26 de junho de 2007

Vítimas

Na ditadura do medo

Acaba-se preso

Por porte de esperança

Incapacidade

Eram feitos um para o outro.

Ela muda. Ele cego.

Ela muda. Ele surdo.

Cansada de mudar sem ser vista ou ouvida, ela fez um enorme discurso de despedida. Ele mudo.

20 de junho de 2007

Inocência cruel

O pai e a filhinha de 5 anos no estádio. Dia de jogo, campeonato brasileiro, libertadores, campeonato regional, não importa.

Antes do início do jogo, entrou em campo um sujeito com uma perna amputada na altura do joelho, usando duas muletas e fazendo malabarismos com a bola. Batia balãozinho na coxa, peito, cabeça e não deixava a bola cair. Ao vê-lo, a garotinha apontou o dedo para ele e soltou sonoras gargalhadas.

- Olha, pai! Olha! - E continou rindo.

O pai - nesse momento constrangido pelo que ele mesmo classificou como inocência cruel - olhou para as pessoas na fileira de trás e deixou escapar um sorriso daqueles que diz: é uma criança, vocês sabem como é.

Depois do constrangimento, o pai virou-se para a filha - em uma tentativa frustrada de dar a ela uma lição aproveitando o exemplo - e disse:

- Filhinha, você viu aquele cara que esforçado. Mesmo com só uma perna ele consegue fazer tudo aquilo com bola. Imagine se ele tivesse as duas!

- Com as duas?

- É.

- Daí não é legal.

8 de junho de 2007

Sinais

Dificilmente saia de casa. Além disso, nenhuma peculiaridade daquela tarde quente dava o mínimo sinal de que o dia seria uma exceção. Do sofá da sala de visitas, local onde costumamos receber a pequena parcela do mundo com a qual nos relacionamos, apenas observava o formato das nuvens e os diferentes tons de azul e cinza, além do branco.

- É claro!

Exclamou em voz alta, irrompendo o silêncio que havia tomado a sala. Sentiu o leve incômodo que nos persegue quando ainda não sabemos que ninguém é normal. Seguiu-se ao incômodo um diálogo mental no qual prometeu a si mesmo que nunca mais falaria a sós. No final do mesmo diálogo, que por pouco não virou discussão, já duvidou que conseguiria cumprir a promessa.

A frase que irrompeu o silêncio da sala pareceu ter acordado a cidade. Então o alarme de algum carro ou casa, sem cerimônias, entrou pela janela e veio sentar-se ao seu lado no sofá. O alarme tocando e o mal-estar se iniciando. Começou a pensar que havia algo de errado, não sabia o que, mas algo o incomodava, algo estava errado. Imaginou que devia ser dentro de seu corpo, sabia que devia se cuidar melhor, e lembrou-se da avó dizendo que tudo que fazemos com o corpo é cobrado depois. Foi até a estante e agarrou seu livro sobre medicina básica, mas de nada adiantou, porque não sabia nem ao certo o que incomodava, se era dor de cabeça, no estômago, ânsia de vômito ou dor no peito, não tinha nenhuma certeza além do mal-estar. A este ponto estava difícil respirar, a testa suava frio, as mãos se cruzavam e passavam constantemente pelos cabelos, da testa até a nuca, e os dentes se comprimiam como se disputassem o espaço dentro da boca.

Os primeiros ônibus e carros começaram a circular pelas ruas e o barulho emitido por eles parecia rasgar a pele daquele corpo tenso, que nesse momento encolhia-se em um canto do sofá enquanto o alarme continuava a tocar. As mãos lhe cobriam os ouvidos, mas os visitantes indesejados gritavam rente à sua face. Buzinas, freadas, batidas, tiros, o som do vizinho de cima e a televisão do de baixo, o canto estúpido do vizinho ao lado no chuveiro enquanto os filhos dele jogam o videogame no último volume, o caminhão do lixo, o carro da polícia, a ambulância, o profeta do apocalipse, as crianças do coral natalino.

Em meio ao caos interno, o telefone tocando. Sempre é alguém querendo vender algo, sempre querem algo em troca por simples palavras. O telefone tocou, tremeu e implorou até cansar. Mas uma hora ele parou. Já era tarde, as visitas viram que era hora de ir embora, o silêncio tomou conta novamente. O corpo, antes encolhido, estirava-se pelo sofá, respirando com alívio e sem a tensão que se imprimira pelas horas que antecederam este momento. Agora a sós, pensou naquela tarde e, já esquecendo da promessa, disse a si mesmo:

- Esse mundo aqui dentro está muito perigoso. Amanhã eu prometo que vou passar o dia na praça.

