pegar um com sabor de chocolate, os azuis, seus preferidos.

Por um momento, encantado pelas guloseimas, o garoto esqueceu-se do perigo. Pagou caro por esse deslize, enquanto olhava para o caramelo em sua mão, cada vez mais próximo do seu bolso, dos fundos do teatro municipal e, por fim, de sua boca, o vendedor, calejado da vida na rua, em um movimento do pé atirou o chinelo para cima, agarrou-o, ainda no ar, e completou o movimento desferindo uma sonora chinelada no rosto do pequeno ladrão de caramelos.

Toda a praça ouviu o estalo, os pombos, assustados pelo barulho, voaram para longe enquanto o garoto permaneceu estático. No rosto, exibia uma marca vermelha evidenciando todas as ranhuras da sola do chinelo. Um fino fio vermelho escorreu-lhe pelo canto da boca.

Cuspiu um pouco de sangue enquanto ouvia um sermão sobre aprender a nunca mais fazer aquilo. Após toda a bronca, ouvia apenas um zumbido, consequência da chinelada. Saiu dali o quanto antes, para que não o vissem chorando. Apertando o passo, dizia a si mesmo que não chorava de dor, mas sim de raiva. Ao chegar ao fundo do teatro municipal, seu refúgio, chorava, sangrava e tremia. Sentado no canteiro, esmurrando o chão, prometeu que um dia, quando crescesse, assim que tivesse forças, iria vingar-se daquela ofensa e de todas as outras, mataria ele friamente. E, se a mãe se intrometesse, o que nunca fazia, ela também, a contragosto.

28 de junho de 2009

Curiosa

Durante todo o outono

folheava displicente

todas as ruas do bairro







2009 - 19º Concurso de Poesias Helena Kolody - Secretaria de Estado da Cultura - Curitiba - PR;
2010 - 1º Concurso TOC140 de Poesia no Twitter - VI Festa Literária Internacional de Pernambuco - Olinda - PE;
Publicada nas coletâneas de ambos os concursos

27 de junho de 2009

Desgovernado

Desiludidos com a política, deixam-a de lado e procuram as mudanças por outros meios

Diligentes, apesar de não ter nenhum controle sobre o leme, remam sem parar

26 de junho de 2009

Piratas

Sem o menor constrangimento, como é de praxe, as grandes companhias oferecem a preço de ouro seus produtos exclusivos

Alguns ditos oportunistas, após muito navegar, oferecem produtos idênticos a preços mais acessíveis, inclusivos

25 de junho de 2009

Cidade da insônia

A cidade adentra a madrugada entre surtos e devaneios, rodas de samba e tiroteios

Não é à toa que sempre acorda um pouco atrasada e passa o dia apressada, inquieta

24 de junho de 2009

Dissimulado

Em bares obscuros, nos porões da boêmia, seus personagens seguem os passos dos famosos alter egos dos legítimos marginais de gerações passadas.

Enquanto isso, avesso aos bares e a essa gente estranha da rua, na frente do computador, ele folheia algum outro célebre boêmio, em busca do que chama de inspiração.

23 de junho de 2009

Subrrealismo

Escondido atrás de uma parede de tijolos e sem reboco, estava com a respiração fraca, olhos bem abertos e falava sobre o conflito que estava ocorrendo entre policiais e traficantes naquele exato momento. Ao fundo da imagem via-se alguns policiais posicionados em uma ladeira, muito bem armados, entre dois corredores de casebres.

Enquanto ele falava sobre os constantes conflitos, sobre as ações criminosas da polícia, das milícias e dos traficantes, dois moradores do bairro sairam de suas casas e passaram ao lado dele, caminhando normalmente.

Ao vivo, sem conseguir disfaçar a decepção, o repórter finalizou a matéria dizendo:

- Dois moradores passam por aqui como se nada estivesse acontecendo.

22 de junho de 2009

Torcedora

Torcia o quanto podia. Ao perceber que não extraia mais nada, pendurava as roupas no varal.

Nunca entendeu a fixação do marido, fanático, torcendo por um time que não ganhava um título há décadas.

21 de junho de 2009

20 de junho de 2009

Vale tudo

Com o rosto desfigurado, enxergando muito pouco, teve dificuldade para encontrar o técnico em meio à platéia. Ao encontrar, apontou para ele, dedicando a vitória.

No outro córner, o derrotado estava inconsolável. Após meses de treino, não conseguia aceitar a decisão dos juízes.

Entre orelhas deformadas, bocas desdentadas e muito sangue, mal dava para notar a diferença entre as expressões dos dois.


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Com o rosto desfigurado, inchado, teve dificuldade para encontrar a esposa em meio ao público e dedicar-lhe a vitória.

No outro canto, o derrotado estava inconsolável.

Entre orelhas deformadas, bocas desdentadas e muito sangue, mal dava para notar a diferença entre os dois.

19 de junho de 2009

Figurante

Indignou-se com aquela cena deplorável

Ainda assim, passou ao fundo, longe, esforçando-se para não ser notado

18 de junho de 2009

Mitos do Rio Antigo

Caminhando pelos bairros boêmios, entre bares, botecos e salões de sinuca, acabava sempre envolvido pelos cânticos daqueles seres mitológicos. Eram todos muito parecidos, tinham em comum as barbas por fazer, camisa com os dois ou três botões de cima abertos, algum colar ou pulseira de algum santo ou padroeira, pernas de bode e chifres escondidos pelos cabelos desgrenhados ou pelo chapéu panamá.

