Estava decidido a fazer justiça com as próprias mãos. No entanto, frente a frente com o coronel, as mãos tremiam e o suor corria em bicas, ziguezagueando pelas rugas da testa; Diante da possibilidade de tornar-se um criminoso, hesitou.
Quando ele abaixou a arma- e a sarcástica certeza da impunidade se apresentou diante dele em um sorriso de canto de boca-, lembrou-se apenas das palavras do avô, que havia lutado muito pela honra da família e pela propriedade daquelas terras: "caráter é um vestido de seda que os covardes usam como se fosse armadura".
Foram 5 tiros, todos no alvo. Foi levado dali arrebentado a pancadas e algemado, mas de cabeça erguida.
Exercícios literários e outras peças mal acabadas que não são adequadas para o comércio como produtos culturais.
17 de janeiro de 2016
30 de novembro de 2015
Asséptico
Mantinham-se
acondicionados
seguros
- estáveis
em ambiente estéril
onde nenhuma novidade
ou conceito
ideia ou teoria
seria capaz de reproduzir-se
Reflexos
Intolerância
é autoflagelo
repreensão da culpa
- em corpos alheios
apedrejamento
de espelhos
é a cobra
- ensandecida
que devora
o próprio rabo
é autoflagelo
repreensão da culpa
- em corpos alheios
apedrejamento
de espelhos
é a cobra
- ensandecida
que devora
o próprio rabo
29 de novembro de 2015
Etimologia I
"Diga-se de paisagem": expressão utilizada para referir-se ao momento em que você faz um comentário breve, superficial e ambíguo o suficiente para que seu interlocutor julgue que você concorda com ele; porque a cara de paisagem não foi o bastante para encerrar o assunto.
24 de novembro de 2015
Contraposto
O cão de guarda ladra
rosna
- ameaça
e não permite
que ninguém invada
sua minúscula jaula
rosna
- ameaça
e não permite
que ninguém invada
sua minúscula jaula
22 de novembro de 2015
21 de novembro de 2015
Fatídico
Não importa quão alto
é o voo do pássaro
ou quão longínquas
são as terras avistadas
um dia ele haverá
de reunir-se a sua sombra
- pousar em definitivo
e aquelas asas
aqueles olhos
- e tudo aquilo que viram
serão devorados por formigas
é o voo do pássaro
ou quão longínquas
são as terras avistadas
um dia ele haverá
de reunir-se a sua sombra
- pousar em definitivo
e aquelas asas
aqueles olhos
- e tudo aquilo que viram
serão devorados por formigas
9 de novembro de 2015
Impregnada
O tronco centenário
- imperturbável
de uma árvore
que, por dentro
está se abrindo
em poros
oca
E cede lugar
- aos poucos
a novos ecossistemas
- imperturbável
de uma árvore
que, por dentro
está se abrindo
em poros
oca
E cede lugar
- aos poucos
a novos ecossistemas
6 de novembro de 2015
Propagação
No rádio, as ondas curtas, de alta frequência, são as que alcançam maiores distâncias de propagação.
Na estrutura social também parece funcionar mais ou menos do mesmo jeito: o raciocínio curto, que tem altíssima frequência, propaga-se vertiginosamente
5 de novembro de 2015
4 de novembro de 2015
Armistício
Após ter, enfim
assinado
o tratado
de paz
- interior
ficou vetado
- ainda que tentado
de cruzar as fronteiras
estabelecidas
- conforme o acordo
na área limite
entre os caminhos
percorridos
e as águas
passadas
assinado
o tratado
de paz
- interior
ficou vetado
- ainda que tentado
de cruzar as fronteiras
estabelecidas
- conforme o acordo
na área limite
entre os caminhos
percorridos
e as águas
passadas
3 de novembro de 2015
Molde
Já conheço
todos os rostos
não um a um
em detalhes
específicos
mas o mosaico
de moldes
as fórmulas
- matrizes
o barro essencial
a origem
e o sopro
todos os rostos
não um a um
em detalhes
específicos
mas o mosaico
de moldes
as fórmulas
- matrizes
o barro essencial
a origem
e o sopro
2 de novembro de 2015
Debandada
Ideias são bichos soltos
- ariscas
que se debandam
apressadas
num farfalhar
de páginas
- em branco
- ariscas
que se debandam
apressadas
num farfalhar
de páginas
- em branco
31 de agosto de 2015
Fenômeno
Podia durar
alguns minutos
ou segundos
só o tempo para respirar
um desafogo
dessa guerra
um eclipse total
da Terra
alguns minutos
ou segundos
só o tempo para respirar
um desafogo
dessa guerra
um eclipse total
da Terra
28 de agosto de 2015
Vazio
Pesquisou em todo canto
- virou a internet do avesso
mas não encontrou
pra comprar
ou sequer uma receita
- dica ou gambiarra
pra fazer em casa
E recorreu, então
aos classificados:
"Procura-se enchimento
para fundo de travesseiro"
- virou a internet do avesso
mas não encontrou
pra comprar
ou sequer uma receita
- dica ou gambiarra
pra fazer em casa
E recorreu, então
aos classificados:
"Procura-se enchimento
para fundo de travesseiro"
27 de agosto de 2015
Revide
Encaminha-se às fronteiras
descomunal exército
de homens, mulheres e crianças
famintos e desesperados
expulsos de suas terras
- geograficamente estratégicas
As formigas
pisoteadas
a subirem pelas pernas
descomunal exército
de homens, mulheres e crianças
famintos e desesperados
expulsos de suas terras
- geograficamente estratégicas
As formigas
pisoteadas
a subirem pelas pernas
26 de agosto de 2015
Contenda
Na beira da trilha, encoberto pelo mato descuidado, mantinha o cutelo sobre o peito, acompanhando a respiração em ritmo lento, mas firme. Ele estava decidido, pois sabia que era o certo, a única coisa a se fazer, e que só ele podia dar cabo do sujeito e do caso.
Nuvens espessas cobriam o céu e a chuva anunciada caiu junto com a noite. Não se via mais de alguns palmos diante dos olhos quando lá adiante, na curva do rio, uma lamparina rompeu a escuridão a trote lento, formando uma auréola no arredor da silhueta única, fundida, de montaria e sujeito. Só podia ser ele.
A respiração acelerou-se, ofegante, dando vida e movimento a empunhadura do cutelo, sólida, de madeira de lei. Lentamente, espreitando sobre a vegetação, levantou-se e caminhou, sobre o lamaçal e as poças que se formavam, em direção à trilha. A lamparina continuava aproximando-se, contínua e lentamente. A respiração, a duras penas, estava contida. Daquela distância, já era possível notar na silhueta um chapéu e uma foice. A mão do cutelo, para não tremer, permanecia recostada ao peito. O momento se aproximava.
Naquele instante crítico, pesou-lhe a indecisão: atacar de frente, correndo o risco de um deslize potencialmente fatal, ou dar-lhe a volta e investir pelas costas, vingativo e certeiro? Mas não teve tempo de arrazoar estratégias. Quando estavam a pouco mais de dez metros de distância, eis que um raio irrompeu as trevas. O lampejo não durou mais do que o suficiente para refletir o cenário armado.
Após o clarão, a montaria arisca relinchou, empinou e escoiceou. A lamparina espatifou-se no chão. Um grito alucinado se fez ouvir junto ao trovão que rebentava. E o sangue, emanando em golfadas, lavou o chão junto à chuva.
25 de agosto de 2015
Vetores
Fundamentalismo
é doença da braba
que anuvia a vista
e debilita as ideias
E os hospedeiros
nem se dão conta
que carregam no bucho
- inoculado
o ovo da serpente
é doença da braba
que anuvia a vista
e debilita as ideias
E os hospedeiros
nem se dão conta
que carregam no bucho
- inoculado
o ovo da serpente
24 de agosto de 2015
Abstrações
Não me interessam
as concretudes
saber do teu dia
ou das notícias
O que me instiga
é intangível
que tipo de seres
habitam teus sonhos?
quais são as sensações
que percorrem teu corpo?
que tipo de ideias
- absurdas e insensatas
te assaltam
em plena rua?
as concretudes
saber do teu dia
ou das notícias
O que me instiga
é intangível
que tipo de seres
habitam teus sonhos?
quais são as sensações
que percorrem teu corpo?
que tipo de ideias
- absurdas e insensatas
te assaltam
em plena rua?
