5 de agosto de 2015

Passadismo II

Naqueles tempos
havia respeito

cabeças baixas
e olhos estáticos

- mirando o chão

E ai de quem ousasse

4 de agosto de 2015

Passadismo

Naqueles tempos
havia certezas

indiscutíveis
absolutas

- intocáveis

E ai de quem ousasse


3 de agosto de 2015

Atropelado

Havia um sujeito à frente de seu tempo

Mas um dia, as costas reclamaram
As pernas, cansadas, suplicaram

Enquanto o tempo seguiu, implacável

30 de julho de 2015

Pústula

Um estado febril
- em chamas

queimando-se por dentro
- em delírios paranoicos

e o pior de tudo:

não há qualquer
previsão de cura








29 de julho de 2015

Agregado

Segue-se o fluxo
a correnteza

que nivela os vales
- por baixo

segue-se
sem esforço

na ilusão
de progresso

inércia de tolos




28 de julho de 2015

Comunicado

Informação é matéria bruta: o estado primitivo do conceito. E são variados os processos de formação de conceito: fundição, decantação, destilação, filtragem, lapidação, fusão, fissão, arranjo e combinação, entre tantas outras possibilidades inventadas ou ainda por inventar - cada dia há novos experimentos.

Cada um dos processos, no entanto, depende sempre da intervenção de um sujeito e, em cada um deles, se fazem necessários os devidos cuidados, especialmente em relação à interpretação. Há por aí as mais diversas espécies, cada qual com suas habilidades - específicas ou generalistas, de alquimistas, forjadores, lapidadores, manufatores, artesãos e, também, infelizmente, de falsários.

Como consequência da multiplicidade de processos e de sujeitos, há no mercado de discursos conceitos de diferentes qualidades.

Levando em conta este contexto, e os riscos de ser passado para trás, se faz necessário tornar-se capaz de manusear informações, para que se possa criar os próprios conceitos e, também, para poder avaliar a banca de discursos: a cada conceito que lhe é apresentado, é preciso saber notar qual foi o processo que levou até ele, qual foi o sujeito que o criou, com qual intenção e com que cuidados - para não contaminá-lo. Caso contrário, pode-se acabar adquirindo, por ignorância ou simples descuido, um arremedo rudimentar, uma pérola falaciosa, dessas que não servem nem para peso de papel, muito menos para sair exibindo em público.

27 de julho de 2015

Desestímulo

Transformam-se
sonhos gastos

em planos concretos

e metas determinadas

de longo prazo
- a perder de vista


Desilusão

é pulsão de vida
- esfacelada

mas que ainda pulsa




24 de julho de 2015

Frida

A dor constante
marcava no corpo

o passar do tempo


Consciente de cada instante

não deixava nenhum
- qualquer que fosse

passar em branco

23 de julho de 2015

Referências

Não são pessoas
ou nomes

Não são figuras
no livro de história


São vultos
que ainda percorrem ruas

São ecos
que ainda atravessam gargantas

São ideias
que ainda sangram

- e nunca serão
estancadas


Meus heróis
não viraram estátuas

22 de julho de 2015

O brado

Ampliou-se o debate
e não tem mais volta

Mas, ao olhar adiante
não há quem siga inalterado

entre gritos
de histeria

protestos
esquizofrênicos

e ecos de murmúrios

21 de julho de 2015

Término

O fim do relacionamento foi conturbado.
Passou horas lavando a roupa suja; Mas o sangue não saia.

20 de julho de 2015

Conformes

Não abro mão

de minhas ambições
à mediocridade

das depravações
do cidadão comum

e das catarses
de hipocrisia

- que nos redimem
aos finais de semana

17 de julho de 2015

Erosão

A vida
- açoite constante

tal correnteza
fria e cortante

que nos molda

em vales profundos

16 de julho de 2015

Reconhecimento

Iludem-se os poetas

com promessas
nunca feitas

de permanência póstuma

de algo além da obra
- destilada
em uma ideia pura

agarram-se com firmeza
a um conceito
- distorcido
de autoria

como quem produz
uma foto da paisagem

e se quer reconhecido
até o fim dos dias

por ter criado o horizonte

15 de julho de 2015

Dissociativo

Vieram todos, juntos, de surpresa. Confesso que, a princípio, fiquei extremamente ansioso, pois não estou acostumado a receber visita por estas bandas. Pedi, como se adiantasse, para que não reparassem na bagunça.
A mulher sem rosto, que normalmente me encontra em quartos escuros, está fumando na sacada, com seu costumeiro silêncio de agonia. Quando tento cumprimentá-la, dou sempre de cara com as costas, a nuca, cabelos esvoaçantes ou nuvens de fumaça. Como sempre, desisto.
Mais relaxado, observo meus antigos amores, que se reúnem na sala, revirando as gavetas mais profundas e expondo aos convidados, conhecidos ou desconhecidos (penetras? talvez figurantes) relíquias de momentos embaraçosos da minha história. Sorrio, ainda que constrangido.
No quarto, detenho-me por algum tempo em deleites e prazeres, quase esqueço-me de todo o resto.
Na biblioteca deparo-me com ilustríssimas estátuas, com as quais dialogo sem que possam responder-me, ou ao menos acenar quando os interpreto corretamente, franzir o cenho quando me equivoco. Ali, dividem espaço com os livros, filmes e com um definhante jardim de inverno, que cultivo com muito esmero, sempre que convém.
Sigo para o escritório. Ao acender a luz, meu olhos demoram um pouco para identificá-la: mas ali está  a paranoia, insone, olhos vermelhos, mãos trêmulas; Ela me olha de volta, e logo sou eu que tremo. Na tela do computador, uma cena da qual não consigo desviar o olhar: um leito de hospital, repleto de aparelhos, luzes de LED, tubos, respiradores, bipes, alimentadores. Confuso, quero esfregar os olhos, mas não consigo; Minhas mãos inertes, ao meu lado na cama, nem sequer tremem. Medo é o que não falta.