Ao invés das flautas de outrora, para induzir os ouvintes a um estado de transe, utilizavam cavacos, surdos, pandeiros e violões de sete cordas. Apesar de terem adaptado as velhas gingas aos novos tempos, continuavam fiéis a Dionísio, aos prazeres da carne e, sem dúvida alguma, ao álcool.

17 de junho de 2009

Circulando

Nômades, caminham pela região em busca do melhor local para assentar o acampamento. Ao encontrarem, geralmente sob proteção do vento e da chuva, desfazem as trouxas com seus poucos pertences, organizam a busca por comida e, caso o frio seja uma ameaça, providenciam uma pequena fogueira.

Normalmente permanecem no local por alguns dias e depois partem para outra região. Mas, em alguns casos adiantam a mudança, acuados por um soldado que lhes ordena:

- Circulando!

15 de junho de 2009

Antropocentrismo

Aproveitou que estava em um dos pontos mais belos da cidade para posicionar a câmera e bater uma foto

Ao ver que havia captado um bom ângulo de seu rosto, sorriu:

- Fiquei ótima!

14 de junho de 2009

Reação em cadeira

Protestava por todas as causas pelas quais se podia protestar: democracias, diplomas e desvios de dinheiro público

Muitos outros, igualmente engajados, seguiam o exemplo, com apenas um clique

13 de junho de 2009

Enchente

Quando a tempestade transforma a rua em riacho

Quem não pode afunda,
quem pode navega

e o poder público, nada

12 de junho de 2009

Dilúvio

Quando os ventos da crise sopraram forte e a linha de pobreza começou a subir, meio mundo foi inundado.

A maior parte dos que viviam na parte de baixo do mapa afogou-se.

11 de junho de 2009

Jogo de sombras

Lutando por direitos básicos, enfrenta-se inimigos invisíveis

No entanto, quando acuados por holofotes, todos defendem as boas causas

10 de junho de 2009

Porta da insegurança

Daquela porta em diante, os fracos tornavam-se fortes, os oprimidos viravam opressores e os sós ficavam bem acompanhados

Naquele bar, chamado de café executivo, os clientes, operários maltratados, eram disputados a tapas

9 de junho de 2009

Entre nós

Os que se dizem sóbrios, presos a seus medos, afastam-se dos outros

Enquanto os loucos, desatados, falam sozinhos

8 de junho de 2009

Biblioteca

Naquele prédio imponente

Repleto de palavras ilustres

Só restava espaço para o silêncio

7 de junho de 2009

Estrada nublada

Cada mão estendida
puxava-o para a desgraça

Nestas curvas traiçoeiras
cada luz é uma ameaça

5 de junho de 2009

Troca de favores

Quando o candidato aproximou-se, com aquele sorriso ilusório e aquele papo vazio, contraí o maxilar pressionando dentes contra dentes, contendo-me.

Mas o tapinha nas costas foi a gota d´água. Mandei-lhe tomar no meio do cu, com todas as letras, gestos e até mesmo com algumas gotículas de baba que escaparam-me da boca e acabaram caindo sobre as bochechas daquele fingido.

A política de elogios baratos, retribuo com ofensas gratuitas.

4 de junho de 2009

Regime

Naquele restaurante ali do centro servem comida a quilo do meio dia até as duas. Mas, pra lá das duas sobra só aquilo. Eu, com horário de almoço cada vez mais curto, obrigado a engolir qualquer coisa por ali, em qualquer lugar, não reclamo. Na verdade, eu até prefiro ir depois das duas porque fica mais barato. Daí o almoço cabe no bolso.

3 de junho de 2009

Fiéis

Terminada a missa, viravam-se uns para os outros e diziam:

- Fique com Deus!

Já bastava uma hora do final de semana, ninguém queria levá-lo pra casa.

2 de junho de 2009

Sensatez

Os ministros do STF, após análise aprofundada do conteúdo dos meios de comunicação do país, decidiram por acabar com a exigência da graduação em jornalismo para exercer a profissão naqueles meios.

Resolveram, em raro momento de sensatez, que para trabalhar na grande imprensa deveria-se exigir, a partir daquele momento, a graduação em publicidade.

1 de junho de 2009

Dia internacional da pouca coisa

No dia 1º de julho de 2009, em meio aos poucos direitos que efetivamente temos, Marcia Villeda, do partido liberal hondurenho, comenta a suspensão dos direitos constitucionais, após o sequestro do presidente e a tomada das ruas pelo exército:

- É basicamente uma restrição parcial, que estará vigente junto com o toque de recolher.

31 de maio de 2009

Geografia social

No meio do caminho para casa, já respirando com dificuldade, o garoto virou-se para o pai e reclamou:

- Essa ladeira podia ser reta.

30 de maio de 2009

Olhos de águia

- Do alto do morro, observam as possíveis presas. Quando escolhem a vítima, a descida é fulminante, ágil e precisa. Em questão de segundos, cravam as garras na presa sem qualquer sinal de piedade.