21 de agosto de 2015
Intimidades
O casório foi formidável, uma grande festa, mas durou muito pouco
O Discurso e a Prática logo separaram-se
Dizem as más línguas que a Coerência foi pivô da separação. Tinha um caso com a amiga
O Discurso e a Prática logo separaram-se
Dizem as más línguas que a Coerência foi pivô da separação. Tinha um caso com a amiga
20 de agosto de 2015
Resíduos
Abro mão de saber tudo sobre tudo aquilo que mastigaram, cuspiram e botaram no meu prato
Prefiro seguir adiante, olhando em volta - e para cima, para saber quem pôs mesa; e de onde vem os alimentos
Prefiro seguir adiante, olhando em volta - e para cima, para saber quem pôs mesa; e de onde vem os alimentos
19 de agosto de 2015
18 de agosto de 2015
Expectadores
Heróis de fato
ainda vivos
são poucos
- raríssimos
E aqueles que resistem
estão sempre em risco
pois a torcida
sempre tendeu
- por instinto
ou por malícia
a ter mais simpatia
pelos leões
ainda vivos
são poucos
- raríssimos
E aqueles que resistem
estão sempre em risco
pois a torcida
sempre tendeu
- por instinto
ou por malícia
a ter mais simpatia
pelos leões
17 de agosto de 2015
Abstinência
Relações superficiais
- descartáveis
como adesivos
- de nicotina
pra suprir
a tua ausência
- descartáveis
como adesivos
- de nicotina
pra suprir
a tua ausência
14 de agosto de 2015
Guerrilha
Sem verbas
- sucateadas
as escolas
- desoladas
viram cenários de guerra
com muros altos
e arame farpado
paredes sem reboco
e grades de ferro
- para todo lado
E a educação
acossada
- esquecida
vira um ato subversivo
- sucateadas
as escolas
- desoladas
viram cenários de guerra
com muros altos
e arame farpado
paredes sem reboco
e grades de ferro
- para todo lado
E a educação
acossada
- esquecida
vira um ato subversivo
13 de agosto de 2015
Golpe
E muita gente foi às ruas
reclamar, com veemência
que foram vítimas
- ludibriadas
e todas elas relatam
que não sabem do que se trata
- e que nunca assinaram
o tal contrato social
reclamar, com veemência
que foram vítimas
- ludibriadas
e todas elas relatam
que não sabem do que se trata
- e que nunca assinaram
o tal contrato social
12 de agosto de 2015
Anêmico
Um estado febril
que tenta
- a qualquer custo
expelir tudo aquilo
que lhe parece indigesto
Enquanto os vermes de sempre
agarram-se com força
permanecerão intactos
- quase despercebidos
nas entranhas do sistema
que tenta
- a qualquer custo
expelir tudo aquilo
que lhe parece indigesto
Enquanto os vermes de sempre
agarram-se com força
permanecerão intactos
- quase despercebidos
nas entranhas do sistema
11 de agosto de 2015
Opressão
Não foi por falta de aviso
mas por excesso
de censuras
- de corretivos
e reprimendas
gaiolas invisíveis
convites abertos
à fuga
mas por excesso
de censuras
- de corretivos
e reprimendas
gaiolas invisíveis
convites abertos
à fuga
10 de agosto de 2015
Regressão
A perspectiva de futuro anda tão ruim que logo mais vai ser ofensa dizer que uma pessoa está à frente de seu tempo
7 de agosto de 2015
Submissão
Somos a sétima maior economia do mundo, mesmo estando de joelhos desde que o Brasil é Brasil
Imagine só se a gente pudesse se erguer...
Imagine só se a gente pudesse se erguer...
6 de agosto de 2015
Mártires
O estresse é uma reação individual a um modelo de sociedade que não se consegue suportar
Dia após dia, aos milhares, AVCs ou infartos, colapsos e mortes súbitas engrossam as fileiras de mártires das causas perdidas
Dia após dia, aos milhares, AVCs ou infartos, colapsos e mortes súbitas engrossam as fileiras de mártires das causas perdidas
5 de agosto de 2015
Passadismo II
Naqueles tempos
havia respeito
cabeças baixas
e olhos estáticos
- mirando o chão
E ai de quem ousasse
havia respeito
cabeças baixas
e olhos estáticos
- mirando o chão
E ai de quem ousasse
4 de agosto de 2015
3 de agosto de 2015
Atropelado
Havia um sujeito à frente de seu tempo
Mas um dia, as costas reclamaram
As pernas, cansadas, suplicaram
Enquanto o tempo seguiu, implacável
Mas um dia, as costas reclamaram
As pernas, cansadas, suplicaram
Enquanto o tempo seguiu, implacável
31 de julho de 2015
30 de julho de 2015
Pústula
Um estado febril
- em chamas
queimando-se por dentro
- em delírios paranoicos
e o pior de tudo:
não há qualquer
previsão de cura
- em chamas
queimando-se por dentro
- em delírios paranoicos
e o pior de tudo:
não há qualquer
previsão de cura
29 de julho de 2015
Agregado
Segue-se o fluxo
a correnteza
que nivela os vales
- por baixo
segue-se
sem esforço
na ilusão
de progresso
inércia de tolos
a correnteza
que nivela os vales
- por baixo
segue-se
sem esforço
na ilusão
de progresso
inércia de tolos
28 de julho de 2015
Comunicado
Informação é matéria bruta: o estado primitivo do conceito. E são variados os processos de formação de conceito: fundição, decantação, destilação, filtragem, lapidação, fusão, fissão, arranjo e combinação, entre tantas outras possibilidades inventadas ou ainda por inventar - cada dia há novos experimentos.
Cada um dos processos, no entanto, depende sempre da intervenção de um sujeito e, em cada um deles, se fazem necessários os devidos cuidados, especialmente em relação à interpretação. Há por aí as mais diversas espécies, cada qual com suas habilidades - específicas ou generalistas, de alquimistas, forjadores, lapidadores, manufatores, artesãos e, também, infelizmente, de falsários.
Como consequência da multiplicidade de processos e de sujeitos, há no mercado de discursos conceitos de diferentes qualidades.
Levando em conta este contexto, e os riscos de ser passado para trás, se faz necessário tornar-se capaz de manusear informações, para que se possa criar os próprios conceitos e, também, para poder avaliar a banca de discursos: a cada conceito que lhe é apresentado, é preciso saber notar qual foi o processo que levou até ele, qual foi o sujeito que o criou, com qual intenção e com que cuidados - para não contaminá-lo. Caso contrário, pode-se acabar adquirindo, por ignorância ou simples descuido, um arremedo rudimentar, uma pérola falaciosa, dessas que não servem nem para peso de papel, muito menos para sair exibindo em público.
Como consequência da multiplicidade de processos e de sujeitos, há no mercado de discursos conceitos de diferentes qualidades.
Levando em conta este contexto, e os riscos de ser passado para trás, se faz necessário tornar-se capaz de manusear informações, para que se possa criar os próprios conceitos e, também, para poder avaliar a banca de discursos: a cada conceito que lhe é apresentado, é preciso saber notar qual foi o processo que levou até ele, qual foi o sujeito que o criou, com qual intenção e com que cuidados - para não contaminá-lo. Caso contrário, pode-se acabar adquirindo, por ignorância ou simples descuido, um arremedo rudimentar, uma pérola falaciosa, dessas que não servem nem para peso de papel, muito menos para sair exibindo em público.
27 de julho de 2015
Desestímulo
Transformam-se
sonhos gastos
em planos concretos
e metas determinadas
de longo prazo
- a perder de vista
Desilusão
é pulsão de vida
- esfacelada
mas que ainda pulsa
sonhos gastos
em planos concretos
e metas determinadas
de longo prazo
- a perder de vista
Desilusão
é pulsão de vida
- esfacelada
mas que ainda pulsa
24 de julho de 2015
Frida
A dor constante
marcava no corpo
o passar do tempo
Consciente de cada instante
não deixava nenhum
- qualquer que fosse
passar em branco
marcava no corpo
o passar do tempo
Consciente de cada instante
não deixava nenhum
- qualquer que fosse
passar em branco
23 de julho de 2015
Referências
Não são pessoas
ou nomes
Não são figuras
no livro de história
São vultos
que ainda percorrem ruas
São ecos
que ainda atravessam gargantas
São ideias
que ainda sangram
- e nunca serão
estancadas
Meus heróis
não viraram estátuas
ou nomes
Não são figuras
no livro de história
São vultos
que ainda percorrem ruas
São ecos
que ainda atravessam gargantas
São ideias
que ainda sangram
- e nunca serão
estancadas
Meus heróis
não viraram estátuas
22 de julho de 2015
O brado
Ampliou-se o debate
e não tem mais volta
Mas, ao olhar adiante
não há quem siga inalterado
entre gritos
de histeria
protestos
esquizofrênicos
e ecos de murmúrios
e não tem mais volta
Mas, ao olhar adiante
não há quem siga inalterado
entre gritos
de histeria
protestos
esquizofrênicos
e ecos de murmúrios
21 de julho de 2015
Término
O fim do relacionamento foi conturbado.
Passou horas lavando a roupa suja; Mas o sangue não saia.
Passou horas lavando a roupa suja; Mas o sangue não saia.
20 de julho de 2015
Conformes
Não abro mão
de minhas ambições
à mediocridade
das depravações
do cidadão comum
e das catarses
de hipocrisia
- que nos redimem
aos finais de semana
de minhas ambições
à mediocridade
das depravações
do cidadão comum
e das catarses
de hipocrisia
- que nos redimem
aos finais de semana
17 de julho de 2015
16 de julho de 2015
Reconhecimento
Iludem-se os poetas
com promessas
nunca feitas
de permanência póstuma
de algo além da obra
- destilada
em uma ideia pura
agarram-se com firmeza
a um conceito
- distorcido
de autoria
como quem produz
uma foto da paisagem
e se quer reconhecido
até o fim dos dias
por ter criado o horizonte
com promessas
nunca feitas
de permanência póstuma
de algo além da obra
- destilada
em uma ideia pura
agarram-se com firmeza
a um conceito
- distorcido
de autoria
como quem produz
uma foto da paisagem
e se quer reconhecido
até o fim dos dias
por ter criado o horizonte
15 de julho de 2015
Dissociativo
Vieram todos, juntos, de surpresa. Confesso que, a princípio, fiquei extremamente ansioso, pois não estou acostumado a receber visita por estas bandas. Pedi, como se adiantasse, para que não reparassem na bagunça.
A mulher sem rosto, que normalmente me encontra em quartos escuros, está fumando na sacada, com seu costumeiro silêncio de agonia. Quando tento cumprimentá-la, dou sempre de cara com as costas, a nuca, cabelos esvoaçantes ou nuvens de fumaça. Como sempre, desisto.
Mais relaxado, observo meus antigos amores, que se reúnem na sala, revirando as gavetas mais profundas e expondo aos convidados, conhecidos ou desconhecidos (penetras? talvez figurantes) relíquias de momentos embaraçosos da minha história. Sorrio, ainda que constrangido.