Ninguém respondeu. Mas mesmo assim, dava para notar no rosto a descrença com a nova promessa.

31 de maio de 2007

O baú

E ela foi até o quartinho dos fundos. Em um canto escuro e empoeirado, encontrou o velho baú.

Levou o baú até a sala e começou a redescobrir tudo que estava ali guardado há anos. Tinha ali um sorriso sincero que já estava até um pouco amarelado pela falta de uso. Havia também uma porção de otimismo infantil, que apesar de serem infantis eram pelo menos dez vezes maiores do que os adultos. Também brincou um pouco com os sonhos, fantasias e ilusões. Encontrou até alguns medos, mas algumas peças tinham sumido com o tempo.

O velho baú rendeu bons momentos. Mas ao final da tarde, ela recolheu tudo do chão, fechou o baú e o colocou de volta no canto escuro e empoeirado. O sorriso, amarelado, acabou ficando esquecido debaixo do tapete.

9 de maio de 2007

Sete

- E quanto ao seu texto. Achei a idéia interessante, mas ficou um pouco confuso.

- Em qual parte?

- Não sei direito. Em tudo...

- Dê um exemplo.

- Por exemplo. Por que é que o nome é "Sete Dias" quando fica claro que passam apenas cinco?

- Isso é um detalhe. Para que interpretem o que quiserem quanto aos dias que faltaram. Pode ser porque o final de semana não conta. Ou porque ele perdeu dois dias no meio da memória, por qualquer coisa. Não é de grande importância.

- O título não é de grande importância?

- Não. Para o texto em si, se muito, serve como introdução.

- Mas o título tem que ser coerente com o texto.

- E não é?

- Bom, passam alguns dias, mas não sete.

- Se "Os Três Mosqueteiros" eram quatro, por que meus cinco dias não podem ser sete?

- Mas tinha um que era meio inimigo e que depois se junta de novo. Se o nome fosse quatro ia estragar a surpresa. E também soaria meio estranho... "Os Quatro Mosqueteiros".

- "Cinco Dias" me parece estranho. Pronto! Agora eu tenho uma boa desculpa?

- Não sei.

- Nem tudo precisa ter um amplo sentido por trás. Nem sempre precisa de regras.

- Mas tem que ter regras.

- Por que?

- Porque senão qualquer coisa que fizerem, cheia de erros, pode ser considerada arte.

- Mas a arte não é uma forma de romper com as regras e padrões?

- Mas imagine um texto cheio de erros.

- Imagine um quadro abstrato, ou algo surreal. Melhor ainda, cubista. Ou um filme, no cinema a regra é: introdução, ponto de virada um, conflito, ponto de virada dois, conclusão, final feliz. Só se for de acordo com as regras é arte?

- Não...

- O que é arte?

- Não sei. Você sabe?

- Tanto quanto você... Ou qualquer um.

Um breve silêncio. Deram os últimos goles da cerveja, retiraram o casco do suporte e acenaram para o garçom. Sinalizaram o início de uma nova rodada.

- Mas eu gostei do texto. Só não gostei do título.

- Eu coloquei o sete só para confundir mesmo.