14 de julho de 2015

Estalactites

A princípio
eram apenas
ideias gotejando

com o tempo
calcificaram-se

em conceitos
pontiagudos

inconstantes
- e temerários


13 de julho de 2015

Jogo de Dominó

A vida

sequência
- incessante
de guinadas repentinas

a cada rodada
caminhos se abrem
- e se fecham

enquanto houver peças
eu jogo

se não me encaixo
passo

- e nunca mais volto








10 de julho de 2015

Trincheira

Vociferava, eloquente

cortando
- com as mãos

os ares


Em discursos inflamados

trazendo à tona
- das profundezas

os maus presságios


Era um soldado idealista
travando guerra de trincheira

- contra inimigos invisíveis




9 de julho de 2015

Jardim zen

Trancado em si
durante o inverno

passava as tardes
- com todo cuidado

cultivando tédios




8 de julho de 2015

Apartamento

Silenciosa
e desconfiada

um tanto arisca

e até mesmo
um pouco hostil


mas, por enquanto
apenas me observa

- da outra ponta da mesa

a tua ausência

7 de julho de 2015

Termodinâmica

Em meio à discussão

não adianta de nada
tentar medir palavras


pois que palavra
é matéria-viva


que, com muito calor

se dilata

6 de julho de 2015

Prudência

Tome cuidado

para não pisar-me
em falso

andando assim
- de pés descalços

sobre os cacos
de meus anseios

4 de julho de 2015

Secos e mirrados

Foi para as ruas
com uma flor na boca

e foi recebida
pela chuva

- de bombas

quebraram-lhe
os dentes

e asfaltaram
a primavera

2 de julho de 2015

Sustentabilidade

Um mundo que se consome
sem qualquer desperdício

multidões em fila

como formigas
- limpando ossos

1 de julho de 2015

30 de junho de 2015

Escancarados

A cada vez que se abrem
demoram mais a se fechar

os velhos portões
- enferrujados


E cada vez que se abrem
pequenos demônios escapam

já não sou mais
capaz de contá-los
- contê-los

pequenos demônios
que assombram-me

em sonhos
- assustadoramente
realistas

26 de junho de 2015

Drama

Dormindo no palco

do teatro
a céu aberto

representava
- todas as noites

a mesma tragédia

25 de junho de 2015

24 de junho de 2015

Fátuo

Cada amor
um barco à deriva

guiando-se
pelo brilho
de estrelas

que ninguém sabe

se ainda existem

23 de junho de 2015

22 de junho de 2015

Herança

Pouco importam
os quatro

seis
ou oito

que carregarão
o caixão


os que tem relevância
são os poucos

tantos
outros

que ecoarão
as memórias

19 de junho de 2015

18 de junho de 2015

Descaminhos

O progresso pela ordem
tem limites bem definidos

para ir além
- ao impossível

é preciso recorrer ao caos

17 de junho de 2015

Irracionalidade

Há de chegar um tempo

de consciência
e de paz na Terra

quando restar desprovida
de sentido e coerência

a expressão: "herói de guerra"

15 de junho de 2015

12 de junho de 2015

11 de junho de 2015

Desbravadores

Somos nós os pioneiros
de cada dia e contexto

e pobre do sujeito

que acredita
- estagnado

na existência
de um mundo estável

10 de junho de 2015

Magia

Há mais mistérios

entre as teclas do piano
e a melodia

entre as curvas do trompete
e o compasso

entre os furos da gaita
e a harmonia

do que podem imaginar
nossos pés descalços

9 de junho de 2015

Diferente

A apresentadora, buscando conscientizar a população a respeito da tolerância com as diferenças, questionou a mãe:
— Quando foi que a senhora percebeu que ele era diferente dos outros meninos?
Ainda visivelmente abalada, provavelmente sob o efeito de medicamentos para amenizar as dores, ela respondeu:
— Há muito tempo, muito tempo. E foi muito dolorido, mais para ele do que para mim. A gente só passou a ser mãe e filho mesmo — a voz começou a ficar embargada, o choro já retornava — quando eu percebi, finalmente, que ele era igualzinho a todos os outros meninos, que merecia todo meu amor... — acolhida por um abraço da constrangida entrevistadora, ela não conseguiu concluir a fala.

8 de junho de 2015

Território da Discórdia

Dali ao horizonte
não havia sequer promessas

apenas raízes mortas
irrompendo da terra seca

5 de junho de 2015

Desaperto

Sábias são as gaivotas

que todo dia se reúnem
- na beira da praia

para ver o pôr do sol

4 de junho de 2015

Oferenda

Na ressaca da virada
após um ano corrido

eis que vem flutuando
plácida e imaculada

uma rosa branca
devolvida pelo mar

3 de junho de 2015

Padre Sísifo

Não deixava de ir às ruas um só dia, visita fazendas, comércios, empresas, a prefeitura e as praças; sempre com as mãos estendidas em ambos os sentidos: em auxílio e por auxílio. Enquanto estava na rua, mantinha uma caixa de aço, com cadeado bem fechado, na capela simplória, contruída pelo antigo coronel, para o caso de aparecem fiéis afeitos a uma benevolência.

Penosamente tirava o sustento de si próprio e dos necessitados. Mal dava para as contas do mês e os apetites da rotina, tanto menos para as economias. E ele passou anos a anos nesta sina: recolhendo esmolas miúdas, para construir uma igreja impossível.

2 de junho de 2015

Espreita

Gaviões planando
sobre areia escaldante

esperando que os sonhos
saiam da toca

1 de junho de 2015

Sinestesia

Encosto uma concha
na orelha

para ouvir o mar


E recosto a cabeça
no teu colo

para ver estrelas

29 de maio de 2015

Supremacia

A iluminação pública
- e seus delírios de grandeza

ofuscando milhões de estrelas

28 de maio de 2015

Barrados

Como pássaros iludidos

que se arrebentam
- afoitos

em paredes de vidro

27 de maio de 2015

Distopia

Eis aqui um mundo pequeno

formado pela mera combinação
- autoritária

de 26 letras

26 de maio de 2015

25 de maio de 2015

22 de maio de 2015

Que arde

Vivemos em tempos duros
de homens amargos
sufocados por crenças brutas

em que o amor
é insulto

e a violência da turba
- desafogo de rotina

é a cura

23 de fevereiro de 2015

Recriação

Um sábado qualquer, dia de folga, Ele resolveu ir a Recife, Pernambuco, e seguiu direto à oficina de Brennand, o ceramista.

Chegando lá, admirado com as obras em barro-e-água, estarrecido com a quantidade de detalhes, estancou os pés no chão e suspirou.

Levou horas para desfazer toda a confusão

20 de janeiro de 2015

Destino

Quando, enfim, o choro da criança cessou, abafado, todos seguiram viagem aliviados. Alguns, para voltar a dormir, ajeitaram-se nas poltronas, com as pernas sob as mantas demasiado curtas e as cabeças recostadas nos travesseiros espalmados cedidos pela viação.

Os motores continuaram ressoando, constantes e diligentes, adentrando a madrugada. Os faróis na direção contrária, cada vez mais escassos, atiravam-se sobre algum detalhe do acabamento interno e, vez ou outra, refletiam em ameaças ao sono dos mais sensíveis.

Pela manhã, aproximando-se da região metropolitana, iniciou-se a romaria à porta do motorista, seguida pelos desembarques antecipados, em postos de gasolina, passarelas e semáforos.

Ao chegar à rodoviária, os passageiros restantes desembarcaram, pegaram suas malas e seguiram seus destinos. Nas poltronas e no chão, garrafas e embalagens vazias; Enrolado em uma manta, o corpo mirrado.

17 de novembro de 2014

Democracia 1.0

Simpaticíssimos sociopatas
são aclamados

por contagiantes aplausos

que se iniciam e se encerram
pela inércia coercitiva

da euforia coletiva

16 de novembro de 2014

8 de novembro de 2014

Tradição

Eis, então
o inabalável ciclo da vida:

crescer
morrer

e, após o sangue secar
esfolar aquele maldito

vingar o ente querido

cujos olhos inertes
- refletem o meu destino


--


Foi então que se apresentou, diante de mim, o inabalável ciclo da vida: nascer, crescer e matar ou morrer.

Após o sangue secar, vou esfolar aquele maldito.

Vingarei meu ente querido; cujos olhos inertes, turvos, refletem o meu destino.

3 de novembro de 2014

O princípio

Um utópico saudodista
de tempos inenarráveis

quando memórias
se desfaziam
feito fagulhas esvoaçantes

cada momento
uma novidade

e a linguagem
- em sua aurora

um jogo de adivinhar


28 de setembro de 2014

Rascunhos

Há sempre espaço

para mais um traço
- de medo

uma sombra
- de dúvida

ou um contorno
- de hesitação


os riscos incertos
de um sujeito rascunho


um homem só fica pronto
- imutável

quando morto

27 de setembro de 2014

10 de setembro de 2014

Remanescente

Segui ao lado da maca, incrédulo. Na chegada ao hospital, ao abrir a porta da ambulância, deparei-me com aqueles olhos angustiados, olhos de mãe, e não soube o que dizer.