No quarto, detenho-me por algum tempo em deleites e prazeres, quase esqueço-me de todo o resto.
Na biblioteca deparo-me com ilustríssimas estátuas, com as quais dialogo sem que possam responder-me, ou ao menos acenar quando os interpreto corretamente, franzir o cenho quando me equivoco. Ali, dividem espaço com os livros, filmes e com um definhante jardim de inverno, que cultivo com muito esmero, sempre que convém.
Sigo para o escritório. Ao acender a luz, meu olhos demoram um pouco para identificá-la: mas ali está a paranoia, insone, olhos vermelhos, mãos trêmulas; Ela me olha de volta, e logo sou eu que tremo. Na tela do computador, uma cena da qual não consigo desviar o olhar: um leito de hospital, repleto de aparelhos, luzes de LED, tubos, respiradores, bipes, alimentadores. Confuso, quero esfregar os olhos, mas não consigo; Minhas mãos inertes, ao meu lado na cama, nem sequer tremem. Medo é o que não falta.
14 de julho de 2015
Estalactites
A princípio
eram apenas
ideias gotejando
com o tempo
calcificaram-se
em conceitos
pontiagudos
inconstantes
- e temerários
13 de julho de 2015
Jogo de Dominó
A vida
sequência
- incessante
de guinadas repentinas
a cada rodada
caminhos se abrem
- e se fecham
enquanto houver peças
eu jogo
se não me encaixo
passo
- e nunca mais volto
sequência
- incessante
de guinadas repentinas
a cada rodada
caminhos se abrem
- e se fecham
enquanto houver peças
eu jogo
se não me encaixo
passo
- e nunca mais volto
10 de julho de 2015
Trincheira
Vociferava, eloquente
cortando
- com as mãos
os ares
Em discursos inflamados
trazendo à tona
- das profundezas
os maus presságios
Era um soldado idealista
travando guerra de trincheira
- contra inimigos invisíveis
cortando
- com as mãos
os ares
Em discursos inflamados
trazendo à tona
- das profundezas
os maus presságios
Era um soldado idealista
travando guerra de trincheira
- contra inimigos invisíveis
9 de julho de 2015
8 de julho de 2015
Apartamento
Silenciosa
e desconfiada
um tanto arisca
e até mesmo
um pouco hostil
mas, por enquanto
apenas me observa
- da outra ponta da mesa
a tua ausência
e desconfiada
um tanto arisca
e até mesmo
um pouco hostil
mas, por enquanto
apenas me observa
- da outra ponta da mesa
a tua ausência
7 de julho de 2015
Termodinâmica
Em meio à discussão
não adianta de nada
tentar medir palavras
pois que palavra
é matéria-viva
que, com muito calor
se dilata
não adianta de nada
tentar medir palavras
pois que palavra
é matéria-viva
que, com muito calor
se dilata
6 de julho de 2015
Prudência
Tome cuidado
para não pisar-me
em falso
andando assim
- de pés descalços
sobre os cacos
de meus anseios
para não pisar-me
em falso
andando assim
- de pés descalços
sobre os cacos
de meus anseios
4 de julho de 2015
Secos e mirrados
Foi para as ruas
com uma flor na boca
e foi recebida
pela chuva
- de bombas
quebraram-lhe
os dentes
e asfaltaram
a primavera
com uma flor na boca
e foi recebida
pela chuva
- de bombas
quebraram-lhe
os dentes
e asfaltaram
a primavera
2 de julho de 2015
Sustentabilidade
Um mundo que se consome
sem qualquer desperdício
multidões em fila
como formigas
- limpando ossos
sem qualquer desperdício
multidões em fila
como formigas
- limpando ossos
1 de julho de 2015
30 de junho de 2015
Escancarados
A cada vez que se abrem
demoram mais a se fechar
os velhos portões
- enferrujados
E cada vez que se abrem
pequenos demônios escapam
já não sou mais
capaz de contá-los
- contê-los
pequenos demônios
que assombram-me
em sonhos
- assustadoramente
realistas
demoram mais a se fechar
os velhos portões
- enferrujados
E cada vez que se abrem
pequenos demônios escapam
já não sou mais
capaz de contá-los
- contê-los
pequenos demônios
que assombram-me
em sonhos
- assustadoramente
realistas
29 de junho de 2015
26 de junho de 2015
25 de junho de 2015
24 de junho de 2015
Fátuo
Cada amor
um barco à deriva
guiando-se
pelo brilho
de estrelas
que ninguém sabe
se ainda existem
um barco à deriva
guiando-se
pelo brilho
de estrelas
que ninguém sabe
se ainda existem
23 de junho de 2015
22 de junho de 2015
Herança
Pouco importam
os quatro
seis
ou oito
que carregarão
o caixão
os que tem relevância
são os poucos
tantos
outros
que ecoarão
as memórias
os quatro
seis
ou oito
que carregarão
o caixão
os que tem relevância
são os poucos
tantos
outros
que ecoarão
as memórias
19 de junho de 2015
18 de junho de 2015
Descaminhos
O progresso pela ordem
tem limites bem definidos
para ir além
- ao impossível
é preciso recorrer ao caos
tem limites bem definidos
para ir além
- ao impossível
é preciso recorrer ao caos
17 de junho de 2015
Irracionalidade
Há de chegar um tempo
de consciência
e de paz na Terra
quando restar desprovida
de sentido e coerência
a expressão: "herói de guerra"
de consciência
e de paz na Terra
quando restar desprovida
de sentido e coerência
a expressão: "herói de guerra"
16 de junho de 2015
15 de junho de 2015
12 de junho de 2015
11 de junho de 2015
Desbravadores
Somos nós os pioneiros
de cada dia e contexto
e pobre do sujeito
que acredita
- estagnado
na existência
de um mundo estável
de cada dia e contexto
e pobre do sujeito
que acredita
- estagnado
na existência
de um mundo estável
10 de junho de 2015
Magia
Há mais mistérios
entre as teclas do piano
e a melodia
entre as curvas do trompete
e o compasso
entre os furos da gaita
e a harmonia
do que podem imaginar
nossos pés descalços
entre as teclas do piano
e a melodia
entre as curvas do trompete
e o compasso
entre os furos da gaita
e a harmonia
do que podem imaginar
nossos pés descalços
9 de junho de 2015
Diferente
A apresentadora, buscando conscientizar a população a respeito da tolerância com as diferenças, questionou a mãe:
— Quando foi que a senhora percebeu que ele era diferente dos outros meninos?
Ainda visivelmente abalada, provavelmente sob o efeito de medicamentos para amenizar as dores, ela respondeu:
— Há muito tempo, muito tempo. E foi muito dolorido, mais para ele do que para mim. A gente só passou a ser mãe e filho mesmo — a voz começou a ficar embargada, o choro já retornava — quando eu percebi, finalmente, que ele era igualzinho a todos os outros meninos, que merecia todo meu amor... — acolhida por um abraço da constrangida entrevistadora, ela não conseguiu concluir a fala.
8 de junho de 2015
Território da Discórdia
Dali ao horizonte
não havia sequer promessas
apenas raízes mortas
irrompendo da terra seca
não havia sequer promessas
apenas raízes mortas
irrompendo da terra seca
5 de junho de 2015
4 de junho de 2015
Oferenda
Na ressaca da virada
após um ano corrido
eis que vem flutuando
plácida e imaculada
uma rosa branca
devolvida pelo mar
após um ano corrido
eis que vem flutuando
plácida e imaculada
uma rosa branca
devolvida pelo mar
3 de junho de 2015
Padre Sísifo
Não deixava de ir às ruas um só dia, visita fazendas, comércios, empresas, a prefeitura e as praças; sempre com as mãos estendidas em ambos os sentidos: em auxílio e por auxílio. Enquanto estava na rua, mantinha uma caixa de aço, com cadeado bem fechado, na capela simplória, contruída pelo antigo coronel, para o caso de aparecem fiéis afeitos a uma benevolência.
Penosamente tirava o sustento de si próprio e dos necessitados. Mal dava para as contas do mês e os apetites da rotina, tanto menos para as economias. E ele passou anos a anos nesta sina: recolhendo esmolas miúdas, para construir uma igreja impossível.
Penosamente tirava o sustento de si próprio e dos necessitados. Mal dava para as contas do mês e os apetites da rotina, tanto menos para as economias. E ele passou anos a anos nesta sina: recolhendo esmolas miúdas, para construir uma igreja impossível.
2 de junho de 2015
1 de junho de 2015
Sinestesia
Encosto uma concha
na orelha
para ouvir o mar
E recosto a cabeça
no teu colo
para ver estrelas
na orelha
para ouvir o mar
E recosto a cabeça
no teu colo
para ver estrelas
29 de maio de 2015
28 de maio de 2015
27 de maio de 2015
26 de maio de 2015
25 de maio de 2015
22 de maio de 2015
Que arde
Vivemos em tempos duros
de homens amargos
sufocados por crenças brutas
em que o amor
é insulto
e a violência da turba
- desafogo de rotina
é a cura
de homens amargos
sufocados por crenças brutas
em que o amor
é insulto
e a violência da turba
- desafogo de rotina
é a cura
23 de fevereiro de 2015
Recriação
Um sábado qualquer, dia de folga, Ele resolveu ir a Recife, Pernambuco, e seguiu direto à oficina de Brennand, o ceramista.
Chegando lá, admirado com as obras em barro-e-água, estarrecido com a quantidade de detalhes, estancou os pés no chão e suspirou.