30 de abril de 2007

A cadeira

Ali sentado. O cansaço bate. E nada acontece. E o cansaço bate mais forte. Bate no corpo, bate no rosto. Não há distração que faça o relógio correr. Ou ao menos andar. No momento, ele parece parado. Parado naquele momento. Todo o resto correndo. E ele parado.
Esperando.
Esparramou-se na cadeira. Como um sorvete que derrete-se na casquinha. Tomou a forma da cadeira. Inerte. Angústia, cansaço. Uma dor que não sabe ao certo se é no pescoço, na nuca, nas costas ou nos três.
Esperando.
Pegou mais um café. Já é o terceiro (é grátis mesmo). Sentou novamente, corrigiu a postura. Queimou a ponta da língua. Arqueou novamente a coluna, tomando a forma da cadeira. Subiu o olhar para o relógio. Aproximou o copo da boca e assoprou. Seguiu assoprando. O café esfriando.
Esperando.
Pensou que podia ter aproveitado melhor esse tempo. Umas horinhas poderiam fazer alguma diferença. Talvez pudesse ter adiantado aquele trabalho. Podia ter conversado com alguém interessante. Chegou à conclusão de que nada o impedia de conversar com alguém ali mesmo. Era o que pensava. Na prática percebeu que muita coisa o impedia de ter uma boa conversa. A pressa, o medo, a tendência a não falar nada interessante, a falta de intimidade, o distanciamento mínimo comum, o pensamento múltiplo comum, as idéias vagas, as vagas idéias, as idéias procurando vagas, sem espaço para estacionar em meio aos transtornos que ocupam as mentes. Desistiu após duas conversas sobre o clima, quatro sobre futebol, uma sobre violência e outras três sobre religião. Caminhou desoladamente, de volta para sua cadeira. Não que fosse sua, mas aquela onde ele estava antes, na qual devia ter sentado muita gente diferente. Tentou fazer um cálculo de quantas pessoas deviam passar ali por dia, dividir pelo número de cadeiras e talvez chegar a um número médio de pessoas por dia naquela cadeira. Podia fazer um livro só sobre aquela cadeira e os tantos personagens incomuns que passam por ali. Mas desistiu da idéia. Esparramou-se novamente na cadeira. E ficou ali.
Esperando.

18 de abril de 2007

Piada

Eu sou uma piada

Uns entendem, outros não entendem

Mas no final a maioria acaba rindo

E se eu me explicasse... perderia a graça

10 de abril de 2007

4 de abril de 2007

Mais perto do senhor

Ela vestiu sua melhor roupa, tirou do armário aquele perfume guardado para ocasiões especiais e ficou fazendo e desfazendo o cabelo até que ele ficasse impecável.

Saiu de casa meia hora antes do que de costume e caminhou pelas ruas vazias em direção à praça. As poucas almas vivas que encontrava estavam entre vivas e mortas, acordadas e desmaiadas, resquícios da noite anterior. Era assim toda manhã de domingo, especialmente na época da colheita do café, quando a população da cidade dobrava apenas com os trabalhadores temporários, nômades, a serviço de quem tivesse serviço a oferecer.

Como planejado, chegou a tempo de pegar o melhor lugar, na primeira fila, à margem do altar. Observou atentamente cada movimento do padre enquanto ele preparava-se para subir ao púlpito, estava esperando por este momento desde a semana anterior, mas não se arriscava a dirigir-lhe a palavra. Ela pensava que se ele ao menos a olhasse com atenção, ela nem precisaria falar nada.

Em pouco tempo começaram a chegar outros fiéis, alguns infiéis e outros que nem sabiam muito bem o que estavam fazendo ali. Entre todos, uma lhe chamou a atenção, ela nunca tinha visto aquela moça por ali. Não era muito bela fisicamente, tinha lá um ou outro detalhe a reparar, mas o que mais chamava a atenção era a roupa. Era uma roupa de sábado, parecia imprópria para a missa de domingo, uma saia alguns dedos acima do joelho e uma blusa de alça, com um leve decote, que deixava à mostra as linhas do pescoço adornadas com um belo par de colares, um em tons de madeira e o outro vermelho.

Logo ela deixou de reparar no pescoço e na moça dona do pescoço. Mas então quem reparou na moça foi o padre e, após reparar que ele havia reparado, ela voltou a reparar na moça. Analisou cada detalhe, cada leve defeito, cada pecado que ela havia de ter cometido. E reparava também no padre, nos seus olhares e seus sorrisos. Assemelhavam-se ao olhar e ao sorriso do último domingo, mas ela tinha certeza que se direcionavam ao quinto banco do lado esquerdo da igreja.

A situação foi lhe deixando ansiosa, não sabia como proceder diante de tal afronta. Ainda mais porque ela estava na primeira fileira, em meio a duas senhoras, no meio da cerimônia, em meio aos olhares e colares, pensando em um meio de cessar aqueles atos indecentes. Foi então que começaram uma oração e ela, sem outra opção, começou a rezar alto, mais fervorosamente do que qualquer pessoa já havia orado diante daquele altar. Por conta disso, os olhares de todos, inclusive os do padre, direcionaram-se a ela. Percebendo a situação, ela continuou, em alto e bom tom, a pronunciar todas as falas que cabiam aos que ficavam de frente para o altar, já sabia todas de memória.