Ao pé do morro, para evitar a hesitação, o comandante descreveu desta forma os pequenos pássaros que engaiolariam: aqueles que, por acidente, não matariam

29 de maio de 2009

Mímicos

A internet e as mídias sociais permitiram que pessoas com os mesmos ideais pudessem se encontrar, trocar ideias e agendar protestos, ações organizadas

Infelizmente, por falta de eletricidade ou de vontade, os protestos resumem-se a alguns poucos indignados, extremamente organizados: todos de camiseta preta e nariz de palhaço, todos mudos

28 de maio de 2009

Sem rumo

Sem trabalho e sem sorte
procurando um norte
acabou indo parar no sudeste

Sem saber o caminho certo
acostumado ao campo aberto
perdeu-se no labirinto de prédios

27 de maio de 2009

Motim

Rebelou-se contra os próprios sentimentos

Quando eu disse que ela ainda me amava, respondeu - assim sem pausa:

- Amo-tenada!

26 de maio de 2009

Pôr do só

Lá pelas cinco da tarde, as ruas esvaziam de gente, de carros e até mesmo de pássaros

Quando a noite é uma ameaça, apenas o sol tem coragem de dar as caras

25 de maio de 2009

Entrincheirados

Frente a frente, de ambos os lados, bravos homens e mulheres permanecem enfileirados. Atentos a cada movimento, aguardam apenas um sinal para que possam avançar.

Assim que o sinal é dado, partem apressados, desviando dos que vem em direção oposta, ansiosos por chegar ao outro lado. Afinal, neste campo de batalha, os mais temidos circulam sobre rodas.

24 de maio de 2009

Sinfonia do medo

Quando aquele jovem casal mudou-se para o 209, as batidas e gritos viraram a trilha sonora da rotina

A entrada dos metais, graves, adicionou tensão

Por fim, ouviu-se apenas um sopro agudo, último suspiro

A platéia permaneceu estática, cada um em sua poltrona







2009 - 6º lugar no Concurso Bar do Escritor - Comunidade Bar do Escritor;

23 de maio de 2009

Jogo de azar

Apostei trinta reais no meu time do coração. Ainda restavam quatro dias para o final do mês e, se perdessem, provavelmente eu ficaria sem ter o que comer por pelo menos uns três dias, até chegar o salário - isso se o chefe resolvesse adiantar o pagamento, porque o quinto dia seria inútil, bem no feriado.

Apreensivo, roí unha durante todo o primeito tempo, fraquíssimo, um merecido zero a zero. Mas, no segundo tempo, soltei o grito comemorando três gols e maldizendo o juiz e o goleiro por outros dois. Até o final, sofri, mas o time venceu.

Voltei do estádio andando e de estômago vazio, para ver se conseguia segurar mais um dia. Ainda assim, valeu o ingresso, aposta de risco.

21 de maio de 2009

Crítica

Enfiaram-lhe a faca no umbigo e giraram

Não podia ter doído mais, era tão visceral e classificaram de imaturo

Ferido no ego, arrastou-se de volta a sua vida vazia

20 de maio de 2009

Viagem solitária

Sentindo-se só, o sujeito mais injustiçado do mundo, sentou-se ao silêncio da praça

Ajeitou-se e tirou do bolso o velho caderninho no qual regurgitava o que depois chamaria de poesia

Ao curvar-se para escrever, caiu no próprio umbigo

19 de maio de 2009

Sociável

Sempre ouviu falar do papel social da literatura

Ao reparar no coleguismo dos editais e no puxa-saquismo dos saraus, entre apertos de mãos e tapinhas nas costas, percebeu que havia entendido errado

18 de maio de 2009

Subvertido

Discursava sobre a injustiça
sobre a pobreza
e sobre a fome

Nunca soube como era ficar abaixo, suportando a pressão

17 de maio de 2009

Programação

Indignou-se com as notícias

Acalmou-se com a novela

Alegrou-se com o futebol

E, por fim, vendo um filme, acabou desligado

16 de maio de 2009

Cobiça

O pecado original sempre foi visto como um mau exemplo

Surgiu então a pirataria, salvação dos que nunca puderam

15 de maio de 2009

Pirâmide social

Alguns sobressaem vendendo valores

Outros, sobrefaturam vendendo ideais

Enquanto o povo sobrevive, vendendo latinhas e jornais

12 de maio de 2009

Fora dos padrões

Quando a mídia anuncia os tempos de vacas magras

As mais saudáveis, que ao menos não expõem as costelas, acabam abatidas, deprimidas

11 de maio de 2009

10 de maio de 2009

Encomendas

Durante a noite, fatigados, embrulham-se em papelão

Na esperança de serem enviados a algum lugar melhor

9 de maio de 2009

8 de maio de 2009

Aninha

Começamos a juntar o pouco que tínhamos

Para evitar o frio, ela cobriu-me de expectativas, aninhou-me

6 de maio de 2009

Falta

Neste quarto com paredes cobertas de memórias

Seus encantos ecoam por todos os cantos

5 de maio de 2009

Sociedade organizada

Para cada órgão que se cria, outros dois são criados para investigá-lo

Nesta aberração estatal, os órgãos vitais não funcionam

E sobram apêndices

4 de maio de 2009

Gerando empregos

- Sr. Garcia, pelos meus cálculos, o projeto vai consumir 70 milhões de reais e 250 vidas.

- Albert, não exagere! Eu sei que você pode melhorar esses números...

- Se espremermos bem, senhor, creio que podemos reduzir para 50 milhões e 500 vidas.