Levou horas para desfazer toda a confusão
20 de janeiro de 2015
Destino
Quando, enfim, o choro da criança cessou, abafado, todos seguiram viagem aliviados. Alguns, para voltar a dormir, ajeitaram-se nas poltronas, com as pernas sob as mantas demasiado curtas e as cabeças recostadas nos travesseiros espalmados cedidos pela viação.
Os motores continuaram ressoando, constantes e diligentes, adentrando a madrugada. Os faróis na direção contrária, cada vez mais escassos, atiravam-se sobre algum detalhe do acabamento interno e, vez ou outra, refletiam em ameaças ao sono dos mais sensíveis.
Pela manhã, aproximando-se da região metropolitana, iniciou-se a romaria à porta do motorista, seguida pelos desembarques antecipados, em postos de gasolina, passarelas e semáforos.
Ao chegar à rodoviária, os passageiros restantes desembarcaram, pegaram suas malas e seguiram seus destinos. Nas poltronas e no chão, garrafas e embalagens vazias; Enrolado em uma manta, o corpo mirrado.
17 de novembro de 2014
Democracia 1.0
Simpaticíssimos sociopatas
são aclamados
por contagiantes aplausos
que se iniciam e se encerram
pela inércia coercitiva
da euforia coletiva
são aclamados
por contagiantes aplausos
que se iniciam e se encerram
pela inércia coercitiva
da euforia coletiva
16 de novembro de 2014
8 de novembro de 2014
Tradição
Eis, então
o inabalável ciclo da vida:
crescer
morrer
e, após o sangue secar
esfolar aquele maldito
vingar o ente querido
cujos olhos inertes
- refletem o meu destino
--
Foi então que se apresentou, diante de mim, o inabalável ciclo da vida: nascer, crescer e matar ou morrer.
Após o sangue secar, vou esfolar aquele maldito.
Vingarei meu ente querido; cujos olhos inertes, turvos, refletem o meu destino.
o inabalável ciclo da vida:
crescer
morrer
e, após o sangue secar
esfolar aquele maldito
vingar o ente querido
cujos olhos inertes
- refletem o meu destino
--
Foi então que se apresentou, diante de mim, o inabalável ciclo da vida: nascer, crescer e matar ou morrer.
Após o sangue secar, vou esfolar aquele maldito.
Vingarei meu ente querido; cujos olhos inertes, turvos, refletem o meu destino.
3 de novembro de 2014
O princípio
Um utópico saudodista
de tempos inenarráveis
quando memórias
se desfaziam
feito fagulhas esvoaçantes
cada momento
uma novidade
e a linguagem
- em sua aurora
um jogo de adivinhar
de tempos inenarráveis
quando memórias
se desfaziam
feito fagulhas esvoaçantes
cada momento
uma novidade
e a linguagem
- em sua aurora
um jogo de adivinhar
28 de setembro de 2014
Rascunhos
Há sempre espaço
para mais um traço
- de medo
uma sombra
- de dúvida
ou um contorno
- de hesitação
os riscos incertos
de um sujeito rascunho
um homem só fica pronto
- imutável
quando morto
para mais um traço
- de medo
uma sombra
- de dúvida
ou um contorno
- de hesitação
os riscos incertos
de um sujeito rascunho
um homem só fica pronto
- imutável
quando morto
27 de setembro de 2014
10 de setembro de 2014
Remanescente
Segui ao lado da maca, incrédulo. Na chegada ao hospital, ao abrir a porta da ambulância, deparei-me com aqueles olhos angustiados, olhos de mãe, e não soube o que dizer.
Quando desci ainda estava desnorteado. Senti enjoo. Ao entrar no banheiro, deparei-me com aqueles olhos distantes, que não pareciam meus, as mãos trêmulas, sob as quais não tinha qualquer controle. Passei a língua pelos dentes trincados, com uma aspereza alheia à boca, tal qual o gosto de sangue, e tentei vomitar. Não consegui, nada havia para sair.
Nos dias que se seguiram, tentei manter o controle, como se normal fosse, superado estivesse. Os sorrisos, no entanto, tornaram-se reflexos mecânicos, autônomos mecanismos de defesa. As falas já não me pertenciam, resumiam-se a grunhidos, respostas vagas ou reles perguntas retóricas.
Apesar de tudo isso, as ausências mais sentidas foram das ilusões, tomadas de minhas mãos, e das ainda incertas, mas já ceifadas, esperanças; Nada como uma tragédia para deixar um sujeito mais amargo.
5 de setembro de 2014
4 de setembro de 2014
3 de setembro de 2014
Passageiro
Em cada estrada
rua ou viela
em cada quarto de hotel
albergue ou pousada
em cada praia
museu ou parque
nas caminhadas
- a cada passo
cada vez que me desvio
encontro-o
fitando-me
o amor derradeiro
rua ou viela
em cada quarto de hotel
albergue ou pousada
museu ou parque
nas caminhadas
- a cada passo
cada vez que me desvio
encontro-o
fitando-me
o amor derradeiro
2 de setembro de 2014
Orgânico
Pouco lhe importava o palco, o som, a vibe. Apenas observava os rostos sorridentes a bloquear-lhe o caminho e o riso afoito daqueles que nele esbarravam sem sequer percebê-lo
Pisou na lata com força antes de colocá-la na sacola; Já não sentia raiva, era outra coisa
1 de setembro de 2014
Casa de repouso
- Já deu dez horas? - Ela perguntou, atravessando-me o olhar
Voltando as atenções ao portão de entrada, completou:
- Minha filha vem me buscar às dez
E aqueles olhos esperançosos, persistentes, devastaram-me
Voltando as atenções ao portão de entrada, completou:
- Minha filha vem me buscar às dez
E aqueles olhos esperançosos, persistentes, devastaram-me
30 de agosto de 2014
Conversor
A ambição desenfreada
ganhou ares de determinação
E aquela inércia preguiçosa
tornou-se ponderação
Enquanto o sujeito desbocado
coroou-se, sem nem corar-se, “de personalidade forte”
Na entrevista para um ofício
converte-se, em virtude, cada vício
ganhou ares de determinação
E aquela inércia preguiçosa
tornou-se ponderação
Enquanto o sujeito desbocado
coroou-se, sem nem corar-se, “de personalidade forte”
Na entrevista para um ofício
converte-se, em virtude, cada vício
26 de julho de 2014
Via expressa
A luta pelo espaço
entre as faixas
nas filas do semáforo
os choques inevitáveis
e os faróis quebrados
para-choques amassados
os surtos instintivos
xingamentos, ameaças
socos ou tiros
e gritos
Tudo aquilo que calamos
a via expressa
entre as faixas
nas filas do semáforo
os choques inevitáveis
e os faróis quebrados
para-choques amassados
os surtos instintivos
xingamentos, ameaças
socos ou tiros
e gritos
Tudo aquilo que calamos
a via expressa
24 de julho de 2014
Tentação
E os tolos continuam
a comprar maçãs mordidas
que logo perecem
- amareladas
enquanto outras florescem
- vermelhas e lustradas
em galhos mais altos
a comprar maçãs mordidas
que logo perecem
- amareladas
enquanto outras florescem
- vermelhas e lustradas
em galhos mais altos
28 de maio de 2014
Passado
22 de maio de 2014
Lapso
Naquela noite, prepararam a mesa para quatro.
Quando sentaram-se para jantar e perceberam o ato falho, trocaram olhares desconsolados e marejados.
Não fizeram qualquer oração, mal tocaram a comida e dispersaram-se pela casa, entre prantos e silêncios. Cada um tentava, à sua maneira, lidar com a perda.
14 de abril de 2014
Legado
12 de abril de 2014
Orgânico
Elemento
que se molda
e adapta-se
tomando formas distintas
que se conecta
e funde-se
forjando vínculos e compostos
que se decompõe
e purifica-se
regressando a sua essência
e que, sem cessar
se reconstrói
- a partir das cinzas
do pó de grafite
ao diamante
que se molda
e adapta-se
tomando formas distintas
que se conecta
e funde-se
forjando vínculos e compostos
que se decompõe
e purifica-se
regressando a sua essência
e que, sem cessar
se reconstrói
- a partir das cinzas
do pó de grafite
ao diamante
6 de abril de 2014
Na cadeira da frente
Um fio de cabelo ondulado
- provocante
que levitava
sem nunca
- nunca
encostar na nuca
- provocante
que levitava
sem nunca
- nunca
encostar na nuca
5 de abril de 2014
Microcrônicas #1 - Pombos, peixes e outros espécimes
Vez por outra, recebemos olhares enviesados apenas por demonstrar simpatia por determinado autor, músico, banda, cineasta, grupo de teatro, entre outros; ora porque ninguém mais aguenta os seguidores, ora porque ninguém mais aguenta os seguidos. Neste momento desconfortável, já somos rotulados, com aquele ar superior e debochado, de "fã-de-tal-coisa", "o-que-quer-que-seja-zete". E, se negarmos a pecha, apontam que a negação e qualquer discussão posterior confirmam, precisamente, que estavam certos.
Não há quem conteste que há fãs maníaco-eufóricos-pé-no-saco, daqueles que defendem os ídolos como se irmãos - e tem até gente que sai por aí pregando humildade e diversos feitos e milagres, sem sequer ter trocado duas palavras com estas supostas entidades. Mas, não se pode generalizar: a simpatia em torno de uma obra não pressupõe, automaticamente, a submissão incontestável e incondicional à adoração por aqueles que a criaram. Afinal de contas, não é por gostar de pipoca que sou como os pombos, que engolem qualquer migalha ou caroço com que se depararam Ou como os peixes, desesperados, que mal diferenciam pedaço de pão e cuspe.