Ao final da cerimônia, após cânticos entusiasmados e orações fervorosas, ela olhou para o padre e ele fez um gesto para que ela se aproximasse. Ela sentiu um frio na espinha, até o ar dentro dos seus pulmões sentiu-se intimidado e acabou ficando por ali mesmo enquanto ela caminhava em direção ao altar. Durante a breve caminhada, observou com um sorriso a moça dos colares retirando-se pela porta lateral.

Quando ela já estava perto o suficiente, ele disse:

— Já na minha segunda celebração não pude deixar de notar tua presença. Não há modo de não ficar admirado com tua devoção às orações e aos cânticos. Tens algum motivo especial a celebrar?

Ela deu mais um passo em direção a ele e respondeu:

— Tenho só um motivo, ficar mais perto do senhor.

3 de abril de 2007

Espera

A luz baixa, vinha pelos cantos, escorrendo, como se perdesse força ao se arrastar pelas paredes. Um casal, um grupo de amigos, um trio de amigas e ele sentado sozinho em uma mesa. Colocou o celular e a ficha de consumação em cima da mesa, lhe pareceu que o ambiente permitia estes pequenos descuidos.

Naquele momento iniciou-se uma espera, mas não daquelas esperas desesperadas e desesperadoras, que costumam estar acompanhadas de um trilha de suspense. Esta espera, especificamente, estava acompanhada por um jazz dos mais suaves. E ele pensou na espera, que era uma espera da qual já se sabia mais ou menos o que esperar, uma espera com o tempo a seu favor.

E antes que pudesse pensar no que dizia, como se não fosse ele que estivesse expressando, mas sim a idéia que houvesse escolhido a voz dele como meio para ir ao mundo, ele exclamou bem baixinho:

- Uma espera de esperança!

31 de março de 2007

Pouco espontânea

Estava visivelmente desconfortável, com a respiração travada, assim como o sorriso. Na impossibilidade de cobrir o rosto com as mãos parecia cobrir timidamente os dentes com os lábios. As articulações pareciam ter sido reduzidas apenas ao pescoço e à cintura, ainda que ambas tivessem seus movimentos semelhantes aos de engrenagens enferrujadas, indo aos trancos. Além disso, a expressão nos olhos era de quem estava prestes a despencar em um barranco. Mas então, aos trancos e barrancos, ele tirou a foto. E ela finalmente pôde sorrir.

Cheiro de chuva

Em 5 minutos tudo mudou
De laranja para cinza
E todo mundo reclama
O engarrafamento se forma
O dia acaba... mas não para mim

Eu, só o que eu quero é ficar na chuva
De braços abertos e olhos fechados
Sentir como se as gotas estivessem paradas
E eu me chocasse contra elas

Quero sentir esse movimento
Esse momento
E muitos outros
Pequenos potinhos de felicidade

Me concede o prazer desta dança?

23 de março de 2007

Uma impressão

Por alguns momentos tenho a impressão de que o artista que lida com imagens, desenhos e pinturas tem mais facilidade do que o que lida com as palavras, sentimentos, emoções e reações.

Até porque tenho a impressão de que a imagem você começa copiando para depois fazer seu próprio trabalho. Mas os sentimentos, reações e emoções, você deve primeiro vivê-los para depois ainda traduzí-los em palavras.

Mas no final acaba sendo tudo uma impressão.

22 de março de 2007

Muda

Como sempre, ele estava falando sobre as coisas do mundo que ninguém há de entender, muito menos ele mesmo:
- Não é de hoje, mas cada dia piora. Isso me preocupa. Está na televisão, na internet, na faculdade, no papo de boteco, na lotérica ali da esquina. Na televisão, há cada vez mais programas para que resolvam alguma coisa na sua vida, te dar dinheiro, um novo rosto, um novo carro, uma nova casa e até um novo amor. E as pessoas já não sonham mais em conseguir as coisas, pensam que alguém ou algo podia resolver lhes dar.
- Desculpa, não ouvi direito o que você falou.
- Outro problema. Ninguém ouve, ninguém dá bola, ninguém respeita, ninguém cuida de ninguém. Esses dias mesmo eu fui ao hospital e me negaram atendimento porque tinha que ter passado primeiro por um ambulatório que ficava mais longe de casa do que o hospital.
- Não precisa ficar nervoso.
- Claro que não preciso, eu posso simplesmente não me importar. Ou eu posso tentar fazer algo, sei lá, mesmo que seja pouco. Quando eu cheguei em casa, enviei uma sugestão de pauta aos jornais para que façam uma matéria explicativa sobre o funcionamento do hospital. Para que os desavisados dirijam-se ao ambulatório e não diretamente ao hospital.
- E saiu a matéria?
- Não sei. Eu não leio jornal.
- Então que diferença faz?
- Para mim? Nenhuma! Mas deve ter alguém que lê o jornal e que pode ficar doente algum dia e daí vai lembrar de ir ao ambulatório primeiro.
- Então você pode estar salvando uma vida?
- Indiretamente eu posso estar colaborando.
- Parabéns...
- Por que o sarcasmo?
- Você e essas suas idéias utópicas de mudar o mundo.
- Eu disse que talvez eu ajude alguém, não que mudaria o mundo.
- Mudar alguém, algo, o mundo.
- São coisas diferentes.
- Mas a idéia é sempre mudar.
- Para melhor.
- E muda?
- Se você mudar muda.
- Muda o que?
- Primeiro você tem que mudar.
- Mas o que em mim tem que mudar?
- O seu jeito de pensar.
- E depois o que muda?
- A muda.
- A muda?
- A muda muda. Vira árvore, dá flores e frutos.
E por alguns minutos, com um sorriso no rosto e um novo brilho nos olhos, ela ficou muda.