Quando desci ainda estava desnorteado. Senti enjoo. Ao entrar no banheiro, deparei-me com aqueles olhos distantes, que não pareciam meus, as mãos trêmulas, sob as quais não tinha qualquer controle. Passei a língua pelos dentes trincados, com uma aspereza alheia à boca, tal qual o gosto de sangue, e tentei vomitar. Não consegui, nada havia para sair.

Nos dias que se seguiram, tentei manter o controle, como se normal fosse, superado estivesse. Os sorrisos, no entanto, tornaram-se reflexos mecânicos, autônomos mecanismos de defesa. As falas já não me pertenciam, resumiam-se a grunhidos, respostas vagas ou reles perguntas retóricas.

Apesar de tudo isso, as ausências mais sentidas foram das ilusões, tomadas de minhas mãos, e das ainda incertas, mas já ceifadas, esperanças; Nada como uma tragédia para deixar um sujeito mais amargo.

4 de setembro de 2014

3 de setembro de 2014

Passageiro

Em cada estrada
rua ou viela

em cada quarto de hotel
albergue ou pousada

em cada praia
museu ou parque

nas caminhadas
- a cada passo

cada vez que me desvio

encontro-o
fitando-me

o amor derradeiro

2 de setembro de 2014

Orgânico

Pouco lhe importava o palco, o som, a vibe. Apenas observava os rostos sorridentes a bloquear-lhe o caminho e o riso afoito daqueles que nele esbarravam sem sequer percebê-lo

Pisou na lata com força antes de colocá-la na sacola; Já não sentia raiva, era outra coisa

1 de setembro de 2014

Casa de repouso

- Já deu dez horas? - Ela perguntou, atravessando-me o olhar

Voltando as atenções ao portão de entrada, completou:
- Minha filha vem me buscar às dez

E aqueles olhos esperançosos, persistentes, devastaram-me

30 de agosto de 2014

Conversor

A ambição desenfreada
ganhou ares de determinação

E aquela inércia preguiçosa
tornou-se ponderação

Enquanto o sujeito desbocado
coroou-se, sem nem corar-se, “de personalidade forte”

Na entrevista para um ofício
converte-se, em virtude, cada vício

26 de julho de 2014

Via expressa

A luta pelo espaço

entre as faixas
nas filas do semáforo


os choques inevitáveis

e os faróis quebrados
para-choques amassados


os surtos instintivos

xingamentos, ameaças
socos ou tiros

e gritos


Tudo aquilo que calamos

a via expressa


24 de julho de 2014

Tentação

E os tolos continuam
a comprar maçãs mordidas

que logo perecem
- amareladas

enquanto outras florescem
- vermelhas e lustradas

em galhos mais altos

28 de maio de 2014

Passado

Na caixa de sapatos
no fundo da gaveta

cartas e bilhetes
uma foto 3 por 4

e embalagens vazias

papel presente
- amarelado


fósseis de um amor antigo



22 de maio de 2014

Lapso

Naquela noite, prepararam a mesa para quatro.

Quando sentaram-se para jantar e perceberam o ato falho, trocaram olhares desconsolados e marejados.

Não fizeram qualquer oração, mal tocaram a comida e dispersaram-se pela casa, entre prantos e silêncios. Cada um tentava, à sua maneira, lidar com a perda.




14 de abril de 2014

Legado

Nossos filhos vão lutar
por nossa herança


Herança maldita
da intolerância
da fome 
da sede 
e das pestes



Dark Future, por Dennis Bautista

12 de abril de 2014

Orgânico

Elemento
que se molda
e adapta-se

tomando formas distintas


que se conecta
e funde-se

forjando vínculos e compostos


que se decompõe
e purifica-se

regressando a sua essência


e que, sem cessar
se reconstrói
- a partir das cinzas

do pó de grafite

ao diamante

6 de abril de 2014

5 de abril de 2014

Microcrônicas #1 - Pombos, peixes e outros espécimes

Vez por outra, recebemos olhares enviesados apenas por demonstrar simpatia por determinado autor, músico, banda, cineasta, grupo de teatro, entre outros; ora porque ninguém mais aguenta os seguidores, ora porque ninguém mais aguenta os seguidos. Neste momento desconfortável, já somos rotulados, com aquele ar superior e debochado, de "fã-de-tal-coisa", "o-que-quer-que-seja-zete". E, se negarmos a pecha, apontam que a negação e qualquer discussão posterior confirmam, precisamente, que estavam certos.

Não há quem conteste que há fãs maníaco-eufóricos-pé-no-saco, daqueles que defendem os ídolos como se irmãos - e tem até gente que sai por aí pregando humildade e diversos feitos e milagres, sem sequer ter trocado duas palavras com estas supostas entidades. Mas, não se pode generalizar: a simpatia em torno de uma obra não pressupõe, automaticamente, a submissão incontestável e incondicional à adoração por aqueles que a criaram. Afinal de contas, não é por gostar de pipoca que sou como os pombos, que engolem qualquer migalha ou caroço com que se depararam Ou como os peixes, desesperados, que mal diferenciam pedaço de pão e cuspe.

Fica, então, o aviso aos que tem sempre em mãos um punhado de alfinetes e etiquetas, prontos para alfinetar e categorizar seres humanos em suas restritas coleções de espécimes: a vida é feita de escolhas, mas a personalidade vai muito além disso, e sua variedade de facetas não se enquadra em qualquer esquema de organização, por mais metódico que seja.

30 de março de 2014

28 de março de 2014

Esvoaçantes

Dispenso as honrarias
de homem honesto e trabalhador

Dispenso as pompas
de empenhado idealista 

Dispenso os discursos sérios
- e as lembranças em traços fortes


Que evoquem apenas
memórias difusas

de tempos esvoaçantes


E que me escrevam na lápide:

"Correu entre varais estendidos"

14 de março de 2014

Insustentável

Para obter o papel do livro
derrubou a árvore, aquela

E quando, enfim, veio o filho

já não restava muito mundo




8 de março de 2014

Lusco-fusco

No alvorecer dos sonhos
ante o crepúsculo da consciência

na insólita fusão
do céu sob sol e lua


eis é que despontam

desentocadas
- ainda ariscas
as mais fascinantes ideias

que, infelizmente
se perdem

num farfalhar de lençóis

25 de fevereiro de 2014

4 de fevereiro de 2014

Devaneios

Eu ainda era muito pequeno, mas já sabia que eles circulavam por aí, ao nosso redor, ainda que invisíveis.

A princípio, contentava-me em tentar alcançá-los nos raros momentos em que se revelavam, mas, com o tempo, descobri uma maneira de deixá-los expostos: bastava cobrir-lhes de água.

E foi então que comecei, fizesse chuva ou sol, a partir em audaciosas expedições, munido de uma mochila com ferramentas (tesoura, cola e grampeador), kit de primeiros socorros (band-aid e merthiolate), um borrifador, um pequeno carretel de barbante e imensas expectativas. Bem equipado, eu seguia para a beirada do lago e preparava engenhosas armadilhas e traquitanas, cada vez mais enroladas e confusas.

Nunca consegui capturar nenhum, nem chegava perto disso; Mas sempre voltei para casa repleto de histórias para contar, radiante, e com os passos firmes e a postura altiva de um grande caçador de arco-íris.

30 de janeiro de 2014

Domínio da arte

Atado pelas mãos e pescoço, move-se contido, mas com precisão, e sorri.

Mal sabe ele que é apenas marionete, à mercê do violino.






29 de janeiro de 2014

Quimeras

De tempos em tempos, encontro-me diante destas criaturas míticas: quimeras íntimas.

Metade desconhecidas; A outra, amores antigos.