3 de maio de 2009

Teoria da involução

Sempre acreditou-se que o homem tinha vários elementos que o diferenciavam dos outros animais

Uma a uma, as teorias de superioridade foram caindo. De todas, restou apenas uma, com uma pequena correção, afinal, não é o polegar opositor que nos diferencia, mas sim o indicador delator, que acusa, julga e condena

2 de maio de 2009

Arte que cabe no marketing

Após uma rápida passada pela ala reservada à década de 80 e uma olhada na ala dos anos 90, o guia continuou o passeio:

- Então, neste período, iniciou-se o grande movimento artístico e cultural, patrocinado pelas grandes empresas, que mais tarde ficou conhecido como "Editalismo".

30 de abril de 2009

Futebol

Nas arquibancadas, os torcedores se abraçam, comemorando a vitória suada

No camarote, os cartolas evitam o contato físico, mas sorriem, comemorando mais um ano de fartura

29 de abril de 2009

Pra burguês ver

O espírito que era livre, para sobreviver da música, precisou submeter-se àquele cenário:

Um banquinho e um violão, uma corrente e um grilhão

28 de abril de 2009

Nada a declarar

O mundo anda tão sem ação

Que até a super interessante, que já virou o passado do avesso, ficou sem assunto

27 de abril de 2009

Correspondente de guerra II

Era uma madrugada de primavera. Eu não sabia exatamente qual dia porque não saia de casa desde que vim para cá. Ouvi os primeiros tiros. A violência assustou a vizinhança, gritou e acendeu a luz.

Confuso, tive vontade de ir até a janela, para ver se conseguia alguma imagem do combate, mas tive medo de ser alvejado por alguma bala perdida. Ciente dos riscos, engatinhei até a janela e, decepcionado, vi o cenário fantasma de toda madrugada. Também vi as poucas luzes nos prédios em volta apagando-se aos poucos, enquanto acostumavam-se com os tiros, cada vez mais escassos. Percebi que o risco que eu corria era relativamente baixo.

A partir deste instante, meu medo era invisível - o que tornava a convivência com ele muito mais fácil. Aliviado, apaguei a última luz e dormi.


26 de abril de 2009

Baile das sombras

A vela acesa no canto do quarto, chama intermitente

Faz as sombras moverem-se delicadamente, nos acompanhando

25 de abril de 2009

Corrida

Todo dia, no mesmo horário, é dada a largada. A dispusta é feroz, não há espaço para todos. A maioria espera no ponto, alguns se espremem nos metrôs e outros gritam e esperneiam, de dentro do carro, ansiosos para saber quem chega primeiro até a tv.

24 de abril de 2009

Corrosivo

Ao entrar, percebeu de imediato que algo estava errado

Os pensamentos amargavam o silêncio áspero daquela sala

23 de abril de 2009

Inveja fosca

Quando ela fica mais lenta, mesmo reduzindo a produção, recebe todos os cuidados do chefe. Eu, se ficar mais lento sou descartado no dia seguinte, me substituem por outro igualzinho, para fazer a mesma função repetitiva e monótona de todo dia, das oito às seis, com as teóricas duas horas de almoço - que resumem-se a 15 minutos engolindo o bandejão, 10 minutos no banheiro e cerca de 35 minutos dedicados ao cigarrinho do dia. E o chefe ainda diz, por causa do bandejão (que nem é muito bom), que a empresa cuida da gente. Aposto que gasta mais com ela em uma semana do que com todos nós no mês todo. Queria eu ter metade da atenção e cuidado que ela tem, queria eu, por um dia que fosse, deixar de ser máquina humana para virar uma dessas, brilhantes, de metal.

22 de abril de 2009

Formiguinha

Ao invés de perambular pela rua, passa o dia todo na escola. Na hora de voltar para casa, não tem dinheiro nem para comprar um chiclete. Neste momento, ansioso por um docinho, ele pede ou rouba, da mesa do bar, um pequeno sachê de açúcar.

20 de abril de 2009

Oásis

Há algum tempo, aqueles que caminhavam pelas ruas desertas, procurando uma boa conversa, encontravam a redenção nas praças, repletas de idéias e debates

Acabam nos mesmos lugares os que hoje caminham pelas ruas congestionadas, procurando um pouco de silêncio

19 de abril de 2009

Síndrome de Estocolmo

Do alto de seu salto, desconfortável e apertado, que fora obrigada a usar desde a adolescência, denunciava a crueldade e o atraso de outras sociedades, que impunham às mulheres regras e normas, fôrmas e formas.

18 de abril de 2009

17 de abril de 2009

Deficiências

O governo, envolvido pela burocracia, ficou imóvel

A polícia, em meio a tanta sujeira, perdeu o faro

O povo, iludido ou cansado, ficou mudo

E a justiça, resguardando-se, fica de olhos bem abertos

Olho

16 de abril de 2009

Surrealices

Apressado, o coelho fugiu daquele mundo surreal, cheio de incoerências

Apesar de tê-lo seguido, Alice, considerando-se muito sóbria, resolveu voltar



* em parceria com Aninha

15 de abril de 2009

Anjos e demônios

Antes de apagar a luz, a mãe sempre dizia:

- Durma bem, meu anjinho!