21 de março de 2007

Nosso espaço

A poesia nunca teve lugar

Não que ela não estivesse ali
Ela estava, mas não se encaixava
O espaço era pequeno
E ela sempre foi exagerada

Até que veio você
E com você veio o nós
E conosco o nosso amor
Que é nosso, não é só meu ou só seu
E, por isso, há espaço de sobra para a poesia

A poesia agora se encaixa
E o que era hipérbole
Virou eufemismo ...

20 de março de 2007

Nada em vão

Dias em vão
Dias que vão
E você nem sente
Nem vê passar
Esse dias vão
Nem as memórias ficam
E você nem lembra
Nem sabe o que fez
E de vão em vão
Se faz um buraco
O buraco é fundo
Mas não acabou-se o mundo

Eis que vem a salvação
Um dia especial
Com momentos inesquecíveis
Memoráveis, incomparáveis
Momentos que você sente
Que não quer deixar passar
Uma hora eles vão
Mas as memórias ficam
E depois você lembra
De tudo que fez
E de momento em momento
Chegamos à conclusão
De que nada é em vão

24 de janeiro de 2006

O tal ponto de vista

Algumas pessoas dizem que não
Não se deve deitar ao chão
Que não é digna essa posição

Dizem que assim você é visto por cima
Que quem passar não vai te dar a mínima

Ainda assim, é o melhor lugar para ver o céu

23 de janeiro de 2006

Má interpretação

A interpretação equivocada é um grande problema

Confunde-se o substantivo "poder" com o verbo "poder"

E quem não pode, só se f...

22 de janeiro de 2006

Cansado do tédio

Algumas vezes eu me sinto cansado
De interpretar todos os dias o mesmo papel
Alguns dias eu queria ser o mocinho
Em outros o vilão
Ter meus dias de figurante
E uns dias fora de cena

Outras vezes eu me sinto bravo
Por estar triste
Ou por estar feliz sem motivo
E queria poder resolver tudo
Com um comando simples:

Transtorno bipolar ATIVAR!

21 de janeiro de 2006

Relógio

Andando
De um lado para o outro
Passando
O sol, nascendo e se pondo
Morrendo
Se é que já não está morto

Vivendo
Na solidão de Macondo

Tic Tac
Tic Tac

Tic Tac

Bum!

20 de janeiro de 2006

Influência

Atravessou a rua de mãos dadas com os dois, cruzou a praça e já estava no portão do colégio. Primeiro dia na escola nova, na cidade nova... Quer dizer, nova para eles, porque ali já tinha passado muitas vezes a tal da História. Ao deixá-los com a professora, perguntou:

- Que horário devo buscá-los?

- As aulas acabam cinco horas. Mas nós servimos sopa, então seria melhor tu deixares para pegar os guris cinco e meia.

- Eles não gostam de sopa. Venho às cinco horas mesmo.

- Eles não gostavam! - Disse a professora confiante. - Venha cinco e meia. Com todas as outras crianças comendo os guris aprenderão a gostar.

- Tudo bem. Cinco e meia. - Respondeu a mãe desacreditada.

Foram-se as horas, o sol cruzou o céu, a mãe atravessou a rua, cruzou a praça e chegou de novo ao colégio. Chegando lá, os dois já estavam esperando na porta, junto com a professora que os recebeu. A professora se aproximou da mãe e começou a falar:

- Eu queria te pedir um favor.