17 de janeiro de 2014

Miragens

Não adianta tentar iludir-me

Já conheço esta cidade 

repleta de homens
atirados aos cantos 

- falando sozinhos


com as mãos
cheias de esperança


e as pernas

cobertas de feridas





11 de janeiro de 2014

Indescritível

Quando abri a porta, ela ainda estava secando as pernas: com o pé direito sobre o assento da privada, esfregava-o com uma ponta da toalha enquanto a outra ponta repousava leve e casualmente sobre a coxa.
O que mais me chamava atenção, no entanto, era o vapor inebriante que se condensava pelas paredes, pelo espelho, e que me tomava de assalto durante os intervalos infindáveis entre uma inspiração e outra. E eu queria guardá-lo, registrá-lo de alguma forma, mas não era capaz de descrevê-lo, de destilá-lo em minhas memórias. Aquele era o aroma do desejo, e eu não admitiria perdê-lo.

14 de dezembro de 2013

Polida

Em meio à profunda angústia, abriu a torneira e permaneceu estática, observando o fluxo. Após alguns instantes, pegou a esponja, o detergente e lavou a louça, com todo cuidado, deixando correr água em abundância.

Aquela era sua fuga. Pensava que ninguém faria uma loucura depois de lavar a louça: pareceria estúpida quando encontrassem o corpo.

28 de setembro de 2013

Fluxo

O rio das memórias
percorre os vales do tempo

mas desemboca, inevitável

nos mares do esquecimento

18 de agosto de 2013

Promissória

Toda promessa
tem outra face

- tal qual moeda
de troca

Toda promessa
carrega nas costas

uma cobrança compulsória

17 de agosto de 2013

Ímpeto

Aquela paixão
- todos diziam
era atraso de vida


o que ninguém sabia

é que não tenho pressa







2013 - Selecionada no 4º Prêmio TOC140 de Poesia no Twitter - Festa Literária Internacional de Pernambuco - Olinda - PE;

11 de agosto de 2013

Redentor

Capturado pelos soldados, pagou com a vida por pecados alheios

Depois de três dias, não havia qualquer sinal do corpo - nenhuma notícia

A família continua buscando respostas







* Este texto foi rabiscado no caderninho quando eu ainda estava morando no Rio. Ao passar a limpo as anotações, fiquei até confuso, pois foi impossível não relacioná-lo ao caso mais recente, do pedreiro Amarildo, "desaparecido" pelos soldados da PM na Rochinha.

6 de agosto de 2013

Veredas

Caminhava a passos vagos
por noites esquecidas

e para marcar a trilha
- e retornar durante o dia

deixava pra trás um rastro

de migalhas do passado

24 de julho de 2013

Tributos

Guarde contigo
entre os dedos

bem contido
- como segredo

o ouro de que nos priva


Na barca de Caronte

pagará
- por teus pecados

o excesso de bagagem

15 de julho de 2013

Viajante

Trago nas mãos um mapa
de cento e sete cidades

- fundidas em uma metrópole


Na mochila, coleções
de tantos rostos e nomes

- que nunca, nunca se completam


No bolso de trás, um livro
com todas as histórias

- que ninguém vai escrever


E, por fim, embrulhadas em jornal, conservas
de momentos preciosos

- para saciar a tristeza
nas noites mais longas do inverno

6 de julho de 2013

O último choro

O brilho dos teus olhos

tal gota de orvalho
que escorre

- pelos veios da folha

e atira-se ao chão

28 de abril de 2013

23 de abril de 2013

Apreensivo

Envolto num casulo

receio se seda
- ou teia

Interrogado,
respondo:


Não temo nada


salvo

quando estou ao teu lado

31 de março de 2013

Frágil

Não era um sorriso amarelo
- tampouco branco

tinha cor de porcelana antiga

e era tímido
- contido

como se fosse frágil

25 de março de 2013

23 de março de 2013

Geometria do discurso

Nos debates cotidianos
eis o que tenho notado:

os círculos
[sociais]
estão cada vez mais quadrados







Dica de leitura:
Roland Barthes - Aula

22 de março de 2013

Sincronia

Em ritmos distintos
caminhávamos nos afastando

Entretanto, após algum tempo
tendemos a nos encontrar

- nas horas exatas

em momentos marcados

tal qual ponteiros
tiquetaqueando
no mesmo relógio

21 de março de 2013

18 de março de 2013

Decomposto

Produzia uma prosa ácida
- corrosiva


E com o tempo
ao dissolver-se

não restariam quaisquer traços

14 de março de 2013

Carrasco de sandices

Mantenho centenas encarceradas
em espaço diminuto

umas mortas há tempos
e outras que ainda gritam

muitas desesperadas
algumas, esperançosas

de um dia sair do bloco

do caderno de anotações
- calabouço de inspirações

13 de março de 2013

Ribeirinho

Da porta de seu casebre
protestava, ainda perplexo:

E essa gente estudiosa
- com diploma e tudo mais

vem me dizer agora
sem nem vergonha na cara

que há um nível tolerável

de merda na minha água

10 de março de 2013

Tão perto, tão longe

- Aquele copo estava meio suspeito. Eu tive um mau pressentimento, mas estávamos em uma festa, entre amigos, o que podia dar errado?

Aqueles olhos ariscos fitaram-me pela primeira vez após meses

- Tudo... deu tudo errado. Aquele nojento! Desgraçado...

As lágrimas começaram a jorrar em abundância. Levantei-me para abraçá-la e, de imediato, fui repelido por um gesto brusco. Ela recolheu-se a um canto do sofá. O silêncio da sala tornou-se denso. O espaço entre nós, um deserto.

28 de fevereiro de 2013

Obsoleto

Os frequentes atrasos e esquecimentos do antigo capelão já vinham provocando comentários desdenhosos pelas ruas e praças, mas, ainda assim, todos queriam proteger aquele símbolo secular.

Apesar dos protestos por toda a cidade, trocaram o velho sino de bronze por um equipamento eletrônico, programado para soar nas horas exatas, ditando o ritmo dos fiéis e do comércio. A centenária peça de bronze, no entanto, permaneceu na torre, pois, além da dificuldade para removê-la e de toda a história que representava, ela era um atrativo para os turistas que esporadicamente apareciam por lá.

De início, o responsável por manter a tradição, que não se pronunciou em qualquer das reuniões sobre a substituição, parecia estar aliviado do fardo de sua função. Mas, naquele domingo, durante a missa, começaram as badaladas incessantes.

Ante o presságio de uma tragédia, interrompemos a celebração e subimos pela escadaria em espiral, enquanto ainda ecoavam pela torre aqueles sons estridentes, agora mais esparsos. Ao chegarmos ao topo, desabamos em lamentos após notar, entre as cordas do badalo, os pés suspensos.

27 de fevereiro de 2013

Provento

Ele virou palhaço

mas era pouco ambicioso

inflava, orgulhoso

ao conquistar um riso fácil

25 de fevereiro de 2013

Ressaca

Nadava em esquecimento

mas submergia
- de tempos em tempos

nas águas turvas
- de memórias difusas

gerando redemoinhos
- em sonhos intranquilos

19 de fevereiro de 2013

Apreendidos

São pássaros da mesma espécie
- quase idênticos

diferenciam-se apenas
por um ponto bem específico:


voam livres as poesias

enquanto cantam
- em gaiolas

os poemas

4 de fevereiro de 2013

1 de fevereiro de 2013

Retrato falado

Era assustadoramente comum: não havia qualquer traço marcante; uma cicatriz que fosse, olhos faiscantes ou muito opacos, um tique, trejeito - nem ao menos um tom de voz ou respiração brusca que levantassem suspeitas

Havia apenas uma maldade incerta, dessas que se encontra em qualquer um

30 de janeiro de 2013

25 de janeiro de 2013

A nação da triste figura

E que não se espere
nada além da utopia

de um povo quixotesco

que surgiu heroicamente

bradando contra um rio de águas calmas

20 de janeiro de 2013

Dissimulado

O tempo segue

mas quando olho pra trás

por um instante

ele para
- disfarça







* trecho de minha autoria da poesia coletiva resultante do encontro anual do pessoal da comunidade concursos literários.