Fica, então, o aviso aos que tem sempre em mãos um punhado de alfinetes e etiquetas, prontos para alfinetar e categorizar seres humanos em suas restritas coleções de espécimes: a vida é feita de escolhas, mas a personalidade vai muito além disso, e sua variedade de facetas não se enquadra em qualquer esquema de organização, por mais metódico que seja.
30 de março de 2014
28 de março de 2014
Esvoaçantes
Dispenso as honrarias
de homem honesto e trabalhador
Dispenso as pompas
de empenhado idealista
Dispenso os discursos sérios
- e as lembranças em traços fortes
Que evoquem apenas
memórias difusas
de tempos esvoaçantes
E que me escrevam na lápide:
"Correu entre varais estendidos"
14 de março de 2014
8 de março de 2014
Lusco-fusco
No alvorecer dos sonhos
ante o crepúsculo da consciência
na insólita fusão
do céu sob sol e lua
eis é que despontam
desentocadas
- ainda ariscas
as mais fascinantes ideias
que, infelizmente
se perdem
num farfalhar de lençóis
ante o crepúsculo da consciência
na insólita fusão
do céu sob sol e lua
eis é que despontam
desentocadas
- ainda ariscas
as mais fascinantes ideias
que, infelizmente
se perdem
num farfalhar de lençóis
7 de março de 2014
25 de fevereiro de 2014
4 de fevereiro de 2014
Devaneios
Eu ainda era muito pequeno, mas já sabia que eles circulavam por aí, ao nosso redor, ainda que invisíveis.
A princípio, contentava-me em tentar alcançá-los nos raros momentos em que se revelavam, mas, com o tempo, descobri uma maneira de deixá-los expostos: bastava cobrir-lhes de água.
E foi então que comecei, fizesse chuva ou sol, a partir em audaciosas expedições, munido de uma mochila com ferramentas (tesoura, cola e grampeador), kit de primeiros socorros (band-aid e merthiolate), um borrifador, um pequeno carretel de barbante e imensas expectativas. Bem equipado, eu seguia para a beirada do lago e preparava engenhosas armadilhas e traquitanas, cada vez mais enroladas e confusas.
Nunca consegui capturar nenhum, nem chegava perto disso; Mas sempre voltei para casa repleto de histórias para contar, radiante, e com os passos firmes e a postura altiva de um grande caçador de arco-íris.
30 de janeiro de 2014
Domínio da arte
Atado pelas mãos e pescoço, move-se contido, mas com precisão, e sorri.
Mal sabe ele que é apenas marionete, à mercê do violino.
Mal sabe ele que é apenas marionete, à mercê do violino.
29 de janeiro de 2014
Quimeras
De tempos em tempos, encontro-me diante destas criaturas míticas: quimeras íntimas.
Metade desconhecidas; A outra, amores antigos.
Metade desconhecidas; A outra, amores antigos.
17 de janeiro de 2014
Miragens
Não adianta tentar iludir-me
Já conheço esta cidade
repleta de homens
atirados aos cantos
- falando sozinhos
com as mãos
cheias de esperança
e as pernas
cobertas de feridas
11 de janeiro de 2014
Indescritível
Quando abri a porta, ela ainda estava secando as pernas: com o pé direito sobre o assento da privada, esfregava-o com uma ponta da toalha enquanto a outra ponta repousava leve e casualmente sobre a coxa.
O que mais me chamava atenção, no entanto, era o vapor inebriante que se condensava pelas paredes, pelo espelho, e que me tomava de assalto durante os intervalos infindáveis entre uma inspiração e outra. E eu queria guardá-lo, registrá-lo de alguma forma, mas não era capaz de descrevê-lo, de destilá-lo em minhas memórias. Aquele era o aroma do desejo, e eu não admitiria perdê-lo.
14 de dezembro de 2013
Polida
Em meio à profunda angústia, abriu a torneira e permaneceu estática, observando o fluxo. Após alguns instantes, pegou a esponja, o detergente e lavou a louça, com todo cuidado, deixando correr água em abundância.
Aquela era sua fuga. Pensava que ninguém faria uma loucura depois de lavar a louça: pareceria estúpida quando encontrassem o corpo.
21 de novembro de 2013
28 de setembro de 2013
Fluxo
O rio das memórias
percorre os vales do tempo
mas desemboca, inevitável
nos mares do esquecimento
percorre os vales do tempo
mas desemboca, inevitável
nos mares do esquecimento
24 de agosto de 2013
18 de agosto de 2013
Promissória
Toda promessa
tem outra face
- tal qual moeda
de troca
Toda promessa
carrega nas costas
uma cobrança compulsória
tem outra face
- tal qual moeda
de troca
Toda promessa
carrega nas costas
uma cobrança compulsória
17 de agosto de 2013
Ímpeto
Aquela paixão
- todos diziam
era atraso de vida
o que ninguém sabia
é que não tenho pressa
2013 - Selecionada no 4º Prêmio TOC140 de Poesia no Twitter - Festa Literária Internacional de Pernambuco - Olinda - PE;
- todos diziam
era atraso de vida
o que ninguém sabia
é que não tenho pressa
2013 - Selecionada no 4º Prêmio TOC140 de Poesia no Twitter - Festa Literária Internacional de Pernambuco - Olinda - PE;
11 de agosto de 2013
Redentor
Capturado pelos soldados, pagou com a vida por pecados alheios
Depois de três dias, não havia qualquer sinal do corpo - nenhuma notícia
A família continua buscando respostas
Depois de três dias, não havia qualquer sinal do corpo - nenhuma notícia
A família continua buscando respostas
* Este texto foi rabiscado no caderninho quando eu ainda estava morando no Rio. Ao passar a limpo as anotações, fiquei até confuso, pois foi impossível não relacioná-lo ao caso mais recente, do pedreiro Amarildo, "desaparecido" pelos soldados da PM na Rochinha.
6 de agosto de 2013
Veredas
Caminhava a passos vagos
por noites esquecidas
e para marcar a trilha
- e retornar durante o dia
deixava pra trás um rastro
de migalhas do passado
por noites esquecidas
e para marcar a trilha
- e retornar durante o dia
deixava pra trás um rastro
de migalhas do passado
24 de julho de 2013
Tributos
Guarde contigo
entre os dedos
bem contido
- como segredo
o ouro de que nos priva
Na barca de Caronte
pagará
- por teus pecados
o excesso de bagagem
entre os dedos
bem contido
- como segredo
o ouro de que nos priva
Na barca de Caronte
pagará
- por teus pecados
o excesso de bagagem
15 de julho de 2013
Viajante
Trago nas mãos um mapa
de cento e sete cidades
- fundidas em uma metrópole
Na mochila, coleções
de tantos rostos e nomes
- que nunca, nunca se completam
No bolso de trás, um livro
com todas as histórias
- que ninguém vai escrever
E, por fim, embrulhadas em jornal, conservas
de momentos preciosos
- para saciar a tristeza
nas noites mais longas do inverno
de cento e sete cidades
- fundidas em uma metrópole
Na mochila, coleções
de tantos rostos e nomes
- que nunca, nunca se completam
No bolso de trás, um livro
com todas as histórias
- que ninguém vai escrever
E, por fim, embrulhadas em jornal, conservas
de momentos preciosos
- para saciar a tristeza
nas noites mais longas do inverno
6 de julho de 2013
O último choro
O brilho dos teus olhos
tal gota de orvalho
que escorre
- pelos veios da folha
e atira-se ao chão
tal gota de orvalho
que escorre
- pelos veios da folha
e atira-se ao chão
28 de abril de 2013
23 de abril de 2013
Apreensivo
Envolto num casulo
receio se seda
- ou teia
Interrogado,
respondo:
Não temo nada
salvo
quando estou ao teu lado
receio se seda
- ou teia
Interrogado,
respondo:
Não temo nada
salvo
quando estou ao teu lado
20 de abril de 2013
31 de março de 2013
Frágil
Não era um sorriso amarelo
- tampouco branco
tinha cor de porcelana antiga
e era tímido
- contido
como se fosse frágil
- tampouco branco
tinha cor de porcelana antiga
e era tímido
- contido
como se fosse frágil
27 de março de 2013
Falésias
Percorro os relevos das costas
- majestosa coluna
com mãos trêmulas
Dica de leitura:
http://mundoestranho.abril.com.br/materia/o-que-sao-falesias
- majestosa coluna
com mãos trêmulas
Dica de leitura:
http://mundoestranho.abril.com.br/materia/o-que-sao-falesias
25 de março de 2013
Juízes-penitentes
A luta de classes
se dá entre as faces
se dá entre as faces
da mesma moeda
Dica de leitura:
Albert Camus - A queda
23 de março de 2013
Geometria do discurso
Nos debates cotidianos
eis o que tenho notado:
os círculos
Dica de leitura:
Roland Barthes - Aula
eis o que tenho notado:
os círculos
[sociais]estão cada vez mais quadrados
Dica de leitura:
Roland Barthes - Aula
22 de março de 2013
Sincronia
Em ritmos distintos
caminhávamos nos afastando
Entretanto, após algum tempo
tendemos a nos encontrar
- nas horas exatas
em momentos marcados
tal qual ponteiros
tiquetaqueando
no mesmo relógio
caminhávamos nos afastando
Entretanto, após algum tempo
tendemos a nos encontrar
- nas horas exatas
em momentos marcados
tal qual ponteiros
tiquetaqueando
no mesmo relógio
21 de março de 2013
18 de março de 2013
Decomposto
Produzia uma prosa ácida
- corrosiva
E com o tempo
ao dissolver-se
não restariam quaisquer traços
- corrosiva
E com o tempo
ao dissolver-se
não restariam quaisquer traços
14 de março de 2013
Carrasco de sandices
Mantenho centenas encarceradas
muitas desesperadas
algumas, esperançosas
de um dia sair do bloco
do caderno de anotações
em espaço diminuto
umas mortas há tempos
e outras que ainda gritam
muitas desesperadas
algumas, esperançosas
de um dia sair do bloco
do caderno de anotações
- calabouço de inspirações
13 de março de 2013
Ribeirinho
Da porta de seu casebre
protestava, ainda perplexo:
E essa gente estudiosa
- com diploma e tudo mais
vem me dizer agora
sem nem vergonha na cara
que há um nível tolerável
de merda na minha água
protestava, ainda perplexo:
E essa gente estudiosa
- com diploma e tudo mais
vem me dizer agora
sem nem vergonha na cara
que há um nível tolerável
de merda na minha água
10 de março de 2013
Tão perto, tão longe
- Aquele copo estava meio suspeito. Eu tive um mau pressentimento, mas estávamos em uma festa, entre amigos, o que podia dar errado?