- Qual?

- Se puderes buscá-los às cinco horas, seria melhor.

- Por quê? Não quiseram sopa? - Perguntou a mãe com um leve tom irônico.

- Não só não quiseram como fizeram tanta cara de nojo, que algumas das outras crianças pararam de comer.

18 de janeiro de 2006

O conto do conto

O conto nasceu assim: o pai dos contos plantava sementes de criatividade e os contos brotavam delas. Quando o conto nasceu, um contou para o outro, o outro contou para outro, este outro para outro, outro e assim foi. O conto veio depois da conta, mas o contador das contas veio bem depois do contador dos contos.

Certo dia o conto começou a ficar bem falado, gente importante começou a escrever sobre ele e, quando foi perceber, já estava estampado por livros, revistas e jornais. Sucesso de público e crítica, o conto fez história. O conto pregava que quem corre atrás consegue. Ele conseguiu, ganhou prêmios e tudo o mais. Estava vivendo um conto de fadas.

Mas o inevitável aconteceu: tudo que sobe tem que descer. O conto começou a se envolver com drogas, sexo e carnificinas. Passava a noite na taverna, envolvia-se em brigas, participava de rituais e organizava orgias de fazer inveja ao marquês dos contos proibidos.

Antigamente, o conto tinha um discurso de moralismo bem próximo das fábulas. Agora, não respeitava mais nada nem ninguém. Tornou-se intolerante e atacava, a golpes de machado, as igrejas, os governos, os santos e as putas. E o problema agravou-se quando o conto se vendeu: passou a defender qualquer causa ou pessoa com intenções duvidosas por apenas alguns contos.

Quando o conto começou a ficar mal falado, qualquer um contava o conto como se fosse um conto qualquer e contavam um conto qualquer como se fosse o conto. Os amigos foram se afastando na mesma medida que a fama ia acabando. Os que ficaram: nos dedos se contava.

E o conto acabou sozinho, quando percebeu que havia caído em um conto: o conto do conto.

17 de janeiro de 2006

Pessoas imaginárias

Assim como os números
Elas têm uma parte real
E uma parte imaginária

A parte imaginária
Apesar de simples
É chamada de complexa

Possuem infinitas casas depois da vírgula
Infinitas possibilidades

Não se restringem ao que é mensurável
Previsível
Comum

Indivisíveis
Incomparáveis
Invariavelmente interessantes

Adaptam-se aos reais
Aos naturais
Aos primos, amigos, irmãos

Também criam seus próprios conjuntos
Criam seus mundos
Seus cálculos
E suas respostas

Não seguem muitos padrões
Regras
Tabuadas

Transtornadas
Incorfomadas
Normalmente flexíveis

Pessoas que adicionam
E que multiplicam
Crescem em progressão geométrica

Indescritíveis
E, exatamente por isso,
Eternamente seguidas pelas reticências ...

16 de janeiro de 2006

Meio cansado

Incomoda discutir porque tudo já foi falado

E é tudo óbvio

É tudo boçal e pedante

E, principalmente, não tem mesinha de metal dobrável nem cerveja

14 de janeiro de 2006

Ironia

Queria comprovar o quanto cada pessoa é insignificante. Resolveu, aleatoriamente, atear fogo ao próprio.

Morreu.

Foi martirizado e virou herói. Comprovou a incoerência.

13 de janeiro de 2006

Conceitos

Perfeito significa "feito com começo e fim"

Infinitos finais e infinitos começos
Infinitas chances de se tornar algo melhor
E infinitas chances de se tornar algo pior

Somos todos perfeitos

12 de janeiro de 2006

Revendo

Amar é gostar muito, querer passar muitos momentos juntos, não tem prazo de validade nem contra-indicações.

Simples assim.

11 de janeiro de 2006

Evolução dos meios

No início, caçavam, coletavam e viviam em bandos.

Depois, aprenderam a plantar e a colher. Começaram a ver que podiam domesticar e alimentar os animais. Descobriram que plantando mais podiam alimentar e criar mais animais. Surgiu o excesso e com ele veio o comércio.

Descobriram então que podiam domesticar e alimentar as outras pessoas e que essas pessoas podiam produzir os alimentos e cuidar dos animais.

E assim foi.

10 de janeiro de 2006

Má notícia

- Minha filha, sente-se aqui. Tenho que contar uma coisa.