17 de janeiro de 2013

14 de janeiro de 2013

O grande domador

O dono do circo, ao perceber que os animais andavam meio desanimados, por terem sido da floresta retirados – e porque agora não conseguiam mais perceber e coletar os frutos de seus esforços, sabiamente repetia, de jaula em jaula, noite e dia, o lema que assim dizia:

– O trabalho dignifica o urso!

– O trabalho dignifica o leão!

– O trabalho dignifica o primata!

Em pouco tempo, os animais já haviam assimilado o ditado e, na porta do circo, os candidatos formavam fila: queriam trocar a insegurança da selva por um emprego fixo, uma jaula de janelas gradeadas e, vez ou outra, um bom prato de comida.

9 de janeiro de 2013

8 de janeiro de 2013

Réquiem para uma tia distante

Tia Isabel era uma cabecinha gorda sob um chapéu demasiado pequeno. Nas raras reuniões de família, falava pouco, sentava longe e nunca saía na primeira fila das fotos - nunca foi protagonista, nem quis ser.

Quando ela desapareceu, ninguém conseguiu encontrar uma boa foto de rosto para entregar à polícia e espalhar pelas redes sociais e e-mails dos amigos e conhecidos.

O corpo só foi encontrado depois de dias e, devido ao estado em que estava, fez-se o velório de caixão fechado. Havia apenas uma janelinha, através da qual se via o rosto - desfocado por um véu; bem como eu me lembrava.

6 de janeiro de 2013

Nenhuma luz

Inspirado por Huxley, Orwell e Bradbury, queria criar em seus escritos uma sociedade distópica.

Encontrou, no entanto, uma grande dificuldade: não conseguia imaginar, por mais que se esforçasse, algo muito pior do que a presente realidade.

5 de janeiro de 2013

Desapego

A floreira que emoldura
a mirada dos andarilhos

a fruta que amadurece
pra alimentar os passarinhos


poesia é semente que se planta

sem ter pretensão de colher

4 de janeiro de 2013

3 de janeiro de 2013

Intragável

Ele abriu o novo tablete e colocou sobre os restos da manteiga velha que resistiam no fundo da manteigueira, já arados pela faca de serra. Sabe-se lá há quanto tempo vinha fazendo isso.

Ela tentou comer, mas deixou a torrada no prato e o afastou sutilmente em direção ao centro da mesa. Tentou distrair-se lendo o jornal, mas ao tentar virar as páginas sentia como se estivesse com as pontas dos dedos oleosas, rançosas.

Quando ele levantou, já atrasado, e tentou beijá-la, o afastamento brusco, com o rosto virado para o lado, foi inevitável. O casamento acabou, de fato, naquele instante.

2 de janeiro de 2013

Sitiada

As primeiras folhas secas
crepitavam no fogo baixo

A fumaça, escura e densa
tomava forma de presságios

- o inverno encerrou a trégua -

E as portas tremulam
- reverberam irritadiças
pela iminente violência

Em breve marchará
- o exército do desespero
sobre as ruínas da consciência







Menção honrosa no 4º Prêmio Literário Sérgio Farina - Centro Cultural José Pedro Boéssio - São Leopoldo - RS

1 de janeiro de 2013

26 de novembro de 2012

Aspirações

Ela era da época em que se espalhava a sujeira pela casa com o espanador, tarefa árdua e que não resolvia o problema do pó, mas que, ao menos, ao dispersá-lo, tornava-o quase imperceptível, ignorável. Tal como o espanador, em relação aos outros problemas da casa e da família, bases às quais se resumia sua vida, dispersava as nuvens espessas com pensamentos e tarefas aleatórias, como testar uma nova receita, cuidar do jardim ou aprender as técnicas de ponto e cruz da revista que comprava sempre que ia ao mercado, um dos poucos pequenos prazeres aos quais ela permitia-se.
Nos trinta e cinco anos de casada, abriu mão de quase todas as suas aspirações. Desistiu da faculdade, da carreira de psicóloga, dos passeios pela praça aos domingos (incluindo o almoço fora e o sorvete, sem obrigação de cozinhar ou lavar louça), das viagens ao Pantanal e ao Nordeste, do cachorro, dos dois gatos e de muitos outros planos e desejos, todos dissipados. Além disso, fazia vista grossa às grosserias, ao excesso de trabalho e aos caprichos do marido, o senhor Leopoldo Guimarães, sujeito mais sovina da cidade. Diziam que ele passava metade do dia preocupando-se em ganhar mais dinheiro e a outra metade preocupando-se em não gastá-lo; Com exceção dos domingos, que o velho respeitava como se por força de lei. A maioria fazia piadas e zombarias, mas quem sofria mesmo era ela, privando-se, presa por si mesma àquela casa com nuvens espessas de pó.
Naquela manhã de domingo, por ser aniversário dela, o marido deixou-a dormir até mais tarde, foi até o jardim, arrancou de lá algumas das rosas de que ela mais cuidava, amarrou-as com um pedaço da hera que subia pelo muro da rua e tentou surpreendê-la com o buquê improvisado e com uma xícara de café na cama. Não teve sucesso na surpresa, assim como não havia tido em todos os outros aniversários múltiplos de cinco, em que ele fazia exatamente a mesma coisa - intercalando com o cartão de próprio punho que entregava nos aniversários dos entremeios. Ainda que decepcionada, ela lembrou-se de como sorriu no ano anterior e estampou no rosto aquele mesmo sorriso insosso, agradeceu de cabeça baixa e foi preparar um chá; Detestava café.
Pouco mais tarde, naquele mesmo dia, o filho mais velho foi visitá-la. Aquele que trabalhava fora, na cidade vizinha, porque o mais novo não ia até a casa dos pais havia mais de cinco anos, desde que o pai o expulsara de lá, alegando que os gastos com telefone estavam muito altos e que havia chegado a hora dele andar com as próprias pernas. Ela permaneceu em silêncio durante a discussão e a partida; E arrependeu-se depois da inércia, mas mantinha contato com o filho por cartas que ela deixava para uma amiga dele, a caixa do mercado. O primogênito, que apareceu com um grande pacote e um sorriso maior ainda, havia fugido de casa cedo porque sabia que, enquanto morasse lá, continuaria brigando com o pai, em defesa da mãe e do caçula. Quando o senhor Leopoldo apareceu na sala de entrada, atraído pelos ruídos de visita recém-chegada, em uma das raras excursões além da poltrona no domingo, cumprimentou-o com um aperto de mão e um tapinha nas costas; Para o velho, aquilo era sinal de muito respeito, adquirido por enfrentar o mundo lá fora e, de quebra, reduzir as despesas da casa. Após o cumprimento, o filho pouco disse e logo despediu-se; Não se sentia bem ali, nunca conseguiu dissipar os traumas.
Pouco interessado pelo filho, pela esposa ou pelo pacote, Leopoldo voltou a recostar-se na poltrona da sala de televisão. Enquanto isso, ela abriu o pacote, primeiro tentando as beiradas e depois, ansiosa, o rasgando em pedaços com as unhas. Leu na embalagem: aspirador de polvo. Riu um pouco da tradução em espanhol ao imaginar o pobre molusco sendo sugado por aquele equipamento da foto, coitado, com os tentáculos ainda para fora, debatendo-se. Ao retirá-lo da caixa, conferiu o manual, montou todos os tubos e foi em busca de um local propício para o primeiro teste.
Chegando à biblioteca - que não tinha nenhum livro novo porque Leopoldo dizia que livro novo era um gasto desnecessário, uma vez que todos se acabariam no alfarrabista da praça central - ela ligou o aparelho na tomada e, de repente, viu-se fazendo desaparecer as nuvens espessas de pó. Camada por camada, retirava o pó de cada prateleira, cada coleção incompleta de enciclopédias (era muito difícil completar alguma comprando apenas as descartadas) e, também, do chão, do ar, de todo o lugar. Quando desligou o aspirador, viu-se em um novo ambiente, verdadeiramente limpo, leve.
Tomada por um novo ânimo, com um brilho incomum nos olhos, partiu para o quarto do casal e ligou novamente o aspirador. Retirou todo o pó do chão, do ventilador de teto, da cabeceira e da penteadeira. Quando foi tirar o pó do criado mudo, uma foto mal presa no porta-retratos acabou puxada para a boca do aparelho. Assustada, após duas tentativas com o pé, abaixou-se, desligou o aspirador e a foto caiu. Ao ver que se tratava de uma foto do marido na viagem de negócios que fez sozinho a São Luis e Salvador, programou o aparelho para a força média e mirou o tubo novamente para a foto. Esta dobrou-se, estalando, e rebateu sonoramente em cada curva do cano até pousar silenciosamente em algum lugar distante.
Surpresa com a potência do aspirador, ela abriu mais ainda os olhos brilhantes, sorriu e apontou a boca do tubo para o enxoval que jazia sobre a cama - com as iniciais dele e dela bordadas em ponto e cruz. Sugou toda a roupa de cama, incluindo os travesseiros. Depois, entre uma gargalhada e outra, aspirou todos os porta-retratos do criado mudo e as roupas e sapatos do armário. Seguindo para o banheiro, aspirou as escovas de dentes, as toalhas de banho - igualmente bordadas – e, por fim, os óleos de banho e perfumes que ele nunca passou nela ou por ela.
Do banheiro ela seguiu para a cozinha, ainda mais animada – quase pecando pelo excesso - e absorveu primeiro os eletrodomésticos, depois o jogo de talheres em prata - presente de casamento, ainda na caixa, as taças de vinho - que nunca foram utilizadas porque vinho era muito mais caro do que cerveja - e os velhos copos de requeijão. No entanto, quando ela virou o tubo em direção aos pratos, aquele que estava no topo da pilha passou por cima dos outros e espatifou-se no chão. Atraído pelo barulho, o velho Leopoldo levantou-se da poltrona e foi até a cozinha; Deu de cara com ela, com aqueles olhos brilhantes e esbugalhados, assustadora e excessivamente animada.
Quando os policiais chegaram, convocados pelos vizinhos que estranharam a barulheira naquela casa costumeiramente silenciosa, encontraram-na sorrindo, de olhos bem abertos, realizada e sentada em um canto da casa vazia - de móveis e traumas. Os braços e pernas do velho Leopoldo, todo desconjuntado, ainda debatiam-se em um último esforço.