Por mais que lutasse contra o sono, não resistia. O pai sempre chegava depois dele dormir, bêbado, e batia nela. Ele se culpava. Dizia a si mesmo que, quando os anjos dormem, a escuridão toma conta.

14 de abril de 2009

Ventos da economia

Renomados economistas continuam citando os "ventos da economia"

Enquanto isso, os mais pobres vão descobrindo, de tombo em tombo, que tais ventos só definem para que lado vão cair

13 de abril de 2009

Mercado de valores

No carro, mais um opcional
responsabilidade social

O caderno vem com bônus
de apoio cultural

Para aderir à moda
vista a causa ambiental

Dê valor aos seus valores
Compre, venda e troque

12 de abril de 2009

Calor

Cachorros com a barriga no chão gelado e gatos com a barriga para cima. Homens obesos com a camiseta regata dobrada por cima da barriga e mulheres magérrimas com a barriga de fora para pegar uma cor. Lagartos repousando sobre as rochas quentes e lagartas virando borboletas. Gotas de suor que escorrem na testa e gotas de chuva que não refrescam.

Calor é fogo que arde sem se ver

É ferida que seca e cria casca

É um descontentamento insistente, incômodo e inconveniente

11 de abril de 2009

Pregação

Martelam as mesmas idéias sem parar

Até que seja mais cômodo deixar do que tentar tirar

10 de abril de 2009

Eufemismo

No velório, todos diziam que ele era um homem muito justo

Era a maneira menos ofensiva de dizer que era cego, indiferente aos que o carregaram em vida e que agora choravam sobre o caixão

8 de abril de 2009

Retrógrados

Há muito tempo, os incomodados gritavam pelas ruas, revoltados, para mostrar que não eram gado

Atualmente, os acomodados ficam em silêncio, desesperados, pela ameaça de ficar sem pasto

7 de abril de 2009

Praça da impotência

A justiça, cega, fica sentada no meio da praça


Enquanto a impunidade corre em volta, gritando, zombando da pobre coitada

6 de abril de 2009

De graça

Um dia, por castigo ou azar, pagou caro

Ao reclamar, ofereceram o troco em bala

Calou-se

Nunca mais comprou briga

5 de abril de 2009

Desbocados

Por um bom tempo, ficaram batendo boca

Demoraram a descobrir o prazer,
a sutileza de apenas encostá-las

4 de abril de 2009

Olhar perdido

As crianças, com olhar atento ao mundo em volta, encontram pessoas, folhas, nuvens e pássaros.

Mas os pais apressados, de tanto as puxarem pelas mãos, acabam por fazê-las perder aquele olhar, tão difícil de encontrar.

3 de abril de 2009

Conservação do patrimônio

Não havia dúvida, era a maior obra já realizada. Iniciada nos primórdios da civilização, ergueu-se a passos largos e continua ampliando-se. Atualmente, já incorporou-se aos costumes e ao dia-a-dia de todo o mundo. De tão importante, frequentemente ocupa as páginas de jornais de todos os cantos. Além disso, recebe investimentos de diversos países e empresas interessados em garantir a sua manutenção.

Por todos estes motivos, a desigualdade social foi tombada pelo patrimônio histórico e cultural, herança da desumanidade.

2 de abril de 2009

1 de abril de 2009

Castas

Em algumas sociedades, não há oportunidade, aos menos favorecidos, de mobilidade em ascenção.

No Brasil, além dos programas de TV, toda quarta e sábado tem sorteio da loteria.

31 de março de 2009

Urubus

Ao notarem alguém em dificuldade, não se contêm e estendem a mão.

Com a mão estendida e o enquadramento ajustado, clicam o momento, tão intenso e visceral. "Uma foto sem preço", dizem os sujeitos sem valor.

30 de março de 2009

Revolução

As primeiras a demonstrarem o espírito revolucionário foram as vacas. Naturalmente, como ensina a história, as primeiras a reagir foram consideradas loucas.

Com o tempo, as aves seguiram os passos e foram até mesmo mais agressivas, deixando centenas de vítimas antes de serem caladas.

Atualmente, os porcos se rebelam e não se sabe ao certo o estrago que vão causar. Ninguém sabe quem serão os próximos. Em breve, não haverá mais animal algum submisso ao homem.

28 de março de 2009

Ao pó retornou

Com aquele tiro, que jurava ser o último, varou a noite

Antes daquele suspiro, o último, descobriu que as ruas traiçoeiras, encobertas pela noite, faziam o acerto de contas

27 de março de 2009

26 de março de 2009

Ganhar a vida

Alguns poucos, sortudos, já a tem desde que nascem

A maioria, no entanto, precisa fazer algum esforço, algo digno de merecê-la

25 de março de 2009

Para o mundo

Quando o garoto nasceu, decidiram criá-lo para o mundo

Aos 8 anos, já tinha visitado a Disney e boa parta dos EUA. Aos 15, apesar de confundir Praga com Viena, conhecia as principais capitais européias. Comemorou o aniversário de 18 anos na Austrália.

Aos 40, ainda precisava do motorista para ir ao bairro vizinho.

24 de março de 2009

Pombos

Vivem pelas ruas, avenidas e praças. Concentram-se principalmente nas grandes cidades, mas podem ser encontrados em todo e qualquer lugar.

Alimentam-se de qualquer coisa, tem hábitos pouco higiênicos e carregam diversas doenças. Há alguns que se solidarizam, os defendem e os mantêm. Mas, a maioria das pessoas sente nojo, desvia os passos e olhares.