Aqueles olhos ariscos fitaram-me pela primeira vez após meses
- Tudo... deu tudo errado. Aquele nojento! Desgraçado...
As lágrimas começaram a jorrar em abundância. Levantei-me para abraçá-la e, de imediato, fui repelido por um gesto brusco. Ela recolheu-se a um canto do sofá. O silêncio da sala tornou-se denso. O espaço entre nós, um deserto.
6 de março de 2013
28 de fevereiro de 2013
Obsoleto
Os frequentes atrasos e esquecimentos do antigo capelão já vinham provocando comentários desdenhosos pelas ruas e praças, mas, ainda assim, todos queriam proteger aquele símbolo secular.
Apesar dos protestos por toda a cidade, trocaram o velho sino de bronze por um equipamento eletrônico, programado para soar nas horas exatas, ditando o ritmo dos fiéis e do comércio. A centenária peça de bronze, no entanto, permaneceu na torre, pois, além da dificuldade para removê-la e de toda a história que representava, ela era um atrativo para os turistas que esporadicamente apareciam por lá.
De início, o responsável por manter a tradição, que não se pronunciou em qualquer das reuniões sobre a substituição, parecia estar aliviado do fardo de sua função. Mas, naquele domingo, durante a missa, começaram as badaladas incessantes.
Ante o presságio de uma tragédia, interrompemos a celebração e subimos pela escadaria em espiral, enquanto ainda ecoavam pela torre aqueles sons estridentes, agora mais esparsos. Ao chegarmos ao topo, desabamos em lamentos após notar, entre as cordas do badalo, os pés suspensos.
Apesar dos protestos por toda a cidade, trocaram o velho sino de bronze por um equipamento eletrônico, programado para soar nas horas exatas, ditando o ritmo dos fiéis e do comércio. A centenária peça de bronze, no entanto, permaneceu na torre, pois, além da dificuldade para removê-la e de toda a história que representava, ela era um atrativo para os turistas que esporadicamente apareciam por lá.
De início, o responsável por manter a tradição, que não se pronunciou em qualquer das reuniões sobre a substituição, parecia estar aliviado do fardo de sua função. Mas, naquele domingo, durante a missa, começaram as badaladas incessantes.
Ante o presságio de uma tragédia, interrompemos a celebração e subimos pela escadaria em espiral, enquanto ainda ecoavam pela torre aqueles sons estridentes, agora mais esparsos. Ao chegarmos ao topo, desabamos em lamentos após notar, entre as cordas do badalo, os pés suspensos.
27 de fevereiro de 2013
25 de fevereiro de 2013
Ressaca
Nadava em esquecimento
mas submergia
- de tempos em tempos
nas águas turvas
- de memórias difusas
gerando redemoinhos
- em sonhos intranquilos
mas submergia
- de tempos em tempos
nas águas turvas
- de memórias difusas
gerando redemoinhos
- em sonhos intranquilos
19 de fevereiro de 2013
Apreendidos
São pássaros da mesma espécie
- quase idênticos
diferenciam-se apenas
por um ponto bem específico:
voam livres as poesias
enquanto cantam
- em gaiolas
os poemas
- quase idênticos
diferenciam-se apenas
por um ponto bem específico:
voam livres as poesias
enquanto cantam
- em gaiolas
os poemas
4 de fevereiro de 2013
1 de fevereiro de 2013
Retrato falado
Era assustadoramente comum: não havia qualquer traço marcante; uma cicatriz que fosse, olhos faiscantes ou muito opacos, um tique, trejeito - nem ao menos um tom de voz ou respiração brusca que levantassem suspeitas
Havia apenas uma maldade incerta, dessas que se encontra em qualquer um
Havia apenas uma maldade incerta, dessas que se encontra em qualquer um
30 de janeiro de 2013
25 de janeiro de 2013
A nação da triste figura
E que não se espere
nada além da utopia
de um povo quixotesco
que surgiu heroicamente
bradando contra um rio de águas calmas
nada além da utopia
de um povo quixotesco
que surgiu heroicamente
bradando contra um rio de águas calmas
20 de janeiro de 2013
Dissimulado
O tempo segue
mas quando olho pra trás
por um instante
ele para
- disfarça
* trecho de minha autoria da poesia coletiva resultante do encontro anual do pessoal da comunidade concursos literários.
mas quando olho pra trás
por um instante
ele para
- disfarça
* trecho de minha autoria da poesia coletiva resultante do encontro anual do pessoal da comunidade concursos literários.
17 de janeiro de 2013
14 de janeiro de 2013
O grande domador
O dono do circo, ao perceber que os animais andavam meio desanimados, por terem sido da floresta retirados – e porque agora não conseguiam mais perceber e coletar os frutos de seus esforços, sabiamente repetia, de jaula em jaula, noite e dia, o lema que assim dizia:
– O trabalho dignifica o urso!
– O trabalho dignifica o leão!
– O trabalho dignifica o primata!
Em pouco tempo, os animais já haviam assimilado o ditado e, na porta do circo, os candidatos formavam fila: queriam trocar a insegurança da selva por um emprego fixo, uma jaula de janelas gradeadas e, vez ou outra, um bom prato de comida.
9 de janeiro de 2013
8 de janeiro de 2013
Réquiem para uma tia distante
Tia Isabel era uma cabecinha gorda sob um chapéu demasiado pequeno. Nas raras reuniões de família, falava pouco, sentava longe e nunca saía na primeira fila das fotos - nunca foi protagonista, nem quis ser.
Quando ela desapareceu, ninguém conseguiu encontrar uma boa foto de rosto para entregar à polícia e espalhar pelas redes sociais e e-mails dos amigos e conhecidos.
O corpo só foi encontrado depois de dias e, devido ao estado em que estava, fez-se o velório de caixão fechado. Havia apenas uma janelinha, através da qual se via o rosto - desfocado por um véu; bem como eu me lembrava.
7 de janeiro de 2013
6 de janeiro de 2013
Nenhuma luz
Inspirado por Huxley, Orwell e Bradbury, queria criar em seus escritos uma sociedade distópica.
Encontrou, no entanto, uma grande dificuldade: não conseguia imaginar, por mais que se esforçasse, algo muito pior do que a presente realidade.
Encontrou, no entanto, uma grande dificuldade: não conseguia imaginar, por mais que se esforçasse, algo muito pior do que a presente realidade.
5 de janeiro de 2013
Desapego
A floreira que emoldura
a mirada dos andarilhos
a fruta que amadurece
pra alimentar os passarinhos
poesia é semente que se planta
sem ter pretensão de colher
a mirada dos andarilhos
a fruta que amadurece
pra alimentar os passarinhos
poesia é semente que se planta
sem ter pretensão de colher
4 de janeiro de 2013
3 de janeiro de 2013
Intragável
Ele abriu o novo tablete e colocou sobre os restos da manteiga velha que resistiam no fundo da manteigueira, já arados pela faca de serra. Sabe-se lá há quanto tempo vinha fazendo isso.
Ela tentou comer, mas deixou a torrada no prato e o afastou sutilmente em direção ao centro da mesa. Tentou distrair-se lendo o jornal, mas ao tentar virar as páginas sentia como se estivesse com as pontas dos dedos oleosas, rançosas.
Quando ele levantou, já atrasado, e tentou beijá-la, o afastamento brusco, com o rosto virado para o lado, foi inevitável. O casamento acabou, de fato, naquele instante.
2 de janeiro de 2013
Sitiada
As primeiras folhas secas
crepitavam no fogo baixo
A fumaça, escura e densa
tomava forma de presságios
- o inverno encerrou a trégua -
E as portas tremulam
- reverberam irritadiças
pela iminente violência
Em breve marchará
- o exército do desespero
sobre as ruínas da consciência
Menção honrosa no 4º Prêmio Literário Sérgio Farina - Centro Cultural José Pedro Boéssio - São Leopoldo - RS
crepitavam no fogo baixo
A fumaça, escura e densa
tomava forma de presságios
- o inverno encerrou a trégua -
E as portas tremulam
- reverberam irritadiças
pela iminente violência
Em breve marchará
- o exército do desespero
sobre as ruínas da consciência
Menção honrosa no 4º Prêmio Literário Sérgio Farina - Centro Cultural José Pedro Boéssio - São Leopoldo - RS
1 de janeiro de 2013
26 de novembro de 2012
Aspirações
Ela era da época em que se espalhava a sujeira pela casa com o espanador, tarefa árdua e que não resolvia o problema do pó, mas que, ao menos, ao dispersá-lo, tornava-o quase imperceptível, ignorável. Tal como o espanador, em relação aos outros problemas da casa e da família, bases às quais se resumia sua vida, dispersava as nuvens espessas com pensamentos e tarefas aleatórias, como testar uma nova receita, cuidar do jardim ou aprender as técnicas de ponto e cruz da revista que comprava sempre que ia ao mercado, um dos poucos pequenos prazeres aos quais ela permitia-se.