2012 - Menção honrosa no 23º Concurso de Contos Paulo Leminski - Biblioteca Pública Municipal de Toledo - PR

24 de novembro de 2012

19 de novembro de 2012

Posfácio

Por meses buscou o final perfeito para a autobiografia

Após finalizar a obra, enviou-a para os editores e partiu com pressa: tinha um destino trágico a cumprir

3 de novembro de 2012

Corretor

Enquanto acompanhava o potencial cliente até o apartamento, que não erá lá essas coisas, mas que ele tentava empurrar como uma grande oportunidade - o lar dos sonhos, falava também sobre as cercanias:

 É um bairro residencial, ambiente bem familiar...

E foi neste momento que notaram, do outro lado da rua, bem no meio da praça, o corpo de um homem que já nem mais sangrava, ferida aberta no peito, lavada pela chuva que atravessou a madrugada.

Eis que numa tentativa desesperada de emendar o furo, conter o vazamento da represa que já se rachava, complementou a fala cortada:

 Essas brigas de família, cada vez mais violentas!

2 de novembro de 2012

1 de novembro de 2012

Nublados

Ela tentava limpar o vidro, e repetia incessantemente:

– Não sai... não sai!

Os olhos seguiam incrédulos, cobertos por nuvens acinzentadas

25 de outubro de 2012

As margens trágicas de um povo histórico

Após séculos de genocídio e exclusão, que desaguaram na marginalização, os autoproclamados senhores da ordem e do progresso não se contentaram

E ansiavam, de pistolas e canetas em punho, por expulsá-los até mesmo das margens

24 de outubro de 2012

Arredios

Correu de braços abertos, tentando agarrar ao menos um - qualquer que fosse, mas não adiantou

Ao abrir os olhos, restava apenas um farfalhar de sonhos ao vento

23 de outubro de 2012

22 de outubro de 2012

Em carne viva

Indefesa, diante do toque impróprio - e indelicado, sangrou

Pela chaga aberta, por memórias nefastas, escorreu a vida inteira, gota a gota: tortura diária

20 de outubro de 2012

Barbárie

O sapatinho do bebê jazia no meio da rua enquanto ele permanecia estático, em estado de choque.

Os outros membros da família estavam sendo carregados para a calçada pelos vizinhos que se aproximavam. Dois dos corpos já estavam cobertos por panos improvisados. Incrédulo, ele observava a cena, esfregava os olhos e passava as mãos nervosas pelos cabelos.

Enquanto uma multidão de curiosos aproximava-se, atraída pela freada, pela pancada no ponto de ônibus e pelos gritos, ele permanecia perdido em seus próprios pensamentos. A consciência lhe transbordava, dando ânsias e tonturas. Decidiu sentar-se e, após retornar ao banco do motorista, abaixou a cabeça e tentou segurar entre dedos trêmulos o turbilhão de ideias e o peso da culpa.

Naquele momento, pensou: “Como é que eu vou viver com isso?”. A primeira batida seca dissipou a dúvida. Os gritos da multidão abafaram quaisquer outros questionamentos:

- Assassino!







2012 - Selecionado no 3º Concurso de Microcontos de Jundiaí - Secretaria de Cultura - Jundiaí - SP

O vulto na cadeira vaga

No meio do caminho

havia duas pedras


de gelo


e uma dose generosa de saudades







2012 - Selecionada no Concurso Literário de Presidente Prudente - Secretaria Municipal de Cultura - Presidente Prudente - SP

8 de outubro de 2012

Traças

As traças devoraram livros
e destrincharam jornais

as traças roeram músicas
e mutilaram filmes

naquela época,
devoraram até pessoas
- famílias inteiras


Após anos de clausura
abriram-se as portas e janelas
os novos ares vieram

e as traças esconderam-se
em cantos obscuros
onde até hoje permanecem
- como se fossem invisíveis


Após anos de negação
continuamos adiando
para amanhã, quem sabe

a tarefa indispensável
de revirar armários
e destrancar gavetas

de explorar porões
- sem esquecer dos sótãos

de jogar luz aos fatos

descortinar as traças

para evitar que se repita
a tragédia como farsa








2012 - 1º lugar no VIII Concurso Literário de Suzano - Secretaria Municipal de Cultura - Suzano - SP