De vez em quando, alguns resolvem acossá-los, espantá-los ou agredi-los. E os coitados, sem terem asas para fugir, juntam o que conseguem, do muito pouco que têm, e correm.

23 de março de 2009

Impregnado

Banham-se com o sangue que escorre da televisão e secam-se envolvidos pelas páginas dos jornais

Para tentar disfarçar, com uma leve borrifada de rimas fáceis e palavras difíceis, dão cheiro de arte aos ecos, reflexos, espelhos emoldurados

22 de março de 2009

Lição de desigualdade

Durante a noite, do alto do morro, observando as luzes da cidade, os garotos dizem:

- Para cada estrela lá em cima, há mais de mil aqui embaixo.

20 de março de 2009

Péssimo escritor

Os papéis, cheios de suas palavras vazias, saltavam da escrivaninha e corriam para o corredor

A caneta escapava dos dedos, caia ao chão e rolava para baixo da cama

A cada cochilo, uma revolta

19 de março de 2009

Criação do ornitorrinco

No oitavo dia, entediado, cutucava o chão com uma vareta

Brincando com as sobras de barro e terra seca, entre formas disformes, aspirou um pouco de pó e espirrou

17 de março de 2009

Nossa música

Em um momento qualquer, com ele batucando na estante, perceberam que não haviam escolhido nenhuma música

De inicío, perderam o compasso, acharam que era grave. Preocupados, tiveram dores de cabeça agudas

Após algum tempo, sintonizados, encontraram a solução, perceberam que eram livres para ditar o próprio ritmo

16 de março de 2009

Avaliação

Deixou o sapato brilhando, ajeitou o cabelo e vestiu o melhor terno

Afinal, hoje em dia não se olha apenas os dentes

15 de março de 2009

Heróis nacionais

Ergue-se imponente sobre o Palácio Tiradentes, antiga sede do congresso nacional, montado sobre um cavalo e de espada em mãos

Abaixo, várias pessoas sustentam, em seus ombros, o cavalo e ele

14 de março de 2009

Voo livre

Esses dias, em meu sonho, fui um pássaro. Escapei de uma gaiola e, finalmente, sentindo-me livre, resolvi voar até o lago para banhar-me

Ao ver a situação da água, desanimei. Voltei andando, engaiolado

13 de março de 2009

Isolamento

Não se aproximava de ninguém. Mas, por onde passava, ouvia as conversas alheias e ia costurando-as, transformando em uma coisa só, só dela.

Ao final do dia, tinha em mãos uma bela colcha de retalhos, perfeita para proteger-se do frio da solidão

11 de março de 2009

Manhosa

Vem toda cheia de mimimi
transbordando de artimanhas amorosas

Quando a encho de beijinhos
em um suspiro, esvazia

10 de março de 2009

Correspondente de guerra

Após algum tempo
sem o estalar de tiros
ou a covardia dos assaltos

Pergunto-me curioso
nesta zona de guerra
se, ao menos um pouco
a mídia não exagera

8 de março de 2009

Seleção natural

Entrou na sala, ajeitou-se na cadeira e entregou um questionário que abordava os seguintes temas: qual foi a última pessoa que ocupou o cargo, ultimo salário, motivo da saída, quais outras experiências a empresa tinha na formação de profissionais, quanto pretendia oferecer de salário, se envolvia-se em algum projeto social, cultural ou ambiental, etc.

Permaneceu revirando alguns papéis sobre a mesa enquanto a gerente de recursos humanos respondia ao questionário.

Após o preenchimento, pediu a ela que explicasse um pouco melhor sobre a empresa. Pouco convencido de que o trabalho valeria a pena, avisou sobre as etapas seguintes, uma avaliação de responsabilidade social e uma dinâmica de empresas, e disse que entraria em contato assim que tivesse uma resposta.

7 de março de 2009

Dedicatória

Alegrou-se com a notícia de que o livro seria dedicado a ela. Caminhou até a livraria com passos e um sorriso dignos de uma musa imortal, inesquecível.

Ao abrir na primeira página, leu: "Em memória de..."

O livreiro recolheu o corpo.







2007 - XVII Concurso de Contos Luiz Vilela - Fundação Cultural de Ituiutaba - MG;
Publicado na coletânea do concurso

6 de março de 2009

Visita indesejada

Na casa da ansiedade

Mesmo após o café
o cigarro
e o pacote de biscoito

As horas resolvem ficar mais um pouco

5 de março de 2009

Caçada

Diante do formulário de ocorrência, no local reservado ao estado civil, escreveu com letras garrafais: caçada.

De início, acharam que fosse um erro. Ao verem as marcas, perceberam que o erro era suplício.

4 de março de 2009

Vozes

Cansadas de ouvir, acostumadas pela vida a serem ignoradas

Sorriem sinceramente quando lhes é dada oportunidade de não calar

3 de março de 2009

Salto

Na primeira vez que vi os salmões atirando-se contra pedras e caindo nas garras de ursos, acreditei que estavam cometendo suicídio. Na época, explicaram-me que eles voltavam todo ano ao lugar em que nasceram, para procriarem. Também disseram que, para chegar, precisavam subir o rio, nadar contra a correnteza e enfrentar todos os perigos.