Nos trinta e cinco anos de casada, abriu mão de quase todas as suas aspirações. Desistiu da faculdade, da carreira de psicóloga, dos passeios pela praça aos domingos (incluindo o almoço fora e o sorvete, sem obrigação de cozinhar ou lavar louça), das viagens ao Pantanal e ao Nordeste, do cachorro, dos dois gatos e de muitos outros planos e desejos, todos dissipados. Além disso, fazia vista grossa às grosserias, ao excesso de trabalho e aos caprichos do marido, o senhor Leopoldo Guimarães, sujeito mais sovina da cidade. Diziam que ele passava metade do dia preocupando-se em ganhar mais dinheiro e a outra metade preocupando-se em não gastá-lo; Com exceção dos domingos, que o velho respeitava como se por força de lei. A maioria fazia piadas e zombarias, mas quem sofria mesmo era ela, privando-se, presa por si mesma àquela casa com nuvens espessas de pó.
Naquela manhã de domingo, por ser aniversário dela, o marido deixou-a dormir até mais tarde, foi até o jardim, arrancou de lá algumas das rosas de que ela mais cuidava, amarrou-as com um pedaço da hera que subia pelo muro da rua e tentou surpreendê-la com o buquê improvisado e com uma xícara de café na cama. Não teve sucesso na surpresa, assim como não havia tido em todos os outros aniversários múltiplos de cinco, em que ele fazia exatamente a mesma coisa - intercalando com o cartão de próprio punho que entregava nos aniversários dos entremeios. Ainda que decepcionada, ela lembrou-se de como sorriu no ano anterior e estampou no rosto aquele mesmo sorriso insosso, agradeceu de cabeça baixa e foi preparar um chá; Detestava café.
Pouco mais tarde, naquele mesmo dia, o filho mais velho foi visitá-la. Aquele que trabalhava fora, na cidade vizinha, porque o mais novo não ia até a casa dos pais havia mais de cinco anos, desde que o pai o expulsara de lá, alegando que os gastos com telefone estavam muito altos e que havia chegado a hora dele andar com as próprias pernas. Ela permaneceu em silêncio durante a discussão e a partida; E arrependeu-se depois da inércia, mas mantinha contato com o filho por cartas que ela deixava para uma amiga dele, a caixa do mercado. O primogênito, que apareceu com um grande pacote e um sorriso maior ainda, havia fugido de casa cedo porque sabia que, enquanto morasse lá, continuaria brigando com o pai, em defesa da mãe e do caçula. Quando o senhor Leopoldo apareceu na sala de entrada, atraído pelos ruídos de visita recém-chegada, em uma das raras excursões além da poltrona no domingo, cumprimentou-o com um aperto de mão e um tapinha nas costas; Para o velho, aquilo era sinal de muito respeito, adquirido por enfrentar o mundo lá fora e, de quebra, reduzir as despesas da casa. Após o cumprimento, o filho pouco disse e logo despediu-se; Não se sentia bem ali, nunca conseguiu dissipar os traumas.
Pouco interessado pelo filho, pela esposa ou pelo pacote, Leopoldo voltou a recostar-se na poltrona da sala de televisão. Enquanto isso, ela abriu o pacote, primeiro tentando as beiradas e depois, ansiosa, o rasgando em pedaços com as unhas. Leu na embalagem: aspirador de polvo. Riu um pouco da tradução em espanhol ao imaginar o pobre molusco sendo sugado por aquele equipamento da foto, coitado, com os tentáculos ainda para fora, debatendo-se. Ao retirá-lo da caixa, conferiu o manual, montou todos os tubos e foi em busca de um local propício para o primeiro teste.
Chegando à biblioteca - que não tinha nenhum livro novo porque Leopoldo dizia que livro novo era um gasto desnecessário, uma vez que todos se acabariam no alfarrabista da praça central - ela ligou o aparelho na tomada e, de repente, viu-se fazendo desaparecer as nuvens espessas de pó. Camada por camada, retirava o pó de cada prateleira, cada coleção incompleta de enciclopédias (era muito difícil completar alguma comprando apenas as descartadas) e, também, do chão, do ar, de todo o lugar. Quando desligou o aspirador, viu-se em um novo ambiente, verdadeiramente limpo, leve.
Tomada por um novo ânimo, com um brilho incomum nos olhos, partiu para o quarto do casal e ligou novamente o aspirador. Retirou todo o pó do chão, do ventilador de teto, da cabeceira e da penteadeira. Quando foi tirar o pó do criado mudo, uma foto mal presa no porta-retratos acabou puxada para a boca do aparelho. Assustada, após duas tentativas com o pé, abaixou-se, desligou o aspirador e a foto caiu. Ao ver que se tratava de uma foto do marido na viagem de negócios que fez sozinho a São Luis e Salvador, programou o aparelho para a força média e mirou o tubo novamente para a foto. Esta dobrou-se, estalando, e rebateu sonoramente em cada curva do cano até pousar silenciosamente em algum lugar distante.
Surpresa com a potência do aspirador, ela abriu mais ainda os olhos brilhantes, sorriu e apontou a boca do tubo para o enxoval que jazia sobre a cama - com as iniciais dele e dela bordadas em ponto e cruz. Sugou toda a roupa de cama, incluindo os travesseiros. Depois, entre uma gargalhada e outra, aspirou todos os porta-retratos do criado mudo e as roupas e sapatos do armário. Seguindo para o banheiro, aspirou as escovas de dentes, as toalhas de banho - igualmente bordadas – e, por fim, os óleos de banho e perfumes que ele nunca passou nela ou por ela.
Do banheiro ela seguiu para a cozinha, ainda mais animada – quase pecando pelo excesso - e absorveu primeiro os eletrodomésticos, depois o jogo de talheres em prata - presente de casamento, ainda na caixa, as taças de vinho - que nunca foram utilizadas porque vinho era muito mais caro do que cerveja - e os velhos copos de requeijão. No entanto, quando ela virou o tubo em direção aos pratos, aquele que estava no topo da pilha passou por cima dos outros e espatifou-se no chão. Atraído pelo barulho, o velho Leopoldo levantou-se da poltrona e foi até a cozinha; Deu de cara com ela, com aqueles olhos brilhantes e esbugalhados, assustadora e excessivamente animada.
Quando os policiais chegaram, convocados pelos vizinhos que estranharam a barulheira naquela casa costumeiramente silenciosa, encontraram-na sorrindo, de olhos bem abertos, realizada e sentada em um canto da casa vazia - de móveis e traumas. Os braços e pernas do velho Leopoldo, todo desconjuntado, ainda debatiam-se em um último esforço.
2012 - Menção honrosa no 23º Concurso de Contos Paulo Leminski - Biblioteca Pública Municipal de Toledo - PR
24 de novembro de 2012
19 de novembro de 2012
Posfácio
Por meses buscou o final perfeito para a autobiografia
Após finalizar a obra, enviou-a para os editores e partiu com pressa: tinha um destino trágico a cumprir
Após finalizar a obra, enviou-a para os editores e partiu com pressa: tinha um destino trágico a cumprir
3 de novembro de 2012
Corretor
Enquanto acompanhava o potencial cliente até o apartamento, que não erá lá essas coisas, mas que ele tentava empurrar como uma grande oportunidade - o lar dos sonhos, falava também sobre as cercanias:
– É um bairro residencial, ambiente bem familiar...
E foi neste momento que notaram, do outro lado da rua, bem no meio da praça, o corpo de um homem que já nem mais sangrava, ferida aberta no peito, lavada pela chuva que atravessou a madrugada.
Eis que numa tentativa desesperada de emendar o furo, conter o vazamento da represa que já se rachava, complementou a fala cortada:
– Essas brigas de família, cada vez mais violentas!
– É um bairro residencial, ambiente bem familiar...
E foi neste momento que notaram, do outro lado da rua, bem no meio da praça, o corpo de um homem que já nem mais sangrava, ferida aberta no peito, lavada pela chuva que atravessou a madrugada.
Eis que numa tentativa desesperada de emendar o furo, conter o vazamento da represa que já se rachava, complementou a fala cortada:
– Essas brigas de família, cada vez mais violentas!
2 de novembro de 2012
1 de novembro de 2012
Nublados
Ela tentava limpar o vidro, e repetia incessantemente:
– Não sai... não sai!
Os olhos seguiam incrédulos, cobertos por nuvens acinzentadas
– Não sai... não sai!
Os olhos seguiam incrédulos, cobertos por nuvens acinzentadas
25 de outubro de 2012
As margens trágicas de um povo histórico
Após séculos de genocídio e exclusão, que desaguaram na marginalização, os autoproclamados senhores da ordem e do progresso não se contentaram
E ansiavam, de pistolas e canetas em punho, por expulsá-los até mesmo das margens
E ansiavam, de pistolas e canetas em punho, por expulsá-los até mesmo das margens
24 de outubro de 2012
Arredios
Correu de braços abertos, tentando agarrar ao menos um - qualquer que fosse, mas não adiantou
Ao abrir os olhos, restava apenas um farfalhar de sonhos ao vento
Ao abrir os olhos, restava apenas um farfalhar de sonhos ao vento
23 de outubro de 2012
22 de outubro de 2012
Em carne viva
Indefesa, diante do toque impróprio - e indelicado, sangrou
Pela chaga aberta, por memórias nefastas, escorreu a vida inteira, gota a gota: tortura diária
Pela chaga aberta, por memórias nefastas, escorreu a vida inteira, gota a gota: tortura diária
20 de outubro de 2012
Barbárie
O sapatinho do bebê jazia no meio da rua enquanto ele permanecia estático, em estado de choque.