A garota sentou, de olhos bem abertos e boca entreaberta. Já imaginando o que estava por vir.

- Você lembra que há algum tempo eu falei sobre alguém que estava muito doente?

A menina, agora um pouco mais triste, fez sinal de positivo com a cabeça.

- Ele faleceu hoje pela manhã, enquanto você estava na escola.

A garota não conseguiu conter algumas lágrimas, a mãe a abraçou e continuou falando:

- Essas coisas acontecem. Foi melhor assim. Ele estava velho, sofrendo e já tinha perdido mais da metade da visão.

- Mas eu gostava dele! - Exclamou a garota indignada.

- Todos nós o amávamos, mas não havia nada que pudéssemos fazer.

- E onde ele está agora? Eu quero ver ele.

- Achamos melhor que você não o visse daquele jeito, é melhor que guarde lembranças dele vivo e feliz.

- Mas o que fizeram com ele?

- O papai o embrulhou em um cobertor velho e enterrou na beirada do lago, perto daquela árvore que ele tanto gostava.

- Aquela que a gente sempre ia?

- Sim, aquela que se enche de flores roxas na primavera, bem ao lado de onde costumávamos ir pescar.

- Então ele deve estar feliz.

- Provavelmente. Mas por que você diz isso? - Disse a mãe, um pouco surpresa com a frase da filha.

- Ele me contou que foi lá que ele conheceu a vovó.

A mãe ficou sem palavras. Neste momento, o avô entrou na sala:

- Minha netinha querida, não chore! O vovô compra outro gatinho para você.

A garota começou a soluçar de tanto chorar.

9 de janeiro de 2006

7 de janeiro de 2006

Traumas da insônia

Uma tia veio de longe para nos visitar. Na época morávamos em um apartamento bem no centro, era um apartamento pequeno, um quarto, uma suíte e não consigo nem me lembrar dos outros cômodos. A tia ia dormir na sala, já que não havia outro espaço que pudesse ser destinado aos hóspedes.

No meio da noite acordei e, com toda a coragem que eu tinha aos meus três anos de idade, fui sozinho pelo corredor com a intenção de chegar à cozinha para beber um copo de água. Nunca cheguei até a cozinha. Voltei correndo para o quarto, me cobri bem e fiz um esforço sobre-humano para não dormir.

No dia seguinte surpreendi minha mãe com a seguinte pergunta:

- Mãe, tem gente que quando dorme vira monstro?

Minha mãe riu. Minha tia roncava.

6 de janeiro de 2006

Ecologia humana

Somos mais irracionais do que o quanto nossa razão costuma nos fazer acreditar que somos.

5 de janeiro de 2006

Funcionou

- Eu vim até aqui, cruzei toda a festa, larguei meus amigos e provavelmente não vou encontrá-los novamente. Por que vim? Para te falar um oi e para me expor ao mundo como o sujeito ridículo que eu sou para depois perguntar seu nome e telefone, dependendo da reação ao oi e ao que viesse depois.

- Ahn?

- Sabia que você não era tudo aquilo que eu esperava... Adeus!

1 de janeiro de 2006

É assim

Você pode ajudar,
mas não pode resolver

Pode até colaborar,
mas não dá pra fazer

Pode divagar,
mas não consegue concluir

7 de janeiro de 2005

Um dia é da pesca

O garoto foi pescar com o pai, adorava esse tipo de programa. Ele e o pai juntos, viagem até o rio, aquela sensação de acampar — mesmo estando hospedado em um bom hotel — e pescar. Só tinha uma coisa que o incomodava: limpar os peixes. Ele não conseguia enfiar uma faca nos pobres peixes e arrancar-lhes as tripas com as próprias mãos.

Ele e o pai passaram o dia pescando no barranco, cada qual com seu baldinho. Os baldinhos encheram-se, as horas também e o pai começou a limpar os peixes que pegou. Enfiava a faca, colocava no rio e tirava as tripas. Enfiava a faca, colocava no rio e tirava as tripas.
O filho já estava enjoado e o pai, volta e meia, ainda falava:

— Olha, esse aqui tem ova! — E levantava as mãos exibindo algo não identificável e bem sujo de sangue.

Ao terminar de limpar o balde todo, o pai virou-se para o filho e perguntou:

— Não vai limpar os seus?

— Ah. Já limpo. Empresta a faca?

O pai deixou a faca e foi andando na direção do hotel.