Atualmente, como o maior perigo tornou-se a água, corrosiva, os salmões, implorando por uma morte rápida, saltam mirando a boca dos ursos.

28 de fevereiro de 2009

Democrático

Dou filé para quem mastiga
e purê para quem engole

Só não escrevo para quem tem preguiça de pensar

27 de fevereiro de 2009

Instável

Nos bairros ricos, os morros sorriem, com seus dentes de concreto, sustentando os lábios para que não beijem os prédios.

Nos pobres, os morros choram, rios de lágrimas, levando tudo que encontram pelo caminho.

26 de fevereiro de 2009

Acasalamento

Na época do acasalamento, os machos enfeitam-se e emitem melodias repetitivas em alto volume, com a intenção de impressionar e atrair as fêmeas.

Devido à elevação na quantidade de hormônios, ficam também mais agressivos. Sendo assim, se outro macho estacionar ao lado, com o som mais alto, acabam por duelar, em alguns casos, até a morte.

25 de fevereiro de 2009

Impunes

Os direitos de um indivíduo costumavam ir até os direitos de outros indivíduos.

No trânsito, as coisas mudaram. Os direitos dos indivíduos vão, no máximo, até o meio-fio.

Uma vez na rua, reina a lei dos automóveis, implacáveis, que passam por cima dos que ousam ferir o seu sagrado direito de ir e vir.

24 de fevereiro de 2009

Engasgue

Colecionava rancores. Vivia guardando-os numa caixa, escondidos debaixo da cama. Com o tempo, a caixa ficou pequena, os rancores espalharam-se pelo chão e ele teve que começar a se desfazer de outras coisas, menos importantes, para abrir espaço.

A situação ainda era suportável quando decidiu levar para casa os desaforos. Em pouco tempo a casa ficou tomada de rancores e desaforos. Não se abria uma porta ou gaveta sem dar de cara com alguns. Inevitavelmente, acabou ficando só. Não se importou muito, afinal, da separação sobraram um bocado de espaço e alguns itens para a coleção.

Ao final de seus dias, não conseguia mais sair de casa, a porta estava bloqueada. Morreu sufocado, com tudo aquilo que não disse.

23 de fevereiro de 2009

Revés

Idealista, queria dar oportunidade a todos

Esquecendo-se de si próprio, deu chance ao azar

22 de fevereiro de 2009

Don Quixote 2

Em meio ao calor sobrehumano, ao cair das primeiras gotas, fecha os olhos, abre os braços e sente que alguém lá de cima, uma vez na vida, atendeu os seus anseios.

Lá de cima, observando a cena, o empresário ordena à secretária que chame o técnico, para consertar logo o vazamento do ar.

21 de fevereiro de 2009

Don Quixote

Após uma jornada cansativa, de duras batalhas, voltando ao seu lar, vê as damas nas janelas dos castelos, acenando com seus lenços. Diante daquela cena, sente-se realizado e sorri.

As moças debruçadas nas janelas, estendendo roupas no varal, sorriem de volta.

20 de fevereiro de 2009

Guerra dos quatro dias

Os tambores convocam para a batalha. Na linha de frente, seguem os soldados mais bem treinados. Em veículos bem equipados, os mais experientes comandam a invasão, os avanços e as retiradas.

Ao final da guerra, os vencedores desfilam. Os vencidos sambam.

19 de fevereiro de 2009

Pares

Andam em meio a milhares de outros, todos tão sós, isolados. Remoem a solidão enquanto percorrem o chão da cidade. Nunca se trombam e dificilmente se cruzam, sentem medo dos outros. Exibem este medo enquanto percorrem todos os detalhes e desviam apenas de seus pares.

Embora pareçam tão inertes, quando se encontram ao acaso, os olhares, excitados, resolvem provocar os sorrisos.

18 de fevereiro de 2009

Minimalismo

Tela sobre papelão, de José e esposa
Lona sobre cabos de vassoura, de Aparecida e filhos
Jornal sobre calçada, de Maria e filha

Muito pouco sobre quase nada
A dura arte de sobreviver

17 de fevereiro de 2009

Toca do coelho

Alucinado, cercado por sorrisos falsos, acreditou que estava entrando na toca do coelho

Descobriu tarde demais que se tratava de um ninho de cobras

16 de fevereiro de 2009

Direitos

Não importava o local em que parasse, sempre acabava acossado e expulso

Sem ter onde ficar, ir e vir tornou-se obrigação

15 de fevereiro de 2009

Ordem mundial

Nos bastidores do poder, a cada dia é estabelecida uma nova ordem

Alguns dão a ordem

A maioria apenas abaixa a cabeça e obedece

14 de fevereiro de 2009

Consumismo desenfreado

Após um século de consumo excessivo, notaram que o consumismo não se tratava da capacidade delas de consumir produtos.

Perceberam tardiamente, quando os estoques já estavam escassos, que se tratava da capacidade das empresas de consumi-las.