7 de outubro de 2012

Odisseu

Navego por mares errantes
- cansado de batalhas

em rumo a minha pátria
aos braços de minha amada

nascente de meus sonhos

poente de meus anseios

5 de setembro de 2012

Fragmentos

Quebrou-se

no mergulho do pássaro

o espelho d´água








2012 - Selecionada no 12º Prêmio Escriba de Poesias - Secretaria de Cultura - Piracicaba - SP

27 de agosto de 2012

Irremediável

A louça delicada

atirada na parede

partiu o silêncio
- em mil pedaços







2012 - Selecionada no 3º Concurso TOC140 de Poesia no Twitter - VI Festa Literária Internacional de Pernambuco - Olinda - PE;
2012 - Selecionada no 21º Concurso Poemas nos Ônibus e nos Trens - Secretaria Municipal de Cultura - Porto Alegre - RS

10 de julho de 2012

Temores noturnos

Ao relampejar dos faróis

como vultos esquecidos,
agitam braços desesperados

e urram, em ventos agudos
seus temores noturnos


as árvores na penumbra
- apavoradas

na beira da estrada

24 de junho de 2012

Mal estar na sociedade


No eterno retorno
do mal estar perpétuo

partilhamos o que nos resta:
a cada um seu fardo

a mosca nos olhos do gado

22 de junho de 2012

Cochicho

Ela veio caminhando
toda acanhada

querendo me contar as boas novas


Aproximou-se de mim

com as mãos fechadas
diante do rosto

assim, como se trouxesse
só pra me mostrar

ao abrir dos dedos
                                        um vagalume







2012 - 9º Concurso Poemas no Ônibus - Fundação de Arte e Cultura - Gravataí - RS
2012 - Selecionada para participar da Mobilização Nacional do projeto "Um poema em cada árvore" - Instituto Psia - Governador Valadares - MG

10 de junho de 2012

Deserdados

Cansado de tantos vícios - e corretivos sem efeito, fez um novo testamento.







* Remake do exercício de ontem

9 de junho de 2012

Penitência

Cansado de tantos vícios
- e corretivos sem efeito

fez um novo testamento

e deserdou a humanidade

7 de junho de 2012

Invocada

Eva partiu,
deixando para trás o paraíso

não tinha qualquer vocação
pra função que lhe outorgaram:

de esposa-parideira

28 de abril de 2012

Cachoeira

Do alto do precipício

atirou-se, impulsiva


foi a gota d’água







2011 - 3º lugar no Prêmio Cataratas - Fundação Cultural de Foz do Iguaçu - PR

15 de fevereiro de 2012

Estiagem

Entre veios ralos
- esturricados
um acidente vascular
bloqueou o fluxo efêmero

o sal da terra
devorou-me por dentro

14 de fevereiro de 2012

9 de fevereiro de 2012

Os soldados perdidos de Napoleão

Marcharam para o leste, em meio aos campos incendiados e cidades fantasmas. Ainda hoje, passados duzentos anos, alguns soldados fatigados batem à porta dos camponeses – perguntam a direção de Moscou.







2012 - 4º lugar no Concurso "Miniconto para Dickens" - L&PM Editores
Publicado no site da editora L&PM

2 de fevereiro de 2012

1 de fevereiro de 2012

25 de janeiro de 2012

Substancial

Após deparar-se
- com aquele livro
nem comer direito conseguia

passava horas a fio
ruminando poesias

24 de janeiro de 2012

Extenuado

Partiu como uma brisa
um vento qualquer

de repente
sem que ninguém percebesse

parou de soprar
- em um último suspiro

20 de janeiro de 2012

19 de janeiro de 2012

Teatro Dulcina

Do fundo do teatro
acompanho cabeças que valsam
- de um lado a outro
em busca do melhor ângulo

Esta plateia quase plana
um tanto mal planejada
oferece em paralelo
este outro espetáculo

18 de janeiro de 2012

O último olhar

No fim de seus dias
- no exílio injusto

trazia olhos de ressaca
amarelos e marejados


E tinha olheiras tão profundas

que lhe dragavam
- em rugas

o rosto todo

16 de janeiro de 2012

Correntes


O Rio corre
- em período de cheia

e arrasta os infortunados
desprovidos e desavisados

para além de suas margens

13 de janeiro de 2012

Ameaçado

Há clareiras onde havia ideias

e as fontes, poluídas
não inspiram qualquer confiança


o debate corre risco de extinção

12 de janeiro de 2012

11 de janeiro de 2012

10 de janeiro de 2012

Sonho ruim

Mãos ofegantes percorreram-lhe o entrepernas por baixo do lençol. Quando abriu os olhos, o pesadelo estava apenas começando.

Na manhã seguinte, mesa do café posta, a mãe desconversou:

- Foi apenas um sonho ruim

9 de janeiro de 2012

Suspeitos

O sangue frio
percorria olhares foscos

não havia qualquer lampejo
- ou emoção

na sessão de linchamento

2 de janeiro de 2012

Psicose


Nunca fui de confiar em gente sem pescoço, mas aquele era o único sujeito disposto a levar-me a um bairro tão próximo - no taxímetro dava menos de quinze reais e os motoristas que rondam a rodoviária costumam idealizar longas idas à zona sul, dando-se ao luxo de desprezar as corridas até o centro.

Ao abrir a porta traseira, reparei que estas poderiam ser mantidas trancadas pelo motorista. Prevendo um possível risco, deixei a mochila no banco de trás e sentei-me na frente. Era melhor mesmo estar perto, caso fosse necessário entrar em um combate corpo a corpo. Desde que entrou no carro, desleixado, sem nem colocar o cinto, fiquei de olhos nos movimentos daquele sujeito mal encarado, meio corcunda para o lado direito - o que deixava o lado esquerdo um pouco abaixado, de barba e bigode por fazer, com um daqueles chapéus que não sei dizer se é uma boina ou um boné sem aba.

Durante o trajeto, tentei ficar em silêncio, mas, após alguns minutos, ele puxou conversa. Com um grunhido emburrado, tentei puxar de volta, mas ele insistiu, achando que eu não tinha entendido, e eu cedi. Acabamos trocando duas ou três frases decoradas sobre a violência na cidade - no dia anterior haviam roubado um cara da TV e deu em tudo que é jornal, os bandidos não respeitavam mais ninguém. Apesar da conversa, eu ficava atento a cada mudança de marcha, quase me precipitei a impedi-lo quando ele foi pegar o rádio para entrar em contato com a central.

Após meu engano, fiquei relaxado por alguns momentos. No entanto, ao olhar pela janela, percebi que estávamos passando por um viaduto pelo qual não deveríamos passar - ao menos não pelo caminho que eu costumava fazer. Em um primeiro momento, cerrei os punhos e contrai cada músculo do corpo, pensei que ainda podíamos tomar o rumo certo, quem sabe cortando por trás do Passeio, ou pela Tiradentes. Mas foi então que ele começou a desacelerar, em pleno viaduto, local desconhecido e perigoso, afastado das ruas mais movimentadas. Eu precisava ser rápido, utilizando as armas que tivesse no momento - que se resumiam a uma caneta esferográfica e um pacote de balas de menta. Em um movimento só, tirei a caneta do bolso, apertei-a contra o pescoço do safado e ordenei que acelerasse. Surpreendido em pleno pulo, ele começou a acelerar e tentou retrucar, disse-me que tinha família e que só estava tentando ganhar a vida. Não me deixei levar por aquele choro falso. Além do mais, para cima de mim é que ele não a ganharia. Ao alcançar quase cem por hora, puxei o volante para o meu lado, com toda a força possível.