Agora era só ele e os peixes. Olhou para o balde, faca na mão, suor na testa, olhos de peixe e mãos tremendo. Olhos nos peixes, mão no balde, suor na testa e hesitou. Não conseguiu pegar nenhum. Ficou apenas pensando na crueldade que era fazer aquilo com os animais.
Pensou mais um pouco e decidiu que ia soltá-los, todos. Decidido, foi até o balde e pegou o primeiro peixe na mão. O peixe se debateu, pulou contra seu rosto, fazendo-o gritar, escorregou entre suas mãos e foi para o chão.

Ao lado, dois moleques, que acabavam de chegar, riam da cena e o imitavam em gestos e no grito.

O garoto não teve dúvida, olhou bem nos olhos dos moleques e enfiou a faca. Depois colocou no rio, tirou as tripas e repetiu o processo até esvaziar o balde. Sem culpa ou remorso. Afinal, era ele ou eles.

5 de janeiro de 2005

Sentido

Ele achava que não fazia diferença e que não tinha porque existir

Aua vida não tinha nenhum sentido e nenhuma direção

Até que leu a seguinte frase "O que você faz em vida ecoa pela eterninade"


Merda!


Merda!




Merda

4 de janeiro de 2005

O começo

Tinha tudo para ser uma noite tranquila até ele se deparar com aquela garota. Ela usando meia listrada colorida, all star, uma camiseta de uma banda dessas que ninguém sabe o nome e óculos. Para completar o visual, arrumava o cabelo para parecer desarrumado.

Estavam na mesma festa, mas não juntos. para falar a verdade nem se conheciam. Pelo menos ela não o conhecia. Se dependesse dele já teriam se conhecido há um bom tempo, aquele rosto já era inconfundível, já tinha reparado até na estranheza do modo como ela segurava o cigarro. Frequentavam alguns lugares em comum, a cidade não é tão grande, as opções não são muitas, acabavam se cruzando.

Tímido, ele a observava. Ela nem dava bola, continuava dando tragadas, mexendo no cabelo, batendo papos e olhando em volta.

Ele continuava ali, parado, observando. Ficava pensando em fazer algo, no que devia fazer, no que devia falar, se devia falar e no que ela responderia. Ele pensou, pensou melhor e decidiu que ia falar com ela. Sempre acreditou que não podia perder oportunidades de conhecer gente interessante.

Caminhou na direção dela, um tanto quanto tenso. Ele se aproximou, ela virou-se e, então, ele disse:

- Prazer, eu sou ninguém.

1 de janeiro de 2005

Eterna dúvida

- Mas, vale mesmo a pena ?

- Você só vai saber se tentar...

- Vou ?

- É... Quem sabe, é provável

- Provável? Então não é certeza?

- Nada é certeza

- Então porque você disse que eu saberia ?

- Ah, você sabe. É essa época que nos faz tender ao otimismo

- É... sei

- Odeio o ano novo

- Eu também! Malditas resoluções e ilusões

15 de janeiro de 2004

13 de janeiro de 2004

12 de janeiro de 2004

raciocínio

nunca fui muito bom em decifrar meias palavras

sempre deixava espaços em branco nas palavras cruzadas

11 de janeiro de 2004

baixa estima

quase todo dia ele recebia dezenas de cartas

cartas de amor e cartas de amizade

umas palavras de carinho e outras de cumplicidade

mesmo assim ele era desconfiado

e achava que com ele ninguém se importava

afinal, não sabia ler

10 de janeiro de 2004

lógica

nada justifica

não tem desculpa

a consciência predomina

a lógica não mente:

os fins concluem os meios

9 de janeiro de 2004

amizades

ao lidar com as pessoas

não tente fazer a diferença

tente apenas encontrar as semelhanças

8 de janeiro de 2004

grades

olhei para a frente e me vi de cara com grades

eram grades sólidas e tão altas que nenhum homem sonharia em passar por cima

então, dei um passo para o lado e segui em frente

7 de janeiro de 2004

o tempo

quando pensar que o tempo está passando rápido

lembre-se que é você que está ficando pra trás

6 de janeiro de 2004

caminho livre

viu seu caminho ser tomado por obstáculos

se concentrou apenas em seus desafios

um por um, passou pelos obstáculos

quando finalmente viu o caminho livre a sua frente

percebeu que seu destino havia ficado pra trás

5 de janeiro de 2004

4 de janeiro de 2004