13 de fevereiro de 2009

Exemplo

No Japão feudal, os homens que perdiam a honra eram condenados pela sociedade e executavam a própria pena

No Brasil atual, os desonrados nem ao menos sentem pena da sociedade que condenam

12 de fevereiro de 2009

Poesia oca

Escrevia, com rimas e floreios, sobre os próprios sentimentos

Transcrevia emoções com perfeição

Infelizmente, na maioria das vezes, sentia-se vazio

11 de fevereiro de 2009

Má companhia

Não tem olhos nem ouvidos, mas possui uma língua muito afiada

Mesmo sem ver ou ouvir nada, tira conclusões precipitadas e espalha acusações caluniosas

Quando percebi que via apenas os espinhos nas rosas, abandonei a Paranóia

10 de fevereiro de 2009

Testemunha

Às vezes, fecho os olhos

Sobretudo para não ver
tudo que os outros não querem
nem ouvir falar sobre

9 de fevereiro de 2009

Destino

Separou o dinheiro, fez o sinal e, após a parada total, subiu as escadas. Antes do ônibus partir, perguntou ao condutor:

- Esse ônibus vai para onde?

- Vai para onde você está indo.

Na hora, não soube dizer se ele estava sendo irônico. Ainda assim, seguiu viagem.

8 de fevereiro de 2009

6 de fevereiro de 2009

Distinto

O vento começa a soprar mais forte e as árvores balançam desesperadas, incapazes de fugir do temporal. Os pássaros escondem-se rapidamente enquanto os carros, também apressados, enfileiram-se pelas ruas, buzinando, desesperados como as árvores.

Enquanto isso, dentro de casa, ela repara de longe naquele sorriso e ouve o que já pressentia:

- Mãe, posso tomar banho de chuva?

5 de fevereiro de 2009

Terapia de casal

Puxou-a pelos cabelos e acertou um gancho em seu queixo. Ela não deixou barato, acertou um chute no rosto e mais alguns socos.

Brigaram e se xingaram até cairem ao chão em frente ao sofá. Abraçados, rolando pelo tapete, entrelaçaram-se nos cabos do videogame.

4 de fevereiro de 2009

Sufocada

Presa naquela relação, rotina de brigas e discussões, começou a sentir-se sufocada. Não tinha voz e, por mais que resistisse, acabou sem ação.

Ironicamente, ela adorava sentir o cheiro dele naquele travesseiro.

3 de fevereiro de 2009

Colecionando

A cada dúvida ou problema
parava, pensava e agia

Respostas,
não tinha uma sequer

No entanto,
colecionava hipóteses

e possíveis soluções

2 de fevereiro de 2009

1 de fevereiro de 2009

Anexo

Às vezes, a alma ferida se contrai

E o corpo, puxado por ela, encolhe-se em um canto

31 de janeiro de 2009

Deficiente

Ao sair do carro andando apressado, após estacionar na vaga exclusiva, foi abordado por um sujeito que lhe avisou:

- Não sei se o senhor sabe, mas esta vaga não é destinada a quem possui apenas deficiência de caráter.

Ao ouvir isso, deixou cair ao chão toda a hipocrisia que vinha carregando e, percebendo-se pela primeira vez através dos olhos com que julgava os outros, condenou-se à vergonha.

30 de janeiro de 2009

Sem senso

Embriagado por elogios falsos, acreditava-se um difusor de ironia destilada


Talvez por ser tão inteligente e sutil
Quanto um bêbado chegando em casa, tropeçando na própria calça

29 de janeiro de 2009

Pânico

Correram para dentro de casa enquanto o portão batia aos fundos. Em seguida, percorreram todos os cantos trancando portas e janelas, cobrindo toda e qualquer fresta.

Quando enfim sentiram-se seguros, sentaram-se no sofá da sala e ligaram a televisão. Erro fatal, foi aí que a crise entrou.

27 de janeiro de 2009

26 de janeiro de 2009

Rascunho

Circulando e chacoalhando
com traço virando rabisco

Percebeu de forma tardia

no ônibus não sai poesia

25 de janeiro de 2009

24 de janeiro de 2009

Estética do lixo

Solto com delicadeza
como se fosse invisível

Ninguém repara na sutileza

do lixo jogado ao chão

23 de janeiro de 2009

Colateral

Bebeu para afogar as mágoas

As mágoas, sem outra opção, fugiram para o ponto mais alto

No dia seguinte, ao acordar, sentiu a cabeça prestes a explodir

22 de janeiro de 2009

Queda de braço

Seguramos as mãos e eu puxei para o meu lado com todas as forças

Após muito esforço, sem sucesso, desisti. Assistimos a comédia romântica

21 de janeiro de 2009

Levado

Plenamente satisfeito, ele usava as mãos para brincar com o que havia sobrado

Ela, esgotada, reclamava:

- Para! Tá sensível...

20 de janeiro de 2009

19 de janeiro de 2009

17 de janeiro de 2009

Pai

Ao vê-la montada naquele cisne, autocoroando-se rainha do lago, esqueceu a discussão pelo preço do pedalinho.

16 de janeiro de 2009

Vigilante

Na Lagoa, a garotinha olhou bem para o Cristo e, percebendo-se fora do alcance, aproveitou para jogar lixo ao chão.

O pai dela, atento, logo avisou:

- Ele tem olhos até na nuca!

14 de janeiro de 2009

Herói

Cansado de ver os livros de história tomados por reis e papas, nobres e distintos saqueadores, fez história com as próprias mãos.

11 de janeiro de 2009

Relativo

Quando estava indo ao encontro dela, o relógio andava aos trancos, com muito esforço, como se pequenos demônios estivessem pendurados no ponteiro dos minutos.

Na hora de partir, os pequenos malditos mudaram de lado.