O carro bateu no muro de contenção - por muita sorte não caiu do viaduto - e ainda girou duas ou três vezes antes de ser atingido pelo carro que vinha logo atrás. Eu, que estava de cinto, saí praticamente ileso. O pilantra, no entanto, que já devia estar de tocaia, pronto para me aplicar algum de seus golpes, morreu na hora, dizem que quebrou o pescoço com o impacto no volante. Eu duvido muito, aquele bandido nem tinha pescoço.








2011 - III Concurso de Contos ler&Cia - Livrarias Curitiba - PR;
Publicado na edição de Janeiro/Fevereiro de 2012 da revista ler&Cia


Ilustrado por Robson Vilalba - http://robsonvilalba.carbonmade.com/

1 de janeiro de 2012

8 de dezembro de 2011

24 de novembro de 2011

Audácia

Pela primeira vez em trinta anos, ela olhou fundo, bem nos olhos do marido:

- Você que falou para o menino não se amiudar?

Ele ficou surpreso com a novidade do enfrentamento, corrigiu a postura e falou com ar superior e desleixado - como se respondesse só porque queria mesmo.

- Falei sim, filho meu não traz desaforo para casa!

Mordendo o lábio inferior e contraindo as quinas dos olhos, ela continuou:

- Não traz mesmo. E nunca mais vai trazer

Ele ainda tentou abraçá-la, mas o bote da mão esquerda o afastou daquele choro que era só dela.






2011 - 1º lugar no Concurso de Contos Machado de Assis - SESC - DF;
Será publicado na coletânea do concurso

21 de novembro de 2011

Os novos donos

Tombaram as árvores
agarradas a seus frutos indefesos

E sufocaram a terra batida
sob fileiras monótonas de azulejos


Por fim, varreram
- da porta pra fora

os cacos da minha infância

5 de novembro de 2011

29 de outubro de 2011

18 de setembro de 2011

17 de setembro de 2011

Monumentais

Naquelas tardes enevoadas
de feitos grandiosos

represando água da chuva
em açudes de pau e pedra

na beira do meio fio

16 de setembro de 2011

Singular

Eu não acredito...
Justo ela, igualzinho ao meu! Não acredito...

O safado me garantiu exclusividade, só eu teria um assim, e agora... essa vagabunda!

Isso é coisa dele sim, tenho certeza! De longe dá para notar... aquele canalha!

Calma o cacete! Os fotógrafos todos lá, em cima dela... Com que cara você quer que eu fique?

Isso não vai ficar barato não... Mas não vai mesmo!

Ah, só o que me faltava: ela está vindo para cá, a descarada...
Ainda vem sorrindo, a cadela, só para se mostrar! Vou dar um tapa na cara dela!

Me segura,  hein? Eu não me responsabilizo...



Oi, querida! Como você está linda...

Ah, deixa eu ver se adivinho... o cabelo, não é?

Hummm... desisto!

Ah, sim... o nariz, é claro... como eu não reparei?

E com quem que você fez?

Ah, ele é ótimo, dizem que é um dos melhores!
Meus parabéns... você ficou... deslumbrante!



Não falei? Não falei?

Amanhã mesmo eu ligo praquele canalha...

Me garantiu que eu seria a única com o nariz da Paris - e cobrou bem caro por isso...

De que adianta agora, se qualquer vagabunda tem igual?

15 de setembro de 2011

Desfocados

Queimou-se a lenha forte

e, agora, daquele fogo
restam apenas fagulhas e brasas

ansiando por folhas secas
e torcendo para que acenda

um novo foco
no fundo daqueles olhos

19 de agosto de 2011

Deficiência

“Deficiência - s. f. - Def.: toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função anatômica, fisiológica, psicológica ou intelectual.”

O carro passou por mim um tanto rápido - não que estivesse correndo, mas seguia em uma velocidade imprudente ao considerar que estávamos dentro do estacionamento de um mercado. Ao avistar uma vaga ali, tão perto da porta, o motorista não hesitou, engatou a ré e começou a manobrar o carro; Sendo a vaga bem ampla, a tarefa nem exigiu muito esforço.
Eu permaneci ali parado, observando - nem sequer atravessei a via. Não era a primeira vez que eu via aquela mesma cena: um sujeito apressado estacionando na vaga reservada para pessoas com deficiência; Mas dessa vez, fiquei tentado a observar todo o desenrolar, só para me certificar se o motorista, sozinho no carro, possuía ou não algum tipo de deficiência.
Enquanto eu seguia em direção à porta do mercado, o sujeito abriu a porta do carro, saiu, olhou por cima do ombro, na direção do guarda do mercado e, só então, fechou a porta e ligou o alarme. Aquele olhar de cumplicidade, seguido por um ar de impunidade, comprovou as minhas suspeitas: era mais um dos irresponsáveis, que provavelmente se diria com pressa ou desligado - quando todos sabem que o diagnóstico é o descaso.
As pessoas que entravam e saiam até chegaram a lançar alguns olhares de reprovação, tanto para ele quanto para o guarda do mercado, mas este, com medo de envolver-se em qualquer confusão e acabar por perder o emprego, fingiu-se de desentendido. Eu fiz o mesmo, olhei para ele e para o guarda, na esperança de que alguém tomasse uma atitude.
Vieram-me à cabeça todas as minhas omissões em situações similares, além de todos os olhares de cumplicidade e esboços de sorriso pela impunidade. Senti-me realmente um cúmplice daquelas atitudes, aceitando-as mudo - cego e surdo; Eu e todos os outros éramos incapazes de protestar.
Foi então que decidi que dessa vez não, eu não ia deixar passar em branco. Antes de abordar o sujeito, cheguei à conclusão de que ele também tinha uma deficiência; Após cutucá-lo pelas costas, avisei:
- Moço, essa vaga não é reservada para quem possuiu apenas deficiência de caráter.
As palmas evitaram uma reação agressiva. Quanto ao constrangimento, que o levou a entrar no carro e partir meio sem rumo, espero que tenha sido a melhor forma de reabilitação.









2011 - 9º Prêmio Paulo Setúbal - Secretaria Municipal de Cultura - Tatuí - SP;

16 de agosto de 2011

Suplício de fim de festa

Para somar-se à ressaca, a última coisa que eu precisava era uma ameaça - e aquele sujeito enfurecido, com cantos de olho enrugados, ainda tinha a boca curvada para baixo; Gente assim, cheia de mágoa, não tem remorso de cumprir vingança.

8 de agosto de 2011

Relento

Na janela embaçada

o coração, riscado a dedo

derreteu aquele gelo







2011 - 20º Concurso Poemas nos Ônibus e nos Trens - Secretaria Municipal de Cultura - Porto Alegre - RS ;
Publicada na coletânea do concurso

23 de julho de 2011

Demissão

Partiu da redação

com uma mão na honra
e outra na dignidade

cobria com pudores
o que poucos ousavam exibir

12 de julho de 2011

Shiatsu

Do aparelho de som

fluíam os ruídos da chuva



Quando um fio de dedos

súbitos e gelados

escorreu-me pelas costas

22 de junho de 2011

Traição

A rotina foi a causa principal - eu saia de casa muito cedo, mal nos víamos. Mas o estopim foi a tentação - ao sair do trabalho, ela sempre estava por ali, exibindo-se

Não demorei muito a ceder - por não resistir aos encantos, à promessa de aventura. Sem olhar para trás, troquei o sol pela lua - o dia pela noite

5 de junho de 2011

A persistência de Artaud

Agarrou-se às convicções
com as forças que lhe restavam

e não havia no mundo
alguém capaz de separá-los


relaxar-lhe os dedos gelados

31 de maio de 2011