Os outros membros da família estavam sendo carregados para a calçada pelos vizinhos que se aproximavam. Dois dos corpos já estavam cobertos por panos improvisados. Incrédulo, ele observava a cena, esfregava os olhos e passava as mãos nervosas pelos cabelos.
Enquanto uma multidão de curiosos aproximava-se, atraída pela freada, pela pancada no ponto de ônibus e pelos gritos, ele permanecia perdido em seus próprios pensamentos. A consciência lhe transbordava, dando ânsias e tonturas. Decidiu sentar-se e, após retornar ao banco do motorista, abaixou a cabeça e tentou segurar entre dedos trêmulos o turbilhão de ideias e o peso da culpa.
Naquele momento, pensou: “Como é que eu vou viver com isso?”. A primeira batida seca dissipou a dúvida. Os gritos da multidão abafaram quaisquer outros questionamentos:
- Assassino!
2012 - Selecionado no 3º Concurso de Microcontos de Jundiaí - Secretaria de Cultura - Jundiaí - SP
O vulto na cadeira vaga
No meio do caminho
havia duas pedras
de gelo
e uma dose generosa de saudades
2012 - Selecionada no Concurso Literário de Presidente Prudente - Secretaria Municipal de Cultura - Presidente Prudente - SP
havia duas pedras
de gelo
e uma dose generosa de saudades
2012 - Selecionada no Concurso Literário de Presidente Prudente - Secretaria Municipal de Cultura - Presidente Prudente - SP
18 de outubro de 2012
8 de outubro de 2012
Traças
As traças devoraram livros
e destrincharam jornais
as traças roeram músicas
e mutilaram filmes
naquela época,
devoraram até pessoas
- famílias inteiras
Após anos de clausura
abriram-se as portas e janelas
os novos ares vieram
e as traças esconderam-se
em cantos obscuros
onde até hoje permanecem
- como se fossem invisíveis
Após anos de negação
continuamos adiando
para amanhã, quem sabe
a tarefa indispensável
de revirar armários
e destrancar gavetas
de explorar porões
- sem esquecer dos sótãos
de jogar luz aos fatos
descortinar as traças
para evitar que se repita
a tragédia como farsa
2012 - 1º lugar no VIII Concurso Literário de Suzano - Secretaria Municipal de Cultura - Suzano - SP
e destrincharam jornais
as traças roeram músicas
e mutilaram filmes
naquela época,
devoraram até pessoas
- famílias inteiras
Após anos de clausura
abriram-se as portas e janelas
os novos ares vieram
e as traças esconderam-se
em cantos obscuros
onde até hoje permanecem
- como se fossem invisíveis
Após anos de negação
continuamos adiando
para amanhã, quem sabe
a tarefa indispensável
de revirar armários
e destrancar gavetas
de explorar porões
- sem esquecer dos sótãos
de jogar luz aos fatos
descortinar as traças
para evitar que se repita
a tragédia como farsa
2012 - 1º lugar no VIII Concurso Literário de Suzano - Secretaria Municipal de Cultura - Suzano - SP
7 de outubro de 2012
Odisseu
Navego por mares errantes
- cansado de batalhas
em rumo a minha pátria
aos braços de minha amada
nascente de meus sonhos
poente de meus anseios
- cansado de batalhas
em rumo a minha pátria
aos braços de minha amada
nascente de meus sonhos
poente de meus anseios
5 de setembro de 2012
Fragmentos
Quebrou-se
no mergulho do pássaro
o espelho d´água
2012 - Selecionada no 12º Prêmio Escriba de Poesias - Secretaria de Cultura - Piracicaba - SP
no mergulho do pássaro
o espelho d´água
2012 - Selecionada no 12º Prêmio Escriba de Poesias - Secretaria de Cultura - Piracicaba - SP
27 de agosto de 2012
Irremediável
A louça delicada
atirada na parede
partiu o silêncio
- em mil pedaços
2012 - Selecionada no 3º Concurso TOC140 de Poesia no Twitter - VI Festa Literária Internacional de Pernambuco - Olinda - PE;
2012 - Selecionada no 21º Concurso Poemas nos Ônibus e nos Trens - Secretaria Municipal de Cultura - Porto Alegre - RS
atirada na parede
partiu o silêncio
- em mil pedaços
2012 - Selecionada no 3º Concurso TOC140 de Poesia no Twitter - VI Festa Literária Internacional de Pernambuco - Olinda - PE;
2012 - Selecionada no 21º Concurso Poemas nos Ônibus e nos Trens - Secretaria Municipal de Cultura - Porto Alegre - RS
10 de julho de 2012
Temores noturnos
Ao relampejar dos faróis
como vultos esquecidos,
agitam braços desesperados
e urram, em ventos agudos
seus temores noturnos
as árvores na penumbra
- apavoradas
na beira da estrada
como vultos esquecidos,
agitam braços desesperados
e urram, em ventos agudos
seus temores noturnos
as árvores na penumbra
- apavoradas
na beira da estrada
24 de junho de 2012
Mal estar na sociedade
No eterno retorno
do mal estar perpétuo
partilhamos o que nos resta:
a cada um seu fardo
a mosca nos olhos do gado
22 de junho de 2012
Cochicho
Ela veio caminhando
toda acanhada
querendo me contar as boas novas
Aproximou-se de mim
com as mãos fechadas
diante do rosto
assim, como se trouxesse
só pra me mostrar
ao abrir dos dedos
um vagalume
2012 - 9º Concurso Poemas no Ônibus - Fundação de Arte e Cultura - Gravataí - RS
2012 - Selecionada para participar da Mobilização Nacional do projeto "Um poema em cada árvore" - Instituto Psia - Governador Valadares - MG
toda acanhada
querendo me contar as boas novas
Aproximou-se de mim
com as mãos fechadas
diante do rosto
assim, como se trouxesse
só pra me mostrar
ao abrir dos dedos
um vagalume
2012 - 9º Concurso Poemas no Ônibus - Fundação de Arte e Cultura - Gravataí - RS
2012 - Selecionada para participar da Mobilização Nacional do projeto "Um poema em cada árvore" - Instituto Psia - Governador Valadares - MG
11 de junho de 2012
10 de junho de 2012
Deserdados
Cansado de tantos vícios - e corretivos sem efeito, fez um novo testamento.
* Remake do exercício de ontem
* Remake do exercício de ontem
9 de junho de 2012
Penitência
Cansado de tantos vícios
- e corretivos sem efeito
fez um novo testamento
e deserdou a humanidade
- e corretivos sem efeito
fez um novo testamento
e deserdou a humanidade
8 de junho de 2012
7 de junho de 2012
Invocada
Eva partiu,
deixando para trás o paraíso
não tinha qualquer vocação
pra função que lhe outorgaram:
de esposa-parideira
deixando para trás o paraíso
não tinha qualquer vocação
pra função que lhe outorgaram:
de esposa-parideira
28 de abril de 2012
Cachoeira
Do alto do precipício
atirou-se, impulsiva
foi a gota d’água
atirou-se, impulsiva
foi a gota d’água
2011 - 3º lugar no Prêmio Cataratas - Fundação Cultural de Foz do Iguaçu - PR
15 de fevereiro de 2012
Estiagem
Entre veios ralos
- esturricados
um acidente vascular
bloqueou o fluxo efêmero
o sal da terra
devorou-me por dentro
- esturricados
um acidente vascular
bloqueou o fluxo efêmero
o sal da terra
devorou-me por dentro
14 de fevereiro de 2012
9 de fevereiro de 2012
Os soldados perdidos de Napoleão
Marcharam para o leste, em meio aos campos incendiados e cidades fantasmas. Ainda hoje, passados duzentos anos, alguns soldados fatigados batem à porta dos camponeses – perguntam a direção de Moscou.
2012 - 4º lugar no Concurso "Miniconto para Dickens" - L&PM Editores
Publicado no site da editora L&PM
2 de fevereiro de 2012
Janela para o inverno
Naquela relação seca
de sorrisos amarelados
a cada toque grosseiro
crepitava de tensão
de sorrisos amarelados
a cada toque grosseiro
crepitava de tensão
1 de fevereiro de 2012
25 de janeiro de 2012
Substancial
Após deparar-se
- com aquele livro
nem comer direito conseguia
passava horas a fio
ruminando poesias
- com aquele livro
nem comer direito conseguia
passava horas a fio
ruminando poesias
24 de janeiro de 2012
Extenuado
Partiu como uma brisa
um vento qualquer
de repente
sem que ninguém percebesse
parou de soprar
- em um último suspiro
um vento qualquer
de repente
sem que ninguém percebesse
parou de soprar
- em um último suspiro
20 de janeiro de 2012
19 de janeiro de 2012
Teatro Dulcina
Do fundo do teatro
acompanho cabeças que valsam
- de um lado a outro
em busca do melhor ângulo
Esta plateia quase plana
um tanto mal planejada
oferece em paralelo
este outro espetáculo
acompanho cabeças que valsam
- de um lado a outro
em busca do melhor ângulo
Esta plateia quase plana
um tanto mal planejada
oferece em paralelo
este outro espetáculo
-
A louça delicada atirada na parede partiu o silêncio - em mil pedaços 2012 - Selecionada no 3º Concurso TOC140 de Poesia no Twitter - VI Fes...
-
A todo momento, cutucando a unha e mordendo-se por dentro, tinha a impressão de que algo errado estava prestes a acontecer. Após muitos erro...
-
O triste retrato da cidade enlouquecida a ambulância detida no descaso do tráfego




